quinta-feira, 30 de abril de 2009

No local onde agora vive uma urbanização de prédios sem personalidade, realizava-se antes anualmente a festa em honra do mártir S. Sebastião. Eu morava no último andar do prédio mais antigo, que também ainda lá está, e tinha uma vista perfeita sobre todo o recinto. Nem eu nem ninguém lá de casa se dignava sair para se misturar na festa, os adultos odiavam e rezavam para que os quatro dias acabassem depressa, mas as minhas amigas vinham todas ter comigo nesses dias, algumas com os binóculos que "pediam emprestados" aos pais, para apreciar devidamente o evento, que era imperdível. Adorávamos os espectáculos ao vivo e contávamos as vezes que nos fadinhos se gania as palavras "soldadinho", "mãezinha querida", "sofrer" e "lá morreu". Assistíamos às lutas entre machos bem avinhados, pelas fêmeas disponíveis. Fazíamos caretas de horror perante as bifanas e os chouriços servidos à mão em carcaças manhosas. Mas sobretudo, não perdíamos o cantinho escondido onde os homens iam urinar depois do tinto, que era completamente escancarado de onde nos encontrávamos. Aí sim, era ver-nos a disputar os binóculos...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Não é política desta casa contar anedotas alheias, mas acho esta particularmente boa.

Um explorador viu-se no meio da selva, perdido e rodeado de indígenas canibais. Sem saber o que fazer, teve um desabafo em voz alta:
- Estou fodido!
Nesse momento as nuvens afastaram-se no céu e uma voz poderosa ecoou pela selva:
- Não meu filho! Não estás fodido!
Cheio de esperança, o explorador voltou-se para o firmamento:
- Não estou? Como não estou?
A voz respondeu:
- Estás a ver esse indígena à tua frente com dois ossos no cabelo?
- Sim!
- É o chefe. Pega na pedra mais pesada que tiveres à mão e atira-lha com toda a força, de modo a acertares na cabeça!
O explorador assim fez. Logo a seguir, a voz falou de novo:
- Agora sim meu filho! Estás fodido!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Eu tinha vista directa para a cozinha. Então, enquanto esperámos pela comida, diverti-me a cuscar e a fazer o relato para o meu marido, sentado à minha frente. Era um daqueles restaurantes modestos e com pouco espaço mas que enchem todos os dias, o que os leva a fazer das mesas de quatro duas de dois, afastando-as um pouco. O que signigica que ao nosso lado tínhamos um casal que, não fora o facto de não conhecermos de lado nenhum, estava praticamente a jantar connosco. Mas eu, nem aí, só me interessava pelo que se passava na cozinha. E ia comentando.
- O que está a sair mais é o arroz de tamboril!
- ...
- Uau! Sabes como é que eles fazem o arroz de tamboril? Aquilo é num instantinho!
- ...
- Têm ali um tupperware com molho, outro com arroz branco cozido e outro com bocados de tamboril já cozinhados também.
- ...
- O cozinheiro põe um bocado de molho num tachinho e junta um boado de arroz cozido. Mexe um bocado ao lume, atira para lá uns bocados de tamboril e já está!
- ...
- O arroz branco até sai de lá com cor!
- ...
- Mas sinceramente, aquilo não é grande coisa, ainda bem que não pedimos aquela porcaria!

Aí, reparei que o meu marido me estava a fazer sinais com os olhinhos para o lado do casal da mesa anexa. Pois. Eles estavam à espera de arroz de tamboril.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ciclicamente aparece-me uma pessoa destas, a lembrar-me que a humanidade também é composta por lixo não reciclável. Atacou logo com um dos argumentos que me deixa o cérebro mais eriçado, que é o das pessoas que pensam que são espertas:

- Disseram-me que eu tinha que arranjar estes documentos todos para tratar deste assunto. Mas eu não quero porque não quero falar com os vizinhos. E eu conheço muita gente aqui! Conheço o Sr. Presidente, conheço o Sr Engenheiro X, conheço a Srª Engenheira Y!... Diga-me com qual é que eu devo falar para me livrar disto se faz favor..
- Por mim a senhora fala com quem quiser, não tenho nada a ver com isso. Mas a concordância do condomínio para alterar a fachada é exigida por lei, duvido que alguém a vá dispensar.
- Mas eu já lhe expliquei! Eu não vou arranjar isto porque não quero falar com os vizinhos! Aquele condomínio lá do prédio é uma grande trapalhada!
- Pois. A única coisa que eu lhe posso dizer é que tem que trazer o documento.

