Acho que a pior coisa que já cozinhei na vida foi um souflé de espinafres. Segui a receita direitinho, excepto naquela parte em que dizia para picar os espinafres com uma faca e eu os meti na picadora até os desfazer. O resultado foi uma substância verde que cresceu dentro duma forma. Ninguém morreu. E ainda ficámos com algumas "private jokes" para contar em família, como "Portas-te mal e eu dou-te souflé de espinafres!!!".
Mas no capítulo "Experiências Culinárias Falhadas" a melhor história a que já assisti foi a de uma ex-tia brasileira por afinidade que, algures nos anos sessenta, casou com um tio meu. Mal ela foi apresentada à família, o sotaque condenou-a. "Não presta!", foi o veredicto do colectivo de juízes (mais juízas que juízes). Se, naquele tempo, ser espanhola já era uma característica que transformava automaticamente uma mulher num demónio vivo, ser brasileira não era melhor. Estava provado cientificamente que as únicas donas de casa responsáveis, sérias e competentes, eram as portuguesas. Isso fazia parte dum conjunto de teorias que, de forma não explícita, eram injectadas nas nossas cabeças diariamente pela propaganda do estado-novo. Para mim, miúda com a mania de ser diferente, isso não era muito lisonjeiro. E para o provar fiz amizade com a minha nova tia desde o primeiro momento. Ela correspondeu, o que me fez sentir quase pertencente ao mundo dos adultos pois, se por um lado tinha uma mulher adulta a conversar comigo, por outro tinha os outros adultos contrariados com a minha amizade, o que fazia sentir parte do adulto mundo das intrigas domésticas.
Um belo dia, a minha nova-futura-tia, talvez para acalmar os ânimos dos que duvidavam das suas capacidades para esposa, fez um bolo. Mas o raio do bolo deve ter sido amaldiçoado por todos desde o primeiro instante em que foi batido até que saiu do forno porque, como que para fornecer provas à triunfante facção anti-brasileira, aquilo saiu, de facto, muito mal. Nem eu tive argumentos para a defender. Aquele bolo, achatado, negro e duro como uma mó, era impossível de tragar e tornou-se no símbolo vivo da incompetência da sua criadora. O meu avô acabou por dá-lo aos coelhos e, algumas semanas depois, ainda jazia a um canto da coelheira. "Nem os coelhos o querem" passou a ser a frase mais usada da campanha.
Não é preciso contar o resto da história. Claro que aquele casamento durou pouco e há muitos anos que não vejo a minha ex-tia.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

