domingo, 8 de março de 2009

O M***** nasceu e cresceu numa família a que se costuma chamar humilde porque se tem (e bem) pudor de lhes chamar outras coisas. Todos os clãs começaram da mesma maneira, a catar piolhos uns aos outros e a comer carne crua à mão. Os motivos que levaram uns a andar mais depressa do que outros na cadeia da evolução são tão complexos e têm uma tão grande dose da componente "acaso", que não vale a pena, na verdade, vangloriarem-se muito os que já atingiram a meta do escorreito. Aqueles em que os artifícios fazem com que quase não se note que também comungam das mais básicas fraquezas naturais humanas.
Com 40 anos, o M***** pertence à primeira geração que aprendeu a ler. Os filhos, são a primeira geração que fez o nono ano, a ferros e com currículos especiais. Ainda lhes faltarão umas quantas gerações para que o primeiro membro da família deixe de arrotar à mesa. Mas já se notam alguns avanços, ou pelo menos, desejos disso. O M*****, quando foi tirar o último bilhete de identidade, decidiu num momento louco que ia ter uma assinatura de elite. Sacou da esferográfica Bic ponta grossa (sim, que nem aceitou a que a funcionária lhe estendia) e desenhou, num rasgo de inspiração raro, uma assinatura ilegível com curvas, voltas, linhas rectas e, a rematar, dois pontinhos. Ficou tão, mas tão orgulhoso, que decidiu que aquele bilhete de identidade não chegaria a andar encardido nem com o formato das "nalgas" marcado por anos de bolso das calças. Guardou-o numa carteira de plástico própria para documentos que nem sequer levou para a oficina para não a sujar.
O pior veio depois, quando teve que começar a assinar como no bilhete de identidade para que a assinatura pudesse ser oficialmente reconhecida. Simplesmente porque já não sabia que voltas, que curvas e que linhas tinha que fazer e por que ordem para conseguir reproduzir aquela obra única com o selo branco da república. Os dois pontinhos finais ainda lá iam, mas o resto...
Apareceu-me há dias um primo do M*****, a entregar um impresso assinado por ele mas já não em forma de assinatura artística. Era apenas o nome, escrito com uma caligrafia derrotada pelo desânimo desde o M****** até ao Silva.
Sem saber da história, observei que aquele senhor tinha que assinar como no BI, caso contrário não lhe poderia reconhecer a assinatura. Respondeu-me o primo, com ares de quem já teve que explicar aquilo vezes sem conta:
- E ele lá se atreve! Quis-se armar em doutor e agora já não consegue assinar igual nem que treine o dia todo! Mas está bem, eu vou lá à oficina dizer-lhe isso...
Levantou-se para ir embora, mas ainda fez um último reparo:
- O que ele vai ter que fazer é tirar um BI novo, essa é que é essa! Foi o que ele arranjou com as manias...

sábado, 7 de março de 2009

"Já provaste coca-cola?" - era uma das perguntas que mais se ouvia entre adolescentes logo após a revolução. A coca-cola foi para os jovens, absurdamente, um dos símbolos mais fortes da liberdade recém-conquistada.
A proibição tinha gerado as histórias mais fantásticas sobre o produto, a ponto de o tornar um mito. Dizia-se que era viciante, que conseguia corroer metal, que provocava doenças várias e estranhas. Mas a que eu sempre gostei mais foi a que a minha mãe me contava como verdadeira: Que quem tomasse uma aspirina com o mágico e pernicioso líquido, experimentaria uma "trip" que o levaria do mundo dos lúcidos para o mundo da loucura num "ai".
Por isso, entre nós, sussurrava-se maliciosamente a pergunta, quase em tom de cumplicidade num crime:
- E tu? Já provaste coca-cola?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Às vezes queremos ser tão simpáticos e corre-nos tão mal!
A minha colega estava a atender uma jovem estudante universitária que precisava de vários documentos para um trabalho de investigação. Entre as duas desenvolvia-se um diálogo amigável. Até que, devido certamente ao tom escuro de pele da sua interlocutora, a minha colega fez a pergunta fatal, embora sorridente e, tenho a certeza, sem qualquer segunda intenção:
- E então, quando acabar o curso, gostava de ficar por cá, ou regressa?
E ela, um pouco sem jeito:
- Eu nasci cá...

