sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Fui abordada por um homem carregado de autocolantes e folhetos.
- Só um minutinho minha senhora! É para as criancinhas cancerosas!
Senti uma repulsa instantânea e afastei-me. Alguém que realmente se preocupe com o bem-estar de crianças doentes, ou que viva o problema duma forma próxima, poderá pôr aquele sorriso de vendedor de banha da cobra e chamar-lhes "criancinhas cancerosas"?
Até estremeci.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hoje cruzei-me na rua com um casal. De idade avançada e ar circunspecto. Apenas consegui fixar uma frase da conversa que travavam, e foi quando ela disse:
- Eu, tudo o que me põem na mão tento deixar o mais direito possível.

- Meu Deus! - pensei - Que frase tão rica! Poderia levar tão longe numa história!

Mas depois decidi deixar isso para vocês.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Quando eu era criança, mesmo criança, morava numa aldeia onde quase ninguém tinha, pasme-se, casa de banho. Portanto, aquele compartimento com uma banheira, uma retrete, uma bidé, um lavatório e água corrente quente e fria. Isso. Na minha casa havia uma por isso, para mim, era uma coisa tão normal como respirar ou existir. Fiquei a saber que não era assim tão normal para toda a gente quando um dia fui brincar para casa duma colega depois da escola. Foi quando lhe disse que queria fazer xixi e lhe perguntei onde era a casa de banho. Ela levou-me então numa pequena viagem a pé por entre couves, milho e campos de batatas, até se avistar uma pequena cabana de madeira com cerca de um metro quadrado. Quando lá chegámos, ela abriu a porta e disse-me:
- É aqui.
Eu, completamente sem palavras, olhava para um local escuro, mal-cheiroso até à náusea, com uma espécie de banco de madeira no qual havia um buraco redondo, um pano branco que já era castanho pendurado por um prego e milhares, milhares de moscas a sobrevoar furiosamente tudo aquilo.
- Ah! - disse eu - Tenho que ir para casa! Estou atrasada!
E corri, deixando a minha colega à porta da retrete rural a olhar para mim sem perceber o que se passava. Corri até chegar à minha casa, sem parar, e era seguramente uma distância de um quilómetro. Não sei porquê, mas corri sem me cansar nem olhar para trás, como se fugisse dum perigo terrível.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Por insistência duma grande amiga, versada em coisas da igreja e da religião e já crismada com distinção, acedi a ingressar no grupo de jovens cristãos da nossa paróquia. Devia ter nessa altura uns catorze anos e o catecismo interessava-me tanto como ser atropelada por um autocarro desgovernado e sem travões. Mas perante a descrição que ela me fez dum grupo sensacional de jovens onde se vivia um ambiente de amizade e entreajuda sem igual, lá fui.
O primeiro problema que tive foi convencer a minha mãe de que ia para ali. Desconfiada, quis saber que coisa horrível ia eu fazer que precisava de ser disfarçada com a desculpa do grupo de jovens. Tive que jurar a pés juntos e pela minha vida até ela me liberar, não sem me olhar duma forma estranha, como se achasse que eu tinha sido trocada por aliens e já não era a filha dela.
O segundo problema foi quando entrei na sala adjacente à sacristia da igreja. O líder do tal grupo de jovens era apenas o garoto mais insuportável do liceu, aquele que me provocava voltas no estômago só de passar por mim, que tinha mais borbulhas na cara do que eu tinha discos da Susi Quatro e que era conhecido pela alcunha de "Pastinha" por se fazer acompanhar sempre duma pasta com papéis que ninguém sabia para que serviam. Depois de estar ali há uns quinze minutos, ainda só tinha ouvido o Pastinha a dar ordens, inclusive à minha amiga, que lhe obedecia como se ele fosse o guru das reuniões de jovens.
