quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Não tenho talento nenhum para fazer compras em feiras ou mercados ao ar livre. Numa das vezes em que tentei, ainda no tempo dos escudos, fui comprar flores. Depois de escolher um enorme ramo de cravos vermelho-escuro, dirigi-me ao agricultor e perguntei-lhe quanto era:
- Trinta escudos - respondeu ele muito direito, como se se defendesse de qualquer coisa que eu não percebi logo o que era mas que mais tarde descobri serem os regateiros.
- Trinta escudos?! - perguntei eu surpresa por ter achado demasiado barato. É que na verdade, são quinze cêntimos no dinheiro actual, numa florista não daria nem para uma flor!
- Pronto - retorquiu ele já mais humilde - faço por vinte.
E depois novamente na defesa:
- Mas não desço mais nada!

Quanto a mim, só me faltou pedir-lhe que, por favor, não descesse mais o preço, que eu já estava envergonhada q.b. por haver quem pensasse que eu discutia dez escudos num ramo de flores. Paguei rapidamente e fugi dali.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Como frequentei a universidade já tarde, com emprego, filhos, marido e casa, nunca participei naquilo a que se chama "vida académica". Se por um lado não tinha tempo nem disponibilidade, por outro achava tudo aquilo demasiado imbecil para mim. Os trajes académicos, os gritos de "eférriá", os desfiles, as bebedeiras, os concertos de música chunga para acompanhar estados de ausência por embriaguez, tudo isso me parecia pertencer a um planeta distante onde eu dispensaria viver.
Mas não escapei a tudo. Sempre que era necessário fazer trabalhos de grupo pela noite dentro, dava comigo em apartamentos alugados onde, invariavelmente, acontecia uma ou mais das seguintes situações:
- Havia lixo e desordem por todo o lado;
- Havia um casal (ou mais) a divertir-se em altos decibéis no quarto ao lado;
- Uma ou mais pessoas estava com uma grande moca e não tinha condições de pensar em linguística ou literatura.

A melhor de todas, porém, foi quando uma vez se ouviu um grande estrondo contra a parede da sala onde estávamos e apareceu uma mocinha em estado "natural" e segurando a cabeça dorida, a insultar o rapaz com quem estava no quarto, que era um inútil e que nem uma pinada sabia dar em condições sem lhe atirar com a cabeça contra a parede.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Num tempo tão velho que já nem é o meu, que já tenho uma estadia razoável sobre a terra para me lembrar de coisas bem estranhas, naquele tempo em que a virgindade das noivas tinha uma cotação real no mercado de valores, aconteceu esta história.
Na noite do seu casamento, a C****, virgem de corpo mas não tanto de mente, que naquele tempo a cabeça já vagueava tanto como hoje ou talvez mais, retirou-se para o quarto de hotel com o seu recém-marido, como ditavam os costumes e sempre se fazia. Ansiosa e excitada com as descobertas que a noite lhe reservaria, trancou-se na casa de banho para se arranjar, munida de todos os segredos e truques de todas as amigas mais experientes (leia-se casadas). O perfume, a lingerie, a camisa de dormir, os cremes e até o tempo em demasia a preparar-se para impacientar o amante e se "fazer cara" uma última vez, tudo lhe tinha sido recomendado e explicado ao pormenor. Uma hora depois de entrar, a C**** saiu da casa de banho triunfante mas tímida, radiante nas suas vestes brancas, pronta para enfrentar a primeira e a última das noites de sonho antes de se tornar doméstica e parideira, como também era costume nesse tempo. Só que, ao contrário de tudo quanto lhe tinham prometido, logo que passou ao quarto, a C**** teve uma visão de horror. Cansado e gasto pelo dia agitado, pela comida em exagero, pela bebida a mais, pela cerimónia, por tudo, o marido, com o nó da gravata desapertado, deitado de costas na cama, dormia profunda e sonoramente, de tal maneira que nem quando ela bateu propositadamente a porta da casa de banho ele acordou.
Depois de alguns minutos ali especada, ridiculamente aperaltada como se fosse fazer um close-up num filme sobre a noiva de Drácula, a C**** decidiu-se. Voltou para a casa de banho e vestiu-se para sair. Depois, sentou-se numa cadeira ao lado da cama e esperou, horas a fio, que o marido acordasse. Finalmente, quando o sol já entrava pela janela, ele acordou. Olhou para ela e sorriu, como se nada fosse. Ela, seriíssima e adivinhando o que lhe ia na cabeça, levantou-se e disse-lhe, secamente:
- Que bom que já acordaste, querido! Então prepara-te e vamos sair. Já é dia!
