sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

- Ficas aqui sentadinha e não sais!
Eu tinha quatro anos mas a minha mãe sabia que eu não sairia dali. E nesse tempo não se ouvia falar em rapto de crianças. Fiquei à espera, sentada na soleira da porta gigantesca dum prédio velho e degradado. Também não saberia onde ir. Não conhecia aquele bairro, nem aquela cidade, nem as pessoas que passavam e olhavam curiosas para uma miúda forasteira de saia de pregas e sapatinhos de verniz.
O assunto que a minha mãe tinha ido tratar com a amiga que tinha vindo no comboio connosco não era apropriado para crianças. Não era suposto eu saber do que se tratava e muito menos assistir. Só que eu sabia muito bem. As crianças, quando querem, são os seres mais atentos do mundo a pequenos sinais, pequenas frases e ao que está para além delas.
Esperei obediente. Quando elas voltaram, a amiga da minha mãe vinha a sangrar do nariz e o vestido estava descosido de lado. Consequências do ajuste de contas que tinha ido fazer com a amante do marido, caixeiro-viajante. Não perguntei nada porque nada me diriam a não ser mentir. Eu sabia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Em hora de ponta no centro comercial, com centenas de pessoas nas filas para os diversos "fast-food", uma senhora algures ali no meio atrapalhava a fluidez dos almoços das formiguinhas. Debruçada sobre um carrinho de bebé, fazia aquelas figuras todas que alguns adultos fazem ao pé dos bebés: Falava com uma voz estranha esganiçada, produzia sons não identificáveis e abanava a cabeça muito excitada.
Quando se afastou para se juntar à filha adolescente que estava perto de mim, fiquei a saber que ela nem conhecia o bebé em causa, nem a mãe. Muito entusiasmada e com muitos decibéis, partilhava com a miúda, visivelmente envergonhada, as suas emoções:
- Ai o que eu gosto de bebés! Gosto tanto!!! Mas só tenho uma!
E enquanto dizia isto, fazia festinhas no queixo da sua bebé, seguramente com uns quinze anos de idade e uma vontade louca de ser teletransportada naquele momento para o Alasca.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

É sempre enternecedor ver um grupo de homens a assistir a um jogo de futebol na televisão.
Hoje eram quatro, num restaurante onde eu estava. Dois deles, sentados do lado errado da mesa, arriscaram um torcicolo durante 90 minutos. Mas os seus olhos brilhavam como se tivesse chegado o Pai Natal. Foi bonito!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

