sábado, 24 de janeiro de 2009

Sair do trabalho demasiado tarde, quando os outros já saíram todos, tem destas coisas.
Quando há uns dias tive que ir ao arquivo depois da hora, o quadro eléctrico já estava desligado. Como não há janelas naquele lugar, nem um raiozinho de lua havia para iluminar fosse o que fosse. Mas como conheço muito bem o percurso até ao que queria, optei por fazer o que tinha a fazer às escuras. Depois de lá estar há alguns segundos, os meus olhos começaram a habituar-se à escuridão e já conseguia vislumbrar os contornos das prateleiras mais altas à minha volta. Enquanto ia apalpando para encontrar o espaço onde tinha que meter um processo, passou-me pela cabeça uma cena de filme de série B, em que a mocinha indefesa é atacada de surpresa, no escuro, por um monstro mutante construído a partir de pedaços de coisas que encontraram na arrecadação dos estúdios.
E a verdade é que, quando atrás do local onde eu estava, algo caiu ao chão, apanhei um daqueles cagaços e só não corri dali para fora porque estava com medo de partir a cabeça numa estante.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estão a ver quando a gente chega a casa tarde, naquela hora que já se confunde com o cedo, e com a cabeça a pedir ao corpo: "Deita-te! Deita-te!"? Quando a gente se deita depois de sumariamente ter tirado a roupa toda duma vez, calças, cuecas e meias tudo numa só viagem de mãos, e a seguir dormir como se tivesse entrado em coma? Quando no dia a seguir (ou umas horitas depois), acordamos para a vida sem nos lembrarmos de quem somos, pegamos nas mesmas calças do dia anterior que lá estão a um canto, vestimos mais uma ou duas coisitas e saímos para a rua a correr?
Pronto. É porque se um dia virem alguém de pé num autocarro, com cara de quem levou porrada e nem sabe de quem, e com umas cuecas sujas penduradas, a sair misteriosamente da cintura das calças, foi isso que lhe aconteceu.
Claro que, devido a causas naturais, isto é um acidente mais frequente nos homens.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Eu comecei a desconfiar dele assim que o vi dispor as compras por ordem de grandeza e separadas por grupos em cima do tapete rolante da caixa do super-mercado. O ar de fastio que fez quando pôs o separador entre as coisas dele e as minhas, como se houvesse ali algum risco de contágio nefasto, deu-me a certeza: O homem era um cromo.
Mas o pormenor mais interessante de todos só veio depois. Quando a funcionária começou a passar as compras dele e a pô-las dos sacos, ele começou a entoar um hino enquanto tamborilava com os dedos na caixa registadora. Desconheço a origem do tema musical, mas fazia lembrar ao longe uma marcha de escuteiros ou da falecida mocidade portuguesa. Ele continuou até ao fim e terminou com uma imitação vocal de epílogo instrumental. De percussão. Enquanto a funcionária, envergonhada, tentava que os seus olhos não se encontrassem com os dele em nenhum momento... como se houvesse ali algum risco de contágio nefasto.
Tenho que dizer, é mentira. Isto não aconteceu. Mas foi o que eu imaginei que podia acontecer quando olhei para trás e vi um tipo penteadinho e de óculos reluzentes, ao melhor estilo "presidente de associação de pais que acumula com leigo da paróquia".

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Do alto dos seus oito anos ele decidiu que queria ser músico. Já tinha passado a fase de querer ser médico, bombeiro e homem do lixo, este último pela motivação de ordem prática da dispensa de estudos. A professora da segunda classe era uma chata, mas a da terceira equilibrou as vontades.
Naquele dia, acordou com uma música na cabeça. Uma música novinha, inédita, nunca ouvida antes. Ou seja, um original da sua autoria. Então, com medo de se esquecer da melodia e do compasso e com isso passar ao lado da grande carreira que ambicionava, resolveu registá-la por escrito. Pegou no caderno da escola e num lápis rombudo e, seguindo aquilo que ouvia mentalmente, foi escrevendo, fluente como Mozart. Ao mesmo tempo, ia pensando, que palermice tão grande terem inventado aqueles símbolos todos, com bolinhas e pauzinhos em cima de linhas tão finas, quando era tão fácil registar uma música sem ser preciso nada disso. Que estúpidos!