quinta-feira, 5 de março de 2009

A mulher à minha frente tinha urgência. Não de resolver o assunto que trazia, mas de aliviar a alma. E resolveu fazê-lo comigo.
Sem me conhecer de lado nenhum e em menos de cinco minutos, contou-me que vive com a mãe velhinha e doente, que a irmã e o cunhado não querem saber de nada.
- Conhece a Julinha das Muletas? - perguntou-me de rajada.
- Eu... não... - respondi confusa.
- Como não? Aquela a quem a segurança social tirou o Bruninho! Toda a gente a conhece!...
Pois bem, a tal Julinha das Muletas era a irmã dela, a que não quer saber e só lhe ronda a casa para conseguir dinheiro. Antes dela sair com a certidão emitida, fiquei ainda a saber que, tanto ela como o homem dela, já agarraram o vírus da SIDA.
Chamei o cliente seguinte e esqueci tudo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nas tardes quentes de verão, quando o calor sufocava demais para brincar no quintal, aprendi as minhas primeiras frases em língua estrangeira.
Aprendi-as com a boneca espanhola que a minha avó me tinha trazido duma viagem. Era uma boneca morena de vestido branco aos favos e cabelo ondulado pelos ombros. Tinha uma guita na parte de trás do pescoço que se puxava para a fazer falar.
E eu ficava ali, preguiçosa e melancólica, puxando vezes sem conta e ouvindo as frases em número limitado que saíam aleatoriamente, por vezes tentando adivinhá-las antecipadamente, num jogo solitário.
"Te quiero mucho!", era a minha preferida...

terça-feira, 3 de março de 2009

Cresci, até à minha pré-adolescência, num meio rural, mas protegida como qualquer menina urbana mimada. Não me era permitido sair dos muros da nossa propriedade a não ser para ir à escola e à missa, onde os meus horários de ida e volta eram controlados ao minuto. Por isso, eu não conhecia nenhum dos segredos que as crianças rurais conheciam. Sabia tocar um instrumento musical, pois tinha um professor particular para isso, sabia o que era uma televisão, um aspirador, uma máquina de lavar e um frigorífico, coisas que para as minhas colegas eram apenas mitos de que tinham ouvido falar vagamente. Sabia comer de faca e garfo, tinha uma casa de banho com banheira e água quente corrente, coisas quase desconhecidas na aldeia.
Desconhecia totalmente o que era a vida do seu início até ao seu fim porque, ao contrário das outras crianças que corriam livres pelos campos, eu nunca tinha visto os animais do rebanho a acasalar, nem um vitelo nascer, nem o ritual de espetar uma faca na jugular dum porco, nem a vida a jorrar-lhe de lá de dentro em forma de sangue para alimentar os homens.
Quando tinha nove anos, eu ainda pensava que as crianças se mandavam vir de França embrulhadas numa embalagem endereçada. E quando as minhas colegas ignorantes tinham, à minha frente, conversas que ouviam aos adultos do seu meio, que viviam as suas vidas com a simplicidade da dos animais, sem tocarem instrumentos musicais nem usarem electrodomésticos, eu nunca percebia nada. Depois, ia para casa perguntar à minha mãe o que queria dizer "alcançar um bebé", "parir", "desonrar e casar", "por-se nela", "servir-se dela" e outras coisas normais na vida das pessoas duma aldeia do Portugalzinho cinzento de então, ao que ela me respondia sempre que tinha tempo. Tinha tempo...

