terça-feira, 12 de maio de 2009

Na minha infância morei numa casa com árvores de fruto no quintal. Havia uma cerejeira, vários pessegueiros de raças diferentes, um diospireiro, uma nespereira, uma ameixeira branca e uma preta e um canteiro de morangos. Ao contrário do que eu via nos livros da Anita e do que me parecia ser normal em todo o lado, não havia maçãs. Nem laranjas. Nem pêras. Não é que não houvesse maçãs, laranjas e pêras lá em casa. Haver havia. Só que eram compradas na loja da D. Celeste. Do nosso mini-pomar só vinha a fruta doce e boa, aquela que era uma festa só de olhar. Aquela que se reserva para momentos especiais até no nome. Há muita gente com sobrenome Pereira ou Laranjeira, mas já viram alguém chamado Diospireiro? Não. Era aquela fruta que se comia, não porque se tinha fome mas porque se era guloso. Perguntei uma vez à minha mãe:
- Porque é que não plantamos uma macieira e uma laranjeira no quintal? Ou uma pereira?
- Para quê? - perguntou ela - Maçãs arranjam-se em qualquer lado!
Por isso me habituei até hoje a separar a fruta em dois grupos distintos: a fruta para comer e a fruta para comeeeeeeer!!!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pedi-lhe para aguardar um pouco e, enquanto esperávamos que o processo descesse do arquivo, fui adiantando umas coisas. Mas não por muito tempo, porque o meu cliente queria mesmo conversar:
- Vou-lhe mostrar o meu telemóvel novo!
E sacou dum telemóvel de última geração que tinha no bolso da camisa. Trazer um telemóvel, um lápis ou um pente no bolso da camisa significa "remotas hipóteses de vir a fazer parte do meu círculo de amigos". Mas em contexto de trabalho há que ser simpática e aquela coisa horrível... como é mesmo? Ah! Condescendente. É isso!
- É muito bom é! - respondi eu sem que mais nada me viesse à cabeça no momento.
- Este telemóvel faz coisas que você nem imagina - continuou ele - e eu ainda só não consegui descobrir como é que se tira fotografias com ele! Mas hei-de descobrir! Que isto tem uma câmara que é uma categoria! Mas é complicado, o sacana!
- Pois é - retorqui eu numa tentativa de fazer um pouco de humor ligeiro tipo familiar para encher tempo - hoje em dia fazem telemóveis com tantas funções que depois é uma confusão! Parece que já há alguns com casa de banho e tudo!
E ele, passando de repente do ar divertido com que estava para o ar sério compenetrado:
- Com casa de banho?! A sério?!
- Oh que caraças - pensei eu - o gajo levou a sério! E agora?
- Estava só a brincar - expliquei.
- Ah - respondeu ele um pouco desiludido por já não poder gabar-se aos amigos de ter um telemóvel onde se podia enfiar a pila.

domingo, 10 de maio de 2009

Sabem quando é que eu deixei de enviar mensagens de ano novo para os telemóveis dos amigos?
Foi no ano em que escrevi qualquer coisa do género "Um feliz 200... para todas as pessoas bonitas que eu conheço. Tu és uma delas" e mandei para toda a gente da minha lista.
Algumas semanas mais tarde vim a saber que tinha havido grande vendaval entre um casal meu conhecido. Ele recebeu a mensagem e não estava presente. Ela foi lá e leu. Achou imediatamente que nós tínhamos um caso e reagiu à medida. Foi ele que me contou:
- Eh pá! A M***** ficou lixada com a tua mensagem de ano novo! Fez-me cá uma cena!
E eu aparvalhada:
- Mas eu mandei igual para toda a gente da minha lista!
- A sério? Se eu sabia tinha-lhe dito...

Não é que o parvo pensava que tinha sido mesmo só para ele?