No intervalo, fui embora. Ainda tive a tentação de ir até casa em marcha-atrás, como se dessa forma pudesse fazer rewind e desfazer o que tinha feito. Mas depois achei que não dava. Já tinha mesmo ido a uma reunião de jovens cristãos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Quando me casei pela primeira vez fi-lo, por insistência duma futura agora ex sogra beatíssima, pela igreja. Fi-lo contrariada mas, por variadíssimas razões que um dia contarei se me apetecer, fi-lo. O padre, sabedor das minhas qualidades anti-eclesiásticas, insistiu que eu deveria assistir pelo menos a uma missa antes de contrair matrimónio. Porque, explicou ele como se eu fosse muito burra, não é normal uma pessoa que nunca vai à missa nem sabe bem o que isso é, casar pela igreja. Anuí. Era mais uma no meio de muitas que não iria aumentar nem diminuir o meu risco de contrair úlcera.
Então, no dia seguinte, levantei-me da cama às seis da manhã e, pela calada, ainda de noite, apareci muito embrulhada num casacão, na missa das sete. Quando entrei, já atrasada, as cabeças de várias velhas veladas de preto voltaram-se na minha direcção. Ao contrário do que me pateceu fazer, não lhes levantei o dedo médio nem as mandei dar banho ao cão. Durante o tempo que durou a missa senti-me a Alice caída sem pára-quedas no reino da Rainha de Copas. Depois, saí para o ar fresco da manhã com a missão cumprida... e sem que ninguém conhecido me tivesse visto a... ir à missa.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A D. Orquídea era a organista da igreja, casada com o maestro do coro de jovens. Tinham dois filhos branquinhos de bochechas rosadas que, apesar de não conseguirem acertar, nem no tom nem no compasso, também faziam parte do coro.
O maestro, em tempos, antes de conhecer a D. Orquídea, tinha sido o padre da paróquia. Depois, abandonou a carreira. E para quem ainda não soubesse da história, ela fazia questão de esclarecer a todos quantos elogiavam aos filhos, bem alto e ajudada pela acústica da casa de Deus, que transportava o eco da sua voz poderosa a todos os recantos, que:
-Pois claro que são uns anjinhos! Foram feitos ali na sacristia!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Às vezes lembro-me dela. Tinha umas posições políticas muito peculiares. Por exemplo, era contra a homossexualidade porque tinha medo que um malandro qualquer lhe seduzisse o marido, o que deixava toda a gente à volta a perguntar para dentro que raio de casamento tinha ela. Apesar de ser provavelmente a pessoa com o mais baixo QI que conheci até hoje, tinha um lugar de chefia num serviço público. Ainda muito jovem e muito ingénua, perguntei a alguém como era possível. Responderam-me que o marido era deputado do Partido Xis, e olharam para mim com aquele olhar que significa "Bem vinda ao mundo real".
Apesar disso, não entrei ainda totalmente nos mistérios do mundo real. Custou-me. Foi aos bocadinhos. Tanto que uns meses mais tarde, quando o tal Partido Xis teve uma derrota brutal nas eleições cedendo a maioria absoluta para a oposição, eu ainda me consegui surpreender quando a vi fazer uma grande festa e um brinde com champanhe. Explicaram-me depois que o marido, apesar da derrota, tinha conseguido mais uma vez o lugar de deputado. Foi o último da lista a conseguir entrar.
Acho que ainda hoje não me habituei a estas "coisas normais".