segunda-feira, 2 de março de 2009

A minha infância foi impregnada de pecado. Desde muito pequena, aprendi que o pecado era a fonte de todo o mal e me poderia levar, à mínima falha, a arder no inferno para sempre. Não aquele pecados grandes como matar ou roubar a que normalmente chamamos crimes. Eram antes pequenos gestos nos quais, duma forma insidiosa, Deus tinha incorporado fáceis deslizes só para se divertir connosco. Era mais ou menos como jogar um jogo que já sabíamos viciado contra nós.
Tocar com os dentes na hóstia sagrada era pecado. Brincar com as serpentinas a partir da quarta-feira de cinzas era pecado, mesmo que nos tivessem sobrado muitas e das nossas cores preferidas. Comer carne ou simplesmente pensar que nos apetecia um bife durante as sextas-feiras da quaresma era pecado. Ter um ataque de riso incontrolável durante a missa era pecado. Apanhar uma flor dum jardim alheio, mesmo que ela estivesse do lado de cá do muro, era pecado. Desobeder aos pais e aos professores era pecado... De cada vez que cometíamos um destes actos (e cometíamos muitas vezes pois o contrário seria impossível), passávamos noites de angústia solitária, pensando no que nos esperava um dia, quando morrêssemos e nos fosse negada a entrada no céu, martirizando-nos com a nossa própria imagem ardendo no fogo eterno e tentando inventar uma solução milagrosa para escapar ao castigo.
E depois havia ainda o tal pecado original, o cometido por Adão e Eva ao terem comido uma maçã duma espécie rara que eu não sabia qual era, mas não era com certeza as que cresciam nas árvores do quintal lá de casa, que essas eu sabia que não era pecado comer, nem cruas, nem assadas, nem em compotas ou bolos.

domingo, 1 de março de 2009

Eu era adolescente e estava ali sozinha, com a minha filha de quatro meses (como se fosse o meu Nenuco mas com uma virose real) e com o médico pediatra mais respeitado da cidade e da nata da mesma.
Ali estava eu, com a minha filha de quatro meses deitada numa marquesa, à espera que aquele homem mais velho e sabedor me salvasse da minha desorientação com um antibiótico milagroso e com uma palavra de sossego. Precisava que ele me dissesse com toda a certeza que aquela coisa viva deitada na marquesa e pela qual eu já tinha passado mais temores, angústias e dores físicas do que a maior parte dos mortais passa durante a vida inteira, não ia morrer nem nada disso.
Não sei se naquele momento era eu a mais frágil ou a minha filha de quatro meses. Acho que era eu.
Para minha surpresa, o respeitado doutor, em vez de perguntar pela febre, pelos vómitos, pelos choros da criança, perguntou-me a mim pela minha precocidade sexual. Perguntou-me, com aquele sorriso que fazem os homens quando metem nojo, se eu era "fresquinha". Quantas pilas já tinham passado por mim e se não me importava que passasse mais uma.
Eu, olhava para a minha filha de quatro meses, nua como o menino Jesus e deitada na marquesa e não sabia o que me estava a acontecer. Não disse nada. Pensei apenas: - Por favor, não me faça isto! - e esperei pelo xarope milagroso.
Ainda com aquele riso imbecil por toda a cara, o médico sentou-se para escrever qualquer coisa num papel que me entregou. Arranquei-lho da mão, vesti a minha filha, sempre em silêncio e vim embora depois de pagar à empregada velha que estava sentada numa secretária velha à porta do consultório a fazer tricot.
Contei à minha mãe o que tinha acontecido. Ela disse-me que não podia ser, que eu tinha percebido mal. Que o Dr. ***** ******, médico respeitado e que já tinha tratado de mim e de todos os meus irmãos, não seria capaz disso. Que eu tivesse juízo.
Depois, contei ao pai da minha filha, adolescente como eu, que me disse que eu era uma doida, sempre tinha sido e havia de continuar a ser, que até o pediatra fui provocar. Insultou-me ainda com mais algumas palavras que não repito aqui.
Nunca mais contei a ninguém. Estou a contar-vos agora a vocês.
O Dr. ***** ****** morreu há algus anos, de velhice e em paz. Não tive pena.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