Anyway... já se divorciaram. E eu não tive nada a ver com isso.

sábado, 9 de maio de 2009

Quando eu era muito jovem era, como todos os muito jovens, intolerante.
Nas campanhas eleitorais, quando via os partidos que estavam errados (que eram todos menos aquele de que eu era simpatizante), a distribuir folhetos na rua, podia muito bem passar ao largo. Mas não. Passava rentinho. Só para eles me entregarem um papelito daqueles e eu ter o prazer de responder:
- Oh! Obrigada! Vai ficar tão bem colado no autoclismo lá de casa!

Somos tão parvinhos enquanto não crescemos! E depois também...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Toquei a campainha. Lá de dentro ouvi -"Quem é?" - e respondi:
- Censos 91!
Com a campanha fortíssima que havia na altura bastava dizer isto para todos saberem do que se tratava.
- Ah sim, só um momento!
Aguardei à porta, de pastinha na mão. Logo de seguida comecei a ouvir barulhos que foram aumentando de volume. Às tantas, parecia que lá dentro havia uma pequena revolução ou talvez uma demolição. Comecei a ficar desconfiada. os ruídos aumentavam os decibéis e ficavam cada vez menos espaçados. Além de desconfiada comecei a ficar receosa e a considerar a hipótese de me pisgar dali bem depressinha e nunca mais voltar. Mas já nessa altura a minha veia de profissional honesta falava mais alto e, a medo, já uns cinco minutos depois de ter tocado a primeira vez, premi novamente o botão.
- Só um momento!!! - disse alguém lá dentro já impaciente, como se fosse normal tencionar abrir a porta a alguém e demorar dez minutos para o fazer.
Mesmo muito, muito intrigada, continuei a esperar.
- Não há-de ser nada - pensei - se eu desaparecer alguém me procurará aqui. Sabem qual é a minha zona de recenseamento...
Estava eu nestes pensamentos quando uma senhora duns sessenta anos me abriu a porta, com ar de quem tinha acabado de correr uma maratona debaixo de sol sufocante e à força de chicote. Depois de olhar para mim uns segundos, abriu-se num sorriso:
- Boa tarde - disse eu.
- Boa tarde menina! Entre, entre! Não esteja aqui à porta a escrever que não dá jeito nenhum!
Entrei. Sempre a olhar desconfiada para todo o lado a ver se descobria onde estavam os outros cadáveres. O cheiro lá dentro era estranho. Quando cheguei à sala, um simpático velhote que vim a saber depois, era o marido, arfava sentado na poltrona. Pensei que se estava a sentir mal.
- Os senhores precisam de alguma coisa? - perguntei feita estúpida.
- Não! - respondeu ela despachada - Mas é que sabe, nós nunca temos visitas nenhumas. Agora apareceu a menina... Não queríamos parecer mal! Por isso, antes de lhe abrir a porta, estivemos a dar um jeitinho à casa...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A começar na idade de 16 anos tive tantos empregos temporários e trabalhos inventados por mim mesma que já nem sei dizer qual foi o primeiro. Depois de algum esforço, acho que foi nos serviços municipalizados. Eu e mais meia dúzia de miúdos e miúdas fomos atirados às feras nas aldeias dos subúbios para fiscalizar e detectar possíveis ligações clandestinas à rede de água a 250$00 por dia. Foi uma coisa surreal. Porque nos fartámos de andar a pé por sítios que nem conhecíamos bem. Mas principalmente porque foi aí que eu fiquei a conhecer o mundo para lá do meu mundo. Até aí, eu não fazia qualquer ideia que havia mulheres fechadas em casa que falavam com quem batia à porta através de meio postigo, a medo, e sempre dizendo que "Venham mais tarde que o meu marido não está e não me deixa abrir a porta a ninguém".
Meu Deus como eu ficava indignada do alto da minha imensa juventude!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Emiele e a Saltapocinhas arranjaram-me um bico de obra: Contar o que andava a fazer no dia 24 de Abril de 1974. Primeiro, isso já foi no tempo dos afonsinhos, que é como quem diz no tempo dos Ford Escort e dos Fiat 600 originais. Segundo, a gente ainda consegue fazer um esforço para se lembrar do que andava a fazer no dia 25, agora o dia 24... acho que a malta meteu nos arquivos mortos. Vou tentar fazer uma associação de ideias, tipo investigação do CSI Miami.
Então vejamos:

