sábado, 4 de abril de 2009

O S******* era um homem duro como a vida que tinha levado desde pequeno. Para ele não havia subtilezas nem metáforas. Um pão era um pão e um queijo era um queijo. Sem instrução, a sua única arma era o trabalho, pelo que acumulava o ofício de padeiro e pasteleiro com o de contínuo numa repartição. Muito antes de os demais saírem da cama, horas antes do sol se mostrar, já o S******* distribuía pão e bolos numa carrinha para quem a sucata teria sido uma caridade... há muitos anos. E foi numa dessas rondas de distribuição que o S******* se viu, numa fatídica madrugada, parado no meio do caminho de ferro. A carrinha, cansada de tanto trabalhar após a idade natural da reforma, desistiu e não dava sinal de vida. Com o comboio a aproximar-se ao longe, o S******* rodava furiosamente a chave na ignição enquanto carregava no acelerador mas ela mantinha-se indiferente ao seu desespero, como se se tivesse resignado ao suicídio.
- Minha Nossa Senhora! - exclamou ele com uma fé repentina que nunca antes tinha sentido - Se esta p*ta arrancar, prometo que vou a pé a Fátima todos os anos!
Aquele apelo inusitado deve ter, por qualquer motivo inexplcável, acordado a santa. O que é certo é que, quando rodou a chave mais uma vez, o velho motor rugiu e conseguiu, por escassos segundos, escapar ao monstro de ferro. Mas ainda as rodas traseiras não tinham pisado alcatrão firme, já o S******* reformulava a promessa:
- Obrigado minha Nossa Senhora! Mas pelo sim pelo não, é melhor ir a minha mulher a Fátima a pé que ela está mais habituada!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Chegava de manhã e dizia:
- Tenho que fazer um fax urgente!
Logo a seguir, ia tomar o pequeno-almoço. Depois o cafezinho para a concentração. E depois um cigarrinho para acalmar. Então voltava a entrar no gabinete e dizia:
- Tenho que fazer um fax urgente, por isso agora não me incomodem!
Sentava-se à secretária e tocava o telefone. Ela atendia e começava logo por:
- Tenho que fazer um fax urgente e não me deixam em paz nem um minuto!... Diz... Sim... Ah...
E continuava a conversa por mais meia hora mesmo já depois do interlocutor estar com vontade de desistir e mais para lá do que para cá. Após o massacre, finalizava com:
- Vá, agora tenho mesmo que desligar porque tenho um fax urgente para fazer!
Só que entretanto, depois duma conversa com alguém que tinha passado à porta do gabinete e mais três ou quatro cigarrinhos lá fora, chegava a hora do almoço.
- Vou almoçar - dizia - mas vou rapidinho porque tenho um fax muito urgente para fazer, até logo!
Quando voltava do almoço, umas duas horas depois, dizia:
- Boa tarde! Estou tão preocupada! Tenho um fax urgente para fazer!
E então, depois de ter contado com pormenor o que tinha almoçado, se estava bem ou mal confeccionado, com quem tinha conversado e sobre o quê, sentava-se e dizia:
- Agora vou fazer um fax que é urgente! Mas primeiro tenho que tomar um cafezinho e fumar um cigarrinho.
Voltava uma hora depois e dizia:
- Agora que ninguém me interrompa, que eu vou fazer um fax urgente!
Mas, pelo sim pelo não, ainda telefonava a umas quantas pessoas a avisar, entre grandes conversas, que não lhe telefonassem porque tinha um fax muito urgente para fazer, contando com pormenor por que era tão urgente e do que constava.
Entretanto, chegava a hora de saída. Eu, que tinha o servicito todo em dia e uma vida lá fora, levantava-me e dizia:
-Vou embora! Ate amanhã!
E ela, muito consternada, respondia:
- O quê?! Já?! É sempre a mesma coisa! A sacrificada sou sempre eu que fico cá até às tantas! Tenho um fax urgente para fazer e não posso sair antes dele estar feito e enviado!
Às vezes, ainda se atrevia a ser irónica:
- Obrigadinha pela ajuda! - ouvia eu quando já ia a entrar no elevador.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A sala de espera da clínica estava a abarrotar de gente impaciente e as consultas estavam atrasadas. Mas felizmente, alguma força divina fez acontecer uma coisa que deu a todos o alento e a força anímica que faltava para aguentar o resto da tarde.
O telemóvel duma senhora, daquelas para quem nós olhamos e imaginamos logo de bata vestida a dar milho às galinhas, tocou. Ela atendeu e, para gáudio de toda os presentes, estava em alta-voz.
- Onde é que tu estás c*ralho? - ouviu-se distintamente da interlocutora do outro lado.
- Está caladinha! - dizia a senhora muito atrapalhada, sem saber se havia de ter o aparelho junto do ouvido ou uns centímetros à frente da boca e hesitando entre ambas as opções.
- Estou calada porquê c*ralho? Onde é que tu estás? - insistiu a outra.
- Porque eu estou no médico! - respondeu a senhora em desespero.
- Ah!!! - rematou a outra finalmente - Assim já percebi f*da-se! Então tchau!
A partir daquele momento, os sorrisos disfarçados mas divertidos dos presentes, indicaram que estavam revigorados espiritualmente e prontos para esperar mais uma hora pela sua vez.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ia casar. Pela igreja. Justamente o que eu tinha passado a vida a dizer que nunca faria. Contrariadíssima, tive que ir a um gabinete qualquer de que já não sei o nome mas tinha a ver com o bispo, buscar um papel qualquer para entregar na conservatória. Quando entrei no escritoriozinho sombrio, vi uma beata cheia de verdete sentada atrás dum balcão. Usava uns óculos em bico como nos anos sessenta e um casaquinho de malha azulinho-bebé pelas costas. Tinha certamente os pés em cima duma escalfeta, o que não pude confirmar visualmente mas se adivinhava pelo leve cheiro a chulé queimado. Olhou para nós e sorriu com um sorriso de vendedora da "Avon" e perguntou ao que íamos. Depois, sacou dum livro que parecia daqueles de assentar calotes de mercearia e começou a escrever qualquer coisa. Enquanto escrevia, com uma caligrafia desenhada e redonda de gaja que lê a Maria e bebe Baileys aos golinhos pequeninos, cometeu o maior erro: Quis ser espirituosa. Abanou a esferográfica no ar como se faz aos bebés pequeninos que não querem comer a sopa e disse, pondo uma vozinha esganiçada e achando-se extremamente engraçada:
- Agora vamos lá ver se o senhor bispo vos deixa casar!!!
Eu olhei para ela e pensei:
- Eu quero que o senhor bispo se f*da e tu também.
Pensei aquilo com tanta convicção que se deve ter ouvido. Pelo menos deve ter sido legível na minha expressão.
Ela, baixou os olhos e continuou o que estava a fazer. Não disse mais nada.

