domingo, 7 de dezembro de 2008

Até hoje, ela guarda na memória o momento mais embaraçoso da sua vida: o dia em que viu parar à sua porta um ex-colega a quem pediu que fosse a casa dos pais buscar o que ela pensava ser um saco de vegetais. Trazia o carro novinho, lavadinho... a abarrotar de tralhas que a sua família demoraria mais de um ano a consumir. Isso até nem era o pior, podia partilhar com ele e o favor ficava pago, digamos. O pior era a galinha viva! Numa avenida com lojas da moda nos pisos de baixo e apartamentos nos de cima, com parqueamento pago e onde, apesar de não saber o nome de ninguém, todos se conheciam de vista, ela ficou à porta do prédio com uma galinha viva, presa a uma pata por um cordel do qual ela segurava a outra ponta, como se fosse um cãozinho de estimação mas que cacarejava. Lembra-se que olhou para todos os lados e, discretamente, largou o cordel e subiu.
No dia seguinte de manhã, a galinha debicava à volta duma das árvores da avenida e à tardinha, quando chegu do emprego, ainda lá estava. Claro que não ia matá-la! A experiência mais radical que tinha em assassinato de coisas vivas era a de pôr insecticida nos quartos antes de sair de casa! Se tivesse um revólver!... Com silenciador!... Era rápido e nem tinha que lhe tocar!... Abanou a cabeça para afastar a ideia estúpida e nessa noite, pela calada, saiu de casa às três da manhã, pegou na galinha, meteu-a no porta-bagagens, e foi abandoná-la na faixa central da via rápida mais próxima.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Já na adolescência, decidi que iria viver de actividades para-normais. Tinha acabado de ler um livro das selecções do Reader's Digest sobre pessoas com poderes psíquicos extraordinários e aquilo não me pareceu nada difícil. Mesmo nada.
Sentei-me à secretária, pousei uma esferográfica no meio da dita e concentrei-me totalmente, na intenção de a fazer mexer por meio da psicocinese ou poder da mente sobre a matéria. Uns minutos depois, ela continuava imóvel, insensível a todos os meus esforços mentais.
Talvez não me tenha concentrado o suficiente. Talvez tenha escolhido mal o objecto a mover. Mas foi nesse dia que decidi que, provavelmente, iria ter que trabalhar e que era melhor pensar em estudar qualquer coisa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mais tarde decidi que iria enveredar pela carreira espiritual. Ia ser vidente e viver de dar autógrafos aos peregrinos. Fui ter com a minha mãe e perguntei-lhe:
- Porque é que a senhora de Fátima escolheu aquelas três crianças para aparecer e não outras ? - é que eu já tinha visto a fotografia dos pastorinhos e juraria que, se fosse eu a virgem imaculada, muito mais depressa aparecia a alguém limpinho, penteado e bem vestido como eu própria do que àqueles miúdos de sobrancelhas espessas e olhar número zero.
- Porque aquelas crianças portavam-se muito bem e nunca faziam disparates!
Ora pois então, se o segredo estava em portar bem, que não fosse por isso! Retirei-me para o meu quarto e dei início ao que pensei ser o início da minha carreira de vidente e santa. Sentei-me na cama e fiquei muito quieta e calada (que era a única maneira que eu conhecia de me portar bem) e fiquei à espera que a nossa senhora aparecesse, envolta num manto branco, pousada numa nuvem e rodeada de luz, e que me dissesse qualquer coisa como:
- Uf! Finalmente aparece-me uma criança normal!
Passados uns dez minutos e como nada acontecia, concluí que as aparições da mãe de Jesus eram uma treta... e decidi rever os meus parâmetros.
Enquanto isso, para me entreter, corri lá para fora a cortar mais uns rabos a lagartixas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Teria talvez uns seis anos e atravessava a fase dos contos de princesas e fadas quando, pela primeira vez, pensei a sério no meu futuro. Fui ter com a minha mãe e perguntei-lhe:
- Onde estão as princesas e os príncipes?
- Princesas e príncipes já não há!
- Como não???!!!
Logo quando eu tinha acabado de delinear um plano perfeito em que me iria tornar princesa vinda directamente da plebe, ao casar com o príncipe num golpe semelhante ao do sapatinho de cristal! Logo quando eu tinha decidido que iria passar o resto da vida, a partir daí, a escolher vestidos e a participar em bailes de gala!
Infelizmente, este pequeno revés fez-me pensar que tinha que rever os meus parâmetros.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A empresa era francesa, por isso, naturalmente, chegou um director francês. Particularmente arrogante. Todos os trabalhadores eram portugueses. E como bons portugueses, nunca questionaram a autoridade, nem nunca se defenderam das humilhações diárias. Mas também, como bons portugueses, contornaram a questão da vingança.
Logo nas primeiras semanas, ao ouvir repetidamente a expressão "não tenho pachorra", o chefe francês perguntou o que queria dizer aquilo. O funcionário que lhe explicou, explicou-lhe bem, mas "esqueceu-se" de mencionar que ele não estava a pronunciar correctamente. O director passou anos em Portugal a usar a expressão "não tenho pachacha", sem saber o que estava dizer, e quando toda a gente à sua volta se ria, ele achava apenas que tinha um sentido de humor de primeira água.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A pedido duma ex-colega que morava longe, ele foi a casa dos pais dela buscar umas "coisinhas" que eles lá tinham para lhe mandar. Depois de vários quilómetros por terra batida, facilmente ultrapassáveis, apesar de tudo, com a ajuda do GPS, mas impossíveis de vencer sem ele, lá chegou a uma casinha com quintal e um portão, atrás do qual a aproximação do automóvel provocou a excitação duma canzoada imparável.

