domingo, 12 de abril de 2009

Acho que a pior coisa que já cozinhei na vida foi um souflé de espinafres. Segui a receita direitinho, excepto naquela parte em que dizia para picar os espinafres com uma faca e eu os meti na picadora até os desfazer. O resultado foi uma substância verde que cresceu dentro duma forma. Ninguém morreu. E ainda ficámos com algumas "private jokes" para contar em família, como "Portas-te mal e eu dou-te souflé de espinafres!!!".
Mas no capítulo "Experiências Culinárias Falhadas" a melhor história a que já assisti foi a de uma ex-tia brasileira por afinidade que, algures nos anos sessenta, casou com um tio meu. Mal ela foi apresentada à família, o sotaque condenou-a. "Não presta!", foi o veredicto do colectivo de juízes (mais juízas que juízes). Se, naquele tempo, ser espanhola já era uma característica que transformava automaticamente uma mulher num demónio vivo, ser brasileira não era melhor. Estava provado cientificamente que as únicas donas de casa responsáveis, sérias e competentes, eram as portuguesas. Isso fazia parte dum conjunto de teorias que, de forma não explícita, eram injectadas nas nossas cabeças diariamente pela propaganda do estado-novo. Para mim, miúda com a mania de ser diferente, isso não era muito lisonjeiro. E para o provar fiz amizade com a minha nova tia desde o primeiro momento. Ela correspondeu, o que me fez sentir quase pertencente ao mundo dos adultos pois, se por um lado tinha uma mulher adulta a conversar comigo, por outro tinha os outros adultos contrariados com a minha amizade, o que fazia sentir parte do adulto mundo das intrigas domésticas.
Um belo dia, a minha nova-futura-tia, talvez para acalmar os ânimos dos que duvidavam das suas capacidades para esposa, fez um bolo. Mas o raio do bolo deve ter sido amaldiçoado por todos desde o primeiro instante em que foi batido até que saiu do forno porque, como que para fornecer provas à triunfante facção anti-brasileira, aquilo saiu, de facto, muito mal. Nem eu tive argumentos para a defender. Aquele bolo, achatado, negro e duro como uma mó, era impossível de tragar e tornou-se no símbolo vivo da incompetência da sua criadora. O meu avô acabou por dá-lo aos coelhos e, algumas semanas depois, ainda jazia a um canto da coelheira. "Nem os coelhos o querem" passou a ser a frase mais usada da campanha.
Não é preciso contar o resto da história. Claro que aquele casamento durou pouco e há muitos anos que não vejo a minha ex-tia.

sábado, 11 de abril de 2009

Na primeira vez eu tinha doze anos. Foi-me dito que ia conhecer a aldeia do meu pai, que era um sítio tão bonito como nos contos de fadas. Que tinha campos floridos e riachos sorridentes onde podíamos tomar banho sem ninguém nos incomodar e sem encontrar lixo atirado pelos cantos. Que as casinhas eram tão bonitas que pareciam de presépio e que as pessoas eram todas simpáticas. Fiquei excitada com a antecipação de tão interessante viagem e acho que até sonhei com a Terra do Nunca naquela noite.
Lá fomos. Depois de muitas horas de viagem chegámos a uma montanha de onde se avistava, ao longe, no vale, um conjunto de casas pobres.
- É ali! - disse a minha mãe virando-se para o banco de trás onde eu e os meus irmãos olhávamos à procura de qualquer coisa.
- Aquilo?! - pensei eu. Mas como já era considerada uma mulherzinha, fiquei calada. Só os mais pequenos tinham o direito de dizer o que eu estava a pensar porque ainda não sabiam o que diziam.
À chegada, um grupo de figuras enfezadas vestidas de preto rodearam o carro, com uma curiosidade demente. Nós tivemos medo, mas mais uma vez eu não disse nada.
Quando saímos, as velhas agarraram-se a nós aos beijos e aos abraços, tratando o meu pai pelo nome e chamando-lhe "meu menino", com vozes fininhas e muitos "xix" mesmo nas palavras que não tinham nenhum. Depois, do meio da pequena multidão, apareceu uma rapariga horrível, amarela, sem dentes e mais baixa do que eu, que se abriu num sorriso assustador e me saudou:
- Olá! "Semos" primas!
Por momentos, eu pensei que os senhores que fazem filmes de terror deviam ter-se inspirado numa visita que fizeram a uma aldeia assim.
