quinta-feira, 26 de março de 2009

Era urgente explicar-lhe que, em Portugal, não devia dizer às crianças que lhes ia ensinar a fazer broches. Mas ela não se contentou com a proibição, como é evidente era crescida e inteligente e quis saber porquê. Decidi-me. Comecei por explicar em voz alta que para nós, portugueses, um broche é um acto... E acabei a explicação em voz muito baixa, quase sussurada ao ouvido, porque havia mais gente na sala. Usei palavras bem escolhidas, como se saídas dum livro científico. Nada de ordinarice. No final, era abriu muito os olhos de espanto e exclamou em voz alta:
-Sério???!!! Broche é bôquetchi???!!!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vejo-o a dar entrevistas na televisão e lembro-me que uma das maiores vergonhas que passei na vida é da sua responsabilidade.
Era um jogo de futebol do mundial, entre a selecção nacional e os Estados Unidos. Sim, aquele país onde os únicos onze gajos que sabem que o futebol pode ser uma coisa diferente de andar de capacete aos berros e chocar violentamente uns contra os outros se juntam e formam uma equipa. Esse mesmo. Que risco poderá então haver em jogar com os Estados Unidos? Para mim, o risco era zero. Era o mesmo que eu ir correr os cem metros contra uma lesma coxa!
Devidamente medidas então as probabilidades de risco, tomei a decisão. Não gosto especialmente de futebol, não consigo perceber o que é um fora de jogo, mas nesse dia resolvi partir para a festa pura e dura. Maquilhei-me de verde e vermelho, vesti-me de verde e vermelho, estava de arrasar, e vim para a rua ver o jogo num ecran gigante numa praça da cidade. À minha volta havia uma multidão de gente revestida de verde e vermelho dos pés à cabeça como eu. Muitas com aqueles chapéus que, fora do contexto, são simplesmente inaceitáveis.
O jogo começou e a malta preparou-se para abrir. Fazer uma purga. Alguns minutos depois, os Estados Unidos já tinham marcado um golo e nem eles sabiam como tinham conseguido. Quando chegou ao 3-0 as pessoas na praça (eu incluída), começaram a acreditar que tinham morrido numa catástrofe natural e já estavam no inferno. A angústia da derrota passou, assim, a angústia existencial: O fim é isto? Então é muito mau!
Mas não. Isto não foi o pior. O pior foi quando eu tive que regressar a casa naquela figura e passar por um monte de gente conhecida. Isso foi o pior.

terça-feira, 24 de março de 2009

Lembro-me dos rebuçados de meio tostão como se fosse hoje. Vinham em várias cores, embrulhados em pedaços de papel transparente. Embora tivessem todos o mesmo cheiro intenso adoçicado, nós conseguíamos distinguir no paladar e na imaginação um sabor correspondente à cor que os corantes químicos lhe tinham conferido.
-Hmmm! Este é laranja! - dizíamos se fosse amarelo forte.
-Este é de morango! - para os vermelhos.
E assim do mesmo modo para os verdes de maçã, os roxos de amora e os amarelo-pálido de limão.
Um dia destes passei na rua por uma senhora muito perfumada, como se tivesse caído dentro dum frasco gigante de perfume e se tivesse debatido por horas até conseguir sair de lá.
Aos olhares enjoados de todos contrapôs-se o meu sorriso infantil de surpresa:
- Rebuçados de meio tostão! - exclamei cheia de nostalgia. E fiquei a olhar para ela, que não deve ter percebido que lhe estava a fazer um elogio.

