No dia em que na missa o sermão do padre incidiu nas promessas feitas à nossa senhora e não cumpridas, eu até agucei a atenção, apesar da larica que já me afrontava. Ele começou por explicar que as pessoas fazem promessas à nossa senhora quando estão numa aflição, como por exemplo, com uma doença grave... e eu, ingénua, à espera que ele dissesse qualquer coisa lógica como - "Não façam, vão ao médico!" - mas ele não disse. Depois, continuou o discurso dizendo que - "há mulheres nesta paróquia que prometem a máquina de costura à nossa senhora se ela lhes fizer um milagre!". E eu, ainda ingénua, esperava que ele explicasse que não deviam perder tempo, que a nossa senhora jamais iria descer dos céus para vir cá abaixo coser umas bainhas ou debruar uns lençóis, que prometessem por exemplo ser boazinhas, ajudar o próximo e rezar muito, já que as divindades, pensava eu, se alimentam mais destas coisas imateriais do que de máquinas de costura. Pelo menos nas partes em que estava atenta, era isso que me ensinavam na catequese. Só que o padre terminou o sermão com a declaração solene de que, quem prometeu a máquina de costura à nossa senhora devia ir lá entregá-la. Fiquei muito confusa e cheguei a pensar que tinha ouvido mal por causa da fraqueza.
Mas depois, à mesa do almoço, à volta da galinha assada do costume, o meu avô (que tinha estado na mesma missa mas na ala dos homens), explicou-me, daquela forma rude, directa e eficaz de homem do campo que sempre usava para explicar qualquer coisa:
- Aquele sacana dum raio! O que ele quer é ficar com a máquina de costura a uma desgraçada qualquer que a prometeu num momento de fraqueza e ir vendê-la! Padres é tudo igual! Filhos da mãe duns sacanas é o que eles são!
O meu avô ensinou-me muitas coisas.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