Mas não, o pior ainda não tinha chegado. O pior era não haver casas de banho e as pessoas fazerem as necessidades agachadas no curral, no meio das cabras hsitéricas que, para uma pessoa naquela posição, se transformavam em bestas ameaçadoras. O pior era a comida, que se resumia a algumas batatas cozidas e, com a nossa chegada, foi temporariamente melhorada com uns bolos de farinha sem açúcar fritos em azeite muito ácido. O pior era não haver electricidade e, consequentemente, não haver televisão. O pior era os cobertores de papa que nos deram para dormir e que me provocaram uma noite inteirinha de comichões. Ao anoitecer, naquela aldeia, não havia qualquer som a não ser o dos animais no campo, nem qualquer luz a não ser a da lua e das candeias de azeite. Nas casas mais pobres, nem camas havia. Dormia-se em cima dum fardo de palha. Nós tivemos que visitar todas as casas, porque todos se conheciam e para que ninguém ficasse ofendido.
No segundo dia eu já só desejava ir embora para algum lugar longe daquelas cabras aos berros, mas não podia dizer nada. Felizmente os meus irmãos recusaram-se terminantemente a fazer xixi e, com medo que eles ficassem doentes, ou quem sabe porque também já não aguentavam aquilo e usaram essa desculpa, os meus pais decidiram partir. O que eles não sabiam é que também eu não tinha conseguido dar livre curso às minhas necessidades fisiológicas. Para que ninguém me incomodasse com perguntas ou observações impróprias, eu limitava-me a entrar no curral, encostar-me a uma parede sem tirar os olhos daqueles bichos com barbicha que nunca se calavam e, depois de alguns minutos, sair em pânico.
Às vezes penso que gostava de revisitar aquela aldeia, para me reconciliar com as raízes do meu pai ou, quem sabe, para me certificar que não fui eu que inventei tudo aquilo.
Mas imagino que hoje já tenha chegado a electricidade e que as pessoas já sigam o enredo da novela. Que já se comam pizzas e hamburgueres e que já lá tenham construído casas tipo maison, com azulejos e telhados alpinos... e casas de banho.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

E enquanto o sacerdote vociferava contra o pecado e eu saí da igrejinha para apanhar ar, aproveitei para beber a paisagem em volta. Linda, de facto! Verde e linda! Os campos, os montes, os grandes solares e as casinhas pequenas, as flores que pintavam manchas amarelas nos campos verdes. Imaginei Van Gogh ali.
Depois de ter apreciado a paisagem global comecei a fazer zoom para pequenos recantos. Bem perto de onde eu estava, quatro contentores do lixo abarrotavam de resíduos e estavam rodeados, no chão, por pneus, garrafões de plástico e outros materiais que incluiam peças metálicas irreconhecíveis. Ao lado, três eco-pontos davam a impressão de estar vazios. Mentalmente, tentei calcular o número de pessoas que viveria ali. Pelas casas, talvez não mais de quinhentas. Ou menos. Como é possível tão pouca gente produzir tanto lixo e nem sequer o separar?
Voltei de novo a minha atenção para o sacerdote que, dentro do templo, continuava a amaldiçoar o pecado e os pecadores. E o que é exactamente pecado?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Naquele dia apeteceu-me esmurrar um padre. Não na rua nem numa esquina. Apeteceu-me mesmo saltar para o altar em plena missa, dar dois murros no peito e um grito e a seguir, esmurrar o padre até ele ficar estendido no chão.
Estava a assistir a um funeral numa aldeiazinha do norte. Naquele norte onde as casas já são feitas de granito e as paisagens muito verdes. Onde as mulheres usam o cabelo muito preto apanhado numa rodinha e grandes brincos de ouro. Onde os homens cospem no chão e bebem vinho nas tabernas. Onde o padre ainda manda na vida de todos.
Mas como eu estava a contar, eu estava a assistir a um funeral quando, em plena missa e na presença de três filhos adolescentes devastados, um viúvo perdido no mundo e o cadáver duma mulher ainda jovem demais, o padre desatou a dizer impropérios para mim inaceitáveis. Que sabia muito bem quem dali ia e não ia com frequência à missa, que estavam todos marcados, que os que não seguiam a doutrina haviam de arder no inferno. Mas não parou por aí. Disse que a mulher que ali estava e que se ia sepultar a seguir tinha tido um bom comportamento cristão enquanto lá viveu, mas nada garantia que assim tivesse continuado quando saiu e foi viver para outro lado, e olhou para nós, os aliens de pé ao fundo do templo. Que Deus tivesse piedade da sua alma. Disse que toda a juventude é uma desgraça mas que a culpa é das leis em vigor e dos pais. Disse ainda que a felicidade não presta, não tem valor nenhum, e que jamais irão para o céu aqueles que se afirmam felizes, a não ser que essa felicidade advenha de fazer sacrifícios em nome de Deus. Disse que todos devíamos pedir perdão todos os dias por termos sido concebidos em pecado.