Surgiu então uma senhora enrugada, de lenço na cabeça, bata de chita e botas de borracha. Que ia só buscar as coisas, era um instantinho. Apareceu com três sacos de laranjas e dois garrafões de vinho caseiro. Silenciosa e sem qualquer tique daquela delicadeza urbana mais ou menos de plástico a que estamos habituados, voltou para dentro. Deve faltar qualquer coisa. E faltava. Uma cesta com uma galinha viva lá dentro, só com a cabeça assustada e inquieta de fora da tampa amarrada com cordas. Quando tudo já estava dentro do carro, a senhora comentou qualquer coisa sobre ser uma pena desperdiçar tanto espaço. Desapareceu novamente e trazia mais um garrafão de azeite e uns enchidos que cheiravam pela aldeia toda assim que espreitavam da abertura do saco de hiper-mercado. Olhou para o carro. Já estava compostinho. Mas ainda levava mais uns quilos de feijão inchado e umas batatas. Foi buscar. Finalmente, ainda havia hipótese de transportar uma couvinha-penca que foi cortar na hora.

Depois de fechado o porta-bagagens do último modelo alemão, era visível através do vidro a cabeça duma galinha em pânico, encostada a um canto pela força duma frondosa couve. Ao lado, alguns sacos de plástico amontoados.

Sabendo que era superior a essas coisas, ele desejou "quand même", que nenhum conhecido se lhe cruzasse no caminho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

- Eu nem tenho tempo para sofrer!...
Soou-lhe bem. Com impacto e dramatismo. Por isso repetiu, mas com pausas teatrais:
- Eu!... Nem tenho tempo!... Para sofrer!
Disse aquilo com a pose de protagonista de telenovela. Tanto, que por momentos cheguei a vislumbrá-la a preto e branco. Os seus interlocutores puseram um ar consternado. Isso encorajou-a a continuar o relato da sua saga. No entanto, a reacção dos ouvintes não significava, de facto, consternação. Era apenas o reconhecimento íntimo de que se encontravam perante uma daquelas pessoas a quem tudo corre pior do que às demais e disso tira um prazer masoquista inexplicável. E que por isso não vale a pena contrariá-la. Se nós tivemos 39º de febre, ela teve 40. Se partimos uma perna, ela também partiu mas com fractura exposta. Se os nossos filhos tiveram sarampo, os dela tiveram sarampo duas vezes. Se o nosso carro avariou, o dela está irremediavelmente perdido. Se a nossa mãe morreu, a dela morreu, levantou-se e voltou a morrer.

domingo, 30 de novembro de 2008

A senhora estendeu-me a carta que vinha entregar. Dizia que pretendia dar início às obras no dia 31 de Novembro. Eu, sem saber muito bem como referir o assunto, disse-lhe:
- É melhor emendar aqui para 1 de Dezembro. Novembro só tem trinta dias.
Logo depois, perante o embaraço da minha interlocutora, inventei uma história completamente idiota para a fazer sentir-se melhor:
- É muito natural! Não se sinta mal! Eu, uma vez, estava a pôr a data limite duma licença como 30 de Fevereiro e o computador não aceitava. E eu sempre a insistir feita parva!