Foi nesta altura que ela passou ao plano B. Chegou-se à frente como se (cruzes credo!) fosse minha amiga íntima e começou a falar baixinho.

- Eu vou-lhe dizer o que se passa sabe? É que lá no prédio, as pessoas compraram os apartamentos e depois alugaram, percebe?
- Sim...
- Houve quem alugasse apartamentos a qualquer pessoa! Só lhes interessa o dinheiro!

Apostei comigo mesma que a seguir vinha aí cretinice ainda maior e cheguei-me para trás. Não falhei nem um centímetro. Ela continuou sem pestanejar.

- Alugaram vários apartamentos... a brasileiros!
- E?...
- Brasileiros pretos!!! A senhora acha isto bem?
- A senhora acha que devia ser proibido alugar apartamentos a brasileiros?
- Não! Mas são brasileiros pretos!!! Até pode haver lá um incêndio, qualquer coisa...
- Por causa dos brasileiros?!
- São pessoas doutro meio não é?
- Eu, pelo menos, sou doutro meio. - pensei, feliz - E ainda bem, porque detestaria ser do meio desta retardada mental.
Depois arrumei a questão, antes que me desse um ataque de urticária ou outra coisinha má:
- Olhe minha senhora, então eu lamento imenso, mas vai ter que falar com os seus vizinhos brasileiros para saber quem são os senhorios e lhes pedir para assinar uma declaração.

Esta vida às vezes é muito difícil!

domingo, 26 de abril de 2009

Quando perguntei à minha mãe como é que eram feitos os desenhos animados que davam na televisão, uma vez que os desenhos que nós fazemos não se mexiam e aqueles mexiam-se, e ela me respondeu:
- Isso ainda não é para a tua idade.
Eu pensei imediatamente:
- Ok... então os desenhos animados também metem sexo...

sábado, 25 de abril de 2009

Nesse mesmo ano tive o primeiro momento de estranheza. Foi quando fui à escola ver as notas no final do ano e toda a gente tinha passado. Até o Sérgio, que não conseguia dizer nenhuma palavra de francês e adormecia nas aulas. Quando lá cheguei, a alegria era geral:
- Passámos todos!!! - disseram-me logo à entrada.
- Todos?!
- Sim! Todos! Ninguém chumbou!
Mesmo assim fui confirmar e era verdade. Ninguém tinha menos de "dez" a nada. Mais tarde explicaram-me que tinha havido "passagens administrativas", o que não me esclareceu de todo. Pensei qualquer coisa como:
- Bem, se daqui para a frente for assim não vale a pena esforçar-me...

