segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sou do tempo pré-pedagógico em que nos ensinavam a história de Portugal como se fosse um filme de acção, uma batalha entre os bons (nós) e os maus (os outros), em que os bons saíam sempre vitoriosos. Para isso era necessário, claro, mentir e omitir, o que não tinha importância nenhuma perante os mais altos valores do patriotismo. Os episódios mais violentos do nosso passado colectivo eram sempre exaltados e descritos de forma extremamente gráfica, ou para nos glorificar ou (se fosse caso disso) para nos vitimizar dando-nos razão. Eu, devo dizê-lo, gostava de história. Acreditava em tudo e achava que nenhum povo era tão glorioso como o nosso. Quando descobri, mais tarde, que não era verdade, tive um desgosto tão grande como quando me disseram que eram os pais que compravam os brinquedos no Natal, mas isso é matéria para outra história.
Hoje, gosto particularmente de recordar a forma como eu imaginava os episódios sangrentos que a professora nos contava. Quando aprendi, por exemplo, que no dia 1 de Dezembro de 1640, o secretário da regente de Portugal foi fenestrado pelos bravos revoltosos, nunca me passou pela cabeça que o tivessem atirado duma altura superior ao rés do chão. Depois, ele levantava-se empoeirado e com a peruca de lado, como nas comédias do Vasco Santana, sacudia-se... e fugia a correr até Espanha, assustado.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estive há tempos numa daquelas formações em que nos calha um formador do tipo "sambinha duma nota só". Daquelas em que, ao fim da primeira meia-hora, metade da sala já cabeceia travando bruscamente quando acorda a meio da queda, e outra metade tenta ocupar-se com alguma coisa que a impeça de dormir, como por exemplo sentar-se numa posição desconfortável ou ir discretamente à casa de banho. Eu, optei por fazer desenhos no manual fornecido.
Algum tempo depois, porém, perante a inevitabilidade de ter que executar as tarefas que supostamente tinha ido aprender, vi-me na contingência de lançar o isco a uma reunião com um especialista na matéria para "tirar dúvidas". Ele acedeu, prestável e simpático, mas pediu-me para levar comigo o manual da formação. No dia e hora combinados lá fui eu, cantando e rindo, sem sequer me lembrar da bonecada vária que tinha criado.
Então, quando ele começou a desfolhar o manual e se sucederam imagens de monstros desajeitados com a língua de fora, plantas carnívoras engolindo homenzinhos assustados, teias habitadas por aranhas com cabeças humanas e árvores de natal arraçadas de bichos vários, ele não se conteve:
- Esta formação foi chatinha. Não? - disse-me com um sorriso indisfarçável e provocador.
E eu, zangada por ter deixado tão estupidamente que aquilo acontecesse, e sem saber muito bem como me defender, perante uma árvore de natal com orelhas desenhada a BIC azul por cima dum decreto-lei, enterrei-me ainda mais:
- É que... estávamos quase no natal. Era o espírito da época...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Ali no fim do mundo, numa tasca escura com cheiro de vinho azedo e mesas cobertas de oleado seboso, onde os viajantes param para tomar café e juram nunca mais voltar, entrou uma família bizarra saída dum BMW luzidio. O pai de bigode e camisa aberta no peito a mostrar a medalhinha, a mãe gorda de cabelo vermelho em formato capacete e os fedelhos com aspecto chunga de subúrbio, fizeram a primeira abordagem a falar francês muito sonoro. Para que nenhum dos presentes duvidasse da sua categoria. A dona do tasco, também ex-emigrante, ao que se concluia, respondeu igualmente em francês.
E ali no fim do mundo, numa tasca escura com cheiro de vinho azedo e mesas cobertas de oleado seboso, os clientes tiveram pelo menos o espectáculo improvável de ver pessoas com aquele ar divertido, naquele sítio irreal, a comunicar numa língua que associamos a tudo menos àquele ambiente.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

As mais velhas mulheres da cidade chamam-lhe a "Manequim". Não com simpatia mas com desdém a disfarçar a inveja. De facto nota-se, apesar da idade avançada, que ela deve ter sido bafejada com muitas "qualidades" quando jovem. É alta e a silhueta ainda irrepreensível. As rugas sobrepõem-se a um rosto grego e o cabelo ainda é de qualidade considerável.
