terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

#5
Um belo dia, acompanhada que estava dum grupo de homens, uns mais velhos, outros mais novos, uns que conhecia melhor, outros pior… olhei para o panorama e tive uma das ideias tristes que de vez em quando a minha cabeça tem a infelicidade de gerar: A propósito duma conversa qualquer que já não sei qual era, disse qualquer coisa do género:
- E qual dos meninos é que quer baixar as calcinhas e levar umas palmadas, hein?
Disse aquilo tão séria e com uma cara de pau tão convincente que lá no meio, houve um que se convenceu que era verdade.
Mais tarde procurou-me, em privado. Começou a chamar-me “Minha Senhora”, “Minha Dona”, e disse-me que se eu quisesse podia usá-lo como cinzeiro, pôr-lhe uma trela, dar-lhe pontapés nas partes, tratá-lo pior que merda… Fiquei passada e mandei-o bugiar. Aí, acho que o anormal teve um orgasmo e a partir desse momento não me largou mesmo. Porra! Era um técnico de informática igual aos outros técnicos de informática todos que por aí andam! Juro-vos que agora mesmo, enquanto escrevo isto, está-me a dar uma vontade de rir incontrolável por me lembrar de tamanha bronca que me foi acontecer!
Depois, começou-me a mandar mails, dizia que estava ao meu dispor, que era o meu tapete, que o insultasse, que adorava ser pisado pelas minhas botas pretas de tacão alto e outras nojices do género. A mim, que a última coisa que poderia passar pelas minhas fantasias (mesmo as mais estúpidas) era ter um gajo a querer levar porrada!
Nunca lhe respondi e desapareci daquele círculo. Foi a única hipótese.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

#4
Quando era pequenina tinha um quarto virado a nascente com uma grande janela numa casa antiga. Cá fora, havia um pátio com uma pérgola de videiras que davam todos os anos uvas intragáveis. No verão, o sol entrava muito cedo e provocava-me. “Levanta-te!”. Eu enroscava-me nele e continuava a dormir, muito mais reconfortada. Mais ninguém conseguia dormir assim com o sol a dar na cara, só eu! O tempo foi passando e eu não perdi esta minha capacidade. Gosto de dormir. Não tanto de noite mas sim de manhã. De manhã dormimos acompanhados do quentinho do sol. É bom!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

#3
Sempre quis visitar os países escandinavos. Ir à aldeia do Pai Natal, experimentar aqueles peixes fumados, olhar a água e os barcos, os telhados pontiagudos, a festa do solstício de verão… O meu espírito imaturo e infantil sonha ainda respirar o mesmo ar de quem inventou a Pippi das Meias Altas, o berço dos míticos ABBA que derramaram a música pela minha adolescência fora, a terra da Selma Lagerlof que eu lia em pequenina… Pronto, estou a ficar parva por isso vou parar aqui.
A verdade é que nunca fui. Nunquinha. E com a crise que isto vai, cheira-me que ainda não é este ano. Mas como dizia um velho amigo meu, enquanto a gente acordar com a língua quente e os pés a mexer, há sempre hipótese.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

#2
Devido a contingências da vida, durante algum tempo morei numa vilazinha minúscula do sul, daquelas que à primeira vista parecem pequenos presépios encantados mas, num olhar mais próximo, vislumbramos as más-línguas, os esquemas e o espírito anti-forasteiro que lhes corre no sangue.
Mas isto era o menos. Por volta das quatro horas da tarde, as três esplanadas do largo principal começavam a encher-se de “primos” e “primas” (que era como eles se tratavam uns aos outros) e um odor a uma coisa que na minha cidade só serve para estragar as couves, caracóis cozinhados, empestava o ar todo, até ao ponto de teres a sensação de estares a ter alucinações estranhas. E o pior nem era o cheiro. Não! Era vê-los com uns palitinhos a tirar uns bichos viscosos, cinzentos e retorcidos de dentro de cascas retorcidas e… sim… a comê-los!... Sim, a comer coisas que só vemos em filmes de série B, com a descontracção de quem se senta para ver o Malato à noite na televisão… Empurrando aquilo tudo com litros e litros de super bock. P… que p….!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

