sábado, 28 de fevereiro de 2009

#9
Há uns anos, comprei um espelho de aumento, brinquedo que adorei desde o primeiro momento. Olha-se para lá e vê-se todos os poros, todos! Com uma bocadinho de paciência, podemos até dar-lhes nomes e saber qual é qual.
Mas vêem-se também as impurezas, as imperfeições, a que não se resiste deitar as unhas afiadas. Eu faço-o praticamente todos os dias. Neste momento, ando com uma altinho no lábio inferior por ter espremido um minúsculo ponto negro daqueles que aparecem assim na beirinha. Quando me perguntam o que aconteceu, eu respondo:
- Ah, isto? Ando a pôr botox, mas ainda só pus num lado!

E aqui encerra a revelação das verdades e das mentiras contei por desafio da Saltapocinhas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

#8
Adoro cores. Adoro!!! Sou uma espécie de Ágata Ruiz de La Prada em versão tuga. Por isso, uso imenso preto. Eu sei que parece uma contradição, mas uso o preto para aliviar as outras cores a que não resisto. Porque, mal por mal, o preto vai bem com tudo.
Passei a fazer isto no dia em que vi o meu marido, com um ar muito preocupado, a olhar para mim e a perguntar:
- Tu vens da Jamaica?
Ok… mensagem captada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

#7
O que o estado novo teve de pior, a revolução teve de melhor: A música.
Hoje, estou convencida que sem os acordes “uma gaivota voava voava”, “que força é essa amigo”, eu vim de longe de muito longe”, “Grândola Vila Morena” e muitas muitas outras, a revolução não tinha tido nem metade da emoção nem da magia nem da eficácia.
Lembro-me com um sorriso duma discussão que tive com uma amiguinha, tão imberbe como eu. Ela cantava:
“Somos um povo que cerra fileiras
Pata com crista do pão e da paz…”
E eu, muito indignada:
- Pata com crista?! Mas o que raio faz aí uma pata com crista?! Isso está errado! Não tem lógica nenhuma!
E ela:
- Mas então se não é pata com crista achas que é o quê?
- Não sei… - dizia eu acabrunhada – mas pata com crista não tem lógica nenhuma…
- És parva! Só pode ser pata com crista!
Quando descobri que os versos diziam, na verdade, que “Somos um povo que cerra fileiras, parte à conquista do pão e da paz”, já não tinha qualquer contacto com essa minha coleguinha para lhe poder esfregar a letra correcta na cara.
Mas na verdade, ainda hoje sou capaz de cantar de cor quase todas as canções do 25 de Abril. Foi um tempo bonito.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

#6
Nasci em plena guerra colonial. O meu pai era soldado, andava na guerra e defendia uma coisa que eu sempre soube que ele não queria defender e que para ele nem fazia sentido. Desde a mais tenra idade. A minha mãe, jovem, muito jovem, jovem demais para ser verdade, deixou a vida tranquila do continente para o seguir na insegurança do desconhecido. Sei que a minha mãe vivia na cidade enquanto que o meu pai (sobre)vivia nas trincheiras. Nunca se viam, ou quase nunca. Mas pelo menos, a distância era menor. Dois anos depois nasci eu e ficou decidido que aquela terra não era futuro para mim. A minha mãe voltou para Portugal comigo, onde permaneceu, quase sempre sozinha. Aprendi na escola que a guerra colonial era a expressão máxima do patriotismo, da defesa dos valores e da pátria. Acreditei, com reservas apenas no meu subconsciente. Os meus pais permaneceram separados até 1974, aquela data mágica de que a minha geração ainda se lembra… na carne. Não tenho qualquer vontade de voltar a África…

