sexta-feira, 20 de março de 2009

#5
A minha filha: A M… copiou tudo por mim no teste e a professora descobriu. Depois castigou-me só a mim.
Eu: A culpa é tua!
A minha filha: Minha???!!! Mas não fui eu que copiei!!! Juro!!!
Eu: Acredito. Mas deixaste copiar, não devias.
A minha filha: Vais-me dizer que quando andavas no liceu não deixavas copiar!...
Eu: Claro que não! Nem no liceu nem na universidade. Cada um que estudasse para si. Eu queria ter as melhores notas, e para isso não podia deixar copiar.
A minha filha: Eras gananciosa por notas???!!!
Eu: Era! E ninguém copiava por mim!
A minha filha: E se alguém te pedisse, como era? Como é que encaravas a pessoa daí para a frente?
Eu: Não dizia que não nem que sim. Não deixava copiar e depois podia dizer que a professora estava sempre a olhar, por exemplo.
A minha filha (chocadíssima): Mas tu és do mais sonsa que há!!!...

quinta-feira, 19 de março de 2009

#4
As mulheres da minha infância eram santas que transformavam pão em rosas no seu regaço por temor ao marido, santas famintas a que a mãe de Deus aparecia em cima duma azinheira com mensagens de resignação, santas que mandavam construir hospitais para os pobres e conventos para os frades porque eram rainhas, santas que morriam por amor, santas, santas, santas.
Embora possa parecer pouco credível a quem tenha nascido uns anos depois, a verdade é que quando eu me apercebi que as mulheres podiam ser outras coisas sem ser santas já sabia ler e escrever seguidinho. Apercebi-me com personagens de ficção como a Pippi das Meias Altas e a Barbarella, que para mim eram tão reais como eu, e depois com celebridades, como a Suzy Quatro e outras de que já nem lembro o nome.
Apaixonei-me por essas mulheres, mas não no sentido sexual do termo. Apaixonei-me por aquilo que elas eram e que eu queria ser um dia. Enchi as paredes do meu quarto de pré-adolescente com imagens dessas mulheres e regozijei-me por saber que não era obrigatório ser santa nem passar o dia a limpar e arrumar coisas como as que eu conhecia.
Não me recordo de ter tido um único ídolo do sexo masculino naquela idade parva em que se tem ídolos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

#3
Quando me vi na iminência de ir viver com alguém, mas assim, viver mesmo, partilhar a cama durante toda a noite e não só uns bocados, que é como quem diz, casar… uma das minhas primeiras preocupações foi o meu sono.

- Mas gostas mesmo de mim?
- Sim, claro…
- Tens a certeza? Mesmo mesmo a certeza?
- Mesmo a certeza.
- Tens mesmo a certeza que és capaz de continuar a gostar de mim depois de veres os meus piores defeitos?
- Tenho mesmo a certeza. Mas que defeitos tão grandes podes tu ter que eu ainda não saiba?
Enchi o peito de ar como se fosse coragem em estado gasoso:
- Acordo muito mal.
- Mas muito mal como? Mal disposta?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?...
- Assim mais do tipo… inconsciente.

E é verdade. Todas as manhãs sou acordada com muito jeitinho, como se fosse qualquer coisa que se pode partir. Primeiro a luz, depois a televisão, baixinho. Depois uns beijinhos e uns bons dias não muito bruscos para não me provocar um avc fulminante. Algum tempo depois já consigo soltar uns sons, parecidos com miados, ainda não palavras. Mais tarde descubro que estou numa cama, na minha casa, na cidade tal, no país tal, no planeta terra e, mais duro que tudo, tenho que ir trabalhar. E vou.
O fim-de-semana é uma coisa tão boa!