E é quando me lembro desse momento que compreendo um bocadinho os miúdos inteligentes de hoje que se limitam a aparecer nas aulas de vez em quando e ouvir o que lá se diz. O estímulo para fazer de maneira diferente não é muito grande.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Naquele dia não houve escola, o que não me recordo de ter sido uma grande alegria porque tinha a certeza de se passar qualquer coisa importante que eu não compreendia nem ninguém me queria explicar o que era. Ao longo do dia fui ficando levemente irritada. Os adultos falavam de coisas que estavam a acontecer, e estavam tão excitados com tudo aquilo que eu me sentia simplesmente transparente. Até que, a certo ponto, resolvi levantar a voz e acabar com aquilo:
- Mas afinal o que é que aconteceu???
Aí, decidiram parar de me ignorar, mas acho que não foi por eu ter falado mais alto. Foi com certeza porque já tinham a segurança de que podiam, de que o rumo dos acontecimentos já não ia inverter-se.
- Houve um golpe de estado - responderam-me.
- O que raio é um golpe de estado?
- Bem... foi uma revolução.
- Sim, mas o que é uma revolução?
- Quer dizer que o governo caiu. Que agora vai haver um governo novo, vai ser tudo novo. Nada vai ser igual!
Aí comecei a interessar-me pelo assunto. Ainda não tinha percebido nada de nada, mas sendo assim, já estava a interessar-me pelo assunto. Eu e toda miudagem da minha idade, que a partir daí deu início a uma viagem alucinante no mundo das novidades e das surpresas.
Acredito que foi um privilégio viver este momento.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O meu pai estava na guerra em Angola e eu ainda não sabia ler. Mas as veladas insinuações que ouvia aqui e ali aos adultos sobre os "embrulhos" dos soldados portugueses com as pretas (era assim que se dizia) e a consequente produção de pequenos mulatinhos que já inundava o território ultramarino, comecei a preocupar-me.
Como disse, ainda não sabia ler. Mas, perante a hipótese de me aparecer um irmãozinho escuro um dia em casa a fazer-me concorrência, não quis deixar de fazer chegar a minha mensagem ao destino. Peguei numa folha de papel e produzi a minha primeira obra-prima do regime: Uma menina branca com vestido de princesa (que era obviamente eu), dava pauladas na cabeça duma criatura feia com uma saia de ráfia que pintei de preto (e que era obviamente uma possível candidata a mãe do meu irmão bastardo). Muito séria, pedi à minha mãe que mandasse a "carta" ao meu pai por correio. E ela mandou.
Toda a gente na família achou imensa graça.
Mas é preciso ter em conta que isto se passou num tempo em que havia um loto da Majora para crianças que tinha uma personagem chamada Escarumbinha.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

- Mãe! - gritou o meu sobrinho de sete anos de idade - A professora mandou escrever cinco palavras que comecem por "c" mas onde o "c" se leia "s"! E eu não me lembro de nenhuma!
- Eu lembro.
- Então diz-me!!!
- Não. Vou-te dar uma pista. Tem a ver com uma coisa que os adultos fazem mas que é uma grande porcaria.
- Mas... sexo não começa por "c"!

A mãe estava a pensar em "cigarro".

terça-feira, 21 de abril de 2009

E dizia a senhora toda bem ataviada para a funcionária da Câmara Municipal:

- Ontem fui ver um concerto da vossa orquestra.
- Da nossa orquestra?! Nós temos orquestra?!
- Então menina? Nunca ouviu falar da Orquestra de Câmara?

E não estava a brincar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Era uma professora chata. Mas tão chata que, apesar de nada ter aprendido com ela que se tivesse mantido, mesmo que duma forma ténue, na minha cabeça, nunca mais me esqueci da criatura. Ela entra de vez em quando nos meus pesadelos.
Das suas aulas dadas em lume brando, recordo apenas os momentos em que olhava pela janela e imaginava a chegada súbita dum helicóptero que lançava uma corda para me salvar daquilo.

domingo, 19 de abril de 2009

Os alunos estavam tão entusiasmados com a visita ao Jardim Botânico que nós chegámos a pensar que eles iam realmente interessar-se por aquilo.
- Professora! Nós vamos ver as plantas carnívoras??? - perguntavam, no meio de grande excitação.
- Claro! Vamos ver todas!

Mas foi no momento em que entrámos no pavilhão onde estavam as tais plantas que percebemos tudo. À nossa volta, cinquenta carinhas decepcionadas olhavam para umas plantinhas inofensivas que na sua opinião não diferiam muito das que as mães tinham nas varandas.
- Isto é que são plantas carnívoras?!
O nosso guia de visita, certamente muito habituado a esta questão, respondeu-lhes com outra pergunta:
- Vocês estavam à espera de ver plantas gigantescas e furiosas com bocarras enormes, à espera de devorar a primeira presa indefesa?
- Claro!!! - respoderam logo eles em coro.

Foi a primeira vez na vida que reflecti a sério sobre o tema: Gestão de Expectativas.