segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Foi naquele sítio do costume. O tal onde não há talões nem outras complicações. Comprei, entre outras coisas, um saquinho com três malaguetas. Dirigi-me à caixa e a funcionária, quando pegou nele fez um ar assim como se tivesse visto alguma coisa muito, muito, muito aberrante e exclamou: - "Credo! Que raio é isto?! Que pimentos tão esquisitos!".
Eu respondi, muito discreta: - "São malaguetas." - e ela procedeu à busca, carregando nas teclas enquanto soletrava ma... la... gue... Parou com ar satisfeito. Olhou para mim e perguntou: - "Malaguetas verdes, não é?" - Eu, tendo em consideração a hipótese de a senhora sofrer de daltonismo, levantei o saco onde brilhavam três malaguetas vermelhas e luzidias e respondi: - "Bem... não."
"Pois é" - cotinuou ela muito despachada - "verdes não são." - e depois de reflectir um pouco:
- Mas são malaguetas. Portanto pelo menos metade vai certo!
Não discuti. As verdes até eram mais baratas.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ela tinha reputação de "possuída" ou de "morada aberta". Dizia-se que os que já tinham morrido lhe tomavam o corpo com a alma. Que por isso, tinha a faculdade, embora não consciente, de falar com vozes de homens, mulheres e crianças diversas, de alterar a sua própria fisionomia e de se ausentar estando presente, que era quando os olhos deixavam de ter qualquer expressão e se iam embora. Dizia-se que era possuída por espíritos bons, de familiares que, à falta de outro meio, assim vinham dar notícias e dizer que estavam bem, mas também por espíritos maus. E estes já não eram de família e só os mal-intencionados se atreveriam a insinuar tal, não fosse o medo respeitoso que ela impunha só por existir e ser assim. Quem sabe os espíritos não se revoltariam contra terceiros, que ninguém acredita em bruxas mas que as há, há!
Tive um dia a oportunidade única de assistir a uma das frequentes tomadas de posse do corpo por um espírito, quando tinha uns sete anos. Devia ser um dos maus, porque ela gritou, esbracejou, esperneou e disse palavras que eu não estava autorizada a pronunciar sob pena de levar pimenta na língua. Todos os adultos presentes juraram a pés juntos que tinham visto A, B ou C, ou ouvido distintamente a sua voz ou sentido de alguma forma a sua presença. Eu, embora tenha ficado sem dúvida impressionada pela intensidade dramática da cena, não consegui distingui-la das cenas de pancadaria a que costumava assistir entre a lavadeira da minha avó e a empregada dos correios que ela dizia que lhe andava a enfeitiçar o marido.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Como não costumava utilizar transportes públicos, não sabia muito bem como fazê-lo. Por isso, no dia em que precisei de apanhar o autocarro para o centro da cidade, preparei-me como se fosse fazer um exame. Vi os horários, certifiquei-me deles e comprei bilhete com antecedência. Uns cinco minutos antes da hora, saí de casa para fazer a pé os cerca de 200 metros que separavam a minha casa da paragem. Contudo, alguma coisa tinha corrido mal. Assim que fechei a porta do prédio, pude ver que o autocarro... já estava na paragem. Bolas! Corri desalmadamente, mas mesmo desalmadamente, para o apanhar. Enquanto corria e me aproximava, pude ver que as pessoas lá dentro olhavam todas para mim com um ar muito admirado. Pudera! - pensei eu - Devem estar a fazer apostas consigo próprias sobre a minha capacidade para chegar a tempo.
Finalmente atingi o objectivo. Completamente esbaforida com a corrida (nunca fui grande atleta), entrei desenfreada no autocarro e suspirei de alívio. Tinha conseguido! Sentei-me e preparei-me para a viagem. Toda a gente continuava a olhar para mim como se eu fosse uma fugitiva dum hospital psiquiátrico e isso irritou-me.
