terça-feira, 25 de novembro de 2008

Há uns anos, num jantar que fiz com um grupo de amigas, fizemos a mesmíssima figura triste que faz qualquer grupo de mulheres com os copos, num local público e sem um homem por perto para se portar ainda pior e elas passarem despercebidas.
Uma do grupo tinha arranjado há pouco tempo um namorado novo, que era camionista. E estava há alguns minutos a explicar às demais, com grande auxílio gestual, como praticavam sexo na cabine do camião, quais as técnicas para usar os bancos ou o volante como suporte, as posições mais favoráveis, essas coisas.
Até que reparámos que o restaurante todo estava em silêncio, com as pessoas voltadas para nós a ouvir atentamente as explicações dela.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Na mesa ao lado, só de mulheres, discutia-se pormenores da vida íntima. Uma, que ganhou um momento na luta pela voz mais sonante, fez-se ouvir em todo o restaurante:
- Eu lá no quarto tenho um varão para fazer uma lap dance ao meu marido de vez em quando!
Depois, tudo se diluiu em mais barulho e confusão de vozes e risos.
Em termos técnicos, uma lap dance não se faz num varão. Mas para efeitos do que ela pretende atingir, em termos práticos, deve dar no mesmo. Ou não. Porque a minha experiência diz-me que estas gajas que precisam de muitos artifícios para que os maridos reparem nelas, enfim...

domingo, 23 de novembro de 2008

Passei por ela na rua, na hora de almoço. Apressada e nervosa, mas perdida. Era uma mulher de meia-idade e com aspecto rural:
- Oh minha senhora! Sabe-me dizer "adonde" é a segurança social?
Expliquei-lhe. De onde estávamos, não era difícil. Preparei-me para ouvir o "muito obrigada" da ordem e virar as costas, mas não. Ela tinha necessidade de mais:
- Sabe, eu tenho que lá ir entregar estes papéis - e abriu o saco para eu ver que tinha mesmo papéis - que são do meu marido. Sabe que ele não deixa ninguém mexer nos papéis que são dele. Se ele descobre! Mas a minha filha foi lá, e sem ele saber, roubou-lhe isto. E ainda um cheque! Ai se ele descobre!
Sem saber o que lhe responder nem que reacção ter, dei-lhe um sorriso amarelo. Como quem diz "que história tão gira, agora deixa-me ir embora". Ela deve ter percebido. Ou não. Porque enquanto se afastava, ainda se virou para trás uma última vez e gritou:
- Quando morrer, deve pensar que leva tudo com ele! Deve levar deve!

sábado, 22 de novembro de 2008


- Quero uma licença para apanhar míscaros. É aqui?
- Míscaros?! Não. Não precisa de licença para isso!
- Não? Então disseram-me que sim. Fui tirar licença de uso e porte de arma e tudo! E agora diz-me que não é preciso?!
- Mas o senhor quer apanhar cogumelos com caçadeira?!
- Quais cogumelos? Eu disse míscaros! Míscaros são pássaros que a natureza nos dá!
E ainda remoeu entredentes, que:
- Esta gente da cidade!...

Que míscaros fossem pássaros eu nunca tinha ouvido dizer. Mas a parte interessante mesmo foi aquela do "que a natureza nos dá". Alguém que trata "os da cidade" como aliens, que pensam que os pássaros são fabricados num complexo industrial algures na China:

sexta-feira, 21 de novembro de 2008


- Bom dia!!! – disse ele com entoação de vendedor de enciclopédias. E estendeu-me o bacalhau com a mesma atitude.
Sentou-se e iniciou o seu discurso assim:
- Eu sou o Presidente da Junta de Freguesia de ********!!!
Disse aquilo com tanto entusiasmo e fez um silêncio tão grande no fim, acompanhado dum sorriso tão pepsodent, que eu, também em silêncio, fiquei à espera que ele dissesse qualquer coisa como:
- Mentira!!! Estava a brincar!!! Eu sou o Pai Natal!!!
Ao mesmo tempo, tive a sensação de que ele ficou à espera que eu dissesse qualquer coisa como:
- Oh! Que emoção!!! Dá-me um autógrafo?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Sábado à tarde havia reunião. Ou domingo, já não sei. Sei que me estragava o fim-de-semana, até porque a minha presença não estava sujeita a regime facultativo. Contrariada e adolescente, mistura conhecida como explosiva, desenvolvi uma técnica de defesa peculiar: Entrava, sentava-me e enquanto durava o evento, ficava catatónica. Não me mexia, não falava, não pestanejava, e limitava-me a olhar um ponto fixo com olhar vazio. Era como se na verdade não estivesse ali. De vez em quando, o pastor, embora perplexo com uma atitude que escapava à sua compreensão, arriscava dirigir-me uma pergunta directa sobre a verdade absoluta contida num versículo que, invariavelmente, eu desconhecia de todo. Esperava a resposta durante alguns segundos e, perante a minha total indiferença e imobilidade, a cena repetia-se. Virava-se para a turba e perguntava em voz de trovão:
-Irmãos! Esta menina não quer ser salva! Quer cair na perdição de Satanás! Nós vamos deixá-la perder-se?
E a pequena multidão, excitada pelas palavras do guru, reagia:
- Não!!!
- Vamos levá-la à salvação nem que seja pelos cabelos???
- Sim!!! Vamos!!! Vamos!!!
Neste ponto, o meu poder de concentração era desafiado ao extremo, mas nunca vacilei. Continuei sempre firme, a olhar vagamente um ponto indeterminado. Como se fosse "retardada, coitadinha", como comentavam depois as mulheres pelos cantos.
Acho que nessa fase, a minha mãe passou as maiores vergonhas da sua vida. Mas nunca mais falámos nisso.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


A aproveitar o restinho de sol e enquanto o inverno não se instala como já tem direito, as pessoas amontoavam-se na esplanada. Eu fui lá para dentro. O vento fininho e já frio fez-me desconfiar da boa vontade do tempo. Mas foi melhor assim, porque enquanto tomei café disfrutei do espectáculo que foram proporcionando os miúdos que serviam lá fora. Iam entrando e saindo de bandejas na mão e, sempre que se encontravam no interior, trocavam impressões sobre os clientes. "Olha aquela gaja de vermelho fez-me olhinhos", "És um rega!"
Mas a melhor foi quando um deles chegou delirante depois de ter atendido uma família espanhola:
- Oh pá! Sabes como é que se diz "Quanto é?" em espanhol?
- Não, como é?
- Que te dói!!! Ah! Ah! Ah!
E os três riram-se satisfeitos com a sua interpretação pessoal da frase "Que te doy?"
Ainda bem para eles.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Aqui se hão-de contar histórias, para quem quiser lê-las. Histórias da vida, do trabalho, da ida ao super-mercado, das pessoas com quem me cruzo e nem conheço mas adivinho... Não serão mentiras nem verdades, serão o filtro dos meus olhos. A rotina pode ser uma coisa fabulosa.
Depois de contadas, são para deitar fora.