terça-feira, 31 de março de 2009

Domingo de manhã com sol. O primeiro desta primavera, tão bem vindo. Abri a janela que dá para o pátio e uma vizinha que eu não conheço porque não conheço nenhuma das centenas de pessoas que vivem ali, nos apartamentos, acompanhava o filho pequeno nas brincadeiras. Era uma criança com uns quatro anos de idade que se passeava em círculos monótonos numa mini-scooter daquelas movidas a bateria que os avós compram às crias dos filhos no Natal. O barulho que fazia assemelhava-se ao de uma varinha mágica numa sopa densa. A mãe acompanhava-o sempre ao seu lado, a pé, olhando o rebento com enlevo.
Depois de algumas voltas a bateria acabou e a criança mostrou-se levemente irritada. A mãe explicou-lhe que "Agora o bebé está cansado e tem que ir para casa papar!". Ela pegou na scooter em peso e carregou-a de volta, dando a mão ao filho que choramingava.
Imaginei-o daqui a alguns anos, gordo, mimado e mal-educado, a ver televisão sentado no sofá.
Mas nós não temos culpa. Se há uns anos atrás, quando eu tinha aquela idade, éramos vários irmãos e partilhávamos um triciclo que fazíamos andar a força de pernas, agora um filho é uma coisa única e preciosa, que se cria à custa de muito sacrifício. Não sacrifícios materiais como antes, mas sacrifícios de viagens entre a creche, o jardim de infância, os ATL's e as actividades extra-curriculares, sem tempo para parar nem para ficar em casa a brincar enquanto a mãe faz compotas e crochet.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Conheço-a e convivo regularmente com ela há algum tempo. Mas foi só muito recentemente que fiquei a saber que também conheço o marido. A partir duma conversa que tivemos, foi só juntar dois e dois. O marido, que eu já não vejo há uns vinte anos, é um puto filho duma colega minha que a mãe costumava levar lá ao serviço de vez em quando. Como nunca mais o vi, a imagem que tenho dele é a dum rapazito de mochila a pedir uns trocos à mãe para ir comprar um gelado antes de ir para a explicação. Muito mau aluno e sempre com uma bola debaixo do braço. A mãe mandava-o cumprimentar as senhoras e lá vinha ele, muito contrariado, distribuir os beijinhos da educação. É assim que eu conheço o marido da V******.
À medida que a conversa evoluía, eu ia tendo mais e mais certeza que se tratava daquela pessoa. Mas não lhe disse nada. Não lhe disse - "Ah mas eu conheço o teu P****!" - nem nada disso. Nem tive coragem. Depois das conversas maliciosas que já tivemos as duas, em que ela me confidenciou os actos menos ortodoxos que pratica com ele e que inclui uma depilação com cera quente que lhe ia arrancando pelo menos uma de duas coisas, só me passava pela cabeça a exclamação - "PEDÓFILA!!! ANDA A PAPAR O PUTO DA C****! NÃO ACREDITO!!!".
Claro que o puto da C**** tem agora uns 30 anos, mas eu não consegui ultrapassar a imagem do garoto inocente de mochila às costas. Lamento.

domingo, 29 de março de 2009

Ouvi esta conversa num café.

