Sou do tempo pré-pedagógico em que nos ensinavam a história de Portugal como se fosse um filme de acção, uma batalha entre os bons (nós) e os maus (os outros), em que os bons saíam sempre vitoriosos. Para isso era necessário, claro, mentir e omitir, o que não tinha importância nenhuma perante os mais altos valores do patriotismo. Os episódios mais violentos do nosso passado colectivo eram sempre exaltados e descritos de forma extremamente gráfica, ou para nos glorificar ou (se fosse caso disso) para nos vitimizar dando-nos razão. Eu, devo dizê-lo, gostava de história. Acreditava em tudo e achava que nenhum povo era tão glorioso como o nosso. Quando descobri, mais tarde, que não era verdade, tive um desgosto tão grande como quando me disseram que eram os pais que compravam os brinquedos no Natal, mas isso é matéria para outra história.
Hoje, gosto particularmente de recordar a forma como eu imaginava os episódios sangrentos que a professora nos contava. Quando aprendi, por exemplo, que no dia 1 de Dezembro de 1640, o secretário da regente de Portugal foi fenestrado pelos bravos revoltosos, nunca me passou pela cabeça que o tivessem atirado duma altura superior ao rés do chão. Depois, ele levantava-se empoeirado e com a peruca de lado, como nas comédias do Vasco Santana, sacudia-se... e fugia a correr até Espanha, assustado.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