#1
A minha família está, como eu já constatei, em auto-extinção. Eu e o meu marido juntos temos, nada mais nada menos do que cinco filhos! Todos crescidos. A última menor de idade muda de estatuto dentro de dias e, a partir daí, podemos dizer oficialmente que não mandamos em ninguém, pelo que provavelmente vamos ter que começar a mandar um no outro, como dois cotas marretas.
Às vezes penso que gostava de ser avó. Avó mesmo, como a avozinha do capuchinho vermelho mas mais bem comportada e sem ir para a cama com todos os lobos e todos os caçadores. Avozinha de fazer bombons de chocolate com pimenta para o lanche, levar os netinhos ao cinema a ver os clássicos do terror como o Freddy Krueger, comprar um monte de cenas inúteis para estragar os netos com mimos e outras coisas desse género. Perdi definitivamente a esperança há alguns dias enquanto almoçava num restaurante com a minha filha mais velha e o namorado dela. O olhar que ela lançou aos miúdos que corriam barulhentos à volta das mesas… disse tudo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Saltapocinhas intimou-me a dizer 9 coisas a meu respeito das quais 3 sejam mentira. E a nomear outras 9 vítimas para levar com a mesma tarefa, Aí vai então:

1. Tenho 2 netos. Quer dizer, quase. Um ainda está para nascer.
2. Cozinho caracóis como ninguém.
3. De todas as cidades que conheço, a minha preferida é Estocolmo.
4. Adoro ficar a dormir de manhã até fartar.
5. Já fui perseguida insistentemente por um masoquista que, graças a uma boca pateta que eu mandei para o ar, pensava que eu era uma dominadora e ficou apaixonado.
6. Nasci em África, mas não tenho saudades nenhumas daquilo.
7. A coisa que eu me lembro melhor do 25 de Abril é da música. Sei montes delas de cor.
8. Gosto de usar cores estúpidas: vermelho, verde bandeira, amarelo, roxo, rosa pink… mas tento não as misturar muito.
9. Passo a vida à procura de pequenas borbulhas para esfolar e depois faço asneira. Às vezes, pareço um Cristo.

E pronto, se tiverem pachorra adivinhem quais são as três aldrabices. As 9 vítimas são:

Kruzes Canhoto
Miepeee
Pedro
Luís
Vap
Nós os Cachorros
Gi
A turma dos Pirilampos
Lumitoca

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Era jovem, saudável, efusiva. Tinha tudo para ser feliz de acordo com os padrões em vigor. Só não gostava de ir à praia. Não que não lhe apetecesse enterrar os pés nus na areia quente, que não quisesse sentir a água salgada na pele e no sabor, que não gostasse do sol. Nada disso. Mas assim que se aproximava duma praia, toda ela gelava.
Lembrava-se das tardes com a mãe em criança. A mãe, uma daquelas pessoas que toda a gente conhece e esboça um sorriso trocista à sua passagem ou quando ela é tema de conversa. Divertido para todos menos para os filhos, a quem a constatação de ter uma mãe "cromo" dói desde a mais tenra infância.
Vêem-lhe outra vez à mente aquelas tardes de praia com a mãe, que correspondiam exactamente a quatro horas e vinte minutos de tormento, condicionados pelos horários do autocarro. Assim que chegavam, ela punha-lhes uma camada de creme na ponta do nariz e duas nas bochechas. Porque, segundo ela, só assim se protegiam dos efeitos nefastos do sol. A seguir, enfiava-lhes um par de cuecas de homem na cabeça, a ela e ao irmão mais novo e não lhes permitia que as tirassem. Eram, segundo ela, mais eficazes do que chapéus. Depois, até à hora de voltar para casa, sentavam-se ambos a um canto perto das dunas e choravam de vergonha, sujeitos à risada dos transeuntes.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