É uma vila lindíssima, situada entre montanhas e rodeada de verde. Mesmo antes de chegarmos, enquanto serpenteamos pela estradinha que nos leva ao vale, já estamos de a pensar como é possível um lugar ser tão belo como as paisagens que vimos em lugares virtuais, inventadas por construtores profissionais de beleza. Num museu, por exemplo.
Estes pensamentos foram interrompidos por um jovem que, na beira da estrada, contemplava uma pedra de forma obsessiva. Nem levantou os olhos para o carro, o que seria de esperar tendo em conta que passam lá tão poucos. Avançámos e esquecemos.
Fomos ao que ali nos levava. Ao longo das horas em que lá estivemos, reparámos que não havia rede de telemóvel, nem um café ou restaurante (apenas uma pequena taberna), nem lojas, nem qualquer tipo de diversão. Isso não nos incomodou muito porque logo partiríamos para o meio da confusão onde temos tudo. Não nos lembrámos, claro, que talvez incomodasse quem ali mora.
No caminho de volta, o mesmo jovem que tínhamos visto à chegada, continuava à beira da estrada, agora de pé, hirto como uma estátua e tentando equilibrar sobre a cabeça a pedra que antes observava.
Será este o efeito da interioridade?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A senhora à minha frente na fila da caixa do super-mercado tinha algumas embalagens cujo conteúdo não identifiquei mas que, à distância, me pareceram conter adereços para um remake do Saw. Dado o contexto, no entanto, devia tratar-se de outra coisa qualquer.
- Ai, eu gosto tanto disto! – comentou a empregada quando passou o código de barras – Eles vendem isto como se fosse para cães mas é mal empregadinho!
- Ah mas eu não o levo para os cães! É para mim! – respondeu a cliente gorda e a cheirar a uma mistura de lareira com humidade – O meu marido é que não come. Anda sempre a arrotar a isso. Não pode.
Foi um belo momento de demonstração de amor conjugal.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Até hoje, ela guarda na memória o momento mais embaraçoso da sua vida: o dia em que viu parar à sua porta um ex-colega a quem pediu que fosse a casa dos pais buscar o que ela pensava ser um saco de vegetais. Trazia o carro novinho, lavadinho... a abarrotar de tralhas que a sua família demoraria mais de um ano a consumir. Isso até nem era o pior, podia partilhar com ele e o favor ficava pago, digamos. O pior era a galinha viva! Numa avenida com lojas da moda nos pisos de baixo e apartamentos nos de cima, com parqueamento pago e onde, apesar de não saber o nome de ninguém, todos se conheciam de vista, ela ficou à porta do prédio com uma galinha viva, presa a uma pata por um cordel do qual ela segurava a outra ponta, como se fosse um cãozinho de estimação mas que cacarejava. Lembra-se que olhou para todos os lados e, discretamente, largou o cordel e subiu.
No dia seguinte de manhã, a galinha debicava à volta duma das árvores da avenida e à tardinha, quando chegu do emprego, ainda lá estava. Claro que não ia matá-la! A experiência mais radical que tinha em assassinato de coisas vivas era a de pôr insecticida nos quartos antes de sair de casa! Se tivesse um revólver!... Com silenciador!... Era rápido e nem tinha que lhe tocar!... Abanou a cabeça para afastar a ideia estúpida e nessa noite, pela calada, saiu de casa às três da manhã, pegou na galinha, meteu-a no porta-bagagens, e foi abandoná-la na faixa central da via rápida mais próxima.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Já na adolescência, decidi que iria viver de actividades para-normais. Tinha acabado de ler um livro das selecções do Reader's Digest sobre pessoas com poderes psíquicos extraordinários e aquilo não me pareceu nada difícil. Mesmo nada.
Sentei-me à secretária, pousei uma esferográfica no meio da dita e concentrei-me totalmente, na intenção de a fazer mexer por meio da psicocinese ou poder da mente sobre a matéria. Uns minutos depois, ela continuava imóvel, insensível a todos os meus esforços mentais.
Talvez não me tenha concentrado o suficiente. Talvez tenha escolhido mal o objecto a mover. Mas foi nesse dia que decidi que, provavelmente, iria ter que trabalhar e que era melhor pensar em estudar qualquer coisa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mais tarde decidi que iria enveredar pela carreira espiritual. Ia ser vidente e viver de dar autógrafos aos peregrinos. Fui ter com a minha mãe e perguntei-lhe:
- Porque é que a senhora de Fátima escolheu aquelas três crianças para aparecer e não outras ? - é que eu já tinha visto a fotografia dos pastorinhos e juraria que, se fosse eu a virgem imaculada, muito mais depressa aparecia a alguém limpinho, penteado e bem vestido como eu própria do que àqueles miúdos de sobrancelhas espessas e olhar número zero.
- Porque aquelas crianças portavam-se muito bem e nunca faziam disparates!
Ora pois então, se o segredo estava em portar bem, que não fosse por isso! Retirei-me para o meu quarto e dei início ao que pensei ser o início da minha carreira de vidente e santa. Sentei-me na cama e fiquei muito quieta e calada (que era a única maneira que eu conhecia de me portar bem) e fiquei à espera que a nossa senhora aparecesse, envolta num manto branco, pousada numa nuvem e rodeada de luz, e que me dissesse qualquer coisa como:
- Uf! Finalmente aparece-me uma criança normal!
Passados uns dez minutos e como nada acontecia, concluí que as aparições da mãe de Jesus eram uma treta... e decidi rever os meus parâmetros.
Enquanto isso, para me entreter, corri lá para fora a cortar mais uns rabos a lagartixas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Teria talvez uns seis anos e atravessava a fase dos contos de princesas e fadas quando, pela primeira vez, pensei a sério no meu futuro. Fui ter com a minha mãe e perguntei-lhe:
- Onde estão as princesas e os príncipes?
- Princesas e príncipes já não há!
- Como não???!!!
Logo quando eu tinha acabado de delinear um plano perfeito em que me iria tornar princesa vinda directamente da plebe, ao casar com o príncipe num golpe semelhante ao do sapatinho de cristal! Logo quando eu tinha decidido que iria passar o resto da vida, a partir daí, a escolher vestidos e a participar em bailes de gala!
Infelizmente, este pequeno revés fez-me pensar que tinha que rever os meus parâmetros.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A empresa era francesa, por isso, naturalmente, chegou um director francês. Particularmente arrogante. Todos os trabalhadores eram portugueses. E como bons portugueses, nunca questionaram a autoridade, nem nunca se defenderam das humilhações diárias. Mas também, como bons portugueses, contornaram a questão da vingança.
Logo nas primeiras semanas, ao ouvir repetidamente a expressão "não tenho pachorra", o chefe francês perguntou o que queria dizer aquilo. O funcionário que lhe explicou, explicou-lhe bem, mas "esqueceu-se" de mencionar que ele não estava a pronunciar correctamente. O director passou anos em Portugal a usar a expressão "não tenho pachacha", sem saber o que estava dizer, e quando toda a gente à sua volta se ria, ele achava apenas que tinha um sentido de humor de primeira água.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A pedido duma ex-colega que morava longe, ele foi a casa dos pais dela buscar umas "coisinhas" que eles lá tinham para lhe mandar. Depois de vários quilómetros por terra batida, facilmente ultrapassáveis, apesar de tudo, com a ajuda do GPS, mas impossíveis de vencer sem ele, lá chegou a uma casinha com quintal e um portão, atrás do qual a aproximação do automóvel provocou a excitação duma canzoada imparável.

