segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Deitava-se frequentemente com homens casados. Não o fazia propositadamente por serem casados, pois esse pormenor era-lhe até indiferente. O facto de serem casados, era apenas obra do acaso.
Nunca lhe passou pela cabeça que estava a trair outra mulher nem tão-pouco o contrário.
Nunca lhe passou pela cabeça que não deveria fazer aquilo, nem tão-pouco o contrário.
Nunca lhe passou pela cabeça que havia uma família envolvida, nem tão-pouco o contrário.
Ainda assim, havia uma coisa que ela fazia sempre e nem ela percebia porque o fazia nem porque lhe provocava aquela pequena sensação de diversão infantil, quase como quando punha sal no café dos adultos:
No calor da festa, arranhava-lhes as nádegas.
E depois, no final, enquanto se lavavam e se vestiam para se despedir até um dia destes se não for antes, virava-se para eles com aquele ar inocente e dizia:
- Ops, tens o rabo todo arranhado!
E depois, perante a preocupação misturada com "que chatice, e agora?" que via nas suas caras, punha um ar mais inocente ainda e dizia sorridente e maternal:
-Oh! Desculpa!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ao domingo de manhã ia à missa. Bem cedo e em jejum, porque não se podia comer antes de comungar da hóstia consagrada, assim como também não se podia tocar na dita com os dentes sob pena de arder no inferno por toda a eternidade. Hoje, já não consigo precisar quanto tempo duravam os rituais religiosos da manhã de domingo, catequese primeiro seguida de missa. Sei apenas que me pareciam infindos.
Perto da uma hora da tarde eu já não via nem ouvia nada. Enfraquecida pelo jejum, passavam à minha frente imagens e cheiros da galinha corada no forno com puré de batata, que era invariavelmente o almoço de domingo. Involuntariamente, comecei a associar essas imagens e esses cheiros à frase "Vamos em paz, e que o senhor nos acompanhe", que era a última da eucaristia e a que me fazia despertar da letargia da fome com uma alegria que eu tinha que conter para que ninguém pensasse que estava a cometer um pecado.
Ainda hoje, para mim, a missa cheira a galinha assada.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Comprei um vinho branco para cozinhar. O mais barato, como sempre. E quando, já em casa, abri a garrafa, soltou-se dela um cheiro a infância: A loja do Sr. Serafim. Ficava na esquina da rua onde eu morava, agora é um parque de estacionamento. Era um lojinha escura onde eu ia comprar tomate ou feijão verde ou outra coisa qualquer que a minha mãe precisasse numa emergência. Uma lojinha dividida em duas partes, em que na da frente, a mulher do Sr Serafim, uma mulheraça grande de cabeleira farta de caracóis negro-azulado, vendia mercearia às mulheres, e na de trás, mais recatada, o Sr. Serafim vendia vinho aos homens em copos de vidro grosso e baço pelo tempo. Uma passagem em arco de madeira muito velha e carcomida separava as duas alas. Mas mesmo assim, podia ver-se lá no fundo os grandes pipos e os banquinhos onde eles se sentavam para beber e jogar dominó numa mesa de oleado. Ouvia-se indistintamente as vozes e as gargalhadas e o cheiro era sempre a vinho que tinha envelhecido depois de cair no chão por lavar e lá ter ficado.
Ah! Já não usei o vinho que tinha comprado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O meu primeiro namorado chamava-se... bem, já não me lembro como se chamava. Mas tinha uma bicicleta baril, dum modelo diferente dos outros todos, que o pai lhe tinha trazido de Espanha. Não era uma pasteleira, pesada e com rodas grandes cheias de flores de plástico a rodar que nem loucas. Também não era uma roda 26, como a minha, que tinha rodas muito pequeninas, era muito alta e tínhamos que pedalar muito para chegar a qualquer lado. A bicicleta dele tinha um design que lembrava vagamente as BTT's, que só vieram a ser consideradas uma praga muitos anos depois.
Eu pensava que um namorado era uma pessoa que tinha brincadeiras giras e com quem era divertido passar o tempo. Ele devia pensar a mesma coisa, porque a única coisa que fizemos durante todo o tempo de namoro (que durou uma tarde inteirinha, desde o almoço ao pôr-do-sol), foi brincar com a bicicleta dele. Eu sentava-me no guiador e ele pedalava com muita força sem ver o que estava à frente, só mesmo as minhas costas. Quando atingíamos uma grande velocidade, eu abria os braços e gritávamos. Caímos muitas vezes e esmurrámos os joelhos, mas divertimo-nos imenso.
No final da tarde, quando regressei a casa para jantar, a minha mãe estava com cara de poucos amigos. Já alguma vizinha lhe tinha ido contar que a filha (eu, com oito anos de idade), se andava a portar mal com um rapaz. Então, assim que entrei, ofegante e feliz, nem me perguntaram nada nem quiseram saber da minha boca o que tinha andado a fazer. Deram-me uma bofetada e mandaram-me para o quarto de castigo.
