quinta-feira, 12 de março de 2009

No centro comercial, parei para um lanche daqueles que eu chamo "substituto do almoço para aguentar até ao jantar". Pedi:
- Um descafeinado cheio e um queque de aveia por favor.
A empregada brasileira reformulou, como que a ter a certeza que tinha percebido bem:
- Um djiscafênado e uma queca dji avéia?
Um pouco surpresa fiz uma pausa. Mas depois respondi, como se nada fosse:
- Sim, isso mesmo.
E pensei:
- Deve estar cá há pouco tempo.

Lembrei-me da estagiária brasileira que tive há alguns anos. Uma rapariga muito divertida que dizia, entre outras coisas, que "ia precisar de durex para fazer trabalhos com as crianças" e que "sabia fazer broches muito legais usando material reciclado". Tenho saudades dela.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Foi numa noite de natal, há muitos anos. Eu, sempre muito mais à frente que os demais em técnica e filosofia de vida, como todos os putos teimosos, tinha acabado de inventar um método novo de abrir nozes. Enfiava a ponta duma faca muito afiada num extremo da noz e depois dava uma pequena volta, o que a fazia abrir-se com um som de pequeno estalido e me divertia. Os adultos, animados pela conversa e pelo álcool, avisaram-me, ainda assim:
- Vais cortar-te!
- Não vou nada! Sei muito bem o que estou a fazer!
Duas ou três nozes depois a faca resvalou para o meu polegar esquerdo. Olhei e pareceu-me, assim de repente, que o meu dedo estava dividido em dois e começava a sangrar abundantemente. Em volta ninguém se apercebeu, a conversa estava animada. Fugi a correr para o quarto e ninguém deu por nada. Já fechada nos meus domínios, analisei mais detalhadamente o resultado da minha avançada técnica. De facto, toda a cabeça do dedo, na parte da frente, tinha sido decepada e estava presa apenas por um pequeno pedaço de pele. Continuei e não querer dar parte de fraca. Embrulhei o dedo e o que sobrava dele num lenço e tranquei-me na casa de banho. O sangue jorrava em grande quantidade. Com a água da torneira sempre a correr, tentei juntar as duas "peças" conforme o formato original e embrulhei tudo com força numa ligadura que havia no armário. Colei com adesivo e voltei para a mesa, onde acabei de jantar com a mão esquerda sempre escondida. Talvez porque fosse noite de natal e toda a gente estava muito animada, ninguém se apercebeu de nada, nem me chamaram à atenção por estar a usar apenas a mão direita. Mais tarde fui dormir e na manhã seguinte já pude substituir a ligadura enorme por um penso mais pequeno. Quando me perguntaram, finalmente, o que era aquilo, disse que tinha roído uma unha muito rente.
O que é certo é que, embora a pele tenha acabado por cair e ser substituída por uma nova, a carne colou direitinho no local onde pertencia.
Ainda hoje tenho uma cicatriz que completa uma forma arredondada no meu polegar esquerdo. É de estimação.

terça-feira, 10 de março de 2009

O meu filho tinha seis anos e frequentava a escola há um mês quando decidiu que uma das missões da sua vida seria infernizar a minha através dum invulgar desprezo por tudo quanto fosse estudo. E comunicou-mo oficialmente, muito solene, desta forma:
- Mãe, tenho uma coisa para te dizer: Eu (e fez uma pequena pausa) não sou um homem de pensamento. Sou um homem de trabalho!
Eu achei piada e ri-me muito. Nesse momento ainda não sabia que era mesmo verdade.

