sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Deprimente.
É ter uma conversa com o chefe do sector financeiro para esclarecer uma dúvida sobre um determinado procedimento e ele pegar na máquina de calcular para ver quanto é dois por cento de cem. À frente dos vossos olhos incrédulos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

-Odeio futebol!
-Também não gosto muito, de facto.
-Mas eu odeio! O futebol, as pessoas que nele se movimentam e os palermas que pagam para o ver!
-É um bocadinho pateta alimentar esse negócio, de facto. Mas isso é só a minha opinião!
-Mas eu odeio! Odeio essa gente que se deleita em orgasmos múltiplos com os golos do seu clube! Odeio-os!
-Uau! Mantém esse espírito de Natal! - pensei eu.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Hoje não há história. Estou em interrupção natalícia. Também mereço.

MERRY FUCKING CHRISTMAS!!!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Era o fim da tarde de 23 de Dezembro e eu tinha acabado da fazer as compras de Natal, em filas intermináveis de lojas atulhadas. Atirei para dentro do carro os sacos que continham, em coisas inúteis, um valor suficiente para alimentar várias famílias durante um mês em certos locais do globo. Ainda bem que o mundo fica tão longe.

Com os níveis de stress no volume máximo saí para o trânsito, infernal, como se toda a gente que possui uma viatura tivesse combinado parar numa fila idiota entre o centro comercial e a minha casa. Dei a volta e resolvi apanhar a via rápida, mais longe porque me obrigava a sair da cidade e entrar de novo, mas, pensei eu, mais rápido. Assim que entrei, sem possibilidade de fazer inversão de marcha, um agente da autoridade de colete florescente fez-me parar. Tinha havido um acidente. Gravíssimo. E não se sabia durante quanto tempo a circulação iria permanecer interrompida. E então, naquela véspera de véspera de Natal, época de paz, amor e dizem, solidariedade, eu pensei, irritada, que raio de gente se teria lembrado de ter ali um acidente àquela hora só para me chatear.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Na minha infância não houve Pai Natal. Houve Menino Jesus. Era ele que trazia os presentes e nós acreditávamos. Embora no meu caso, com algumas reservas. O Menino Jesus que eu conhecia, aquele que jazia no presépio lá de casa e também nas imagens da igreja, era uma figura de loiça de aspecto barroco. Um bebé beje com bochechas redondas em rosa clarinho e muitas gordurinhas nas pernas, braços e tronco. De olhos muito abertos e cabelos em caracóis loiros. Sempre frágil de bracinhos abertos como se estivesse a cair de costas num precipício.Fechava os olhos e concentrava-me com muita força a tentar imaginar aquela figura de criança tristonha a descer pela chaminé enorme lá de casa e a deixar em cima do fogão a gás um embrulho com uma boneca. E não dava. Havia com certeza uma qualquer chave para o mistério de que eu não dispunha.
Mas enquanto o Menino Jesus continuasse a deixar-me, todos os anos, uma boneca linda com um vestido de folhos e olhos de abrir e fechar, não iria questionar a veracidade da história.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Na perfumaria, em hora de ponta das compras, movimentava-se um casal de aspecto rude e alguma idade, cheirando testers. Ela, de lenço na cabeça e avental, lamentava-se de forma particularmente audível:
- Não sei que faça! Nada aqui me cheira bem! Há uma coisa ou outra que não me cheira assim mal! Mal! Mas bem, nada me cheira! Que chatice! A gente tem que lhe fazer uma atençãozinha, temos que comprar qualquer coisa!
Até que ele, grande e embrulhado num sobretudo à pastor, acabou com a conversa:
- Olha, sabes o que te digo? Quando ela morrer já não precisa dessa merda para nada! Vamos embora!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Lembrei-me desta conversa que tive com um dos homens mais toscos que já conheci e que infelizmente era director da organização onde eu trabalhava, e escrevi-a para participar no Grande e Espectacular Concurso Incompreensível

ELE: Tenha paciência, eu não a posso promover!
ELA: Porquê?
ELE: Porque é que acha? Pense lá!
ELA: Não sei...
ELE: Já viu que se for promovida passa a ganhar mais que o seu marido? Ah! Ah! Ah! Essa era muito boa! Os dois a trabalhar no mesmo sítio e a mulher a ganhar mais! Depois como era lá em casa?
ELA: Como era o quê?
ELE: Ora! Não se faça desentendida!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Fui abordada por um homem carregado de autocolantes e folhetos.
- Só um minutinho minha senhora! É para as criancinhas cancerosas!
Senti uma repulsa instantânea e afastei-me. Alguém que realmente se preocupe com o bem-estar de crianças doentes, ou que viva o problema duma forma próxima, poderá pôr aquele sorriso de vendedor de banha da cobra e chamar-lhes "criancinhas cancerosas"?
Até estremeci.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Hoje cruzei-me na rua com um casal. De idade avançada e ar circunspecto. Apenas consegui fixar uma frase da conversa que travavam, e foi quando ela disse:
- Eu, tudo o que me põem na mão tento deixar o mais direito possível.