#9
Há uns anos, comprei um espelho de aumento, brinquedo que adorei desde o primeiro momento. Olha-se para lá e vê-se todos os poros, todos! Com uma bocadinho de paciência, podemos até dar-lhes nomes e saber qual é qual.
Mas vêem-se também as impurezas, as imperfeições, a que não se resiste deitar as unhas afiadas. Eu faço-o praticamente todos os dias. Neste momento, ando com uma altinho no lábio inferior por ter espremido um minúsculo ponto negro daqueles que aparecem assim na beirinha. Quando me perguntam o que aconteceu, eu respondo:
- Ah, isto? Ando a pôr botox, mas ainda só pus num lado!

E aqui encerra a revelação das verdades e das mentiras contei por desafio da Saltapocinhas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

#8
Adoro cores. Adoro!!! Sou uma espécie de Ágata Ruiz de La Prada em versão tuga. Por isso, uso imenso preto. Eu sei que parece uma contradição, mas uso o preto para aliviar as outras cores a que não resisto. Porque, mal por mal, o preto vai bem com tudo.
Passei a fazer isto no dia em que vi o meu marido, com um ar muito preocupado, a olhar para mim e a perguntar:
- Tu vens da Jamaica?
Ok… mensagem captada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

#7
O que o estado novo teve de pior, a revolução teve de melhor: A música.
Hoje, estou convencida que sem os acordes “uma gaivota voava voava”, “que força é essa amigo”, eu vim de longe de muito longe”, “Grândola Vila Morena” e muitas muitas outras, a revolução não tinha tido nem metade da emoção nem da magia nem da eficácia.
Lembro-me com um sorriso duma discussão que tive com uma amiguinha, tão imberbe como eu. Ela cantava:
“Somos um povo que cerra fileiras
Pata com crista do pão e da paz…”
E eu, muito indignada:
- Pata com crista?! Mas o que raio faz aí uma pata com crista?! Isso está errado! Não tem lógica nenhuma!
E ela:
- Mas então se não é pata com crista achas que é o quê?
- Não sei… - dizia eu acabrunhada – mas pata com crista não tem lógica nenhuma…
- És parva! Só pode ser pata com crista!
Quando descobri que os versos diziam, na verdade, que “Somos um povo que cerra fileiras, parte à conquista do pão e da paz”, já não tinha qualquer contacto com essa minha coleguinha para lhe poder esfregar a letra correcta na cara.
Mas na verdade, ainda hoje sou capaz de cantar de cor quase todas as canções do 25 de Abril. Foi um tempo bonito.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

#6
Nasci em plena guerra colonial. O meu pai era soldado, andava na guerra e defendia uma coisa que eu sempre soube que ele não queria defender e que para ele nem fazia sentido. Desde a mais tenra idade. A minha mãe, jovem, muito jovem, jovem demais para ser verdade, deixou a vida tranquila do continente para o seguir na insegurança do desconhecido. Sei que a minha mãe vivia na cidade enquanto que o meu pai (sobre)vivia nas trincheiras. Nunca se viam, ou quase nunca. Mas pelo menos, a distância era menor. Dois anos depois nasci eu e ficou decidido que aquela terra não era futuro para mim. A minha mãe voltou para Portugal comigo, onde permaneceu, quase sempre sozinha. Aprendi na escola que a guerra colonial era a expressão máxima do patriotismo, da defesa dos valores e da pátria. Acreditei, com reservas apenas no meu subconsciente. Os meus pais permaneceram separados até 1974, aquela data mágica de que a minha geração ainda se lembra… na carne. Não tenho qualquer vontade de voltar a África…