segunda-feira, 23 de março de 2009

São um casal de ciganos. Morenos como só eles e com uma criança nos braços. As outras dez ainda não chegaram pois são mesmo muito jovens. Não obstante, ela exibe já uma barriga proeminente de parideira profissional.
Aproximam-se com aquele ar de quem vai puxar pelo nosso lado sentimental. Nós pomo-nos logo à defesa. Pensamos: - "Tudo o que eles disserem é mentira e o que não disserem também." - e preparamo-nos para o embate. Ela é que fala. Nos casais ciganos, apesar de tudo o que pensamos sobre eles, é sempre ela que fala. Penso que faz parte da estratégia de provocar comiseração. Quem não tem pena duma mãe miserável? Mas como ia dizendo, ela fala, com o semblante mais sombrio que consegue arranjar. Conseguimos até ver as sobrancelhas que descem pelas faces como numa Pietá.
- Oh minha senhora! Nós estamos sem casa para morar! Estamos na rua com o menino, ai! Vocês têm que nos dar uma casinha que a gente estamos na rua! Moremos todos na mesma casa e não pode ser, que é um grande sofrimento! As minhas cunhadas batem-me e não gostam de mim! A minha sogra bate-me! Pôs-me na rua hoje!...
Ele, silencioso, continua ausente como se não fizesse parte do filme. A funcionária explica que tem que fazer o pedido por escrito para que posteriormente uma assistente social vá verificar as suas condições de habitabilidade. Depois de muita relutância, ela convence-se a escrever. Ele nem se mexe. Ela começa a rabiscar coisas indecifráveis e pergunta:
- Como é que se escreve "sofrimento"?... Posso escrever "Não aguento viver neste sofrimento" não posso?
Acenamos que sim.
- Como é que se escreve "aguento"? Ai minha senhora, nós somos pobres e não temos assim muitos estudos.
Não têm assim muitos estudos deve querer dizer que fizeram o segundo ano do ensino básico e não desistiram logo no primeiro.
Finalmente, entregam-nos um papel ilelível, que nós traduzimos em informação anexa.
Vão embora.
Antes de sair, porém, ela lembra-se de algo importante. Vira-se para trás e informa-nos, muito convicta:
-Olhe que quando a senhora do social lá for, a minha sogra deve de dizer que sou eu que lhe bato a ela e às filhas! Mas é mentira!
-Está bem - anuímos já sem conseguir disfarçar um sorriso.
Ele hesita mais um pouco.
-Olhe! É melhor não irem lá! Elas que me liguem! E saca dum telemóvel topo de gama, melhor do que os nossos todos juntos, para que copiemos o número.

domingo, 22 de março de 2009

Contam as pessoas mais velhas da minha cidade este episódio:
"Que uma mulher casada e adúltera costumava ir para os campos com o amante, de carro. Mais tarde regressavam de carro, com ela sempre no porta-bagagens, pois naquele tempo uma mulher casada não podia ser vista sozinha na companhia de outro homem que não fosse o marido. Contam também que um dia ele se esqueceu. Chegou e foi beber uns copos com os amigos. Quando ela começou a sentir falta de ar dentro do porta-bagagens, começou a bater e a gritar para que alguém abrisse. Logo se juntou um grupo de curiosos que chamou a polícia. Quando a mala do carro foi aberta ela foi descoberta e, bem feita, exonerada da família e da sociedade bem do burgo."
Esta história eu sempre ouvi contar às pessoas mais velhas da cidade com um sorriso malicioso nos lábios, ou então, pior, rindo-se a bandeiras despregadas como se de uma anedota se tratasse. Eu, que sou uma incorrigível romântica que chora no cinema, embora nem sempre pareça, nunca me consegui rir. Ouvia a história com parcimónia e, no meu íntimo, endeusava aquela mulher. Num tempo em que a pequenez da terra e das cabeças das pessoas tornavam tão arriscado ter aventuras, se eles o faziam é porque tinham uma verdadeira paixão. Daquelas paixões arrebatadoras que tudo desconhece a não ser a si própria. Para mim, eles eram Pedro e Inês, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta...
Tão bonito e tão dramático!

sábado, 21 de março de 2009

#6
Gosto de anchovas, alcaparras, caril, diversos molhos, quanto mais picantes melhor. Gosto de paelha cheia de pó amarelo. Gosto de chocolate para culinária, gosto de pão quase queimado e duro e gosto de bolachas moles. Gosto de carnes vermelhas mal passadas, carneiro cozinhado em vinho tinto, pato. Gosto de favas. Gosto de malaquetas e cebolas em pickles. Gosto de pimentos padron grelhados com sal grosso.
Há poucas coisas que eu não consigo comer, caracóis, lampreia e enguias por exemplo, e duma maneira geral tudo o que rasteje ou me sugira qualquer coisa de rasteje. De resto, marcha.
Antes de conhecer o meu actual marido, nem polvo comia. Tinha ventosas. Com ele, habituei-me a ser a rainha das lambonas. E, de vez em quando, a fazer longos períodos de dieta rigorosa. Tem que ser.