Ou seja, não havia necessidade. Ela ficou com cara de quem estava a pensar qualquer coisa como:
- Trinta de Fevereiro! Que estúpida! Toda a gente sabe que Fevereiro nunca tem trinta dias!

sábado, 29 de novembro de 2008

Por motivos vários, entrei na universidade tardiamente. Por isso, nos primeiros tempos, sentia-me deslocada, às vezes até inferiorizada, pois achava que por não estudar há mais de dez anos teria dificuldade em acompanhar os outros, jovens e com os conhecimentos ainda frescos.
Esse sentimento abandonou-me completamente quando, em conversa com uma professora, ela me disse qualquer coisa como:
- Não se sinta mal! Eu pessoalmente até gosto dos alunos mais velhos. São pessoas que sabem o que é um verbo, um substantivo, um adjectivo...

Ah! Esqueci-me de mencionar que fiz um curso de "letras".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Umas semanas antes do Natal junta-se a malta do escritório e toca de ir jantar. À marisqueira, ao alentejano que faz bacalhau com natas ou àquela tasca que faz pregos no prato e febras... à tasca. Fazem de conta que se gostam muito, mas não é hipocrisia. É a vontade de se gostarem muito. Alguns, gostam-se mesmo.
Cada um fica com a missão de comprar uma prendinha por um valor que só uma imaginação avançada permite ultrapassar de forma criativa. Depois, mete-se tudo num saco e distribui-se. Com a ajuda do vinho de jarro, todos se riem e batem palmas de cada vez que um presente é aberto e desvendada a surpresa. Os que bebem água, geralmente senhoras em dieta, riem-se também, por efeito do vinho dos outros. As prendinhas são sempre iguais, ano após ano. Velas, caixinhas das pequenas de Mon Chérie e Ferrero, bibelots de bradar aos céus. Também aparecem invariavelmente os gadgets de sex-shop, cuequinhas com tromba de elefante e pilinhas de dar corda. Compradas pelos engraçados. Todos os restaurantes simpáticos, nesta quadra, se enchem de grupos iguais com os mesmos tiques e a mesma rotina.
Depois, vão todos para casa, dormir e preparar-se para mais um ano de convivência com pessoas que não escolheram para passar, afinal de contas, a maior parte dos seus dias.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Como é que se distingue uma tia verdadeira duma tia falsa?
Uma tia falsa tem sempre qualquer coisinha que denuncia a sua origem como mulher de mestre de obras que enriqueceu, tornou-se empreiteiro e lhe ofereceu um jeep.
Esta era as unhas. Compridas e pintadas de vermelho histérico. Mas numa delas, o verniz lascado deixava visível uma linha escura de lixo, pelo lado de dentro.
Claro que, muitas vezes, quando abrem a boca, quase não se distinguem. As conversas são igualmente palermas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Na esplanada da pastelaria do bairro onde moro, mesmo ao pé da minha casa, dois homens conversavam na mesa ao lado. Um terceiro chegou e disse:
- Então? Aquilo ontem é que foi um susto! Mas graças a Deus tudo correu bem!
Como na véspera tinha havido festa lá em casa, com grande algazarra e copos, por momentos fiquei a pensar que algo grave se tinha passado e que eu não me tinha apercebido. Um tremor de terra? Um incêndio no bairro? Um assalto? Um acidente? Pus-me à escuta, discretamente, para saber o que teria sido.
- O Sporting lá conseguiu ganhar! - continuou ele.
- Ah! Está bem! - pensei eu.
Isolei e continuei a ler o meu jornal.