terça-feira, 17 de março de 2009

#2
Consigo ir para a cama e dormir sem qualquer sentimento de culpa sabendo que deixei a louça por lavar, o carro estacionado na curva, uma conta importante por pagar, o IRS por fazer ou o lixo por pôr no contentor. Só não consigo dormir descansada se souber que me desapareceu uma meia na lavagem da roupa. Procuro na casa toda, debaixo dos móveis, desmonto o filtro da máquina de lavar, desvio os tapetes, remexo as gavetas, vou lá fora fazer a vistoria ao logradouro comum… Desaparecer uma meia é, para mim, o maior sinal da incompetência duma pessoa. Como é que pode desaparecer uma meia? Evapora-se? Foge de casa? Esconde-se? Disfarça-se de cueca? Não, uma meia só pode desaparecer se nós falhámos em qualquer fase do processamento!
Mas não é só! Tenho outras regras bem definidas:
1.As meias devem ir para dentro da máquina, religiosamente, aos pares. Embora as estúpidas se separem lá dentro, isso já não é responsabilidade minha!
2.As meias devem sair da máquina de lavar agarradas ao correspondente par.
3.As meias devem ser penduradas a secar aos pares, agarradas pela pontinha do pé e com os calcanhares virados para fora, bem esticadinhas.
4.As meias devem ser dobradas com os calcanhares bem direitinhos e dobrados para o lado do pé, não do cano!
5.As meias devem ser dobradas de modo a ficarem com a forma de meias dobradas e não de bola de trapos para jogar futebol na rua. Já despedi empregadas por isso!
Toda a vida achei isto normal… Até ver que o meu marido se ri de cada vez que enuncio uma destas regras.

segunda-feira, 16 de março de 2009

#1
Sou da geração das Anas. Só no ciclo preparatório havia uma turma e meia, mais coisa menos coisa, só de Anas. O conduto é que variava, mas não por aí além. Havia Anabelas (tudo junto ou em duas partes), Anas Paulas a Anas Cristinas, basicamente. As Vanessas e Tatianas vieram mais tarde. Eu, aparecia na segunda turma, a seguir à primeira metade, com um nome que indicava que eu bem podia ter nascido um século antes. Para a minha percepção na altura, podia até ter nascido logo a seguir aos dinossauros! Aquando das primeiras apresentações, no início do ano lectivo, quando os colegas me perguntavam: - “E tu, como te chamas?” – E depois comentavam – “Ah! É um nome de família?”, eu sentia-me tão infeliz como quando me aparecia uma borbulha no meio da testa de um dia para o outro, e tentava esboçar uma explicação qualquer para aquela tragédia, que nunca me saía convincente.
Como em todas as gerações de adolescentes desde que a humanidade é humanidade, ser diferente do grupo, seja no nome ou seja na marca de roupa, no formato do nariz ou no vocabulário que se usa, é suficiente para desenvolver uma depressão.
Muito mais tarde descobri que o meu nome tem origem grega e nasceu nos mitos do Olimpo, cujos habitantes são maiores que os mortais. Reconciliei-me com ele. Não por ter sabido que era grego, mas porque cheguei à idade em que nos reconciliamos com tudo, até as borbulhas.

domingo, 15 de março de 2009

O Pedro escolheu-me como uma das vítimas para responder a um desafio: Escrever seis factos aleatórios sobre mim mesma.
Na boa. Assim aproveito e escrevo mais seis post todos a seguir como eu costumo fazer para torrar a paciência aos leitores.
É também suposto
1.publicar o link de quem me desafiou (já cá estava e já está outra vez)
2. Publicar as regras (são estas... não são?)
3.Contar seis factos aleatórios sobre mim (já vai já vai!)
4. Indicar mais seis vítimas e publicitar os respectivos endereços (já vai já vai!)
5. Avisá-los do que lhes acaba de suceder (que trabalheira)
6. Não os apressar a responder (Claro que não! Se não for hoje pode ser amanhã! Sem problema!)