segunda-feira, 9 de março de 2009

No dia do exame da quarta-classe estreei um vestido novo. Azul com bolinhas brancas e debruado a vermelho nos folhos. Horrível. Embora na altura eu estivesse orgulhosíssima dentro dele, o que foi bom, por ter feito aumentar a minha auto-estima, tão necessária para aquela verdadeira provação por que todos tínhamos que passar aos dez anos de idade: Ter que provar perante um júri carrancudo que sabíamos de cor a tabuada, os reis de Portugal e as respectivas dinastias, os rios e seus afluentes, montanhas e respectivas alturas em metros, as províncias e as suas cidades e a agricultura mais praticada em cada região do país. Isso era, à primeira vista, coisa pouca, dados os pouco mais de 90.000 km2 do território. Qual quê? Havia ainda as colónias e suas populações mestiças e negras, mas tão patriotas, diziam-nos, como nós. Felizmente, na altura, já o Brasil fazia parte dos renegados e era apenas uma pequena menção dos territórios que tinham feito parte do grandioso império. Felizmente, porque se tivéssemos que saber a geografia daquela imensidão, nem mil anos a marrar nos livros nos safavam, comentávamos nós umas com as outras numa tentativa de ver o lado bom de tanto estudo inútil. De lá, e até porque as novelas ainda não tinham aportado do lado de cá, só sabíamos da existência de um rei duma única dinastia: O Roberto Carlos. Não podíamos era dizer isso à frente da professora. Não era patriótico.
O exame da quarta classe marcava também outra coisa por que todas ansiávamos, fosse qual fosse o nosso destino pré-reservado consoante a classe social: Para umas, a maioria, o fim da escola e das habituais tareias de régua e cana da índia. Para outras, o liceu, onde já não era permitido dar tareias aos alunos com régua nem cana da índia...

domingo, 8 de março de 2009

O M***** nasceu e cresceu numa família a que se costuma chamar humilde porque se tem (e bem) pudor de lhes chamar outras coisas. Todos os clãs começaram da mesma maneira, a catar piolhos uns aos outros e a comer carne crua à mão. Os motivos que levaram uns a andar mais depressa do que outros na cadeia da evolução são tão complexos e têm uma tão grande dose da componente "acaso", que não vale a pena, na verdade, vangloriarem-se muito os que já atingiram a meta do escorreito. Aqueles em que os artifícios fazem com que quase não se note que também comungam das mais básicas fraquezas naturais humanas.
Com 40 anos, o M***** pertence à primeira geração que aprendeu a ler. Os filhos, são a primeira geração que fez o nono ano, a ferros e com currículos especiais. Ainda lhes faltarão umas quantas gerações para que o primeiro membro da família deixe de arrotar à mesa. Mas já se notam alguns avanços, ou pelo menos, desejos disso. O M*****, quando foi tirar o último bilhete de identidade, decidiu num momento louco que ia ter uma assinatura de elite. Sacou da esferográfica Bic ponta grossa (sim, que nem aceitou a que a funcionária lhe estendia) e desenhou, num rasgo de inspiração raro, uma assinatura ilegível com curvas, voltas, linhas rectas e, a rematar, dois pontinhos. Ficou tão, mas tão orgulhoso, que decidiu que aquele bilhete de identidade não chegaria a andar encardido nem com o formato das "nalgas" marcado por anos de bolso das calças. Guardou-o numa carteira de plástico própria para documentos que nem sequer levou para a oficina para não a sujar.
O pior veio depois, quando teve que começar a assinar como no bilhete de identidade para que a assinatura pudesse ser oficialmente reconhecida. Simplesmente porque já não sabia que voltas, que curvas e que linhas tinha que fazer e por que ordem para conseguir reproduzir aquela obra única com o selo branco da república. Os dois pontinhos finais ainda lá iam, mas o resto...
Apareceu-me há dias um primo do M*****, a entregar um impresso assinado por ele mas já não em forma de assinatura artística. Era apenas o nome, escrito com uma caligrafia derrotada pelo desânimo desde o M****** até ao Silva.
Sem saber da história, observei que aquele senhor tinha que assinar como no BI, caso contrário não lhe poderia reconhecer a assinatura. Respondeu-me o primo, com ares de quem já teve que explicar aquilo vezes sem conta:
- E ele lá se atreve! Quis-se armar em doutor e agora já não consegue assinar igual nem que treine o dia todo! Mas está bem, eu vou lá à oficina dizer-lhe isso...
Levantou-se para ir embora, mas ainda fez um último reparo:
- O que ele vai ter que fazer é tirar um BI novo, essa é que é essa! Foi o que ele arranjou com as manias...

sábado, 7 de março de 2009

"Já provaste coca-cola?" - era uma das perguntas que mais se ouvia entre adolescentes logo após a revolução. A coca-cola foi para os jovens, absurdamente, um dos símbolos mais fortes da liberdade recém-conquistada.
A proibição tinha gerado as histórias mais fantásticas sobre o produto, a ponto de o tornar um mito. Dizia-se que era viciante, que conseguia corroer metal, que provocava doenças várias e estranhas. Mas a que eu sempre gostei mais foi a que a minha mãe me contava como verdadeira: Que quem tomasse uma aspirina com o mágico e pernicioso líquido, experimentaria uma "trip" que o levaria do mundo dos lúcidos para o mundo da loucura num "ai".
Por isso, entre nós, sussurrava-se maliciosamente a pergunta, quase em tom de cumplicidade num crime:
- E tu? Já provaste coca-cola?