Eu fui, sem perceber nada. Mas enquanto ali estive, com o estômago a dar horas e a pensar no que havia de fazer sem televisão, fui desenvolvendo uma teoria segundo a qual deveria haver algo nessa história do namoro que eu desconhecia mas que devia ser muito, muito interessante. Melhor do que andar numa bicicleta estrangeira, melhor do que brincar toda a tarde. Melhor do que cair e esmurrar os joelhos. E que os adultos não queriam que nós soubéssemos o que era para poderem ficar com aquilo só para eles. Se aquele castigo não tivesse acontecido, eu não teria ainda querido, não tão cedo, matar aquela curiosidade. Mas como aconteceu, não demorei muitos anos a desvendar o mistério.
Obrigada mãe.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Este tique também ataca os homens, embora com contornos e resultados diferentes. Nas mulheres, é basicamente o mal de que sofria a I*****. Pura e simplesmente, vivia convencida de que era a mulher mais bonita e com o corpo mais perfeito do mundo. A reboque dessa certeza vinham outras: Que todas as mulheres a invejavam, que nenhum homem lhe resistia e que o marido tinha tanta, mas tanta sorte por poder partilhar o espaço com ela a menos de 10cm que devia agradecer todos os dias da sua vida.
A I***** não era um trambolho, de facto. Tinha uns olhos bonitos, era baixinha, nem gorda nem magra, as pernas não se recomendavam por aí além para as saias acima do joelho e se as proeminências peitorais andassem alguns centímetros mais acima também não se perdia nada. Nestes pormenores, claro, só se reparava com atenção devido ao comportamento dela. Se não fosse tão convencida, seria aos olhos de todos uma mulher normal, desejável q.b. nas circunstâncias certas. Como, aliás, quase todas nós.
Um dia, a I***** comprou uma roupa nova, duma estilista famosa. Uma daquelas farpelas que são giras na passerelle, talvez também numa cerimónia exótica a revestir uma molhada de ossos de manequim, mas totalmente imprória (e até ridícula) para levar para o trabalho, que foi o que ela fez.
Quando chegou, de manhã, tudo paralisou. Os olhos viraram-se para ela e sustiveram-se respirações, em estado de choque. Alguém teve a coragem de perguntar:
- Oh I*****! Que diabo de roupa é essa???!!!
- Ora! - respondeu ela - é uma roupa que vocês não podem usar porque não têm um corpinho como o meu!
Aí, as pessoas até então caladas não se aguentaram, e o escritório inteiro rebentou numa gargalhada geral. O que, aos olhos dela, foi visto como mais uma manifestação de inveja.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Entre mim e a mulher cigana à minha frente acabou por se desenvolver um diálogo bastante amigável e até mesmo um bocadinho cúmplice. Era uma mulher madura de cabelos negros apanhados no alto da cabeça e olhos muito vivos. Começou por me explicar que odiava o seu nome, que era de família há várias gerações mas chamava a atenção em todo o lado. Rimo-nos as duas com isso. O nome dela era, de facto, muito estranho. Depois, falou-me da família. Dos vários filhos e da neta. Mostrou-me uma fotografia duma miúda morena de olhar brilhante, como a avó.
- É muito bonita - comentei - que idade tem?
- Faz doze para a semana - respondeu cheia de orgulho.
Depois eu estive quase, quase a fazer outra pergunta. Que seria perfeitamente normal noutro contexto qualquer mas que naquele, me assustou.Passaram-me pela cabeça fantasmas e preconceitos vários, tive medo e não perguntei. Era:
- Em que ano anda?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

E dizia ela, a justificar as olheiras com que apareceu para trabalhar:
-É que vocês não estão bem a ver os meus vizinhos de cima! Põem-se "naquilo"!... O prédio todo ouve! É só gritaria!
-Gritaria como?
-Gritos! Gritos mesmo! E conversa porca em altos berros, mete aqui, faz assim, faz assado... E vocês não se riam que é mesmo assim como eu estou a dizer!
-Mas... é a noite toda? Para não conseguires dormir...
-A noite toda não! São para aí vinte minutos, sei lá, meia hora no máximo... Só que uma pessoa acorda com aquela gritaria, fica perturbada e depois já não dorme! Eu pelo menos já não consigo!
E, para terminar, explicou o pormenor, aquele tal, que é a cereja no topo do bolo:
-E vocês pensam que eles são alguns putos? Nada disso! Têm quarenta e tal anos! E depois passam por nós nas escadas como se nada fosse! Tenho eu mais vergonha de os encarar a eles do que eles a mim!

Por isso já sabem: Se tiverem mais de quarenta anos, forem barulhentos na actividade sexual e morarem num prédio, nunca apareçam nas escadas. Comprem um helicóptero e saiam pelo terraço.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Para passar o tempo durante o intervalo do almoço e limpar temporariamente a cabeça de trabalho, dei um giro pelas lojas. É um exercício sempre saudável.