As mais velhas mulheres da cidade, dum tempo em que na cidade todos conheciam todos e todos fiscalizavam o comportamento de todos, contam que ela se despia à noite no quarto com as cortinas escancaradas e que, a essa hora, religiosamente, havia uma horda de homens na rua em frente à sua casa, apinhando-se para ter um vislumbre do que à altura era raro ver-se. Contam também que ela fazia de propósito, pormenor a não descurar como agravante do crime.
As mais velhas mulheres da cidade terminam sempre a história com um "Mas por causa disso nunca se casou, bem feita!", que é o que lhes alivia a alma atormentada pela inveja.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Contava-me a minha ex-sogra, senhora de muitas virtudes e prendas, que no tempo dela é que era! Mas isso não traz novidade porque é o que contam todas e quem sabe, contaremos nós também um dia àqueles que já não vamos conseguir compreender. A novidade é que para ela, o "é que era" passava por haver maridos que respeitavam tanto as suas esposas que, para as poupar a actos sórdidos e indignos, recorriam a prostitutas. Que essas sim, estão ali para servir de esfregona ou do que calhar. É o castigo de Deus por não serem honestas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Antigamente havia muitos. Hoje em dia, curiosamente, apesar da maior leveza dos costumes ou talvez mesmo por isso, quase não se vêem. Ou então andam mais discretos.
Falo dos detectives particulares, aqueles profissionais que imaginamos de chapéu e golas levantadas à Humphrey Bogart quando somos crianças, e que descobrimos que mais não são do que perseguidores pagos de cônjuges adúlteros quando crescemos um bocadinho.
Lá no bairro onde morei há muitos anos falava-se duma senhora que nunca ninguém viu e hoje tenho dúvidas de que tenha mesmo existido, cujo marido tinha contratado um desses detectives para a perseguir, desconfiado que andava das múltiplas idas ao cabeleireiro e à modista; e que depois dele lhe ter assegurado que a esposa era a mais fiel e virtuosa das esposas, veio a apanhar a ambos "com a boca na botija". Quer dizer, acho que mais ela do que ele.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Fiquei fascinada e não consegui parar de olhar. A senhora que estava à minha frente a ser atendida voltou-se para ir embora e tinha umas asas no rabo. Depois ficou mais um pouco no balcão em frente, de costas para mim e, juro-vos, ela tinha asas no rabo Senhor!
Mais concretamente, nuns jeans super-justos sobre uma camada de gordura e celulite digna de se candidatar ao guinness, brilhavam umas asas brancas aplicadas em relevo, cujas articulações saíam ali, do centro (esse sítio mesmo que vocês estão a pensar) e depois se prolongavam em angélicas asas que dobraram junto das ancas e chegavam à parte de trás dos joelhos. Foi uma visão tão intensa que eu pensei por momentos ter atingido a minha derradeira vocação de vidente!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Foi naquele sítio do costume. O tal onde não há talões nem outras complicações. Comprei, entre outras coisas, um saquinho com três malaguetas. Dirigi-me à caixa e a funcionária, quando pegou nele fez um ar assim como se tivesse visto alguma coisa muito, muito, muito aberrante e exclamou: - "Credo! Que raio é isto?! Que pimentos tão esquisitos!".
Eu respondi, muito discreta: - "São malaguetas." - e ela procedeu à busca, carregando nas teclas enquanto soletrava ma... la... gue... Parou com ar satisfeito. Olhou para mim e perguntou: - "Malaguetas verdes, não é?" - Eu, tendo em consideração a hipótese de a senhora sofrer de daltonismo, levantei o saco onde brilhavam três malaguetas vermelhas e luzidias e respondi: - "Bem... não."
"Pois é" - cotinuou ela muito despachada - "verdes não são." - e depois de reflectir um pouco:
- Mas são malaguetas. Portanto pelo menos metade vai certo!