Disse tudo isso sem uma palavra de conforto para a família ali presente, que tinha acabado de perder alguém muito importante e muito cedo e sofria. Sofria, de certeza, ainda mais, com aquelas afirmações ásperas e desprovidas daquilo de que eles, cristãos, tanto falam: compaixão.
Virei-me para a colega que estava ao meu lado e disse:
- Estou-me a passar com esta merda, vou sair.
Vim cá para fora apanhar um bocado de ar frio e agreste do norte. Para acalmar. No cemitério minúsculo mesmo ao lado, um grande buraco deprimente esperava pela R***. A minha colega seguiu-me e, quando ia a sair da igreja, uma velha da terra apontou para a direcção que eu tinha seguido e informou-a:
- Ela foi por ali!
Só Deus sabe o quanto me apeteceu pôr as mãos ao pescoço daquele padre. Só Deus sabe como ele o merecia. Mas limitei-me a sair cá para fora.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Foi o primeiro dia de efectiva liberdade da minha vida. Depois de muito massacrar, os meus pais deixaram-me ir numa excursão da escola sozinha. Era apenas até à capital de distrito mais próxima, que ficava a sessenta quilómetros mas, sem auto-estradas, tivemos que sair de madrugada e voltar à noitinha.
Nesse dia comportei-me como um animalzinho que tinha enlouquecido dentro duma jaula e se viu repentinamente do lado de fora. Embebedei-me, fumei o que havia e me ofereceram e portei-me mal duma forma que as velhas da vizinhança, se soubessem, afiançariam que jamais alguém casaria comigo. Antes de regressarmos a casa comemos várias pastilhas de mentol entre risos histéricos, para que os nossos pais nada descobrissem nos nossos hálitos.
Quando entrei em casa, muito discreta e completamente zonza, descobri que os meus pais tinham estado o dia inteiro a preparar uma surpresa para mim. Cansados e com um ar infantilmente feliz, abriram uma porta e mostraram-me um quarto novinho em folha que me tinham estado a preparar, com uma mobília moderníssima lacada a branco e uma colcha psicadélica a condizer com as cortinas.
- Gostas? - perguntaram-me ansiosos.
E eu, de mochila na mão e com a cabeça a pesar tanto como uma montanha, metade de droga e outra metade de culpa, pus-me a chorar:
- Mas para que é que vocês fizeram isso??? - perguntava eu.
Eles acharam estranho, mas que eu saiba até hoje, nunca desconfiaram de nada.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A Chica era arredia. Pouco falava, mas também pouco falavam os outros com ela. Vivia num lugar tão afastado e pequeno que quase ninguém no liceu sabia onde ficava nem se existia de facto. Vestia-se como pedinte, tinha um tom de pele enferrujado e uma cabeleira louro-palha muito rebelde, suja e cortada em casa. Tinha treze anos como nós. Basicamente, não tinha amigos. Eu sei que nunca fui amiga dela. Era-me indiferente que ela existisse ou não.
Um dia, a Chica deixou de aparecer nas aulas. Os professores foram fazendo a chamada e marcando falta diariamente, até ter sido ultrapassado o limite e o nome dela ter sido riscado dos livros de ponto. Para além de a turma ter ficado mais curta, nada se alterou nas rotinas de ninguém.
Mais tarde, um rumor começou a circular no liceu: A Chica estava grávida! E o pai da criança era o seu próprio pai!
Os colegas franziam a testa de espanto e nojo. O quê???!!! Nunca se tinha ouvido falar de tal coisa!
Mas também nunca ninguém se deu ao trabalho de confirmar nem de desmentir. Nem os colegas, nem os professores, nem a direcção da escola. Nunca ninguém sugeriu que pudesse ser um caso de polícia. Que eu saiba, não havia comissões de protecção de menores.
Estávamos todos demasiado ocupados a viver a revolução.
Nunca mais soube da Chica.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Costumava ir com alguma frequência àquele restaurante. Era daqueles grandes, com muito barulho e muita confusão, coisas que detesto, mas comia-se bem, coisa que me agrada. Por isso ia.