Estava numa loja de artigos para a casa quando entraram duas senhoras a falar muito alto, provavelmente a aproveitar a hora de almoço para levar a cabo o mesmo exercício que eu. Assim que deram uns passos dentro da loja, uma delas exclamou, olhando em volta:
- Que coisas tão alegres!!!
Eu olhei em volta também, e juro que nada ali me pareceu estar num especial estado de euforia. Nem os copos, nem os talheres, nem os candeeiros, nem as colchas, nada. Não é que estivessem propriamente tristes. O que me pareceu foi que estavam bastante indiferentes. Num estado de frigidez absoluto. Alegres não...

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Hoje vi uma mulher descer um passeio alto com o carro. De frente e sem nenhuma preocupação. O barulho que se ouviu quando aquelas traquitanas que os carros têm por baixo bateram no lancil foi tão grande que toda a gente parou para olhar. Eu, embora tenha provavelmente um nível de testosterona que já me obriga a fazer estas manobras de ladecos e com muito jeitinho, compreendi-a bem. Ela não é naba. É só mulher. Se fosse um homem, o acontecimento daria origem a um dos maiores dramas da sua vida. Pararia logo ali, faria a vistoria completa à viatura e ia atormentar-se de noite com pesadelos sobre avarias na direcção. Desenvolveria uma depressão pós-traumática. Teria longas conversas sobre o assunto com os amigos onde, entre grades de cerveja, contaria a desgraça que o tinha atingido, e todos iriam ficar solidários com a sua tragédia. Depois, fariam peregrinações à garagem, onde analisariam a máquina ao pormenor e dariam opiniões sobe as possíveis consequências no futuro, a curto, médio e longo prazo.
Para uma mulher, enquanto o carro pegar quando dá a volta à chave e andar, que se lixe!
Não é que eles sejam mais sensatos e nós estúpidas, nem o contrário. São os cromossomas, não há nada a fazer.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Enquanto jantavam, frente a frente, sentados à mesa do restaurante, passava na televisão um jogo de futebol importante cujo resultado era importante para uma coisa qualquer mais importante ainda que ela não sabia o que era.
Ele, de frente para a televisão, não tirava os olhos dos fora-de-jogo, das substituições, das faltas e penalties, enquanto ambos jantavam em silêncio. Ela, que não estava incomodada pela situação nem nada, apenas sabia que naquele dia não iriam conseguir conversar antes que acabasse o futebol, iniciou, para ocupar o tempo, um exercício mental no qual contou os sapatos da fila de pessoas que jantava ao balcão, dividindo-os por cores e tamanhos.
De repente, ele tirou os olhos do futebol, olhou para ela e achou-a ausente no seu exercício de contar sapatos:
- Então amor! Tu hoje parece que não estás cá! Estás a pensar noutra coisa qualquer! Estás com algum problema?
Ela teve vontade de rir. Ai os homens...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A jovem mãe percorria o super-mercado atarefada, com os dois filhos pequenos, de idades muito aproximadas, cada um agarrado a um lado da saia da progenitora. Quando esperava pela sua vez, na caixa, duas senhoras daquelas amorosas que têm um radar incorporado e não perdem pitada da vida dos que com elas se cruzam, detectaram as crianças e começaram a interagir com elas que, assustadas, se escondiam atrás da mãe.
- Ai tão lindos!!! Oh meu querido, como é que te chamas? Quantos aninhos tens? - insistiam elas perante os dois miúdos assustados.
Depois, com a curiosidade quase a rebentar-lhes a pele em pústulas, perante as diferenças óbvias entre os dois rebentos, um moreno-tropical e o outro louro-escandinavo, viraram a força de ataque para a mãe e começaram a interrogar, com grandes sorrisos desenhados em lábios pintados de vermelho-vivo pelo lado de fora:
- Tão queridos!!! São seus??? São irmãozinhos??? Tão lindos!!! Mas tão diferentes! Nem parecem filhos do mesmo pai!!!
E ela, tão simples como as árvores:
- Pois. É porque não são mesmo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Não tenho talento nenhum para fazer compras em feiras ou mercados ao ar livre. Numa das vezes em que tentei, ainda no tempo dos escudos, fui comprar flores. Depois de escolher um enorme ramo de cravos vermelho-escuro, dirigi-me ao agricultor e perguntei-lhe quanto era:
- Trinta escudos - respondeu ele muito direito, como se se defendesse de qualquer coisa que eu não percebi logo o que era mas que mais tarde descobri serem os regateiros.
- Trinta escudos?! - perguntei eu surpresa por ter achado demasiado barato. É que na verdade, são quinze cêntimos no dinheiro actual, numa florista não daria nem para uma flor!
- Pronto - retorquiu ele já mais humilde - faço por vinte.
E depois novamente na defesa:
- Mas não desço mais nada!

Quanto a mim, só me faltou pedir-lhe que, por favor, não descesse mais o preço, que eu já estava envergonhada q.b. por haver quem pensasse que eu discutia dez escudos num ramo de flores. Paguei rapidamente e fugi dali.