Quando eu era criança, mesmo criança, morava numa aldeia onde quase ninguém tinha, pasme-se, casa de banho. Portanto, aquele compartimento com uma banheira, uma retrete, uma bidé, um lavatório e água corrente quente e fria. Isso. Na minha casa havia uma por isso, para mim, era uma coisa tão normal como respirar ou existir. Fiquei a saber que não era assim tão normal para toda a gente quando um dia fui brincar para casa duma colega depois da escola. Foi quando lhe disse que queria fazer xixi e lhe perguntei onde era a casa de banho. Ela levou-me então numa pequena viagem a pé por entre couves, milho e campos de batatas, até se avistar uma pequena cabana de madeira com cerca de um metro quadrado. Quando lá chegámos, ela abriu a porta e disse-me:
- É aqui.
Eu, completamente sem palavras, olhava para um local escuro, mal-cheiroso até à náusea, com uma espécie de banco de madeira no qual havia um buraco redondo, um pano branco que já era castanho pendurado por um prego e milhares, milhares de moscas a sobrevoar furiosamente tudo aquilo.
- Ah! - disse eu - Tenho que ir para casa! Estou atrasada!
E corri, deixando a minha colega à porta da retrete rural a olhar para mim sem perceber o que se passava. Corri até chegar à minha casa, sem parar, e era seguramente uma distância de um quilómetro. Não sei porquê, mas corri sem me cansar nem olhar para trás, como se fugisse dum perigo terrível.