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

#5
Um belo dia, acompanhada que estava dum grupo de homens, uns mais velhos, outros mais novos, uns que conhecia melhor, outros pior… olhei para o panorama e tive uma das ideias tristes que de vez em quando a minha cabeça tem a infelicidade de gerar: A propósito duma conversa qualquer que já não sei qual era, disse qualquer coisa do género:
- E qual dos meninos é que quer baixar as calcinhas e levar umas palmadas, hein?
Disse aquilo tão séria e com uma cara de pau tão convincente que lá no meio, houve um que se convenceu que era verdade.
Mais tarde procurou-me, em privado. Começou a chamar-me “Minha Senhora”, “Minha Dona”, e disse-me que se eu quisesse podia usá-lo como cinzeiro, pôr-lhe uma trela, dar-lhe pontapés nas partes, tratá-lo pior que merda… Fiquei passada e mandei-o bugiar. Aí, acho que o anormal teve um orgasmo e a partir desse momento não me largou mesmo. Porra! Era um técnico de informática igual aos outros técnicos de informática todos que por aí andam! Juro-vos que agora mesmo, enquanto escrevo isto, está-me a dar uma vontade de rir incontrolável por me lembrar de tamanha bronca que me foi acontecer!
Depois, começou-me a mandar mails, dizia que estava ao meu dispor, que era o meu tapete, que o insultasse, que adorava ser pisado pelas minhas botas pretas de tacão alto e outras nojices do género. A mim, que a última coisa que poderia passar pelas minhas fantasias (mesmo as mais estúpidas) era ter um gajo a querer levar porrada!
Nunca lhe respondi e desapareci daquele círculo. Foi a única hipótese.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

#4
Quando era pequenina tinha um quarto virado a nascente com uma grande janela numa casa antiga. Cá fora, havia um pátio com uma pérgola de videiras que davam todos os anos uvas intragáveis. No verão, o sol entrava muito cedo e provocava-me. “Levanta-te!”. Eu enroscava-me nele e continuava a dormir, muito mais reconfortada. Mais ninguém conseguia dormir assim com o sol a dar na cara, só eu! O tempo foi passando e eu não perdi esta minha capacidade. Gosto de dormir. Não tanto de noite mas sim de manhã. De manhã dormimos acompanhados do quentinho do sol. É bom!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

#3
Sempre quis visitar os países escandinavos. Ir à aldeia do Pai Natal, experimentar aqueles peixes fumados, olhar a água e os barcos, os telhados pontiagudos, a festa do solstício de verão… O meu espírito imaturo e infantil sonha ainda respirar o mesmo ar de quem inventou a Pippi das Meias Altas, o berço dos míticos ABBA que derramaram a música pela minha adolescência fora, a terra da Selma Lagerlof que eu lia em pequenina… Pronto, estou a ficar parva por isso vou parar aqui.
A verdade é que nunca fui. Nunquinha. E com a crise que isto vai, cheira-me que ainda não é este ano. Mas como dizia um velho amigo meu, enquanto a gente acordar com a língua quente e os pés a mexer, há sempre hipótese.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

#2
Devido a contingências da vida, durante algum tempo morei numa vilazinha minúscula do sul, daquelas que à primeira vista parecem pequenos presépios encantados mas, num olhar mais próximo, vislumbramos as más-línguas, os esquemas e o espírito anti-forasteiro que lhes corre no sangue.
Mas isto era o menos. Por volta das quatro horas da tarde, as três esplanadas do largo principal começavam a encher-se de “primos” e “primas” (que era como eles se tratavam uns aos outros) e um odor a uma coisa que na minha cidade só serve para estragar as couves, caracóis cozinhados, empestava o ar todo, até ao ponto de teres a sensação de estares a ter alucinações estranhas. E o pior nem era o cheiro. Não! Era vê-los com uns palitinhos a tirar uns bichos viscosos, cinzentos e retorcidos de dentro de cascas retorcidas e… sim… a comê-los!... Sim, a comer coisas que só vemos em filmes de série B, com a descontracção de quem se senta para ver o Malato à noite na televisão… Empurrando aquilo tudo com litros e litros de super bock. P… que p….!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

#1
A minha família está, como eu já constatei, em auto-extinção. Eu e o meu marido juntos temos, nada mais nada menos do que cinco filhos! Todos crescidos. A última menor de idade muda de estatuto dentro de dias e, a partir daí, podemos dizer oficialmente que não mandamos em ninguém, pelo que provavelmente vamos ter que começar a mandar um no outro, como dois cotas marretas.
Às vezes penso que gostava de ser avó. Avó mesmo, como a avozinha do capuchinho vermelho mas mais bem comportada e sem ir para a cama com todos os lobos e todos os caçadores. Avozinha de fazer bombons de chocolate com pimenta para o lanche, levar os netinhos ao cinema a ver os clássicos do terror como o Freddy Krueger, comprar um monte de cenas inúteis para estragar os netos com mimos e outras coisas desse género. Perdi definitivamente a esperança há alguns dias enquanto almoçava num restaurante com a minha filha mais velha e o namorado dela. O olhar que ela lançou aos miúdos que corriam barulhentos à volta das mesas… disse tudo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Saltapocinhas intimou-me a dizer 9 coisas a meu respeito das quais 3 sejam mentira. E a nomear outras 9 vítimas para levar com a mesma tarefa, Aí vai então:

