quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Emiele e a Saltapocinhas arranjaram-me um bico de obra: Contar o que andava a fazer no dia 24 de Abril de 1974. Primeiro, isso já foi no tempo dos afonsinhos, que é como quem diz no tempo dos Ford Escort e dos Fiat 600 originais. Segundo, a gente ainda consegue fazer um esforço para se lembrar do que andava a fazer no dia 25, agora o dia 24... acho que a malta meteu nos arquivos mortos. Vou tentar fazer uma associação de ideias, tipo investigação do CSI Miami.
Então vejamos:

- Eu tinha feito anos há poucos dias. E não tinha tido festa nem presentes porque, graças a um 9,5 que tive a Matemática, estava de castigo por um mês. Por isso, estava de certeza em casa, com uma grande tromba de elefante, fechada no quarto (que era onde eu estava quando não estava na escola), provavelmente a fazer planos para fugir de casa e nunca mais me verem. Felizmente para mim o castigo acabou no dia seguinte porque os meus pais estavam mais entusiasmados com outras coisas e esqueceram-se.

Esta é a versão verdadeira. Agora a versão interessante:

- Eu estava secretamente a enviar instruções às forças armadas num aparelho transmissor que tinha escondido debaixo da cama ao pé do cotão e das revistas porno que roubava ao meu pai, porque ninguém sabe isto, mas na verdade eu é que fui a estratega de toda a revolução. O Otelo e os outros foram só os testas de ferro. Pronto. Isto era para ser segredo mas agora já sabem.


Agora as vítimas, tinha que ser. O Nando, o MFC, a Mushu e a Vap. Tá feito.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Gosto de ir a concertos e ópera. Não porque tenha uma refinada cultura musical, que não tenho, mas porque gosto, o que me parece ser suficiente.
Infelizmente, nos espectáculos de música (so called) erudita, temos que nos saber comportar. Não podemos ir para lá cantarolar, nem bater o pezinho, nem acompanhar o ritmo com palminhas e, muito menos, acender os isqueiros no ar como no sudoeste à noite já depois das bubas, por muito que o Requiem de Mozart ou o Hino à Alegria nos emocione a alma. É mau. Também temos que saber quando é a altura de aplaudir, sob pena de olharem logo para nós de ladecos como se fôssemos uns labregos. É mau. Claro que há sempre o truque de esperar que os outros aplaudam para alinhar no "Maria Vai com as Outras". Só que isso também não é suficiente, pois topam-te na mesma.
Eu opto pela solução simples de ter o programa na mão. Assim, sei quantos andamentos tem a obra que estou a ouvir e sei que só se pode bater palmas no fim de todos, senão o maestro fica ali com os bracitos no ar a mandar calar a malta e é uma cena um bocado desagradável. Pelo menos se nos estiver a mandar calar a nós.
Um dia destes aconteceu-me pela primeira vez, no CCB, não ter o programa. Porque chegámos em cima da hora e fomos a correr sentar, falhou-me esse pormenor importante. Só me lembrei quando estava a começar, e ainda para cúmulo, os acordes não me eram de todo familiares. Tive a certeza que nunca tinha ouvido aquilo na vida e não sabia do que se tratava. Mas isto foi o pior? Não! O pior foi o senhor inglês sentado ao meu lado ter desatado a fazer-me perguntas sobre o que ia acontecer. Caramba! Se ele me tivesse perguntado quantos cantos têm os Lusíadas, em que museu está a Guernica, o que é uma redondilha maior, qualquer coisa! Agora, sobre a orquestra que estava em cima do palco, eu nem o nome sabia!
Poucas vezes me senti tão estúpida, acreditem...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Foi no dia do meu aniversário, há muitos anos. Os colegas do emprego ofereceram-me um cartão gigante, que desdobrado andaria perto do metro quadrado, onde todos escreveram uma dedicatória e assinaram.
No fim do dia, quando levei aquilo para casa e mostrei à família, o comentário do meu filho de quatro anos foi:
- Que giro! Quando morrerres posso ficar com ele?

domingo, 3 de maio de 2009

- Ai menina! - dizia a cigana - A menina parece mesmo uma cigana como a genti! Se a menina fosse a uma festa nossa dançava lá três dias seguidos sem ninguém dar por ela que não era cigana!

