sexta-feira, 24 de abril de 2009

Naquele dia não houve escola, o que não me recordo de ter sido uma grande alegria porque tinha a certeza de se passar qualquer coisa importante que eu não compreendia nem ninguém me queria explicar o que era. Ao longo do dia fui ficando levemente irritada. Os adultos falavam de coisas que estavam a acontecer, e estavam tão excitados com tudo aquilo que eu me sentia simplesmente transparente. Até que, a certo ponto, resolvi levantar a voz e acabar com aquilo:
- Mas afinal o que é que aconteceu???
Aí, decidiram parar de me ignorar, mas acho que não foi por eu ter falado mais alto. Foi com certeza porque já tinham a segurança de que podiam, de que o rumo dos acontecimentos já não ia inverter-se.
- Houve um golpe de estado - responderam-me.
- O que raio é um golpe de estado?
- Bem... foi uma revolução.
- Sim, mas o que é uma revolução?
- Quer dizer que o governo caiu. Que agora vai haver um governo novo, vai ser tudo novo. Nada vai ser igual!
Aí comecei a interessar-me pelo assunto. Ainda não tinha percebido nada de nada, mas sendo assim, já estava a interessar-me pelo assunto. Eu e toda miudagem da minha idade, que a partir daí deu início a uma viagem alucinante no mundo das novidades e das surpresas.
Acredito que foi um privilégio viver este momento.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O meu pai estava na guerra em Angola e eu ainda não sabia ler. Mas as veladas insinuações que ouvia aqui e ali aos adultos sobre os "embrulhos" dos soldados portugueses com as pretas (era assim que se dizia) e a consequente produção de pequenos mulatinhos que já inundava o território ultramarino, comecei a preocupar-me.
Como disse, ainda não sabia ler. Mas, perante a hipótese de me aparecer um irmãozinho escuro um dia em casa a fazer-me concorrência, não quis deixar de fazer chegar a minha mensagem ao destino. Peguei numa folha de papel e produzi a minha primeira obra-prima do regime: Uma menina branca com vestido de princesa (que era obviamente eu), dava pauladas na cabeça duma criatura feia com uma saia de ráfia que pintei de preto (e que era obviamente uma possível candidata a mãe do meu irmão bastardo). Muito séria, pedi à minha mãe que mandasse a "carta" ao meu pai por correio. E ela mandou.
Toda a gente na família achou imensa graça.
Mas é preciso ter em conta que isto se passou num tempo em que havia um loto da Majora para crianças que tinha uma personagem chamada Escarumbinha.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

- Mãe! - gritou o meu sobrinho de sete anos de idade - A professora mandou escrever cinco palavras que comecem por "c" mas onde o "c" se leia "s"! E eu não me lembro de nenhuma!
- Eu lembro.
- Então diz-me!!!
- Não. Vou-te dar uma pista. Tem a ver com uma coisa que os adultos fazem mas que é uma grande porcaria.
- Mas... sexo não começa por "c"!

A mãe estava a pensar em "cigarro".

terça-feira, 21 de abril de 2009

E dizia a senhora toda bem ataviada para a funcionária da Câmara Municipal:

- Ontem fui ver um concerto da vossa orquestra.
- Da nossa orquestra?! Nós temos orquestra?!
- Então menina? Nunca ouviu falar da Orquestra de Câmara?

E não estava a brincar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Era uma professora chata. Mas tão chata que, apesar de nada ter aprendido com ela que se tivesse mantido, mesmo que duma forma ténue, na minha cabeça, nunca mais me esqueci da criatura. Ela entra de vez em quando nos meus pesadelos.
Das suas aulas dadas em lume brando, recordo apenas os momentos em que olhava pela janela e imaginava a chegada súbita dum helicóptero que lançava uma corda para me salvar daquilo.

domingo, 19 de abril de 2009

Os alunos estavam tão entusiasmados com a visita ao Jardim Botânico que nós chegámos a pensar que eles iam realmente interessar-se por aquilo.
- Professora! Nós vamos ver as plantas carnívoras??? - perguntavam, no meio de grande excitação.
- Claro! Vamos ver todas!