No dia seguinte, quis reproduzir para os amigos o tema musical que tinha criado. Como era de esperar, já não se lembrava dos sons de que ele era feito. "Mas não faz mal" - disse ele excitadíssimo - "tenho tudo aqui escrito!"
Pegou no caderninho e abriu-o. E aí, sem que ninguém percebesse porquê, o seu sorriso aberto dissipou-se numa nuvem. À sua frente, tinha uma folha onde a palavra "pam" se encontrava repetida, a lápis rombudo, dezenas de vezes seguidas... embora agora não fizesse qualquer sentido.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Por favor, digam-me que toda a gente, em alguma altura da sua vida, fez isto. Há muitos anos, no início da minha vida profissional, quando ainda tinha filhos pequenos que me faziam a cabeça em água de noite e de dia, saí para trabalhar de saia comprida de pregas em xadrez azul-escuro e beje, blusa e pullover azul-escuro por cima... e de pantufas azul-turqueza debruadas a cor-de-laranja.
Quando entrei na repartição, tive aquela estranha sensação de estar demasiado confortável. Olhei para baixo e vi a minha figura. Sentei-me na secretária, amuei, e recusei-me a levantar dali até à hora do intervalo de almoço. Durante toda a manhã os colegas tiveram que me trazer tudo: Livros, papéis, carimbos, tudo, enquanto se riam por dentro que nem uns perdidos e por fora só com os cantos dos olhos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sou do tempo pré-pedagógico em que nos ensinavam a história de Portugal como se fosse um filme de acção, uma batalha entre os bons (nós) e os maus (os outros), em que os bons saíam sempre vitoriosos. Para isso era necessário, claro, mentir e omitir, o que não tinha importância nenhuma perante os mais altos valores do patriotismo. Os episódios mais violentos do nosso passado colectivo eram sempre exaltados e descritos de forma extremamente gráfica, ou para nos glorificar ou (se fosse caso disso) para nos vitimizar dando-nos razão. Eu, devo dizê-lo, gostava de história. Acreditava em tudo e achava que nenhum povo era tão glorioso como o nosso. Quando descobri, mais tarde, que não era verdade, tive um desgosto tão grande como quando me disseram que eram os pais que compravam os brinquedos no Natal, mas isso é matéria para outra história.
Hoje, gosto particularmente de recordar a forma como eu imaginava os episódios sangrentos que a professora nos contava. Quando aprendi, por exemplo, que no dia 1 de Dezembro de 1640, o secretário da regente de Portugal foi fenestrado pelos bravos revoltosos, nunca me passou pela cabeça que o tivessem atirado duma altura superior ao rés do chão. Depois, ele levantava-se empoeirado e com a peruca de lado, como nas comédias do Vasco Santana, sacudia-se... e fugia a correr até Espanha, assustado.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Estive há tempos numa daquelas formações em que nos calha um formador do tipo "sambinha duma nota só". Daquelas em que, ao fim da primeira meia-hora, metade da sala já cabeceia travando bruscamente quando acorda a meio da queda, e outra metade tenta ocupar-se com alguma coisa que a impeça de dormir, como por exemplo sentar-se numa posição desconfortável ou ir discretamente à casa de banho. Eu, optei por fazer desenhos no manual fornecido.
Algum tempo depois, porém, perante a inevitabilidade de ter que executar as tarefas que supostamente tinha ido aprender, vi-me na contingência de lançar o isco a uma reunião com um especialista na matéria para "tirar dúvidas". Ele acedeu, prestável e simpático, mas pediu-me para levar comigo o manual da formação. No dia e hora combinados lá fui eu, cantando e rindo, sem sequer me lembrar da bonecada vária que tinha criado.
Então, quando ele começou a desfolhar o manual e se sucederam imagens de monstros desajeitados com a língua de fora, plantas carnívoras engolindo homenzinhos assustados, teias habitadas por aranhas com cabeças humanas e árvores de natal arraçadas de bichos vários, ele não se conteve:
- Esta formação foi chatinha. Não? - disse-me com um sorriso indisfarçável e provocador.
