sábado, 31 de janeiro de 2009

Há qualquer coisa nas pessoas simples que me agrada. Não as simples no sentido de toscas, mas as simples no sentido de descomplicadas.
Como uma moçoila que eu conheço, que justificou desta forma o facto de não querer sair do trabalho à sexta-feira de uniforme vestido:
- Então e se eu, antes de chegar a casa, encontro um gajo bom que me dá troco? Como é? Ainda tenho que ir a casa mudar de roupa antes de sair com ele? Sabes perfeitamente que eu sou fácil!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fui submetida há pouco tempo a uma pequena cirurgia. Tudo correu bem, excepto um pormenor: Como tenho umas mãos muito pequenas, muito frágeis (quando era pequena nem conseguia apanhar a bola de andebol nas aulas de educação física), os enfermeiros não conseguiam acertar-me nas veias para me pôr o soro. Por isso, tiveram que me picar várias vezes, sempre nas costas das mãos e sempre sem sucesso porque as veias rebentavam. Agora, ando com uns belos duns hematomas em ambas as mãos, como se fosse uma agarrada que já gastou os braços de tanto se picar. Não tem piada.
Fartinha de explicar a toda a gente o que me aconteceu, resolvi mudar a versão da história para lhe dar um sentido mais grandioso e um toque de mistério. Quando uma conhecida minha me apareceu a perguntar-me (mais uma!) -"O que é que te aconteceu às mãos???"- tive um rasgo de misticismo e expliquei-lhe:
- São estigmas. De vez em quando aparecem-me e eu não tenho explicação para isto. Há pessoas que têm isto, sabes? São as chagas de Cristo. - e fiquei a olhar para ela sem me rir nem nada.
Não sei o que ela pensou. Mas o ar estúpido com que ficou faz-me pensar que talvez vá nascer um novo boato a meu respeito. Promete!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fui uma aluna da instrução primária exemplar, aplicada, que ia acreditando em tudo o que me vendiam. Acreditava no império português, nos heróis e na grandiosidade da pátria. Sabia (e ainda sei) cantar o hino nacional sem desafinar e rezar o pai-nosso. A primeira atitude rebelde que tive, e nem sabia que a estava a ter, foi quando a professora nos ensinou, solene, que os homens são muito mais úteis à sociedade do que as mulheres. Senti-me ferida, como se me tivessem acabado de insultar com um nome muito muito feio que eu não tinha autorização para pronunciar. Falei, pela primeira vez, sem pedir autorização para tal. Disse à professora que não era nada disso, que nós éramos capazes de fazer tudo o que os homens faziam. Que queria estudar e ter um profissão e não ser inútil. Que ela não devia dizer aquelas coisas porque também era mulher e era professora. E não, não o disse por desafio que eu não sabia o que era, disse-o porque fiquei mesmo muito ofendida. A professora mandou-me levantar e ficar de pé ao lado da secretária, que era nesse tempo a posição oficial em quer éramos interrogados na escola. Depois perguntou-me:
-A menina já viu uma mulher general?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher juiz?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher ministro?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher construir casas? Barcos? Automóveis?
-Não minha senhora.
-Então cale-se e não perturbe a classe.

Apeteceu-me chorar. Durante o resto dia e por mais alguns anos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Comprei a minha primeira câmara de vídeo quando elas ainda eram uma novidade. Era enorme, comia cassettes VHS, pouco dava em troca e custou muito, muito dinheiro para o meu orçamento. Mas valeu a pena porque me diverti imenso com ela, e acho que os meus filhos também. Nos fins-de-semana e nas férias, construíamos pequenos argumentos, desenhávamos os créditos em folhas de papel cavalinho que um deles ia passar à mão, discretamente e, como a tal dita máquina não era tão boa que desse para adicionar música aos filmes, tínhamos que a ter a tocar no próprio ambiente de filmagem quando o guião a exigia. Quantas vezes tivemos que recomeçar um filme porque alguém tocou à campaínha ou porque tocou o telefone!
