quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mesmo já com oitenta e dois anos feitos, ela recusava-se a aceitar que era velha. Referia-se às pessoas da mesma idade chamando-lhes "os velhotes coitados", e no dia do seu aniversário, ano após ano, dizia sempre a todos que fazia 69. E não, não era por malícia. Todos à sua volta duvidavam até da sua capacidade para alimentar qualquer tipo de brejeirice. Era porque na sua cabeça, a linha que traçava a fronteira entre a juventude e a velhice estava aí.
Mas a maior preocupação de todos era a noite de fim de ano. Mais concretamente o momento da passagem para o ano seguinte, à meia-noite em ponto. Porque nessa altura, desse para onde desse, ela fazia questão de subir a um banquinho para comer doze passas e formular doze desejos. Durante anos, lembro-me de passar esse momento específico à volta dum banco com mais cinco ou seis pessoas, à espera que ela, invariavelmente, se desequilibrasse e caísse. Alguém sempre a amparou e, também invariavelmente, ela fazia a observação "Não sei como é que isto me aconteceu!". Até hoje, nunca partiu uma perna.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Conheci-a na loja de bairro onde ambas comprávamos o pão e o leite diariamente. Era gorda (não flácida mas roliça) e falava muito alto e sem pudor. Por isso, todos os pormenores da sua vida eram conhecidos de toda a gente, desde os problemas de pilosidade das clientes que frequentavam o seu salão de estética até ao segredo da eterna juventude que, segundo ela, era esfregar todos os dias a pele com óleo alimentar. Também contava muitas coisas sobre a sua rival nas questões amorosas, que ela apelidava de "a mulher do meu marido, essa vacarrona!", fazendo questão de vincar bem a sua falta de carácter por se recusar a dar o divórcio àquele que por usucapião lhe pertencia. Sabia-se que "na cama, era uma merda!" e que por isso o pobre homem teve que a deixar e arranjar uma mulher à altura que, por coincidência, era ela própria.
Não gostava dela, nem deixava de gostar. Achava-lhe piada, até porque todos os dias me provocava um sorriso.
Soube há tempo que morreu. De doença prolongada e sozinha. O seu homem, coitadinho, tinha voltado para a vacarrona que era uma merda na cama.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Na loja de lingerie, um casal movimentava-se com grande à vontade. Ao contrário do que é habitual assistir nessas lojas, ele movimentava-se como se dentro daquelas paredes continuasse a ter vontade própria. Então, num momento em que um se encontrava num canto da loja e o outro no canto oposto, aconteceu o bizarro: Ela levantou bem alto um par de cuecas pretas de fio dental e perguntou com um vozeirão:
- E estas?
Ao que ele, levantando um par de cuecas vermelhas transparentes tipo short, respondeu:
- Não! Estas são muito mais sexy!

As mulheres que circulavam por ali, pouco habituadas a estas intromissões nos seus domínios, puseram um ar enjoado e rosnaram entre dentes qualquer coisa como:
- Quem são estes anormais?

domingo, 28 de dezembro de 2008

Nunca senti um tremor de terra. Quer dizer, no meu tempo de vida já houve tremores de terra, mas eu nunca os senti. Não sei o que provoca esta minha insensibilidade ao fenómeno. Sei que, durante o maior de todos, eu estava ao cuidado da minha avó, no norte, enquanto os meus pais se tinham deslocado a Lisboa em viagem, precisamente onde o terremoto foi mais sentido.
Lembro-me da minha avó me tirar da cama em grande pânico e ficar agarrada a mim na sala de estar, a chorar e a rezar pelos meus pais. E eu a pensar se aquilo seria um pesadelo maluco.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ser analfabeto pode ser um obstáculo em muitas frentes e de muitas maneiras que nós, os que aprendemos a ler, nem nos apercebemos. Eu, por exemplo, tenho uma tia-avó que em tempos, andou a lavar os dentes diariamente com creme de barbear. E só se descobriu quando se queixou aos restantes co-habitantes do péssimo sabor do dentífrico que tinham comprado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Deprimente.
É ter uma conversa com o chefe do sector financeiro para esclarecer uma dúvida sobre um determinado procedimento e ele pegar na máquina de calcular para ver quanto é dois por cento de cem. À frente dos vossos olhos incrédulos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

-Odeio futebol!
-Também não gosto muito, de facto.
-Mas eu odeio! O futebol, as pessoas que nele se movimentam e os palermas que pagam para o ver!
-É um bocadinho pateta alimentar esse negócio, de facto. Mas isso é só a minha opinião!
-Mas eu odeio! Odeio essa gente que se deleita em orgasmos múltiplos com os golos do seu clube! Odeio-os!
-Uau! Mantém esse espírito de Natal! - pensei eu.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Hoje não há história. Estou em interrupção natalícia. Também mereço.