- Meu Deus! - pensei - Que frase tão rica! Poderia levar tão longe numa história!

Mas depois decidi deixar isso para vocês.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Quando eu era criança, mesmo criança, morava numa aldeia onde quase ninguém tinha, pasme-se, casa de banho. Portanto, aquele compartimento com uma banheira, uma retrete, uma bidé, um lavatório e água corrente quente e fria. Isso. Na minha casa havia uma por isso, para mim, era uma coisa tão normal como respirar ou existir. Fiquei a saber que não era assim tão normal para toda a gente quando um dia fui brincar para casa duma colega depois da escola. Foi quando lhe disse que queria fazer xixi e lhe perguntei onde era a casa de banho. Ela levou-me então numa pequena viagem a pé por entre couves, milho e campos de batatas, até se avistar uma pequena cabana de madeira com cerca de um metro quadrado. Quando lá chegámos, ela abriu a porta e disse-me:
- É aqui.
Eu, completamente sem palavras, olhava para um local escuro, mal-cheiroso até à náusea, com uma espécie de banco de madeira no qual havia um buraco redondo, um pano branco que já era castanho pendurado por um prego e milhares, milhares de moscas a sobrevoar furiosamente tudo aquilo.
- Ah! - disse eu - Tenho que ir para casa! Estou atrasada!
E corri, deixando a minha colega à porta da retrete rural a olhar para mim sem perceber o que se passava. Corri até chegar à minha casa, sem parar, e era seguramente uma distância de um quilómetro. Não sei porquê, mas corri sem me cansar nem olhar para trás, como se fugisse dum perigo terrível.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Por insistência duma grande amiga, versada em coisas da igreja e da religião e já crismada com distinção, acedi a ingressar no grupo de jovens cristãos da nossa paróquia. Devia ter nessa altura uns catorze anos e o catecismo interessava-me tanto como ser atropelada por um autocarro desgovernado e sem travões. Mas perante a descrição que ela me fez dum grupo sensacional de jovens onde se vivia um ambiente de amizade e entreajuda sem igual, lá fui.
O primeiro problema que tive foi convencer a minha mãe de que ia para ali. Desconfiada, quis saber que coisa horrível ia eu fazer que precisava de ser disfarçada com a desculpa do grupo de jovens. Tive que jurar a pés juntos e pela minha vida até ela me liberar, não sem me olhar duma forma estranha, como se achasse que eu tinha sido trocada por aliens e já não era a filha dela.
O segundo problema foi quando entrei na sala adjacente à sacristia da igreja. O líder do tal grupo de jovens era apenas o garoto mais insuportável do liceu, aquele que me provocava voltas no estômago só de passar por mim, que tinha mais borbulhas na cara do que eu tinha discos da Susi Quatro e que era conhecido pela alcunha de "Pastinha" por se fazer acompanhar sempre duma pasta com papéis que ninguém sabia para que serviam. Depois de estar ali há uns quinze minutos, ainda só tinha ouvido o Pastinha a dar ordens, inclusive à minha amiga, que lhe obedecia como se ele fosse o guru das reuniões de jovens.
No intervalo, fui embora. Ainda tive a tentação de ir até casa em marcha-atrás, como se dessa forma pudesse fazer rewind e desfazer o que tinha feito. Mas depois achei que não dava. Já tinha mesmo ido a uma reunião de jovens cristãos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Quando me casei pela primeira vez fi-lo, por insistência duma futura agora ex sogra beatíssima, pela igreja. Fi-lo contrariada mas, por variadíssimas razões que um dia contarei se me apetecer, fi-lo. O padre, sabedor das minhas qualidades anti-eclesiásticas, insistiu que eu deveria assistir pelo menos a uma missa antes de contrair matrimónio. Porque, explicou ele como se eu fosse muito burra, não é normal uma pessoa que nunca vai à missa nem sabe bem o que isso é, casar pela igreja. Anuí. Era mais uma no meio de muitas que não iria aumentar nem diminuir o meu risco de contrair úlcera.
Então, no dia seguinte, levantei-me da cama às seis da manhã e, pela calada, ainda de noite, apareci muito embrulhada num casacão, na missa das sete. Quando entrei, já atrasada, as cabeças de várias velhas veladas de preto voltaram-se na minha direcção. Ao contrário do que me pateceu fazer, não lhes levantei o dedo médio nem as mandei dar banho ao cão. Durante o tempo que durou a missa senti-me a Alice caída sem pára-quedas no reino da Rainha de Copas. Depois, saí para o ar fresco da manhã com a missão cumprida... e sem que ninguém conhecido me tivesse visto a... ir à missa.