Não discuti. As verdes até eram mais baratas.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ela tinha reputação de "possuída" ou de "morada aberta". Dizia-se que os que já tinham morrido lhe tomavam o corpo com a alma. Que por isso, tinha a faculdade, embora não consciente, de falar com vozes de homens, mulheres e crianças diversas, de alterar a sua própria fisionomia e de se ausentar estando presente, que era quando os olhos deixavam de ter qualquer expressão e se iam embora. Dizia-se que era possuída por espíritos bons, de familiares que, à falta de outro meio, assim vinham dar notícias e dizer que estavam bem, mas também por espíritos maus. E estes já não eram de família e só os mal-intencionados se atreveriam a insinuar tal, não fosse o medo respeitoso que ela impunha só por existir e ser assim. Quem sabe os espíritos não se revoltariam contra terceiros, que ninguém acredita em bruxas mas que as há, há!
Tive um dia a oportunidade única de assistir a uma das frequentes tomadas de posse do corpo por um espírito, quando tinha uns sete anos. Devia ser um dos maus, porque ela gritou, esbracejou, esperneou e disse palavras que eu não estava autorizada a pronunciar sob pena de levar pimenta na língua. Todos os adultos presentes juraram a pés juntos que tinham visto A, B ou C, ou ouvido distintamente a sua voz ou sentido de alguma forma a sua presença. Eu, embora tenha ficado sem dúvida impressionada pela intensidade dramática da cena, não consegui distingui-la das cenas de pancadaria a que costumava assistir entre a lavadeira da minha avó e a empregada dos correios que ela dizia que lhe andava a enfeitiçar o marido.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Como não costumava utilizar transportes públicos, não sabia muito bem como fazê-lo. Por isso, no dia em que precisei de apanhar o autocarro para o centro da cidade, preparei-me como se fosse fazer um exame. Vi os horários, certifiquei-me deles e comprei bilhete com antecedência. Uns cinco minutos antes da hora, saí de casa para fazer a pé os cerca de 200 metros que separavam a minha casa da paragem. Contudo, alguma coisa tinha corrido mal. Assim que fechei a porta do prédio, pude ver que o autocarro... já estava na paragem. Bolas! Corri desalmadamente, mas mesmo desalmadamente, para o apanhar. Enquanto corria e me aproximava, pude ver que as pessoas lá dentro olhavam todas para mim com um ar muito admirado. Pudera! - pensei eu - Devem estar a fazer apostas consigo próprias sobre a minha capacidade para chegar a tempo.
Finalmente atingi o objectivo. Completamente esbaforida com a corrida (nunca fui grande atleta), entrei desenfreada no autocarro e suspirei de alívio. Tinha conseguido! Sentei-me e preparei-me para a viagem. Toda a gente continuava a olhar para mim como se eu fosse uma fugitiva dum hospital psiquiátrico e isso irritou-me.
Mas logo percebi o que se passava. O autocarro continuou ali parado durante cinco minutos e saiu à hora. Isso acontecia todos os dias. Era a paragem onde o autocarro acertava o horário.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Embora seja um projecto que já abandonei por não haver lugar para mim no mercado de trabalho, eu já dei aulas. Num determinado ano em que fiquei colocada só com ensino recorrente nocturno, lá para meio do segundo período comecei a reparar que era a única professora que ainda tinha alunos mas não percebia muito bem porquê. A princípio limitava-me a achar que eles gostavam mais da minha disciplina. Tudo ficou claro na minha cabeça quando uma colega me disse, com ar paternalista:
- És mesmo estúpida! Tens a mania de ser boazinha e eles assim não desistem. Vais ter de trabalhar até ao fim do ano, vais ver!
Trabalhei, de facto, até ao final do ano lectivo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Lembro-me quando, há muitos anos, fui ao cinema com colegas de estudo ver “Os Amigos de Alex”. Há tanto tempo que ainda não se falava de sida. Entre os meus acompanhantes estava um rapazote do interior, vindo directamente da actividade de lavoura para a escola da cidade. Às tantas, quando uma das personagens disse:
- Sei que o meu marido me é fiel. Tem medo do herpes.
Ouviu-se, no silêncio da sala, esse colega a perguntar:
- Herpes?! Quem é o Herpes?
Toda a gente se riu. Mas tenho a certeza que ele não era o único a não saber o que era o herpes. Mas como diz aquela velha máxima: “Não faças perguntas idiotas. Espera que um idiota as faça por ti e depois ouve a resposta”.