Ainda hoje não perdi esta capacidade de ser absolutamente infantil sem recorrer a nenhum esforço. Não sei se é uma virtude ou um defeito. Mas às vezes penso que quando for velhinha, naquela idade em que nos tornamos criancinhas mesmo sem querer, não sei o que será de mim, não sei não! Ninguém me vai aguentar!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um dos momentos altos da minha infância teve lugar quando descobri os materiais que a minha mãe tinha guardados desde o tempo do curso de formação feminina. Quando os meus olhos se depararam com aqueles calhamaços cheios de pequenas amostras de pano que ilustravam as diversas formas de coser botões, os diversos pontos de bordado, as diversas técnicas de fazer bainhas e debruados... descobri que andava a ser enganada há imenso tempo. Então, no tempo dela, estudar era isto???!!! Cortar paninhos?! Coser botões?! E a mim obrigam-me a decorar todos os reis de Portugal por ordem, dão-me nas orelhas quando não acerto os problemas de aritmética e fazem-me saber as linhas de comboio, as montanhas e os rios??? Naquele dia decidi que ia fazer uma reinvincação, queria ir para uma escola daquelas! Logo depois, decobri que já não havia. Pois pois! O que é bom acaba depressa!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Era uma quinta imensa, que há muitos anos não via caseiro nem cuidados, com uma casa rural no meio. O mato crescia por todo o lado e as plantas trepadeiras subiam as caleiras e as árvores. O ar de abandono conferia ao local um aspecto de cenário natural para um filme fantástico. Era aí, rodeada de objectos com memórias longínquas, que vivia uma das famílias mais singulares que tive a oportunidade de conhecer: A mãe viúva, já octogenária, e três filhas entre os cinquentas e os sessentas. Duas solteiras e uma vergonhosamente abandonada pelo marido, que com ela não tinha ficado mais do que dois dias, nunca ninguém soube porquê. As quatro, carrancudas e ciosas das suas virtudes, transformavam definitivamente o lugar já de si inóspito numa lenda viva. Não havia alma na aldeia que dali se aproximasse sem se benzer, receosa das histórias que se contavam sobre as "quatro bruxas". Mas houve sim, uma alma forasteira que se aproximou, movida, não pela fama de feitiçaria, mas pelos rumores de ali haver fortuna. Contra todas as expectativas, um solteirão vindo de longe seduziu a filha mais nova e logo casou com ela. Ninguém queria acreditar que a um homem assim, de cabelo pintado, gravatas brilhantes e que era visto a fumar charutos na "esplanada" do tasco da aldeia, tinha sido franqueada a entrada da residência misteriosa.
Algum tempo depois do casamento, quando lá fui uma vez em visita (sim, eram minhas tias por afinidade), a matriarca mostrava-se agastada e sofredora. Mal nos abriu a porta, segredou-nos que nos ia mostrar uma coisa. Levou-nos por corredores labirínticos até chegar à sala principal da casa:
- Vejam-me só isto! - disse ela enquanto apontava para uma parede, desviando o olhar.
De facto, a mesma estava coberta de calendários daqueles que vemos nas oficinas e nos camiões, com mulheres nuas e sorridentes, de todos os formatos, tamanhos e cores, por entre as imagens sacras e as fotos antigas de família. O mesmo acontecia na casa de banho, na cozinha e em vários quartos.
- Que mal fiz eu a Deus para me entrar agora isto pela porta dentro? - insistiu ela benzendo-se - E a ******* que não tem mão nele!...
Perante aquele espectáculo, eu não consegui fazer mais do que acenar com a cabeça dando-lhe razão e rir-me por dentro até às lágrimas com o ridículo da situação. Os restantes presentes, também. Aliás, durante alguns anos, não se falava doutra coisa em serões e reuniões familiares.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Em tempos de menor fartura, a minha avó fazia filhoses. Pedaços fritos de farinha com ovos e açúcar cujo odor forte enchia a casa toda e fazia a felicidade de cinco filhos pequenos. Na vizinhança, nem todos se podiam dar ao luxo de ter, de vez em quando, filhoses. Por isso, quando sabiam que a minha avó as tinha feito, apareciam em bando, como quem não quer a coisa, fazendo visitas de cortesia. Lá em casa, estavam todos avisados: "Não digam a ninguém que há filhoses!"
E não se dizia, era um segredo de família! Só que, durante a confecção, já iam aparecendo pessoas, que naquele tempo ir à casa dum vizinho contar uma novidade ou pedir salsa, era tão natural como hoje ir ver a caixa do correio e trancar-se em casa a seguir. A minha mãe e os meus tios, excitados com a antecipação do doce lanche, abriam a porta, e a primeira coisa que diziam, fosse quem fosse que lá estivesse e antes que pudesse abrir a boca, era:
- Não! A minha mãe não fez filhoses!

Ainda hoje, a frase "a minha mãe não fez filhoses" é usada na nossa família como private joke, sempre que alguém está a tentar esconder algo muito evidente.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Sair do trabalho demasiado tarde, quando os outros já saíram todos, tem destas coisas.
Quando há uns dias tive que ir ao arquivo depois da hora, o quadro eléctrico já estava desligado. Como não há janelas naquele lugar, nem um raiozinho de lua havia para iluminar fosse o que fosse. Mas como conheço muito bem o percurso até ao que queria, optei por fazer o que tinha a fazer às escuras. Depois de lá estar há alguns segundos, os meus olhos começaram a habituar-se à escuridão e já conseguia vislumbrar os contornos das prateleiras mais altas à minha volta. Enquanto ia apalpando para encontrar o espaço onde tinha que meter um processo, passou-me pela cabeça uma cena de filme de série B, em que a mocinha indefesa é atacada de surpresa, no escuro, por um monstro mutante construído a partir de pedaços de coisas que encontraram na arrecadação dos estúdios.