Calcorrearam toda a cidade a visitar museus, monumentos, jardins, tudo o que havia para ver, e ele sem perceber muito bem o que se passava. Já de noite regressaram ao hotel e ela fez-lhe saber que, coitado, devia estar muito cansado, que dormisse que ela já vinha, e trancou-se novamente na casa de banho mas desta vez para ela própria dormir, encostada na banheira.

- Aquele cabrão pensava que se safava assim! - contava a C**** em grupos de amigos, muitos anos depois, sempre no meio de gargalhadas - Andou mais de quinze dias até me conseguir pôr as mãos em cima! A vingança duma mulher rejeitada é terrível!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Antes de substituir de vez a imagem que adoptei para este blog, quero contar-vos a sua história.
Trata-se uma boneca de papier maché que comprei em Espanha numas férias. Quando a vi na prateleira da loja achei-a o máximo, muito colorida, muito redonda, muito espanhola... mas também muito cara.
Entretanto, entrou um grupo de turistas japoneses que se puseram a fazer o que eles sempre fazem: a disparar as máquinas fotográficas contra tudo o que mexe e o que não mexe. Muito baixinhos, parecia que a loja tinha sido alvo dum ataque de gremlins tecnológicos.
A dona da loja ficou com ar de poucos amigos e em conversa com o meu marido (sim, ele fala espanhol, eu não) explicou-lhe que aquilo era frequente, tirarem fotografias para copiar posteriormente os artigos.
Foi um impulso. Tirar a boneca da prateleira e levá-la comigo mesmo no momento em que um japonês se praparava para lhe fazer o retrato deu-me um gostinho especial. Não de maldade, apenas divertido. Com certeza ele teria muito mais o que retratar.
Mas apesar de gostar muito da minha boneca espanhola, de vestido às bolas e ramo de flores farfalhudas junto ao peito, acho que não está a funcionar muito bem aqui. É tudo uma questão de contexo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Vou contar-vos a história do "Five Star".
Era um rapagão jeitoso, enfim, pelo menos para os apreciadores do género. Grande, louro e de olhos azuis simpáticos e quase inocentes. Foi contratado para ser o nosso estafeta, que é como quem diz o tipo que acarretava os processos dum lado para o outro. Foi visível a todos que a chefe, rapariga de quarentas, assanhada q.b., foi logo sensível aos encantos do novo auxiliar de serviços. Então, após as apresentações e o acolhimento da praxe, como não havia processos para levar a lado nenhum naquele momento, mandou-o fazer umas etiquetas auto-colantes para identificar os documentos que tínhamos guardados nas várias estantes, coisa que já era necessária há algum tempo mas para a qual ainda não tinha havido oportunidade. Ele, na ânsia de se mostrar útil comum a todos os caloiros, meteu imediatamente mãos à obra. Algum tempo depois, deu a tarefa por concluída e chamou-nos para ver. Aproximámo-nos e, horrorizados, constatámos que as nossas prateleiras e armários estavam infectadas com etiquetas várias, coladas por toda a parte, em que cada palavra, escrita com uma caligrafia perfeitamente boçal, continha pelo menos dois erros ortográficos graves, quando não mais.
A chefe esboçou um sinal de que ia falar e, dada a fama (e proveito) de arruaceira que tinha, pensámos logo todos:
- Coitado! Está frito...
Só que, para surpresa geral, o que ela disse, embevecida e com um sorriso pateta na cara, enquanto (juraríamos) fixava o olhar num quadrante do novo colega algures entre os joelhos e o umbigo, foi:
- Este rapaz é cinco estrelas!!!

E foi assim que o S***** ganhou a alcunha de "Five Star". Até hoje, que já casou, ganhou barriga e gerou prole.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Há qualquer coisa nas pessoas simples que me agrada. Não as simples no sentido de toscas, mas as simples no sentido de descomplicadas.
