- Ficas aqui sentadinha e não sais!
Eu tinha quatro anos mas a minha mãe sabia que eu não sairia dali. E nesse tempo não se ouvia falar em rapto de crianças. Fiquei à espera, sentada na soleira da porta gigantesca dum prédio velho e degradado. Também não saberia onde ir. Não conhecia aquele bairro, nem aquela cidade, nem as pessoas que passavam e olhavam curiosas para uma miúda forasteira de saia de pregas e sapatinhos de verniz.
O assunto que a minha mãe tinha ido tratar com a amiga que tinha vindo no comboio connosco não era apropriado para crianças. Não era suposto eu saber do que se tratava e muito menos assistir. Só que eu sabia muito bem. As crianças, quando querem, são os seres mais atentos do mundo a pequenos sinais, pequenas frases e ao que está para além delas.
Esperei obediente. Quando elas voltaram, a amiga da minha mãe vinha a sangrar do nariz e o vestido estava descosido de lado. Consequências do ajuste de contas que tinha ido fazer com a amante do marido, caixeiro-viajante. Não perguntei nada porque nada me diriam a não ser mentir. Eu sabia.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