Mas foi no momento em que entrámos no pavilhão onde estavam as tais plantas que percebemos tudo. À nossa volta, cinquenta carinhas decepcionadas olhavam para umas plantinhas inofensivas que na sua opinião não diferiam muito das que as mães tinham nas varandas.
- Isto é que são plantas carnívoras?!
O nosso guia de visita, certamente muito habituado a esta questão, respondeu-lhes com outra pergunta:
- Vocês estavam à espera de ver plantas gigantescas e furiosas com bocarras enormes, à espera de devorar a primeira presa indefesa?
- Claro!!! - respoderam logo eles em coro.

Foi a primeira vez na vida que reflecti a sério sobre o tema: Gestão de Expectativas.

sábado, 18 de abril de 2009

ELE: Vocês estão-me a exigir um documento com a assinatura de dois terços dos condóminos e isso já cá está no processo!
EU: Não me parece... mas faça o favor de ver.
(Entreguei-lhe o processo.)
ELE: Está aqui! - (e mostrou-me uma folha com uma única assinatura) - Este senhor é dono de metade do prédio!
EU: Mas a lei exige dois terços!
ELE: Minha senhora, metade é mais que dois terços! Vocês aprendam!

Então eu, com muita paciência, peguei em duas folhas de papel iguais. Rasguei uma delas ao meio e a outra em três partes iguais. Mostrei-lhe uma das partes da que tinha rasgado ao meio e expliquei-lhe: - "Está a ver isto? É metade." - Depois juntei duas partes da que tinha dividido por três, coloquei ao pé da metade para se ver que era mais e expliquei outra vez: - "Isto são dois terços. Está bem?"
Não tenho a certeza de que ele tenha entendido. Mas foi embora.
E eu, bem, eu acho que mereço o céu. E vocês?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Era uma jovem esposa e dona-de-casa que esperava um bebé. Por isso, quase em jeito de treino, convidava muitas vezes o filho dum casal amigo que morava perto para passar umas tardes lá em casa. Eles agradeciam e aproveitavam, porque cuidar duma criança de dois anos em regime non-stop pode ser, de facto, muito cansativo.
Numa dessas tardes ela fez salada de fruta para oferecer à criança. E, como lhe tinham ensinado desde pequenina, uma boa salada de fruta leva sempre um bom vinho do porto. Depois de tudo bem misturado e mexido, provou. Hmmm... podia estar melhor. Juntou um pouco mais de açúcar e um pouco mais de porto para rectificar e repetiu a operação algumas vezes até dar a tarefa como boa e como terminada. Depois, ofereceu à criança e serviu-se ela também. Estava tão boa, tão fresca naquela clima abafado de hemisfério sul! Só pararam ambos quando já não havia mais.
No fim da tarde, quando os pais vieram buscar o pequeno, estranharam a algazarra. Ele correu para os progenitores, sim, mas duma maneira estranha, rindo muito e cambaleando um pouco. A futura mamã, atirada para cima do sofá, ria também com vontade:
- Ai o vosso filho é o máximo!!!
- Oh filho! Tu... estás bêbedo???!!!
E ela continuava a rir:
- Não!!! Está só feliz!!!

É óbvio que a autora da salada de fruta não teve mais hipótese de treino até ser, ela própria, mãe, porque incompreensivelmente, os pais da criança não a deixaram ir mais vezes lá a casa.
E assim nasci eu, seis meses mais tarde, já habituada a salada de fruta com porto.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Ele e ela prepararam-se para o que sabiam de antemão ser a pior noite do ano. Sabiam que era uma noite que iria pôr à prova a sua relação e resolveram estar mais unidos do que nunca. E sobretudo, nunca se deixarem levar pelo nervosismo nem dizerem nada de que se pudessem arrepender a seguir. Estavam preparados.
Chegada a altura, tudo correu tão mal como previam. Depois de separarem pilhas de papel e fazerem dezenas de contas de somar sem conseguirem empatar num resultado a não ser ao fim de muitas tentativas, ainda veio o pior. Tentavam efectuar um trabalho de equipa, em perfeita sintonia, mas parecia que a máquina estava contra. Sempre que pensavam que tudo estava resolvido, aparecia um erro e um código incompreensível. Quase como se fosse uma charada de filme de terror em que o herói vai perdendo o fio do tempo e as hipóteses de se salvar. Outras vezes, não havia erro algum mas, simplesmente, todo o trabalho que tinham realizado se esfumava à frente dos seus olhos e tinham que começar tudo de novo. Com as horas a passar e os falhanços a acumular, havia sempre a tentação de iniciar um processo de culpabilização mútua. Mas eles pararam, fizeram um intervalo, meditaram um pouco sobre o sentido da vida e aguentaram.
Até que, depois dum percurso que quase os fazia pensar que tudo tinha chegado ao fim e que não valia a pena continuar a tentar, conseguiram! Quando se aperceberam, já noite dentro, que não era um sonho e que tinham realizado a tarefa com sucesso, choraram ambos de felicidade. Mais uma vez tinham conseguido entregar o IRS a tempo!
Agora, à sua frente, estaria mais um ano de casamento sem sobressaltos. Até à próxima.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A senhora à minha frente pediu licença para atender o telemóvel, que era muito importante. Eu fiz-lhe sinal que não havia problema, estivesse à vontade. Só que, como de facto não havia mais nada para fazer ali, tive que ficar a ouvir a chamada, discretamente e enquanto rabiscava uns papéis.

