São um casal de ciganos. Morenos como só eles e com uma criança nos braços. As outras dez ainda não chegaram pois são mesmo muito jovens. Não obstante, ela exibe já uma barriga proeminente de parideira profissional.
Aproximam-se com aquele ar de quem vai puxar pelo nosso lado sentimental. Nós pomo-nos logo à defesa. Pensamos: - "Tudo o que eles disserem é mentira e o que não disserem também." - e preparamo-nos para o embate. Ela é que fala. Nos casais ciganos, apesar de tudo o que pensamos sobre eles, é sempre ela que fala. Penso que faz parte da estratégia de provocar comiseração. Quem não tem pena duma mãe miserável? Mas como ia dizendo, ela fala, com o semblante mais sombrio que consegue arranjar. Conseguimos até ver as sobrancelhas que descem pelas faces como numa Pietá.
- Oh minha senhora! Nós estamos sem casa para morar! Estamos na rua com o menino, ai! Vocês têm que nos dar uma casinha que a gente estamos na rua! Moremos todos na mesma casa e não pode ser, que é um grande sofrimento! As minhas cunhadas batem-me e não gostam de mim! A minha sogra bate-me! Pôs-me na rua hoje!...
Ele, silencioso, continua ausente como se não fizesse parte do filme. A funcionária explica que tem que fazer o pedido por escrito para que posteriormente uma assistente social vá verificar as suas condições de habitabilidade. Depois de muita relutância, ela convence-se a escrever. Ele nem se mexe. Ela começa a rabiscar coisas indecifráveis e pergunta:
- Como é que se escreve "sofrimento"?... Posso escrever "Não aguento viver neste sofrimento" não posso?
Acenamos que sim.
- Como é que se escreve "aguento"? Ai minha senhora, nós somos pobres e não temos assim muitos estudos.
Não têm assim muitos estudos deve querer dizer que fizeram o segundo ano do ensino básico e não desistiram logo no primeiro.
Finalmente, entregam-nos um papel ilelível, que nós traduzimos em informação anexa.
Vão embora.
Antes de sair, porém, ela lembra-se de algo importante. Vira-se para trás e informa-nos, muito convicta:
-Olhe que quando a senhora do social lá for, a minha sogra deve de dizer que sou eu que lhe bato a ela e às filhas! Mas é mentira!
-Está bem - anuímos já sem conseguir disfarçar um sorriso.
Ele hesita mais um pouco.
-Olhe! É melhor não irem lá! Elas que me liguem! E saca dum telemóvel topo de gama, melhor do que os nossos todos juntos, para que copiemos o número.