Não, isto não aconteceu comigo, foi com uma colega minha. Se fosse comigo eu acho que tinha visto a vida toda a passar-me à frente nesse momento.

sábado, 2 de maio de 2009

Há muitos anos, a minha filha mais nova tinha cinco anos e quis oferecer-me este disco no dia da mãe.
Pediu ao pai, sugeriu aos irmãos mais velhos e foi completamente arrasada com piadas e bocas foleiras. Conformou-se com a derrota e associou-se à oferta do perfume e das coisinhas feitas na escola.
Eu só vim a saber da história mais tarde e achei indecente. Uma criança de cinco anos não sabe a diferença entre música bimba e não bimba. Para ela, se diz "mãe querida" e é isso que ela quer dizer, está certo!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

É nestes momentos que eu penso que não ando a bater muito bem. Senão vejam:

Comprei uma coroa de flores para o funeral dum familiar dum colega nosso. Depois, dei o cartão a assinar a toda a gente. Eu assinei também. Quando fui fazer as contas para saber quanto é que cada um tinha que me dar, contei as assinaturas e dividi o custo da coroa por esse número. Até aí tudo bem.
O pior foi quando decidi enviar um email a todos a comunicar o custo. Abri o outlook e fui "picando" as assinaturas enquanto punha os endereços na barra de cima. Escrevi o texto e enviei. Logo a seguir, recebi uma mensagem de mim própria. "Que raio é isto?" - pensei eu - "Um vírus?"
Não. Era um mail a pedir-me 2,05€.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

No local onde agora vive uma urbanização de prédios sem personalidade, realizava-se antes anualmente a festa em honra do mártir S. Sebastião. Eu morava no último andar do prédio mais antigo, que também ainda lá está, e tinha uma vista perfeita sobre todo o recinto. Nem eu nem ninguém lá de casa se dignava sair para se misturar na festa, os adultos odiavam e rezavam para que os quatro dias acabassem depressa, mas as minhas amigas vinham todas ter comigo nesses dias, algumas com os binóculos que "pediam emprestados" aos pais, para apreciar devidamente o evento, que era imperdível. Adorávamos os espectáculos ao vivo e contávamos as vezes que nos fadinhos se gania as palavras "soldadinho", "mãezinha querida", "sofrer" e "lá morreu". Assistíamos às lutas entre machos bem avinhados, pelas fêmeas disponíveis. Fazíamos caretas de horror perante as bifanas e os chouriços servidos à mão em carcaças manhosas. Mas sobretudo, não perdíamos o cantinho escondido onde os homens iam urinar depois do tinto, que era completamente escancarado de onde nos encontrávamos. Aí sim, era ver-nos a disputar os binóculos...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Não é política desta casa contar anedotas alheias, mas acho esta particularmente boa.

Um explorador viu-se no meio da selva, perdido e rodeado de indígenas canibais. Sem saber o que fazer, teve um desabafo em voz alta:
- Estou fodido!
Nesse momento as nuvens afastaram-se no céu e uma voz poderosa ecoou pela selva:
- Não meu filho! Não estás fodido!
Cheio de esperança, o explorador voltou-se para o firmamento:
- Não estou? Como não estou?
A voz respondeu:
- Estás a ver esse indígena à tua frente com dois ossos no cabelo?
- Sim!
- É o chefe. Pega na pedra mais pesada que tiveres à mão e atira-lha com toda a força, de modo a acertares na cabeça!
O explorador assim fez. Logo a seguir, a voz falou de novo:
- Agora sim meu filho! Estás fodido!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Eu tinha vista directa para a cozinha. Então, enquanto esperámos pela comida, diverti-me a cuscar e a fazer o relato para o meu marido, sentado à minha frente. Era um daqueles restaurantes modestos e com pouco espaço mas que enchem todos os dias, o que os leva a fazer das mesas de quatro duas de dois, afastando-as um pouco. O que signigica que ao nosso lado tínhamos um casal que, não fora o facto de não conhecermos de lado nenhum, estava praticamente a jantar connosco. Mas eu, nem aí, só me interessava pelo que se passava na cozinha. E ia comentando.
- O que está a sair mais é o arroz de tamboril!
- ...
- Uau! Sabes como é que eles fazem o arroz de tamboril? Aquilo é num instantinho!
- ...
- Têm ali um tupperware com molho, outro com arroz branco cozido e outro com bocados de tamboril já cozinhados também.
- ...
- O cozinheiro põe um bocado de molho num tachinho e junta um boado de arroz cozido. Mexe um bocado ao lume, atira para lá uns bocados de tamboril e já está!
- ...
- O arroz branco até sai de lá com cor!
- ...
- Mas sinceramente, aquilo não é grande coisa, ainda bem que não pedimos aquela porcaria!