No dia em que na missa o sermão do padre incidiu nas promessas feitas à nossa senhora e não cumpridas, eu até agucei a atenção, apesar da larica que já me afrontava. Ele começou por explicar que as pessoas fazem promessas à nossa senhora quando estão numa aflição, como por exemplo, com uma doença grave... e eu, ingénua, à espera que ele dissesse qualquer coisa lógica como - "Não façam, vão ao médico!" - mas ele não disse. Depois, continuou o discurso dizendo que - "há mulheres nesta paróquia que prometem a máquina de costura à nossa senhora se ela lhes fizer um milagre!". E eu, ainda ingénua, esperava que ele explicasse que não deviam perder tempo, que a nossa senhora jamais iria descer dos céus para vir cá abaixo coser umas bainhas ou debruar uns lençóis, que prometessem por exemplo ser boazinhas, ajudar o próximo e rezar muito, já que as divindades, pensava eu, se alimentam mais destas coisas imateriais do que de máquinas de costura. Pelo menos nas partes em que estava atenta, era isso que me ensinavam na catequese. Só que o padre terminou o sermão com a declaração solene de que, quem prometeu a máquina de costura à nossa senhora devia ir lá entregá-la. Fiquei muito confusa e cheguei a pensar que tinha ouvido mal por causa da fraqueza.
Mas depois, à mesa do almoço, à volta da galinha assada do costume, o meu avô (que tinha estado na mesma missa mas na ala dos homens), explicou-me, daquela forma rude, directa e eficaz de homem do campo que sempre usava para explicar qualquer coisa:
- Aquele sacana dum raio! O que ele quer é ficar com a máquina de costura a uma desgraçada qualquer que a prometeu num momento de fraqueza e ir vendê-la! Padres é tudo igual! Filhos da mãe duns sacanas é o que eles são!
O meu avô ensinou-me muitas coisas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Deitava-se frequentemente com homens casados. Não o fazia propositadamente por serem casados, pois esse pormenor era-lhe até indiferente. O facto de serem casados, era apenas obra do acaso.
Nunca lhe passou pela cabeça que estava a trair outra mulher nem tão-pouco o contrário.
Nunca lhe passou pela cabeça que não deveria fazer aquilo, nem tão-pouco o contrário.
Nunca lhe passou pela cabeça que havia uma família envolvida, nem tão-pouco o contrário.
Ainda assim, havia uma coisa que ela fazia sempre e nem ela percebia porque o fazia nem porque lhe provocava aquela pequena sensação de diversão infantil, quase como quando punha sal no café dos adultos:
No calor da festa, arranhava-lhes as nádegas.
E depois, no final, enquanto se lavavam e se vestiam para se despedir até um dia destes se não for antes, virava-se para eles com aquele ar inocente e dizia:
- Ops, tens o rabo todo arranhado!
E depois, perante a preocupação misturada com "que chatice, e agora?" que via nas suas caras, punha um ar mais inocente ainda e dizia sorridente e maternal:
-Oh! Desculpa!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ao domingo de manhã ia à missa. Bem cedo e em jejum, porque não se podia comer antes de comungar da hóstia consagrada, assim como também não se podia tocar na dita com os dentes sob pena de arder no inferno por toda a eternidade. Hoje, já não consigo precisar quanto tempo duravam os rituais religiosos da manhã de domingo, catequese primeiro seguida de missa. Sei apenas que me pareciam infindos.
Perto da uma hora da tarde eu já não via nem ouvia nada. Enfraquecida pelo jejum, passavam à minha frente imagens e cheiros da galinha corada no forno com puré de batata, que era invariavelmente o almoço de domingo. Involuntariamente, comecei a associar essas imagens e esses cheiros à frase "Vamos em paz, e que o senhor nos acompanhe", que era a última da eucaristia e a que me fazia despertar da letargia da fome com uma alegria que eu tinha que conter para que ninguém pensasse que estava a cometer um pecado.