Como uma moçoila que eu conheço, que justificou desta forma o facto de não querer sair do trabalho à sexta-feira de uniforme vestido:
- Então e se eu, antes de chegar a casa, encontro um gajo bom que me dá troco? Como é? Ainda tenho que ir a casa mudar de roupa antes de sair com ele? Sabes perfeitamente que eu sou fácil!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fui submetida há pouco tempo a uma pequena cirurgia. Tudo correu bem, excepto um pormenor: Como tenho umas mãos muito pequenas, muito frágeis (quando era pequena nem conseguia apanhar a bola de andebol nas aulas de educação física), os enfermeiros não conseguiam acertar-me nas veias para me pôr o soro. Por isso, tiveram que me picar várias vezes, sempre nas costas das mãos e sempre sem sucesso porque as veias rebentavam. Agora, ando com uns belos duns hematomas em ambas as mãos, como se fosse uma agarrada que já gastou os braços de tanto se picar. Não tem piada.
Fartinha de explicar a toda a gente o que me aconteceu, resolvi mudar a versão da história para lhe dar um sentido mais grandioso e um toque de mistério. Quando uma conhecida minha me apareceu a perguntar-me (mais uma!) -"O que é que te aconteceu às mãos???"- tive um rasgo de misticismo e expliquei-lhe:
- São estigmas. De vez em quando aparecem-me e eu não tenho explicação para isto. Há pessoas que têm isto, sabes? São as chagas de Cristo. - e fiquei a olhar para ela sem me rir nem nada.
Não sei o que ela pensou. Mas o ar estúpido com que ficou faz-me pensar que talvez vá nascer um novo boato a meu respeito. Promete!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fui uma aluna da instrução primária exemplar, aplicada, que ia acreditando em tudo o que me vendiam. Acreditava no império português, nos heróis e na grandiosidade da pátria. Sabia (e ainda sei) cantar o hino nacional sem desafinar e rezar o pai-nosso. A primeira atitude rebelde que tive, e nem sabia que a estava a ter, foi quando a professora nos ensinou, solene, que os homens são muito mais úteis à sociedade do que as mulheres. Senti-me ferida, como se me tivessem acabado de insultar com um nome muito muito feio que eu não tinha autorização para pronunciar. Falei, pela primeira vez, sem pedir autorização para tal. Disse à professora que não era nada disso, que nós éramos capazes de fazer tudo o que os homens faziam. Que queria estudar e ter um profissão e não ser inútil. Que ela não devia dizer aquelas coisas porque também era mulher e era professora. E não, não o disse por desafio que eu não sabia o que era, disse-o porque fiquei mesmo muito ofendida. A professora mandou-me levantar e ficar de pé ao lado da secretária, que era nesse tempo a posição oficial em quer éramos interrogados na escola. Depois perguntou-me:
-A menina já viu uma mulher general?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher juiz?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher ministro?
-Não minha senhora.
-A menina já viu uma mulher construir casas? Barcos? Automóveis?
-Não minha senhora.
-Então cale-se e não perturbe a classe.

Apeteceu-me chorar. Durante o resto dia e por mais alguns anos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Comprei a minha primeira câmara de vídeo quando elas ainda eram uma novidade. Era enorme, comia cassettes VHS, pouco dava em troca e custou muito, muito dinheiro para o meu orçamento. Mas valeu a pena porque me diverti imenso com ela, e acho que os meus filhos também. Nos fins-de-semana e nas férias, construíamos pequenos argumentos, desenhávamos os créditos em folhas de papel cavalinho que um deles ia passar à mão, discretamente e, como a tal dita máquina não era tão boa que desse para adicionar música aos filmes, tínhamos que a ter a tocar no próprio ambiente de filmagem quando o guião a exigia. Quantas vezes tivemos que recomeçar um filme porque alguém tocou à campaínha ou porque tocou o telefone!