- Olá! Sim... sim... estive... estão todos muito em baixo...
- ...
- Acho que aquilo foi assim, eles acham que houve negligência médica e querem levar o caso para a frente.
-...
- Porque ele tinha ido ao hospital da parte da tarde. Já não se estava a sentir bem. Eles examinaram-no, e isso, mas não encontraram nada. E então já não o deixaram sair de lá sem fazer autópsia.
- ...
- Sim! E ele disse: - "Mas eu não quero fazer autópsia nenhuma!" - mas eles não o deixaram vir embora e fizeram. Só que parece que, ao fazer a autópsia, perfuraram-lhe qualquer coisa...
- ...
- Foi. E então ele veio para casa mas passado um bocado morreu. Foi assim.

E eu a pensar perguntar qual era o hospital para nunca lá ir, não me vão eles fazer uma autópsia em vida. Mas não perguntei.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Eu era tão pequena que nem sei se me lembro dessa história porque efectivamente me lembro ou se me lembro por a ter ouvido tantas vezes ao logo da vida.
Ia de autocarro com a minha mãe quando, a páginas tantas, uma das senhoras sentadas no banco à nossa frente afirmou em alta voz:
- Ontem tomei um banho, virei a combinação do avesso e mudei de cuecas. Para aí há um ano que já não fazia isso! Até me sinto outra!
A minha mãe, completamente chocada, acotovelou-me para que eu tomasse atenção, como a tentar angariar ali uma testemunha de tão bizarra história na qual ninguém iria acreditar doutra forma. Claro que isso teria funcionado se eu fosse maiorzinha mas, com quatro anos, devia ir a pensar no episódio do Duffy Duck do dia anterior. Não liguei nadinha.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

No tempo em que eu ainda tinha tempo, paciência e entusiasmo para perder os meus domingos nas assembleias de voto (note-se, completamente à borla porque o pagamento do dia é uma modernice recente), tinha a oportunidade de assistir, "alive and kicking", a belas histórias que nos fazem reformular mentalmente o conceito de democracia. Lembro-me duma senhora que pegou no boletim e foi para a cabine. Ficou lá cerca de um quarto de hora, o que corresponde a uma eternidade naquele contexto e, quando já nos interrogávamos sobre o destino dela, se tinha adormecido, se estava a fazer tricot ou se, simplesmente, era uma descendente de Houdini e tinha conseguido desaparecer dali sem nós vermos, ela abordou-nos com ar muito agastado:
-Digam-me cá uma coisa: Qual destes é o Mário Soares?
Tratava-se de eleições legislativas, pelo que como é evidente, os boletins do voto não continham fotografias mas sim símbolos de partidos. Além disso, os membros da mesa não podem interferir no voto de ninguém, o que tentámos explicar-lhe. Ao que ela, muito zangada, respondeu:
- Mas eu só queria saber qual é o do Mário Soares para botar a cruz noutro qualquer!!! Se não querem dizer não digam, fiquem lá com essa porcaria!
Atirou o boletim para cima da mesa e foi embora. "Tudo bem" - pensámos - "Só faz falta quem cá está!"