sexta-feira, 6 de março de 2009

Às vezes queremos ser tão simpáticos e corre-nos tão mal!
A minha colega estava a atender uma jovem estudante universitária que precisava de vários documentos para um trabalho de investigação. Entre as duas desenvolvia-se um diálogo amigável. Até que, devido certamente ao tom escuro de pele da sua interlocutora, a minha colega fez a pergunta fatal, embora sorridente e, tenho a certeza, sem qualquer segunda intenção:
- E então, quando acabar o curso, gostava de ficar por cá, ou regressa?
E ela, um pouco sem jeito:
- Eu nasci cá...

quinta-feira, 5 de março de 2009

A mulher à minha frente tinha urgência. Não de resolver o assunto que trazia, mas de aliviar a alma. E resolveu fazê-lo comigo.
Sem me conhecer de lado nenhum e em menos de cinco minutos, contou-me que vive com a mãe velhinha e doente, que a irmã e o cunhado não querem saber de nada.
- Conhece a Julinha das Muletas? - perguntou-me de rajada.
- Eu... não... - respondi confusa.
- Como não? Aquela a quem a segurança social tirou o Bruninho! Toda a gente a conhece!...
Pois bem, a tal Julinha das Muletas era a irmã dela, a que não quer saber e só lhe ronda a casa para conseguir dinheiro. Antes dela sair com a certidão emitida, fiquei ainda a saber que, tanto ela como o homem dela, já agarraram o vírus da SIDA.
Chamei o cliente seguinte e esqueci tudo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Nas tardes quentes de verão, quando o calor sufocava demais para brincar no quintal, aprendi as minhas primeiras frases em língua estrangeira.
Aprendi-as com a boneca espanhola que a minha avó me tinha trazido duma viagem. Era uma boneca morena de vestido branco aos favos e cabelo ondulado pelos ombros. Tinha uma guita na parte de trás do pescoço que se puxava para a fazer falar.
E eu ficava ali, preguiçosa e melancólica, puxando vezes sem conta e ouvindo as frases em número limitado que saíam aleatoriamente, por vezes tentando adivinhá-las antecipadamente, num jogo solitário.
"Te quiero mucho!", era a minha preferida...

terça-feira, 3 de março de 2009

Cresci, até à minha pré-adolescência, num meio rural, mas protegida como qualquer menina urbana mimada. Não me era permitido sair dos muros da nossa propriedade a não ser para ir à escola e à missa, onde os meus horários de ida e volta eram controlados ao minuto. Por isso, eu não conhecia nenhum dos segredos que as crianças rurais conheciam. Sabia tocar um instrumento musical, pois tinha um professor particular para isso, sabia o que era uma televisão, um aspirador, uma máquina de lavar e um frigorífico, coisas que para as minhas colegas eram apenas mitos de que tinham ouvido falar vagamente. Sabia comer de faca e garfo, tinha uma casa de banho com banheira e água quente corrente, coisas quase desconhecidas na aldeia.
Desconhecia totalmente o que era a vida do seu início até ao seu fim porque, ao contrário das outras crianças que corriam livres pelos campos, eu nunca tinha visto os animais do rebanho a acasalar, nem um vitelo nascer, nem o ritual de espetar uma faca na jugular dum porco, nem a vida a jorrar-lhe de lá de dentro em forma de sangue para alimentar os homens.
Quando tinha nove anos, eu ainda pensava que as crianças se mandavam vir de França embrulhadas numa embalagem endereçada. E quando as minhas colegas ignorantes tinham, à minha frente, conversas que ouviam aos adultos do seu meio, que viviam as suas vidas com a simplicidade da dos animais, sem tocarem instrumentos musicais nem usarem electrodomésticos, eu nunca percebia nada. Depois, ia para casa perguntar à minha mãe o que queria dizer "alcançar um bebé", "parir", "desonrar e casar", "por-se nela", "servir-se dela" e outras coisas normais na vida das pessoas duma aldeia do Portugalzinho cinzento de então, ao que ela me respondia sempre que tinha tempo. Tinha tempo...