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

- Ficas aqui sentadinha e não sais!
Eu tinha quatro anos mas a minha mãe sabia que eu não sairia dali. E nesse tempo não se ouvia falar em rapto de crianças. Fiquei à espera, sentada na soleira da porta gigantesca dum prédio velho e degradado. Também não saberia onde ir. Não conhecia aquele bairro, nem aquela cidade, nem as pessoas que passavam e olhavam curiosas para uma miúda forasteira de saia de pregas e sapatinhos de verniz.
O assunto que a minha mãe tinha ido tratar com a amiga que tinha vindo no comboio connosco não era apropriado para crianças. Não era suposto eu saber do que se tratava e muito menos assistir. Só que eu sabia muito bem. As crianças, quando querem, são os seres mais atentos do mundo a pequenos sinais, pequenas frases e ao que está para além delas.
Esperei obediente. Quando elas voltaram, a amiga da minha mãe vinha a sangrar do nariz e o vestido estava descosido de lado. Consequências do ajuste de contas que tinha ido fazer com a amante do marido, caixeiro-viajante. Não perguntei nada porque nada me diriam a não ser mentir. Eu sabia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Em hora de ponta no centro comercial, com centenas de pessoas nas filas para os diversos "fast-food", uma senhora algures ali no meio atrapalhava a fluidez dos almoços das formiguinhas. Debruçada sobre um carrinho de bebé, fazia aquelas figuras todas que alguns adultos fazem ao pé dos bebés: Falava com uma voz estranha esganiçada, produzia sons não identificáveis e abanava a cabeça muito excitada.
Quando se afastou para se juntar à filha adolescente que estava perto de mim, fiquei a saber que ela nem conhecia o bebé em causa, nem a mãe. Muito entusiasmada e com muitos decibéis, partilhava com a miúda, visivelmente envergonhada, as suas emoções:
- Ai o que eu gosto de bebés! Gosto tanto!!! Mas só tenho uma!
E enquanto dizia isto, fazia festinhas no queixo da sua bebé, seguramente com uns quinze anos de idade e uma vontade louca de ser teletransportada naquele momento para o Alasca.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

É sempre enternecedor ver um grupo de homens a assistir a um jogo de futebol na televisão.
Hoje eram quatro, num restaurante onde eu estava. Dois deles, sentados do lado errado da mesa, arriscaram um torcicolo durante 90 minutos. Mas os seus olhos brilhavam como se tivesse chegado o Pai Natal. Foi bonito!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

É uma vila lindíssima, situada entre montanhas e rodeada de verde. Mesmo antes de chegarmos, enquanto serpenteamos pela estradinha que nos leva ao vale, já estamos de a pensar como é possível um lugar ser tão belo como as paisagens que vimos em lugares virtuais, inventadas por construtores profissionais de beleza. Num museu, por exemplo.
Estes pensamentos foram interrompidos por um jovem que, na beira da estrada, contemplava uma pedra de forma obsessiva. Nem levantou os olhos para o carro, o que seria de esperar tendo em conta que passam lá tão poucos. Avançámos e esquecemos.
Fomos ao que ali nos levava. Ao longo das horas em que lá estivemos, reparámos que não havia rede de telemóvel, nem um café ou restaurante (apenas uma pequena taberna), nem lojas, nem qualquer tipo de diversão. Isso não nos incomodou muito porque logo partiríamos para o meio da confusão onde temos tudo. Não nos lembrámos, claro, que talvez incomodasse quem ali mora.
No caminho de volta, o mesmo jovem que tínhamos visto à chegada, continuava à beira da estrada, agora de pé, hirto como uma estátua e tentando equilibrar sobre a cabeça a pedra que antes observava.
Será este o efeito da interioridade?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A senhora à minha frente na fila da caixa do super-mercado tinha algumas embalagens cujo conteúdo não identifiquei mas que, à distância, me pareceram conter adereços para um remake do Saw. Dado o contexto, no entanto, devia tratar-se de outra coisa qualquer.
- Ai, eu gosto tanto disto! – comentou a empregada quando passou o código de barras – Eles vendem isto como se fosse para cães mas é mal empregadinho!
- Ah mas eu não o levo para os cães! É para mim! – respondeu a cliente gorda e a cheirar a uma mistura de lareira com humidade – O meu marido é que não come. Anda sempre a arrotar a isso. Não pode.
Foi um belo momento de demonstração de amor conjugal.