sexta-feira, 20 de março de 2009

#5
A minha filha: A M… copiou tudo por mim no teste e a professora descobriu. Depois castigou-me só a mim.
Eu: A culpa é tua!
A minha filha: Minha???!!! Mas não fui eu que copiei!!! Juro!!!
Eu: Acredito. Mas deixaste copiar, não devias.
A minha filha: Vais-me dizer que quando andavas no liceu não deixavas copiar!...
Eu: Claro que não! Nem no liceu nem na universidade. Cada um que estudasse para si. Eu queria ter as melhores notas, e para isso não podia deixar copiar.
A minha filha: Eras gananciosa por notas???!!!
Eu: Era! E ninguém copiava por mim!
A minha filha: E se alguém te pedisse, como era? Como é que encaravas a pessoa daí para a frente?
Eu: Não dizia que não nem que sim. Não deixava copiar e depois podia dizer que a professora estava sempre a olhar, por exemplo.
A minha filha (chocadíssima): Mas tu és do mais sonsa que há!!!...

quinta-feira, 19 de março de 2009

#4
As mulheres da minha infância eram santas que transformavam pão em rosas no seu regaço por temor ao marido, santas famintas a que a mãe de Deus aparecia em cima duma azinheira com mensagens de resignação, santas que mandavam construir hospitais para os pobres e conventos para os frades porque eram rainhas, santas que morriam por amor, santas, santas, santas.
Embora possa parecer pouco credível a quem tenha nascido uns anos depois, a verdade é que quando eu me apercebi que as mulheres podiam ser outras coisas sem ser santas já sabia ler e escrever seguidinho. Apercebi-me com personagens de ficção como a Pippi das Meias Altas e a Barbarella, que para mim eram tão reais como eu, e depois com celebridades, como a Suzy Quatro e outras de que já nem lembro o nome.
Apaixonei-me por essas mulheres, mas não no sentido sexual do termo. Apaixonei-me por aquilo que elas eram e que eu queria ser um dia. Enchi as paredes do meu quarto de pré-adolescente com imagens dessas mulheres e regozijei-me por saber que não era obrigatório ser santa nem passar o dia a limpar e arrumar coisas como as que eu conhecia.
Não me recordo de ter tido um único ídolo do sexo masculino naquela idade parva em que se tem ídolos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

#3
Quando me vi na iminência de ir viver com alguém, mas assim, viver mesmo, partilhar a cama durante toda a noite e não só uns bocados, que é como quem diz, casar… uma das minhas primeiras preocupações foi o meu sono.

- Mas gostas mesmo de mim?
- Sim, claro…
- Tens a certeza? Mesmo mesmo a certeza?
- Mesmo a certeza.
- Tens mesmo a certeza que és capaz de continuar a gostar de mim depois de veres os meus piores defeitos?
- Tenho mesmo a certeza. Mas que defeitos tão grandes podes tu ter que eu ainda não saiba?
Enchi o peito de ar como se fosse coragem em estado gasoso:
- Acordo muito mal.
- Mas muito mal como? Mal disposta?
- Mais ou menos.
- Mais ou menos?...
- Assim mais do tipo… inconsciente.

E é verdade. Todas as manhãs sou acordada com muito jeitinho, como se fosse qualquer coisa que se pode partir. Primeiro a luz, depois a televisão, baixinho. Depois uns beijinhos e uns bons dias não muito bruscos para não me provocar um avc fulminante. Algum tempo depois já consigo soltar uns sons, parecidos com miados, ainda não palavras. Mais tarde descubro que estou numa cama, na minha casa, na cidade tal, no país tal, no planeta terra e, mais duro que tudo, tenho que ir trabalhar. E vou.
O fim-de-semana é uma coisa tão boa!