Então vamos primeiros aos agarrados (cheira-me que hoje vou poupar as mulheres):
1. Monday
2. Nós os Cachorros
3. Carlos
4. Predatado
5. mfc
6. Luís

E agora vamos então pôr a minha vida ao sol:

1. Durante muitos anos tive problemas com o meu nome.
2. Tenho uma obsessão inexplicável por meias.
3. Demoro imenso tempo a acordar até saber quem sou e onde estou.
4. Todos os ídolos da minha infância e adolescência foram mulheres. Tecnicamente, eu devia ser lésbica.
5. Sou um bocado sonsa.
6. Gosto de anchovas, alcaparras e outras comidas esquisitas.

sábado, 14 de março de 2009


Ganhei o meu primeiro selo! Isto quer dizer, claro, que a minha modéstia está já a ansiar por uma colecção inteira de filatelia!

Foi a Erica , que é uma querida e tem um blog daqueles com conteúdo só para adultos, que mo ofereceu. Obrigada!

Agora, é suposto eu fazer o seguinte:

1.Exibir a imagem do selo (já está)

2. Postar o link de quem te deu o selo (já está)

3. Escolher 10 mulheres bem resolvidas (traduzo livremente por qualquer coisa como o oposto de mal f...)

4. Avisar as escolhidas (já lá vou).


Então as escolhidas, depois de enorme reflexão, são as seguintes:












sexta-feira, 13 de março de 2009

Já com a quarta-classe feita (portanto, praticamente uma intelectual), apanhámos o autocarro para irmos ao liceu da cidade fazer o exame médico que nos daria acesso à continuação dos nossos importantes estudos. Foi um dia importante. Da minha escola éramos quatro. As restantes já por essa altura abraçavam a profissão que iriam ter para o resto dos seus dias: Cultivar as terras e cuidar dos animais.
Quando chegámos, já havia uma fila imensa de meninas de dez anos de todas as aldeias em redor, ansiosas por se tornarem estudantes de liceu, estatuto na altura mais importante do que hoje ter uma licenciatura da Moderna.
Mandaram-nos despir, ficar só em cuecas e formar fila à porta do gabinete da senhora doutora, coisa inusitada para a altura. Ninguém esperava por isso e o desconforto foi geral e notório. Umas sentiam-se mal porque, apesar da tenra idade, já pareciam umas miniaturas de mulheres. Outras, porque pareciam ainda umas crianças. Eu incluia-me no segundo caso.
A médica passou a tarde a mandar pôr a língua de fora, auscultar sumariamente e a dizer:
-Vá lá meninas! Somos todas mulheres aqui! Não há problema!
E nós a pensar:
- Ai é? Então porque não te pões tu também em cuecas hein?

quinta-feira, 12 de março de 2009

No centro comercial, parei para um lanche daqueles que eu chamo "substituto do almoço para aguentar até ao jantar". Pedi:
- Um descafeinado cheio e um queque de aveia por favor.
A empregada brasileira reformulou, como que a ter a certeza que tinha percebido bem:
- Um djiscafênado e uma queca dji avéia?
Um pouco surpresa fiz uma pausa. Mas depois respondi, como se nada fosse:
- Sim, isso mesmo.
E pensei:
- Deve estar cá há pouco tempo.