1. Tenho 2 netos. Quer dizer, quase. Um ainda está para nascer.
2. Cozinho caracóis como ninguém.
3. De todas as cidades que conheço, a minha preferida é Estocolmo.
4. Adoro ficar a dormir de manhã até fartar.
5. Já fui perseguida insistentemente por um masoquista que, graças a uma boca pateta que eu mandei para o ar, pensava que eu era uma dominadora e ficou apaixonado.
6. Nasci em África, mas não tenho saudades nenhumas daquilo.
7. A coisa que eu me lembro melhor do 25 de Abril é da música. Sei montes delas de cor.
8. Gosto de usar cores estúpidas: vermelho, verde bandeira, amarelo, roxo, rosa pink… mas tento não as misturar muito.
9. Passo a vida à procura de pequenas borbulhas para esfolar e depois faço asneira. Às vezes, pareço um Cristo.

E pronto, se tiverem pachorra adivinhem quais são as três aldrabices. As 9 vítimas são:

Kruzes Canhoto
Miepeee
Pedro
Luís
Vap
Nós os Cachorros
Gi
A turma dos Pirilampos
Lumitoca

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Era jovem, saudável, efusiva. Tinha tudo para ser feliz de acordo com os padrões em vigor. Só não gostava de ir à praia. Não que não lhe apetecesse enterrar os pés nus na areia quente, que não quisesse sentir a água salgada na pele e no sabor, que não gostasse do sol. Nada disso. Mas assim que se aproximava duma praia, toda ela gelava.
Lembrava-se das tardes com a mãe em criança. A mãe, uma daquelas pessoas que toda a gente conhece e esboça um sorriso trocista à sua passagem ou quando ela é tema de conversa. Divertido para todos menos para os filhos, a quem a constatação de ter uma mãe "cromo" dói desde a mais tenra infância.
Vêem-lhe outra vez à mente aquelas tardes de praia com a mãe, que correspondiam exactamente a quatro horas e vinte minutos de tormento, condicionados pelos horários do autocarro. Assim que chegavam, ela punha-lhes uma camada de creme na ponta do nariz e duas nas bochechas. Porque, segundo ela, só assim se protegiam dos efeitos nefastos do sol. A seguir, enfiava-lhes um par de cuecas de homem na cabeça, a ela e ao irmão mais novo e não lhes permitia que as tirassem. Eram, segundo ela, mais eficazes do que chapéus. Depois, até à hora de voltar para casa, sentavam-se ambos a um canto perto das dunas e choravam de vergonha, sujeitos à risada dos transeuntes.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

No dia em que na missa o sermão do padre incidiu nas promessas feitas à nossa senhora e não cumpridas, eu até agucei a atenção, apesar da larica que já me afrontava. Ele começou por explicar que as pessoas fazem promessas à nossa senhora quando estão numa aflição, como por exemplo, com uma doença grave... e eu, ingénua, à espera que ele dissesse qualquer coisa lógica como - "Não façam, vão ao médico!" - mas ele não disse. Depois, continuou o discurso dizendo que - "há mulheres nesta paróquia que prometem a máquina de costura à nossa senhora se ela lhes fizer um milagre!". E eu, ainda ingénua, esperava que ele explicasse que não deviam perder tempo, que a nossa senhora jamais iria descer dos céus para vir cá abaixo coser umas bainhas ou debruar uns lençóis, que prometessem por exemplo ser boazinhas, ajudar o próximo e rezar muito, já que as divindades, pensava eu, se alimentam mais destas coisas imateriais do que de máquinas de costura. Pelo menos nas partes em que estava atenta, era isso que me ensinavam na catequese. Só que o padre terminou o sermão com a declaração solene de que, quem prometeu a máquina de costura à nossa senhora devia ir lá entregá-la. Fiquei muito confusa e cheguei a pensar que tinha ouvido mal por causa da fraqueza.
Mas depois, à mesa do almoço, à volta da galinha assada do costume, o meu avô (que tinha estado na mesma missa mas na ala dos homens), explicou-me, daquela forma rude, directa e eficaz de homem do campo que sempre usava para explicar qualquer coisa:
- Aquele sacana dum raio! O que ele quer é ficar com a máquina de costura a uma desgraçada qualquer que a prometeu num momento de fraqueza e ir vendê-la! Padres é tudo igual! Filhos da mãe duns sacanas é o que eles são!
O meu avô ensinou-me muitas coisas.