segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Muito cedo na vida, ela descobriu o seu destino: Nunca seria rica à custa dum homem. Podia até encontrar um pote de ouro no fim do arco-íris, acertar na lotaria, descobrir que era herdeira do Bill Gates, mas juntar-se a um homem milionário para beneficiar com isso... nunca conseguiria. Faltava-lhe aquele talento que algumas mulheres possuem e cuja essência ela desconhecia por completo nem compreendia como nem onde se adquire.
Todos os (poucos) homens ricos que tinha conhecido e com os quais tinha tido um vislumbre de pré-envolvimento romântico, mal começavam a exibir os carros, a falar das viagens e dos barcos, a vomitar teorias sobre rolex's e piscinas cobertas e a arrotar opiniões sobre golfe e hotéis de 5 estrelas, metiam-lhe nojo e davam-lhe voltas no estômago. Paciência.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Morava num apartamento no coração da cidade. Por isso, o sonho da minha avó era comprar uma "quintinha", onde pudesse criar animais e cultivar feijões, milho, batatas e couves. Nunca chegou a fazê-lo, por isso também nunca chegámos a saber se teria mesmo vocação para se levantar de madrugada um dia após o outro para trabalhar o campo, sem perder a perserverança nem a pachorra. Mas isso era um pormenor.
Um belo dia, quando se passeava de carro pelos arredores com a filha mais velha (a minha mãe) e a bisneta mais nova (a minha filha), viu ao longe uma placa perto duma casa pobrezinha e velha a cair de podre rodeada de terra com uma hortinha. Não se conseguia decifrar completamente o que dizia, mas a primeira palavra era certamente "vende-se". Quis lá ir. Apesar do caminho se apresentar íngreme, insistiu. Era aí que finalmente cumpriria o seu sonho. Estacionaram o carro o melhor que puderam, entre silvas e lama, e puseram-se a caminho a pé. Entusiasmada, a minha avó já fazia planos sobre o restauro da casinha e a sua ampliação, a cor da pintura exterior e o jardinzinho à porta.
Entretanto, à entrada do casebre já se tinha posto de atalaia um homem rude, com uma barriga flácida a sair por baixo duma camisola interior de cavas e um palito que mastigava ao canto da boca que mal se notava, coberta pelo bigode. Curioso, via aproximar-se um grupo de duas mulheres e uma criança com ares de dondocas de cidade, sem perceber muito bem o que quereriam dele.
A uns dez metros, porém, elas conseguiram ler toda a mensagem escrita na placa que tinham vislumbrado ao longe: Vende-se isca e serradela.

sábado, 3 de janeiro de 2009

No laboratório de análises, eu esperava ao balcão enquanto a funcionária, ao telefone, tentava explicar a um senhor uma coisa pelos vistos complicadíssima:
- Sr. António, nós não temos resultados da urina!
- ...
- O senhor fez a entrega da urina aqui no balcão?
- ...
- Se fez a entrega da urina aqui a uma funcionária!
- ...
- Ah! Xixizinho!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Estão a ver aquele lugar-comum segundo o qual os homens, quando entram num centro comercial, têm que saber de antemão o que vão comprar e onde, dirigem-se à loja que pretendem sem tomar atalhos, compram sem olhar duas vezes nem fazer a vistoria ao resto da mercadoria e depois vêm embora pelo mesmo caminho sem olhar para montra nenhuma nem entrar em mais sítio nenhum?
Pois. É verdade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Numa sessão de saldos, vi passar por mim duas senhoras. Uma delas, a que trazia calças cor-de-rosa justíssimas sobre um rabo com personalidade independente, explicava à outra:
- Lá onde eu trabalho, as únicas que usam estas porcarias são as coitadas. Contínuas e isso, estás a ver?