Mas logo percebi o que se passava. O autocarro continuou ali parado durante cinco minutos e saiu à hora. Isso acontecia todos os dias. Era a paragem onde o autocarro acertava o horário.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Embora seja um projecto que já abandonei por não haver lugar para mim no mercado de trabalho, eu já dei aulas. Num determinado ano em que fiquei colocada só com ensino recorrente nocturno, lá para meio do segundo período comecei a reparar que era a única professora que ainda tinha alunos mas não percebia muito bem porquê. A princípio limitava-me a achar que eles gostavam mais da minha disciplina. Tudo ficou claro na minha cabeça quando uma colega me disse, com ar paternalista:
- És mesmo estúpida! Tens a mania de ser boazinha e eles assim não desistem. Vais ter de trabalhar até ao fim do ano, vais ver!
Trabalhei, de facto, até ao final do ano lectivo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Lembro-me quando, há muitos anos, fui ao cinema com colegas de estudo ver “Os Amigos de Alex”. Há tanto tempo que ainda não se falava de sida. Entre os meus acompanhantes estava um rapazote do interior, vindo directamente da actividade de lavoura para a escola da cidade. Às tantas, quando uma das personagens disse:
- Sei que o meu marido me é fiel. Tem medo do herpes.
Ouviu-se, no silêncio da sala, esse colega a perguntar:
- Herpes?! Quem é o Herpes?
Toda a gente se riu. Mas tenho a certeza que ele não era o único a não saber o que era o herpes. Mas como diz aquela velha máxima: “Não faças perguntas idiotas. Espera que um idiota as faça por ti e depois ouve a resposta”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Hoje, ensinei uma pessoa a pôr um “out of office” no Outlook. Mais tarde, ouvi-a dizer, apesar de ter visto aquilo escrito à frente dos olhos durante uns cinco minutos, que podia ir descansada porque já tinha um “atovobsky”.
E pronto, foi giro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A Madalena era a mais burra. Mesmo assim com as cinco letras: BURRA. Nesse tempo não fazia mal chamar burros aos meninos que não conseguiam aprender as coisas na escola, pelo contrário, os professores dispunham até dumas orelhas compridas de papel que serviam para os pôr de castigo, sujeitos à chacota de todos os colegas. Dispunham também duma cana comprida para bater nas orelhas e duma régua grossa de madeira para bater nas mãos. E batiam. Os pais, não se incomodavam com isso. No entanto, os professores também tinham por vezes momentos de bondade, mostrando que eram adultos compreensivos. Foi o que aconteceu quando a minha escola ensaiou uma peça de teatro de Natal para apresentar no salão da paróquia. A professora, de boazinha que estava devido à época do ano que se atravessava, escolheu a Madalena para o papel de pastor. A Madalena! Foi um escândalo. A Madalena não era capaz nem de dizer a tabuada dos dez, que era a mais fácil de todas! Mas assim ficou, a Madalena era o pastor e tinha uma deixa durante toda a peça. Quando passasse por nós a menina que fazia de estrela, coberta de papel de lustro amarelo e com uma cauda, ela devia levantar o braço e dizer para os outros, que estariam deitados no chão: Pastores, erguei-vos depressa, que a boa nova é chegada! Já nasceu o Deus Menino! Só que em todos os ensaios, todos, a Madalena nunca foi capaz de dizer a sua deixa, nem completa nem na altura certa. Aquilo prometia.
No dia da peça tudo corria bem até à altura da entrada da Madalena. As que faziam de pastores lá estavam deitadas no palco, a fingir que dormiam, mas da boca da Madalena, nada. Imóvel e sorridente para o público, nem se deve ter lembrado que estava na altura de dizer qualquer coisa. As outras, lá iam levantando a cabeça e dando-lhe sinais, aos quais ela respondia com um sorriso ainda maior. O público olhava intrigado, sem perceber o que se passava ali. Até que a Madalena, por fim, percebeu que era a sua vez. Então, levantou o braço, e disse:
- Pastores! Erguei a boa nova! Depressa!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Muito cedo na vida, ela descobriu o seu destino: Nunca seria rica à custa dum homem. Podia até encontrar um pote de ouro no fim do arco-íris, acertar na lotaria, descobrir que era herdeira do Bill Gates, mas juntar-se a um homem milionário para beneficiar com isso... nunca conseguiria. Faltava-lhe aquele talento que algumas mulheres possuem e cuja essência ela desconhecia por completo nem compreendia como nem onde se adquire.