Ainda hoje, para mim, a missa cheira a galinha assada.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Comprei um vinho branco para cozinhar. O mais barato, como sempre. E quando, já em casa, abri a garrafa, soltou-se dela um cheiro a infância: A loja do Sr. Serafim. Ficava na esquina da rua onde eu morava, agora é um parque de estacionamento. Era um lojinha escura onde eu ia comprar tomate ou feijão verde ou outra coisa qualquer que a minha mãe precisasse numa emergência. Uma lojinha dividida em duas partes, em que na da frente, a mulher do Sr Serafim, uma mulheraça grande de cabeleira farta de caracóis negro-azulado, vendia mercearia às mulheres, e na de trás, mais recatada, o Sr. Serafim vendia vinho aos homens em copos de vidro grosso e baço pelo tempo. Uma passagem em arco de madeira muito velha e carcomida separava as duas alas. Mas mesmo assim, podia ver-se lá no fundo os grandes pipos e os banquinhos onde eles se sentavam para beber e jogar dominó numa mesa de oleado. Ouvia-se indistintamente as vozes e as gargalhadas e o cheiro era sempre a vinho que tinha envelhecido depois de cair no chão por lavar e lá ter ficado.
Ah! Já não usei o vinho que tinha comprado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O meu primeiro namorado chamava-se... bem, já não me lembro como se chamava. Mas tinha uma bicicleta baril, dum modelo diferente dos outros todos, que o pai lhe tinha trazido de Espanha. Não era uma pasteleira, pesada e com rodas grandes cheias de flores de plástico a rodar que nem loucas. Também não era uma roda 26, como a minha, que tinha rodas muito pequeninas, era muito alta e tínhamos que pedalar muito para chegar a qualquer lado. A bicicleta dele tinha um design que lembrava vagamente as BTT's, que só vieram a ser consideradas uma praga muitos anos depois.
Eu pensava que um namorado era uma pessoa que tinha brincadeiras giras e com quem era divertido passar o tempo. Ele devia pensar a mesma coisa, porque a única coisa que fizemos durante todo o tempo de namoro (que durou uma tarde inteirinha, desde o almoço ao pôr-do-sol), foi brincar com a bicicleta dele. Eu sentava-me no guiador e ele pedalava com muita força sem ver o que estava à frente, só mesmo as minhas costas. Quando atingíamos uma grande velocidade, eu abria os braços e gritávamos. Caímos muitas vezes e esmurrámos os joelhos, mas divertimo-nos imenso.
No final da tarde, quando regressei a casa para jantar, a minha mãe estava com cara de poucos amigos. Já alguma vizinha lhe tinha ido contar que a filha (eu, com oito anos de idade), se andava a portar mal com um rapaz. Então, assim que entrei, ofegante e feliz, nem me perguntaram nada nem quiseram saber da minha boca o que tinha andado a fazer. Deram-me uma bofetada e mandaram-me para o quarto de castigo.
Eu fui, sem perceber nada. Mas enquanto ali estive, com o estômago a dar horas e a pensar no que havia de fazer sem televisão, fui desenvolvendo uma teoria segundo a qual deveria haver algo nessa história do namoro que eu desconhecia mas que devia ser muito, muito interessante. Melhor do que andar numa bicicleta estrangeira, melhor do que brincar toda a tarde. Melhor do que cair e esmurrar os joelhos. E que os adultos não queriam que nós soubéssemos o que era para poderem ficar com aquilo só para eles. Se aquele castigo não tivesse acontecido, eu não teria ainda querido, não tão cedo, matar aquela curiosidade. Mas como aconteceu, não demorei muitos anos a desvendar o mistério.
Obrigada mãe.