Ainda hoje não perdi esta capacidade de ser absolutamente infantil sem recorrer a nenhum esforço. Não sei se é uma virtude ou um defeito. Mas às vezes penso que quando for velhinha, naquela idade em que nos tornamos criancinhas mesmo sem querer, não sei o que será de mim, não sei não! Ninguém me vai aguentar!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um dos momentos altos da minha infância teve lugar quando descobri os materiais que a minha mãe tinha guardados desde o tempo do curso de formação feminina. Quando os meus olhos se depararam com aqueles calhamaços cheios de pequenas amostras de pano que ilustravam as diversas formas de coser botões, os diversos pontos de bordado, as diversas técnicas de fazer bainhas e debruados... descobri que andava a ser enganada há imenso tempo. Então, no tempo dela, estudar era isto???!!! Cortar paninhos?! Coser botões?! E a mim obrigam-me a decorar todos os reis de Portugal por ordem, dão-me nas orelhas quando não acerto os problemas de aritmética e fazem-me saber as linhas de comboio, as montanhas e os rios??? Naquele dia decidi que ia fazer uma reinvincação, queria ir para uma escola daquelas! Logo depois, decobri que já não havia. Pois pois! O que é bom acaba depressa!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Era uma quinta imensa, que há muitos anos não via caseiro nem cuidados, com uma casa rural no meio. O mato crescia por todo o lado e as plantas trepadeiras subiam as caleiras e as árvores. O ar de abandono conferia ao local um aspecto de cenário natural para um filme fantástico. Era aí, rodeada de objectos com memórias longínquas, que vivia uma das famílias mais singulares que tive a oportunidade de conhecer: A mãe viúva, já octogenária, e três filhas entre os cinquentas e os sessentas. Duas solteiras e uma vergonhosamente abandonada pelo marido, que com ela não tinha ficado mais do que dois dias, nunca ninguém soube porquê. As quatro, carrancudas e ciosas das suas virtudes, transformavam definitivamente o lugar já de si inóspito numa lenda viva. Não havia alma na aldeia que dali se aproximasse sem se benzer, receosa das histórias que se contavam sobre as "quatro bruxas". Mas houve sim, uma alma forasteira que se aproximou, movida, não pela fama de feitiçaria, mas pelos rumores de ali haver fortuna. Contra todas as expectativas, um solteirão vindo de longe seduziu a filha mais nova e logo casou com ela. Ninguém queria acreditar que a um homem assim, de cabelo pintado, gravatas brilhantes e que era visto a fumar charutos na "esplanada" do tasco da aldeia, tinha sido franqueada a entrada da residência misteriosa.
Algum tempo depois do casamento, quando lá fui uma vez em visita (sim, eram minhas tias por afinidade), a matriarca mostrava-se agastada e sofredora. Mal nos abriu a porta, segredou-nos que nos ia mostrar uma coisa. Levou-nos por corredores labirínticos até chegar à sala principal da casa:
- Vejam-me só isto! - disse ela enquanto apontava para uma parede, desviando o olhar.
De facto, a mesma estava coberta de calendários daqueles que vemos nas oficinas e nos camiões, com mulheres nuas e sorridentes, de todos os formatos, tamanhos e cores, por entre as imagens sacras e as fotos antigas de família. O mesmo acontecia na casa de banho, na cozinha e em vários quartos.
- Que mal fiz eu a Deus para me entrar agora isto pela porta dentro? - insistiu ela benzendo-se - E a ******* que não tem mão nele!...
Perante aquele espectáculo, eu não consegui fazer mais do que acenar com a cabeça dando-lhe razão e rir-me por dentro até às lágrimas com o ridículo da situação. Os restantes presentes, também. Aliás, durante alguns anos, não se falava doutra coisa em serões e reuniões familiares.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Em tempos de menor fartura, a minha avó fazia filhoses. Pedaços fritos de farinha com ovos e açúcar cujo odor forte enchia a casa toda e fazia a felicidade de cinco filhos pequenos. Na vizinhança, nem todos se podiam dar ao luxo de ter, de vez em quando, filhoses. Por isso, quando sabiam que a minha avó as tinha feito, apareciam em bando, como quem não quer a coisa, fazendo visitas de cortesia. Lá em casa, estavam todos avisados: "Não digam a ninguém que há filhoses!"
E não se dizia, era um segredo de família! Só que, durante a confecção, já iam aparecendo pessoas, que naquele tempo ir à casa dum vizinho contar uma novidade ou pedir salsa, era tão natural como hoje ir ver a caixa do correio e trancar-se em casa a seguir. A minha mãe e os meus tios, excitados com a antecipação do doce lanche, abriam a porta, e a primeira coisa que diziam, fosse quem fosse que lá estivesse e antes que pudesse abrir a boca, era:
- Não! A minha mãe não fez filhoses!

Ainda hoje, a frase "a minha mãe não fez filhoses" é usada na nossa família como private joke, sempre que alguém está a tentar esconder algo muito evidente.