Todos os (poucos) homens ricos que tinha conhecido e com os quais tinha tido um vislumbre de pré-envolvimento romântico, mal começavam a exibir os carros, a falar das viagens e dos barcos, a vomitar teorias sobre rolex's e piscinas cobertas e a arrotar opiniões sobre golfe e hotéis de 5 estrelas, metiam-lhe nojo e davam-lhe voltas no estômago. Paciência.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Morava num apartamento no coração da cidade. Por isso, o sonho da minha avó era comprar uma "quintinha", onde pudesse criar animais e cultivar feijões, milho, batatas e couves. Nunca chegou a fazê-lo, por isso também nunca chegámos a saber se teria mesmo vocação para se levantar de madrugada um dia após o outro para trabalhar o campo, sem perder a perserverança nem a pachorra. Mas isso era um pormenor.
Um belo dia, quando se passeava de carro pelos arredores com a filha mais velha (a minha mãe) e a bisneta mais nova (a minha filha), viu ao longe uma placa perto duma casa pobrezinha e velha a cair de podre rodeada de terra com uma hortinha. Não se conseguia decifrar completamente o que dizia, mas a primeira palavra era certamente "vende-se". Quis lá ir. Apesar do caminho se apresentar íngreme, insistiu. Era aí que finalmente cumpriria o seu sonho. Estacionaram o carro o melhor que puderam, entre silvas e lama, e puseram-se a caminho a pé. Entusiasmada, a minha avó já fazia planos sobre o restauro da casinha e a sua ampliação, a cor da pintura exterior e o jardinzinho à porta.
Entretanto, à entrada do casebre já se tinha posto de atalaia um homem rude, com uma barriga flácida a sair por baixo duma camisola interior de cavas e um palito que mastigava ao canto da boca que mal se notava, coberta pelo bigode. Curioso, via aproximar-se um grupo de duas mulheres e uma criança com ares de dondocas de cidade, sem perceber muito bem o que quereriam dele.
A uns dez metros, porém, elas conseguiram ler toda a mensagem escrita na placa que tinham vislumbrado ao longe: Vende-se isca e serradela.

sábado, 3 de janeiro de 2009

No laboratório de análises, eu esperava ao balcão enquanto a funcionária, ao telefone, tentava explicar a um senhor uma coisa pelos vistos complicadíssima:
- Sr. António, nós não temos resultados da urina!
- ...
- O senhor fez a entrega da urina aqui no balcão?
- ...
- Se fez a entrega da urina aqui a uma funcionária!
- ...
- Ah! Xixizinho!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Estão a ver aquele lugar-comum segundo o qual os homens, quando entram num centro comercial, têm que saber de antemão o que vão comprar e onde, dirigem-se à loja que pretendem sem tomar atalhos, compram sem olhar duas vezes nem fazer a vistoria ao resto da mercadoria e depois vêm embora pelo mesmo caminho sem olhar para montra nenhuma nem entrar em mais sítio nenhum?
Pois. É verdade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Numa sessão de saldos, vi passar por mim duas senhoras. Uma delas, a que trazia calças cor-de-rosa justíssimas sobre um rabo com personalidade independente, explicava à outra:
- Lá onde eu trabalho, as únicas que usam estas porcarias são as coitadas. Contínuas e isso, estás a ver?

Hipótese 1: Ela já foi contínua.
Hipótese 2: Ela é gozada por todas as contínuas.
Hipótese 3. Ela é, simplesmente, estúpida.