Lembrei-me da estagiária brasileira que tive há alguns anos. Uma rapariga muito divertida que dizia, entre outras coisas, que "ia precisar de durex para fazer trabalhos com as crianças" e que "sabia fazer broches muito legais usando material reciclado". Tenho saudades dela.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Foi numa noite de natal, há muitos anos. Eu, sempre muito mais à frente que os demais em técnica e filosofia de vida, como todos os putos teimosos, tinha acabado de inventar um método novo de abrir nozes. Enfiava a ponta duma faca muito afiada num extremo da noz e depois dava uma pequena volta, o que a fazia abrir-se com um som de pequeno estalido e me divertia. Os adultos, animados pela conversa e pelo álcool, avisaram-me, ainda assim:
- Vais cortar-te!
- Não vou nada! Sei muito bem o que estou a fazer!
Duas ou três nozes depois a faca resvalou para o meu polegar esquerdo. Olhei e pareceu-me, assim de repente, que o meu dedo estava dividido em dois e começava a sangrar abundantemente. Em volta ninguém se apercebeu, a conversa estava animada. Fugi a correr para o quarto e ninguém deu por nada. Já fechada nos meus domínios, analisei mais detalhadamente o resultado da minha avançada técnica. De facto, toda a cabeça do dedo, na parte da frente, tinha sido decepada e estava presa apenas por um pequeno pedaço de pele. Continuei e não querer dar parte de fraca. Embrulhei o dedo e o que sobrava dele num lenço e tranquei-me na casa de banho. O sangue jorrava em grande quantidade. Com a água da torneira sempre a correr, tentei juntar as duas "peças" conforme o formato original e embrulhei tudo com força numa ligadura que havia no armário. Colei com adesivo e voltei para a mesa, onde acabei de jantar com a mão esquerda sempre escondida. Talvez porque fosse noite de natal e toda a gente estava muito animada, ninguém se apercebeu de nada, nem me chamaram à atenção por estar a usar apenas a mão direita. Mais tarde fui dormir e na manhã seguinte já pude substituir a ligadura enorme por um penso mais pequeno. Quando me perguntaram, finalmente, o que era aquilo, disse que tinha roído uma unha muito rente.
O que é certo é que, embora a pele tenha acabado por cair e ser substituída por uma nova, a carne colou direitinho no local onde pertencia.
Ainda hoje tenho uma cicatriz que completa uma forma arredondada no meu polegar esquerdo. É de estimação.

terça-feira, 10 de março de 2009

O meu filho tinha seis anos e frequentava a escola há um mês quando decidiu que uma das missões da sua vida seria infernizar a minha através dum invulgar desprezo por tudo quanto fosse estudo. E comunicou-mo oficialmente, muito solene, desta forma:
- Mãe, tenho uma coisa para te dizer: Eu (e fez uma pequena pausa) não sou um homem de pensamento. Sou um homem de trabalho!
Eu achei piada e ri-me muito. Nesse momento ainda não sabia que era mesmo verdade.

segunda-feira, 9 de março de 2009

No dia do exame da quarta-classe estreei um vestido novo. Azul com bolinhas brancas e debruado a vermelho nos folhos. Horrível. Embora na altura eu estivesse orgulhosíssima dentro dele, o que foi bom, por ter feito aumentar a minha auto-estima, tão necessária para aquela verdadeira provação por que todos tínhamos que passar aos dez anos de idade: Ter que provar perante um júri carrancudo que sabíamos de cor a tabuada, os reis de Portugal e as respectivas dinastias, os rios e seus afluentes, montanhas e respectivas alturas em metros, as províncias e as suas cidades e a agricultura mais praticada em cada região do país. Isso era, à primeira vista, coisa pouca, dados os pouco mais de 90.000 km2 do território. Qual quê? Havia ainda as colónias e suas populações mestiças e negras, mas tão patriotas, diziam-nos, como nós. Felizmente, na altura, já o Brasil fazia parte dos renegados e era apenas uma pequena menção dos territórios que tinham feito parte do grandioso império. Felizmente, porque se tivéssemos que saber a geografia daquela imensidão, nem mil anos a marrar nos livros nos safavam, comentávamos nós umas com as outras numa tentativa de ver o lado bom de tanto estudo inútil. De lá, e até porque as novelas ainda não tinham aportado do lado de cá, só sabíamos da existência de um rei duma única dinastia: O Roberto Carlos. Não podíamos era dizer isso à frente da professora. Não era patriótico.
O exame da quarta classe marcava também outra coisa por que todas ansiávamos, fosse qual fosse o nosso destino pré-reservado consoante a classe social: Para umas, a maioria, o fim da escola e das habituais tareias de régua e cana da índia. Para outras, o liceu, onde já não era permitido dar tareias aos alunos com régua nem cana da índia...