Ia, até ao dia em que, na mesa mesmo ao meu lado com uma numerosa família de avós, pais e netinhos insuportáveis, um dos masculinos comensais, com a maior calma e descontracção do mundo, tirou a dentadura e, com a unha do dedo pequenino da mão direita (que imagino tivesse deixado crescer para esse efeito) retirou todas as pequeninas febras de leitão assado que tinham ficado presas entre os dentes postiços.

domingo, 5 de abril de 2009

As duas mulheres abordaram-me na rua, talvez porque o ar relaxado com que via montras tivesse indiciado alguma disponibilidade da minha parte:
- Desculpe menina, podemos fazer-lhe uma pergunta?
- Faça - disse eu, enquanto pensava que, se fosse as horas tudo bem, se fosse uma direcção qualquer estavam com azar porque eu não era dali.
Não sei porque raio eu penso sempre, num primeiro momento, que os jeovás que me abordam me vão perguntar as horas. Caio sempre nessa. Só dou pela marosca quando vejo a "Despertar" ou a "Sentinela" a insinuar-se para mim enrolada atrás duma pastinha. Nessa altura dou a nega, mas isso acontece geralmente após a primeira pergunta, que me parece, por isso, despropositada.
- A menina sabe dizer o que vai estar a fazer daqui a dez anos? - perguntaram elas em tom de aquecimento para uma longa seca.
Durante uma fracção de segundo, ainda pensei: - "Isto em Lisboa é mesmo só malucos, deve ser o stress." - mas logo depois percebi-lhes o esquema.
- Não - respondi secamente. Aos jeovás eu respondo sempre por monossílabos e geralmente chega duas ou três respostas para que eles desistam.
- Pois nós podemos revelar-lhe o plano que Deus tem para si! Está interessada?
- Não.
- Mas acredita em Deus, não acredita?
- Não.
- Então acha que tudo o que existe apareceu do nada?
- Sim.
Aí sim, puseram uma cara de estupfacção e ficaram caladas enquanto eu me afastei.
- Estas eram das difíceis - pensei - foi preciso quatro respostas.

sábado, 4 de abril de 2009

O S******* era um homem duro como a vida que tinha levado desde pequeno. Para ele não havia subtilezas nem metáforas. Um pão era um pão e um queijo era um queijo. Sem instrução, a sua única arma era o trabalho, pelo que acumulava o ofício de padeiro e pasteleiro com o de contínuo numa repartição. Muito antes de os demais saírem da cama, horas antes do sol se mostrar, já o S******* distribuía pão e bolos numa carrinha para quem a sucata teria sido uma caridade... há muitos anos. E foi numa dessas rondas de distribuição que o S******* se viu, numa fatídica madrugada, parado no meio do caminho de ferro. A carrinha, cansada de tanto trabalhar após a idade natural da reforma, desistiu e não dava sinal de vida. Com o comboio a aproximar-se ao longe, o S******* rodava furiosamente a chave na ignição enquanto carregava no acelerador mas ela mantinha-se indiferente ao seu desespero, como se se tivesse resignado ao suicídio.
- Minha Nossa Senhora! - exclamou ele com uma fé repentina que nunca antes tinha sentido - Se esta p*ta arrancar, prometo que vou a pé a Fátima todos os anos!
Aquele apelo inusitado deve ter, por qualquer motivo inexplcável, acordado a santa. O que é certo é que, quando rodou a chave mais uma vez, o velho motor rugiu e conseguiu, por escassos segundos, escapar ao monstro de ferro. Mas ainda as rodas traseiras não tinham pisado alcatrão firme, já o S******* reformulava a promessa:
- Obrigado minha Nossa Senhora! Mas pelo sim pelo não, é melhor ir a minha mulher a Fátima a pé que ela está mais habituada!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Chegava de manhã e dizia:
- Tenho que fazer um fax urgente!
Logo a seguir, ia tomar o pequeno-almoço. Depois o cafezinho para a concentração. E depois um cigarrinho para acalmar. Então voltava a entrar no gabinete e dizia:
- Tenho que fazer um fax urgente, por isso agora não me incomodem!
Sentava-se à secretária e tocava o telefone. Ela atendia e começava logo por:
- Tenho que fazer um fax urgente e não me deixam em paz nem um minuto!... Diz... Sim... Ah...
E continuava a conversa por mais meia hora mesmo já depois do interlocutor estar com vontade de desistir e mais para lá do que para cá. Após o massacre, finalizava com:
- Vá, agora tenho mesmo que desligar porque tenho um fax urgente para fazer!