- O padrinho da minha irmã morreu.
- Ai sim? Coitado! Era novo?
- Não! Já era velhote!
- E ela vai ao funeral?
- Não sei! Acho que devia! Mas ela é que sabe!
- Ele dava-lhe bons folares? Se lhe dava bons folares devia ir!

sábado, 28 de março de 2009

O que é que vocês pensavam se uma filha vossa vos dissesse qualquer coisa deste género:

- Sabes que isto de ter uma mãe ou um pai que vai à escola "peixeirar" dá logo outro estatuto! Têm-te logo outro respeitinho!

E quando vocês perguntassem:

- Mas estás a falar de quem?

Ela respondesse:

- De ti!!!

A Miepeee ofereceu-me mais um selo! Obrigada!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Andava no nono ano de escolaridade e estávamos nos anos setenta. Recolhia convictamente assinaturas para a "Associação de Amizade Portugal-China" e acredtava na revolução e na sociedade sem classes. Tinha umas botas da tropa e usava camisas velhas do meu pai sem colarinho. Era o que se poderia chamar uma "Marxista Inocente", nesse tempo havia imensos, como agora há dreads, freaks, góticos e outras espécies. Também eles não sabem muito bem o que procuram e um dia hão-de rir-se ao de leve das suas recordações de adolescência, sabendo que a vida, afinal, não é assim tão séria porque ninguém sai vivo dela. É normal e saudável.
A professora de português mandou escrever um pequeno conto e eu escrevi. Escrevi-o com tanto fervor revolucionário que no fim até chorei comovida. Era sobre uma criada de servir analfabeta a engravidada pelo patrão imperialista que se suicidava num final grandioso e dramático, provando por A mais B que só uma destruição total dos valores capitalistas e a sua substituição pelo comunismo poderia salvar a humanidade. Acho que tinha visto essa história aqui e ali aos pedaços. Talvez nos "Verdes Anos", talvez nos discursos dos camaradas, talvez no Corin Tellado uns anos antes.
O que eu sei é que o meu conto foi um escândalo no liceu. Não porque a mocinha morria, não pela ideologia de extrema-esquerda mal atamancada, mas por causa de duas linhas em que eu descrevia a ida do patrão ao quarto da criada a meio da noite. Cena totalmente saída da minha imaginação fervilhante que na realidade nunca tinha praticado tal coisa.
A professora disse-me:
-Escreves bem, mas tens que ter cuidado com os conteúdos.
E deu-me suficiente mais.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Era urgente explicar-lhe que, em Portugal, não devia dizer às crianças que lhes ia ensinar a fazer broches. Mas ela não se contentou com a proibição, como é evidente era crescida e inteligente e quis saber porquê. Decidi-me. Comecei por explicar em voz alta que para nós, portugueses, um broche é um acto... E acabei a explicação em voz muito baixa, quase sussurada ao ouvido, porque havia mais gente na sala. Usei palavras bem escolhidas, como se saídas dum livro científico. Nada de ordinarice. No final, era abriu muito os olhos de espanto e exclamou em voz alta:
-Sério???!!! Broche é bôquetchi???!!!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vejo-o a dar entrevistas na televisão e lembro-me que uma das maiores vergonhas que passei na vida é da sua responsabilidade.
Era um jogo de futebol do mundial, entre a selecção nacional e os Estados Unidos. Sim, aquele país onde os únicos onze gajos que sabem que o futebol pode ser uma coisa diferente de andar de capacete aos berros e chocar violentamente uns contra os outros se juntam e formam uma equipa. Esse mesmo. Que risco poderá então haver em jogar com os Estados Unidos? Para mim, o risco era zero. Era o mesmo que eu ir correr os cem metros contra uma lesma coxa!
Devidamente medidas então as probabilidades de risco, tomei a decisão. Não gosto especialmente de futebol, não consigo perceber o que é um fora de jogo, mas nesse dia resolvi partir para a festa pura e dura. Maquilhei-me de verde e vermelho, vesti-me de verde e vermelho, estava de arrasar, e vim para a rua ver o jogo num ecran gigante numa praça da cidade. À minha volta havia uma multidão de gente revestida de verde e vermelho dos pés à cabeça como eu. Muitas com aqueles chapéus que, fora do contexto, são simplesmente inaceitáveis.
O jogo começou e a malta preparou-se para abrir. Fazer uma purga. Alguns minutos depois, os Estados Unidos já tinham marcado um golo e nem eles sabiam como tinham conseguido. Quando chegou ao 3-0 as pessoas na praça (eu incluída), começaram a acreditar que tinham morrido numa catástrofe natural e já estavam no inferno. A angústia da derrota passou, assim, a angústia existencial: O fim é isto? Então é muito mau!
Mas não. Isto não foi o pior. O pior foi quando eu tive que regressar a casa naquela figura e passar por um monte de gente conhecida. Isso foi o pior.