segunda-feira, 2 de março de 2009

A minha infância foi impregnada de pecado. Desde muito pequena, aprendi que o pecado era a fonte de todo o mal e me poderia levar, à mínima falha, a arder no inferno para sempre. Não aquele pecados grandes como matar ou roubar a que normalmente chamamos crimes. Eram antes pequenos gestos nos quais, duma forma insidiosa, Deus tinha incorporado fáceis deslizes só para se divertir connosco. Era mais ou menos como jogar um jogo que já sabíamos viciado contra nós.
Tocar com os dentes na hóstia sagrada era pecado. Brincar com as serpentinas a partir da quarta-feira de cinzas era pecado, mesmo que nos tivessem sobrado muitas e das nossas cores preferidas. Comer carne ou simplesmente pensar que nos apetecia um bife durante as sextas-feiras da quaresma era pecado. Ter um ataque de riso incontrolável durante a missa era pecado. Apanhar uma flor dum jardim alheio, mesmo que ela estivesse do lado de cá do muro, era pecado. Desobeder aos pais e aos professores era pecado... De cada vez que cometíamos um destes actos (e cometíamos muitas vezes pois o contrário seria impossível), passávamos noites de angústia solitária, pensando no que nos esperava um dia, quando morrêssemos e nos fosse negada a entrada no céu, martirizando-nos com a nossa própria imagem ardendo no fogo eterno e tentando inventar uma solução milagrosa para escapar ao castigo.
E depois havia ainda o tal pecado original, o cometido por Adão e Eva ao terem comido uma maçã duma espécie rara que eu não sabia qual era, mas não era com certeza as que cresciam nas árvores do quintal lá de casa, que essas eu sabia que não era pecado comer, nem cruas, nem assadas, nem em compotas ou bolos.

domingo, 1 de março de 2009

Eu era adolescente e estava ali sozinha, com a minha filha de quatro meses (como se fosse o meu Nenuco mas com uma virose real) e com o médico pediatra mais respeitado da cidade e da nata da mesma.
Ali estava eu, com a minha filha de quatro meses deitada numa marquesa, à espera que aquele homem mais velho e sabedor me salvasse da minha desorientação com um antibiótico milagroso e com uma palavra de sossego. Precisava que ele me dissesse com toda a certeza que aquela coisa viva deitada na marquesa e pela qual eu já tinha passado mais temores, angústias e dores físicas do que a maior parte dos mortais passa durante a vida inteira, não ia morrer nem nada disso.
Não sei se naquele momento era eu a mais frágil ou a minha filha de quatro meses. Acho que era eu.
Para minha surpresa, o respeitado doutor, em vez de perguntar pela febre, pelos vómitos, pelos choros da criança, perguntou-me a mim pela minha precocidade sexual. Perguntou-me, com aquele sorriso que fazem os homens quando metem nojo, se eu era "fresquinha". Quantas pilas já tinham passado por mim e se não me importava que passasse mais uma.
Eu, olhava para a minha filha de quatro meses, nua como o menino Jesus e deitada na marquesa e não sabia o que me estava a acontecer. Não disse nada. Pensei apenas: - Por favor, não me faça isto! - e esperei pelo xarope milagroso.
Ainda com aquele riso imbecil por toda a cara, o médico sentou-se para escrever qualquer coisa num papel que me entregou. Arranquei-lho da mão, vesti a minha filha, sempre em silêncio e vim embora depois de pagar à empregada velha que estava sentada numa secretária velha à porta do consultório a fazer tricot.
Contei à minha mãe o que tinha acontecido. Ela disse-me que não podia ser, que eu tinha percebido mal. Que o Dr. ***** ******, médico respeitado e que já tinha tratado de mim e de todos os meus irmãos, não seria capaz disso. Que eu tivesse juízo.
Depois, contei ao pai da minha filha, adolescente como eu, que me disse que eu era uma doida, sempre tinha sido e havia de continuar a ser, que até o pediatra fui provocar. Insultou-me ainda com mais algumas palavras que não repito aqui.
Nunca mais contei a ninguém. Estou a contar-vos agora a vocês.
O Dr. ***** ****** morreu há algus anos, de velhice e em paz. Não tive pena.