Só que entretanto, depois duma conversa com alguém que tinha passado à porta do gabinete e mais três ou quatro cigarrinhos lá fora, chegava a hora do almoço.
- Vou almoçar - dizia - mas vou rapidinho porque tenho um fax muito urgente para fazer, até logo!
Quando voltava do almoço, umas duas horas depois, dizia:
- Boa tarde! Estou tão preocupada! Tenho um fax urgente para fazer!
E então, depois de ter contado com pormenor o que tinha almoçado, se estava bem ou mal confeccionado, com quem tinha conversado e sobre o quê, sentava-se e dizia:
- Agora vou fazer um fax que é urgente! Mas primeiro tenho que tomar um cafezinho e fumar um cigarrinho.
Voltava uma hora depois e dizia:
- Agora que ninguém me interrompa, que eu vou fazer um fax urgente!
Mas, pelo sim pelo não, ainda telefonava a umas quantas pessoas a avisar, entre grandes conversas, que não lhe telefonassem porque tinha um fax muito urgente para fazer, contando com pormenor por que era tão urgente e do que constava.
Entretanto, chegava a hora de saída. Eu, que tinha o servicito todo em dia e uma vida lá fora, levantava-me e dizia:
-Vou embora! Ate amanhã!
E ela, muito consternada, respondia:
- O quê?! Já?! É sempre a mesma coisa! A sacrificada sou sempre eu que fico cá até às tantas! Tenho um fax urgente para fazer e não posso sair antes dele estar feito e enviado!
Às vezes, ainda se atrevia a ser irónica:
- Obrigadinha pela ajuda! - ouvia eu quando já ia a entrar no elevador.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A sala de espera da clínica estava a abarrotar de gente impaciente e as consultas estavam atrasadas. Mas felizmente, alguma força divina fez acontecer uma coisa que deu a todos o alento e a força anímica que faltava para aguentar o resto da tarde.
O telemóvel duma senhora, daquelas para quem nós olhamos e imaginamos logo de bata vestida a dar milho às galinhas, tocou. Ela atendeu e, para gáudio de toda os presentes, estava em alta-voz.
- Onde é que tu estás c*ralho? - ouviu-se distintamente da interlocutora do outro lado.
- Está caladinha! - dizia a senhora muito atrapalhada, sem saber se havia de ter o aparelho junto do ouvido ou uns centímetros à frente da boca e hesitando entre ambas as opções.
- Estou calada porquê c*ralho? Onde é que tu estás? - insistiu a outra.
- Porque eu estou no médico! - respondeu a senhora em desespero.
- Ah!!! - rematou a outra finalmente - Assim já percebi f*da-se! Então tchau!
A partir daquele momento, os sorrisos disfarçados mas divertidos dos presentes, indicaram que estavam revigorados espiritualmente e prontos para esperar mais uma hora pela sua vez.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ia casar. Pela igreja. Justamente o que eu tinha passado a vida a dizer que nunca faria. Contrariadíssima, tive que ir a um gabinete qualquer de que já não sei o nome mas tinha a ver com o bispo, buscar um papel qualquer para entregar na conservatória. Quando entrei no escritoriozinho sombrio, vi uma beata cheia de verdete sentada atrás dum balcão. Usava uns óculos em bico como nos anos sessenta e um casaquinho de malha azulinho-bebé pelas costas. Tinha certamente os pés em cima duma escalfeta, o que não pude confirmar visualmente mas se adivinhava pelo leve cheiro a chulé queimado. Olhou para nós e sorriu com um sorriso de vendedora da "Avon" e perguntou ao que íamos. Depois, sacou dum livro que parecia daqueles de assentar calotes de mercearia e começou a escrever qualquer coisa. Enquanto escrevia, com uma caligrafia desenhada e redonda de gaja que lê a Maria e bebe Baileys aos golinhos pequeninos, cometeu o maior erro: Quis ser espirituosa. Abanou a esferográfica no ar como se faz aos bebés pequeninos que não querem comer a sopa e disse, pondo uma vozinha esganiçada e achando-se extremamente engraçada:
- Agora vamos lá ver se o senhor bispo vos deixa casar!!!
Eu olhei para ela e pensei:
- Eu quero que o senhor bispo se f*da e tu também.
Pensei aquilo com tanta convicção que se deve ter ouvido. Pelo menos deve ter sido legível na minha expressão.
Ela, baixou os olhos e continuou o que estava a fazer. Não disse mais nada.