E eu, zangada por ter deixado tão estupidamente que aquilo acontecesse, e sem saber muito bem como me defender, perante uma árvore de natal com orelhas desenhada a BIC azul por cima dum decreto-lei, enterrei-me ainda mais:
- É que... estávamos quase no natal. Era o espírito da época...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Ali no fim do mundo, numa tasca escura com cheiro de vinho azedo e mesas cobertas de oleado seboso, onde os viajantes param para tomar café e juram nunca mais voltar, entrou uma família bizarra saída dum BMW luzidio. O pai de bigode e camisa aberta no peito a mostrar a medalhinha, a mãe gorda de cabelo vermelho em formato capacete e os fedelhos com aspecto chunga de subúrbio, fizeram a primeira abordagem a falar francês muito sonoro. Para que nenhum dos presentes duvidasse da sua categoria. A dona do tasco, também ex-emigrante, ao que se concluia, respondeu igualmente em francês.
E ali no fim do mundo, numa tasca escura com cheiro de vinho azedo e mesas cobertas de oleado seboso, os clientes tiveram pelo menos o espectáculo improvável de ver pessoas com aquele ar divertido, naquele sítio irreal, a comunicar numa língua que associamos a tudo menos àquele ambiente.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

As mais velhas mulheres da cidade chamam-lhe a "Manequim". Não com simpatia mas com desdém a disfarçar a inveja. De facto nota-se, apesar da idade avançada, que ela deve ter sido bafejada com muitas "qualidades" quando jovem. É alta e a silhueta ainda irrepreensível. As rugas sobrepõem-se a um rosto grego e o cabelo ainda é de qualidade considerável.
As mais velhas mulheres da cidade, dum tempo em que na cidade todos conheciam todos e todos fiscalizavam o comportamento de todos, contam que ela se despia à noite no quarto com as cortinas escancaradas e que, a essa hora, religiosamente, havia uma horda de homens na rua em frente à sua casa, apinhando-se para ter um vislumbre do que à altura era raro ver-se. Contam também que ela fazia de propósito, pormenor a não descurar como agravante do crime.
As mais velhas mulheres da cidade terminam sempre a história com um "Mas por causa disso nunca se casou, bem feita!", que é o que lhes alivia a alma atormentada pela inveja.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Contava-me a minha ex-sogra, senhora de muitas virtudes e prendas, que no tempo dela é que era! Mas isso não traz novidade porque é o que contam todas e quem sabe, contaremos nós também um dia àqueles que já não vamos conseguir compreender. A novidade é que para ela, o "é que era" passava por haver maridos que respeitavam tanto as suas esposas que, para as poupar a actos sórdidos e indignos, recorriam a prostitutas. Que essas sim, estão ali para servir de esfregona ou do que calhar. É o castigo de Deus por não serem honestas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Antigamente havia muitos. Hoje em dia, curiosamente, apesar da maior leveza dos costumes ou talvez mesmo por isso, quase não se vêem. Ou então andam mais discretos.
Falo dos detectives particulares, aqueles profissionais que imaginamos de chapéu e golas levantadas à Humphrey Bogart quando somos crianças, e que descobrimos que mais não são do que perseguidores pagos de cônjuges adúlteros quando crescemos um bocadinho.
Lá no bairro onde morei há muitos anos falava-se duma senhora que nunca ninguém viu e hoje tenho dúvidas de que tenha mesmo existido, cujo marido tinha contratado um desses detectives para a perseguir, desconfiado que andava das múltiplas idas ao cabeleireiro e à modista; e que depois dele lhe ter assegurado que a esposa era a mais fiel e virtuosa das esposas, veio a apanhar a ambos "com a boca na botija". Quer dizer, acho que mais ela do que ele.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Fiquei fascinada e não consegui parar de olhar. A senhora que estava à minha frente a ser atendida voltou-se para ir embora e tinha umas asas no rabo. Depois ficou mais um pouco no balcão em frente, de costas para mim e, juro-vos, ela tinha asas no rabo Senhor!
Mais concretamente, nuns jeans super-justos sobre uma camada de gordura e celulite digna de se candidatar ao guinness, brilhavam umas asas brancas aplicadas em relevo, cujas articulações saíam ali, do centro (esse sítio mesmo que vocês estão a pensar) e depois se prolongavam em angélicas asas que dobraram junto das ancas e chegavam à parte de trás dos joelhos. Foi uma visão tão intensa que eu pensei por momentos ter atingido a minha derradeira vocação de vidente!