Hipótese 1: Ela já foi contínua.
Hipótese 2: Ela é gozada por todas as contínuas.
Hipótese 3. Ela é, simplesmente, estúpida.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mesmo já com oitenta e dois anos feitos, ela recusava-se a aceitar que era velha. Referia-se às pessoas da mesma idade chamando-lhes "os velhotes coitados", e no dia do seu aniversário, ano após ano, dizia sempre a todos que fazia 69. E não, não era por malícia. Todos à sua volta duvidavam até da sua capacidade para alimentar qualquer tipo de brejeirice. Era porque na sua cabeça, a linha que traçava a fronteira entre a juventude e a velhice estava aí.
Mas a maior preocupação de todos era a noite de fim de ano. Mais concretamente o momento da passagem para o ano seguinte, à meia-noite em ponto. Porque nessa altura, desse para onde desse, ela fazia questão de subir a um banquinho para comer doze passas e formular doze desejos. Durante anos, lembro-me de passar esse momento específico à volta dum banco com mais cinco ou seis pessoas, à espera que ela, invariavelmente, se desequilibrasse e caísse. Alguém sempre a amparou e, também invariavelmente, ela fazia a observação "Não sei como é que isto me aconteceu!". Até hoje, nunca partiu uma perna.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Conheci-a na loja de bairro onde ambas comprávamos o pão e o leite diariamente. Era gorda (não flácida mas roliça) e falava muito alto e sem pudor. Por isso, todos os pormenores da sua vida eram conhecidos de toda a gente, desde os problemas de pilosidade das clientes que frequentavam o seu salão de estética até ao segredo da eterna juventude que, segundo ela, era esfregar todos os dias a pele com óleo alimentar. Também contava muitas coisas sobre a sua rival nas questões amorosas, que ela apelidava de "a mulher do meu marido, essa vacarrona!", fazendo questão de vincar bem a sua falta de carácter por se recusar a dar o divórcio àquele que por usucapião lhe pertencia. Sabia-se que "na cama, era uma merda!" e que por isso o pobre homem teve que a deixar e arranjar uma mulher à altura que, por coincidência, era ela própria.
Não gostava dela, nem deixava de gostar. Achava-lhe piada, até porque todos os dias me provocava um sorriso.
Soube há tempo que morreu. De doença prolongada e sozinha. O seu homem, coitadinho, tinha voltado para a vacarrona que era uma merda na cama.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Na loja de lingerie, um casal movimentava-se com grande à vontade. Ao contrário do que é habitual assistir nessas lojas, ele movimentava-se como se dentro daquelas paredes continuasse a ter vontade própria. Então, num momento em que um se encontrava num canto da loja e o outro no canto oposto, aconteceu o bizarro: Ela levantou bem alto um par de cuecas pretas de fio dental e perguntou com um vozeirão:
- E estas?
Ao que ele, levantando um par de cuecas vermelhas transparentes tipo short, respondeu:
- Não! Estas são muito mais sexy!

As mulheres que circulavam por ali, pouco habituadas a estas intromissões nos seus domínios, puseram um ar enjoado e rosnaram entre dentes qualquer coisa como:
- Quem são estes anormais?

domingo, 28 de dezembro de 2008

Nunca senti um tremor de terra. Quer dizer, no meu tempo de vida já houve tremores de terra, mas eu nunca os senti. Não sei o que provoca esta minha insensibilidade ao fenómeno. Sei que, durante o maior de todos, eu estava ao cuidado da minha avó, no norte, enquanto os meus pais se tinham deslocado a Lisboa em viagem, precisamente onde o terremoto foi mais sentido.
Lembro-me da minha avó me tirar da cama em grande pânico e ficar agarrada a mim na sala de estar, a chorar e a rezar pelos meus pais. E eu a pensar se aquilo seria um pesadelo maluco.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ser analfabeto pode ser um obstáculo em muitas frentes e de muitas maneiras que nós, os que aprendemos a ler, nem nos apercebemos. Eu, por exemplo, tenho uma tia-avó que em tempos, andou a lavar os dentes diariamente com creme de barbear. E só se descobriu quando se queixou aos restantes co-habitantes do péssimo sabor do dentífrico que tinham comprado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Deprimente.
É ter uma conversa com o chefe do sector financeiro para esclarecer uma dúvida sobre um determinado procedimento e ele pegar na máquina de calcular para ver quanto é dois por cento de cem. À frente dos vossos olhos incrédulos.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

-Odeio futebol!
-Também não gosto muito, de facto.
-Mas eu odeio! O futebol, as pessoas que nele se movimentam e os palermas que pagam para o ver!
-É um bocadinho pateta alimentar esse negócio, de facto. Mas isso é só a minha opinião!
-Mas eu odeio! Odeio essa gente que se deleita em orgasmos múltiplos com os golos do seu clube! Odeio-os!
-Uau! Mantém esse espírito de Natal! - pensei eu.