MERRY FUCKING CHRISTMAS!!!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Era o fim da tarde de 23 de Dezembro e eu tinha acabado da fazer as compras de Natal, em filas intermináveis de lojas atulhadas. Atirei para dentro do carro os sacos que continham, em coisas inúteis, um valor suficiente para alimentar várias famílias durante um mês em certos locais do globo. Ainda bem que o mundo fica tão longe.

Com os níveis de stress no volume máximo saí para o trânsito, infernal, como se toda a gente que possui uma viatura tivesse combinado parar numa fila idiota entre o centro comercial e a minha casa. Dei a volta e resolvi apanhar a via rápida, mais longe porque me obrigava a sair da cidade e entrar de novo, mas, pensei eu, mais rápido. Assim que entrei, sem possibilidade de fazer inversão de marcha, um agente da autoridade de colete florescente fez-me parar. Tinha havido um acidente. Gravíssimo. E não se sabia durante quanto tempo a circulação iria permanecer interrompida. E então, naquela véspera de véspera de Natal, época de paz, amor e dizem, solidariedade, eu pensei, irritada, que raio de gente se teria lembrado de ter ali um acidente àquela hora só para me chatear.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Na minha infância não houve Pai Natal. Houve Menino Jesus. Era ele que trazia os presentes e nós acreditávamos. Embora no meu caso, com algumas reservas. O Menino Jesus que eu conhecia, aquele que jazia no presépio lá de casa e também nas imagens da igreja, era uma figura de loiça de aspecto barroco. Um bebé beje com bochechas redondas em rosa clarinho e muitas gordurinhas nas pernas, braços e tronco. De olhos muito abertos e cabelos em caracóis loiros. Sempre frágil de bracinhos abertos como se estivesse a cair de costas num precipício.Fechava os olhos e concentrava-me com muita força a tentar imaginar aquela figura de criança tristonha a descer pela chaminé enorme lá de casa e a deixar em cima do fogão a gás um embrulho com uma boneca. E não dava. Havia com certeza uma qualquer chave para o mistério de que eu não dispunha.
Mas enquanto o Menino Jesus continuasse a deixar-me, todos os anos, uma boneca linda com um vestido de folhos e olhos de abrir e fechar, não iria questionar a veracidade da história.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Na perfumaria, em hora de ponta das compras, movimentava-se um casal de aspecto rude e alguma idade, cheirando testers. Ela, de lenço na cabeça e avental, lamentava-se de forma particularmente audível:
- Não sei que faça! Nada aqui me cheira bem! Há uma coisa ou outra que não me cheira assim mal! Mal! Mas bem, nada me cheira! Que chatice! A gente tem que lhe fazer uma atençãozinha, temos que comprar qualquer coisa!
Até que ele, grande e embrulhado num sobretudo à pastor, acabou com a conversa:
- Olha, sabes o que te digo? Quando ela morrer já não precisa dessa merda para nada! Vamos embora!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Lembrei-me desta conversa que tive com um dos homens mais toscos que já conheci e que infelizmente era director da organização onde eu trabalhava, e escrevi-a para participar no Grande e Espectacular Concurso Incompreensível

ELE: Tenha paciência, eu não a posso promover!
ELA: Porquê?
ELE: Porque é que acha? Pense lá!
ELA: Não sei...
ELE: Já viu que se for promovida passa a ganhar mais que o seu marido? Ah! Ah! Ah! Essa era muito boa! Os dois a trabalhar no mesmo sítio e a mulher a ganhar mais! Depois como era lá em casa?
ELA: Como era o quê?
ELE: Ora! Não se faça desentendida!