Até hoje, ela guarda na memória o momento mais embaraçoso da sua vida: o dia em que viu parar à sua porta um ex-colega a quem pediu que fosse a casa dos pais buscar o que ela pensava ser um saco de vegetais. Trazia o carro novinho, lavadinho... a abarrotar de tralhas que a sua família demoraria mais de um ano a consumir. Isso até nem era o pior, podia partilhar com ele e o favor ficava pago, digamos. O pior era a galinha viva! Numa avenida com lojas da moda nos pisos de baixo e apartamentos nos de cima, com parqueamento pago e onde, apesar de não saber o nome de ninguém, todos se conheciam de vista, ela ficou à porta do prédio com uma galinha viva, presa a uma pata por um cordel do qual ela segurava a outra ponta, como se fosse um cãozinho de estimação mas que cacarejava. Lembra-se que olhou para todos os lados e, discretamente, largou o cordel e subiu.
No dia seguinte de manhã, a galinha debicava à volta duma das árvores da avenida e à tardinha, quando chegu do emprego, ainda lá estava. Claro que não ia matá-la! A experiência mais radical que tinha em assassinato de coisas vivas era a de pôr insecticida nos quartos antes de sair de casa! Se tivesse um revólver!... Com silenciador!... Era rápido e nem tinha que lhe tocar!... Abanou a cabeça para afastar a ideia estúpida e nessa noite, pela calada, saiu de casa às três da manhã, pegou na galinha, meteu-a no porta-bagagens, e foi abandoná-la na faixa central da via rápida mais próxima.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