Aí, reparei que o meu marido me estava a fazer sinais com os olhinhos para o lado do casal da mesa anexa. Pois. Eles estavam à espera de arroz de tamboril.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ciclicamente aparece-me uma pessoa destas, a lembrar-me que a humanidade também é composta por lixo não reciclável. Atacou logo com um dos argumentos que me deixa o cérebro mais eriçado, que é o das pessoas que pensam que são espertas:

- Disseram-me que eu tinha que arranjar estes documentos todos para tratar deste assunto. Mas eu não quero porque não quero falar com os vizinhos. E eu conheço muita gente aqui! Conheço o Sr. Presidente, conheço o Sr Engenheiro X, conheço a Srª Engenheira Y!... Diga-me com qual é que eu devo falar para me livrar disto se faz favor..
- Por mim a senhora fala com quem quiser, não tenho nada a ver com isso. Mas a concordância do condomínio para alterar a fachada é exigida por lei, duvido que alguém a vá dispensar.
- Mas eu já lhe expliquei! Eu não vou arranjar isto porque não quero falar com os vizinhos! Aquele condomínio lá do prédio é uma grande trapalhada!
- Pois. A única coisa que eu lhe posso dizer é que tem que trazer o documento.

Foi nesta altura que ela passou ao plano B. Chegou-se à frente como se (cruzes credo!) fosse minha amiga íntima e começou a falar baixinho.

- Eu vou-lhe dizer o que se passa sabe? É que lá no prédio, as pessoas compraram os apartamentos e depois alugaram, percebe?
- Sim...
- Houve quem alugasse apartamentos a qualquer pessoa! Só lhes interessa o dinheiro!

Apostei comigo mesma que a seguir vinha aí cretinice ainda maior e cheguei-me para trás. Não falhei nem um centímetro. Ela continuou sem pestanejar.

- Alugaram vários apartamentos... a brasileiros!
- E?...
- Brasileiros pretos!!! A senhora acha isto bem?
- A senhora acha que devia ser proibido alugar apartamentos a brasileiros?
- Não! Mas são brasileiros pretos!!! Até pode haver lá um incêndio, qualquer coisa...
- Por causa dos brasileiros?!
- São pessoas doutro meio não é?
- Eu, pelo menos, sou doutro meio. - pensei, feliz - E ainda bem, porque detestaria ser do meio desta retardada mental.
Depois arrumei a questão, antes que me desse um ataque de urticária ou outra coisinha má:
- Olhe minha senhora, então eu lamento imenso, mas vai ter que falar com os seus vizinhos brasileiros para saber quem são os senhorios e lhes pedir para assinar uma declaração.

Esta vida às vezes é muito difícil!

domingo, 26 de abril de 2009

Quando perguntei à minha mãe como é que eram feitos os desenhos animados que davam na televisão, uma vez que os desenhos que nós fazemos não se mexiam e aqueles mexiam-se, e ela me respondeu:
- Isso ainda não é para a tua idade.
Eu pensei imediatamente:
- Ok... então os desenhos animados também metem sexo...

sábado, 25 de abril de 2009

Nesse mesmo ano tive o primeiro momento de estranheza. Foi quando fui à escola ver as notas no final do ano e toda a gente tinha passado. Até o Sérgio, que não conseguia dizer nenhuma palavra de francês e adormecia nas aulas. Quando lá cheguei, a alegria era geral:
- Passámos todos!!! - disseram-me logo à entrada.
- Todos?!
- Sim! Todos! Ninguém chumbou!
Mesmo assim fui confirmar e era verdade. Ninguém tinha menos de "dez" a nada. Mais tarde explicaram-me que tinha havido "passagens administrativas", o que não me esclareceu de todo. Pensei qualquer coisa como:
- Bem, se daqui para a frente for assim não vale a pena esforçar-me...

E é quando me lembro desse momento que compreendo um bocadinho os miúdos inteligentes de hoje que se limitam a aparecer nas aulas de vez em quando e ouvir o que lá se diz. O estímulo para fazer de maneira diferente não é muito grande.