Surgiu então uma senhora enrugada, de lenço na cabeça, bata de chita e botas de borracha. Que ia só buscar as coisas, era um instantinho. Apareceu com três sacos de laranjas e dois garrafões de vinho caseiro. Silenciosa e sem qualquer tique daquela delicadeza urbana mais ou menos de plástico a que estamos habituados, voltou para dentro. Deve faltar qualquer coisa. E faltava. Uma cesta com uma galinha viva lá dentro, só com a cabeça assustada e inquieta de fora da tampa amarrada com cordas. Quando tudo já estava dentro do carro, a senhora comentou qualquer coisa sobre ser uma pena desperdiçar tanto espaço. Desapareceu novamente e trazia mais um garrafão de azeite e uns enchidos que cheiravam pela aldeia toda assim que espreitavam da abertura do saco de hiper-mercado. Olhou para o carro. Já estava compostinho. Mas ainda levava mais uns quilos de feijão inchado e umas batatas. Foi buscar. Finalmente, ainda havia hipótese de transportar uma couvinha-penca que foi cortar na hora.

Depois de fechado o porta-bagagens do último modelo alemão, era visível através do vidro a cabeça duma galinha em pânico, encostada a um canto pela força duma frondosa couve. Ao lado, alguns sacos de plástico amontoados.

Sabendo que era superior a essas coisas, ele desejou "quand même", que nenhum conhecido se lhe cruzasse no caminho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

- Eu nem tenho tempo para sofrer!...
Soou-lhe bem. Com impacto e dramatismo. Por isso repetiu, mas com pausas teatrais:
- Eu!... Nem tenho tempo!... Para sofrer!
Disse aquilo com a pose de protagonista de telenovela. Tanto, que por momentos cheguei a vislumbrá-la a preto e branco. Os seus interlocutores puseram um ar consternado. Isso encorajou-a a continuar o relato da sua saga. No entanto, a reacção dos ouvintes não significava, de facto, consternação. Era apenas o reconhecimento íntimo de que se encontravam perante uma daquelas pessoas a quem tudo corre pior do que às demais e disso tira um prazer masoquista inexplicável. E que por isso não vale a pena contrariá-la. Se nós tivemos 39º de febre, ela teve 40. Se partimos uma perna, ela também partiu mas com fractura exposta. Se os nossos filhos tiveram sarampo, os dela tiveram sarampo duas vezes. Se o nosso carro avariou, o dela está irremediavelmente perdido. Se a nossa mãe morreu, a dela morreu, levantou-se e voltou a morrer.