terça-feira, 17 de março de 2009

#2
Consigo ir para a cama e dormir sem qualquer sentimento de culpa sabendo que deixei a louça por lavar, o carro estacionado na curva, uma conta importante por pagar, o IRS por fazer ou o lixo por pôr no contentor. Só não consigo dormir descansada se souber que me desapareceu uma meia na lavagem da roupa. Procuro na casa toda, debaixo dos móveis, desmonto o filtro da máquina de lavar, desvio os tapetes, remexo as gavetas, vou lá fora fazer a vistoria ao logradouro comum… Desaparecer uma meia é, para mim, o maior sinal da incompetência duma pessoa. Como é que pode desaparecer uma meia? Evapora-se? Foge de casa? Esconde-se? Disfarça-se de cueca? Não, uma meia só pode desaparecer se nós falhámos em qualquer fase do processamento!
Mas não é só! Tenho outras regras bem definidas:
1.As meias devem ir para dentro da máquina, religiosamente, aos pares. Embora as estúpidas se separem lá dentro, isso já não é responsabilidade minha!
2.As meias devem sair da máquina de lavar agarradas ao correspondente par.
3.As meias devem ser penduradas a secar aos pares, agarradas pela pontinha do pé e com os calcanhares virados para fora, bem esticadinhas.
4.As meias devem ser dobradas com os calcanhares bem direitinhos e dobrados para o lado do pé, não do cano!
5.As meias devem ser dobradas de modo a ficarem com a forma de meias dobradas e não de bola de trapos para jogar futebol na rua. Já despedi empregadas por isso!
Toda a vida achei isto normal… Até ver que o meu marido se ri de cada vez que enuncio uma destas regras.

segunda-feira, 16 de março de 2009

#1
Sou da geração das Anas. Só no ciclo preparatório havia uma turma e meia, mais coisa menos coisa, só de Anas. O conduto é que variava, mas não por aí além. Havia Anabelas (tudo junto ou em duas partes), Anas Paulas a Anas Cristinas, basicamente. As Vanessas e Tatianas vieram mais tarde. Eu, aparecia na segunda turma, a seguir à primeira metade, com um nome que indicava que eu bem podia ter nascido um século antes. Para a minha percepção na altura, podia até ter nascido logo a seguir aos dinossauros! Aquando das primeiras apresentações, no início do ano lectivo, quando os colegas me perguntavam: - “E tu, como te chamas?” – E depois comentavam – “Ah! É um nome de família?”, eu sentia-me tão infeliz como quando me aparecia uma borbulha no meio da testa de um dia para o outro, e tentava esboçar uma explicação qualquer para aquela tragédia, que nunca me saía convincente.
Como em todas as gerações de adolescentes desde que a humanidade é humanidade, ser diferente do grupo, seja no nome ou seja na marca de roupa, no formato do nariz ou no vocabulário que se usa, é suficiente para desenvolver uma depressão.
Muito mais tarde descobri que o meu nome tem origem grega e nasceu nos mitos do Olimpo, cujos habitantes são maiores que os mortais. Reconciliei-me com ele. Não por ter sabido que era grego, mas porque cheguei à idade em que nos reconciliamos com tudo, até as borbulhas.

domingo, 15 de março de 2009

O Pedro escolheu-me como uma das vítimas para responder a um desafio: Escrever seis factos aleatórios sobre mim mesma.
Na boa. Assim aproveito e escrevo mais seis post todos a seguir como eu costumo fazer para torrar a paciência aos leitores.
É também suposto
1.publicar o link de quem me desafiou (já cá estava e já está outra vez)
2. Publicar as regras (são estas... não são?)
3.Contar seis factos aleatórios sobre mim (já vai já vai!)
4. Indicar mais seis vítimas e publicitar os respectivos endereços (já vai já vai!)
5. Avisá-los do que lhes acaba de suceder (que trabalheira)
6. Não os apressar a responder (Claro que não! Se não for hoje pode ser amanhã! Sem problema!)

Então vamos primeiros aos agarrados (cheira-me que hoje vou poupar as mulheres):
1. Monday
2. Nós os Cachorros
3. Carlos
4. Predatado
5. mfc
6. Luís

E agora vamos então pôr a minha vida ao sol:

1. Durante muitos anos tive problemas com o meu nome.
2. Tenho uma obsessão inexplicável por meias.
3. Demoro imenso tempo a acordar até saber quem sou e onde estou.
4. Todos os ídolos da minha infância e adolescência foram mulheres. Tecnicamente, eu devia ser lésbica.
5. Sou um bocado sonsa.
6. Gosto de anchovas, alcaparras e outras comidas esquisitas.