E a verdade é que, quando atrás do local onde eu estava, algo caiu ao chão, apanhei um daqueles cagaços e só não corri dali para fora porque estava com medo de partir a cabeça numa estante.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estão a ver quando a gente chega a casa tarde, naquela hora que já se confunde com o cedo, e com a cabeça a pedir ao corpo: "Deita-te! Deita-te!"? Quando a gente se deita depois de sumariamente ter tirado a roupa toda duma vez, calças, cuecas e meias tudo numa só viagem de mãos, e a seguir dormir como se tivesse entrado em coma? Quando no dia a seguir (ou umas horitas depois), acordamos para a vida sem nos lembrarmos de quem somos, pegamos nas mesmas calças do dia anterior que lá estão a um canto, vestimos mais uma ou duas coisitas e saímos para a rua a correr?
Pronto. É porque se um dia virem alguém de pé num autocarro, com cara de quem levou porrada e nem sabe de quem, e com umas cuecas sujas penduradas, a sair misteriosamente da cintura das calças, foi isso que lhe aconteceu.
Claro que, devido a causas naturais, isto é um acidente mais frequente nos homens.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Eu comecei a desconfiar dele assim que o vi dispor as compras por ordem de grandeza e separadas por grupos em cima do tapete rolante da caixa do super-mercado. O ar de fastio que fez quando pôs o separador entre as coisas dele e as minhas, como se houvesse ali algum risco de contágio nefasto, deu-me a certeza: O homem era um cromo.
Mas o pormenor mais interessante de todos só veio depois. Quando a funcionária começou a passar as compras dele e a pô-las dos sacos, ele começou a entoar um hino enquanto tamborilava com os dedos na caixa registadora. Desconheço a origem do tema musical, mas fazia lembrar ao longe uma marcha de escuteiros ou da falecida mocidade portuguesa. Ele continuou até ao fim e terminou com uma imitação vocal de epílogo instrumental. De percussão. Enquanto a funcionária, envergonhada, tentava que os seus olhos não se encontrassem com os dele em nenhum momento... como se houvesse ali algum risco de contágio nefasto.
Tenho que dizer, é mentira. Isto não aconteceu. Mas foi o que eu imaginei que podia acontecer quando olhei para trás e vi um tipo penteadinho e de óculos reluzentes, ao melhor estilo "presidente de associação de pais que acumula com leigo da paróquia".

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Do alto dos seus oito anos ele decidiu que queria ser músico. Já tinha passado a fase de querer ser médico, bombeiro e homem do lixo, este último pela motivação de ordem prática da dispensa de estudos. A professora da segunda classe era uma chata, mas a da terceira equilibrou as vontades.
Naquele dia, acordou com uma música na cabeça. Uma música novinha, inédita, nunca ouvida antes. Ou seja, um original da sua autoria. Então, com medo de se esquecer da melodia e do compasso e com isso passar ao lado da grande carreira que ambicionava, resolveu registá-la por escrito. Pegou no caderno da escola e num lápis rombudo e, seguindo aquilo que ouvia mentalmente, foi escrevendo, fluente como Mozart. Ao mesmo tempo, ia pensando, que palermice tão grande terem inventado aqueles símbolos todos, com bolinhas e pauzinhos em cima de linhas tão finas, quando era tão fácil registar uma música sem ser preciso nada disso. Que estúpidos!
No dia seguinte, quis reproduzir para os amigos o tema musical que tinha criado. Como era de esperar, já não se lembrava dos sons de que ele era feito. "Mas não faz mal" - disse ele excitadíssimo - "tenho tudo aqui escrito!"
Pegou no caderninho e abriu-o. E aí, sem que ninguém percebesse porquê, o seu sorriso aberto dissipou-se numa nuvem. À sua frente, tinha uma folha onde a palavra "pam" se encontrava repetida, a lápis rombudo, dezenas de vezes seguidas... embora agora não fizesse qualquer sentido.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Por favor, digam-me que toda a gente, em alguma altura da sua vida, fez isto. Há muitos anos, no início da minha vida profissional, quando ainda tinha filhos pequenos que me faziam a cabeça em água de noite e de dia, saí para trabalhar de saia comprida de pregas em xadrez azul-escuro e beje, blusa e pullover azul-escuro por cima... e de pantufas azul-turqueza debruadas a cor-de-laranja.
Quando entrei na repartição, tive aquela estranha sensação de estar demasiado confortável. Olhei para baixo e vi a minha figura. Sentei-me na secretária, amuei, e recusei-me a levantar dali até à hora do intervalo de almoço. Durante toda a manhã os colegas tiveram que me trazer tudo: Livros, papéis, carimbos, tudo, enquanto se riam por dentro que nem uns perdidos e por fora só com os cantos dos olhos.