- Eu tinha feito anos há poucos dias. E não tinha tido festa nem presentes porque, graças a um 9,5 que tive a Matemática, estava de castigo por um mês. Por isso, estava de certeza em casa, com uma grande tromba de elefante, fechada no quarto (que era onde eu estava quando não estava na escola), provavelmente a fazer planos para fugir de casa e nunca mais me verem. Felizmente para mim o castigo acabou no dia seguinte porque os meus pais estavam mais entusiasmados com outras coisas e esqueceram-se.

Esta é a versão verdadeira. Agora a versão interessante:

- Eu estava secretamente a enviar instruções às forças armadas num aparelho transmissor que tinha escondido debaixo da cama ao pé do cotão e das revistas porno que roubava ao meu pai, porque ninguém sabe isto, mas na verdade eu é que fui a estratega de toda a revolução. O Otelo e os outros foram só os testas de ferro. Pronto. Isto era para ser segredo mas agora já sabem.


Agora as vítimas, tinha que ser. O Nando, o MFC, a Mushu e a Vap. Tá feito.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Gosto de ir a concertos e ópera. Não porque tenha uma refinada cultura musical, que não tenho, mas porque gosto, o que me parece ser suficiente.
Infelizmente, nos espectáculos de música (so called) erudita, temos que nos saber comportar. Não podemos ir para lá cantarolar, nem bater o pezinho, nem acompanhar o ritmo com palminhas e, muito menos, acender os isqueiros no ar como no sudoeste à noite já depois das bubas, por muito que o Requiem de Mozart ou o Hino à Alegria nos emocione a alma. É mau. Também temos que saber quando é a altura de aplaudir, sob pena de olharem logo para nós de ladecos como se fôssemos uns labregos. É mau. Claro que há sempre o truque de esperar que os outros aplaudam para alinhar no "Maria Vai com as Outras". Só que isso também não é suficiente, pois topam-te na mesma.
Eu opto pela solução simples de ter o programa na mão. Assim, sei quantos andamentos tem a obra que estou a ouvir e sei que só se pode bater palmas no fim de todos, senão o maestro fica ali com os bracitos no ar a mandar calar a malta e é uma cena um bocado desagradável. Pelo menos se nos estiver a mandar calar a nós.
Um dia destes aconteceu-me pela primeira vez, no CCB, não ter o programa. Porque chegámos em cima da hora e fomos a correr sentar, falhou-me esse pormenor importante. Só me lembrei quando estava a começar, e ainda para cúmulo, os acordes não me eram de todo familiares. Tive a certeza que nunca tinha ouvido aquilo na vida e não sabia do que se tratava. Mas isto foi o pior? Não! O pior foi o senhor inglês sentado ao meu lado ter desatado a fazer-me perguntas sobre o que ia acontecer. Caramba! Se ele me tivesse perguntado quantos cantos têm os Lusíadas, em que museu está a Guernica, o que é uma redondilha maior, qualquer coisa! Agora, sobre a orquestra que estava em cima do palco, eu nem o nome sabia!
Poucas vezes me senti tão estúpida, acreditem...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Foi no dia do meu aniversário, há muitos anos. Os colegas do emprego ofereceram-me um cartão gigante, que desdobrado andaria perto do metro quadrado, onde todos escreveram uma dedicatória e assinaram.
No fim do dia, quando levei aquilo para casa e mostrei à família, o comentário do meu filho de quatro anos foi:
- Que giro! Quando morrerres posso ficar com ele?

domingo, 3 de maio de 2009

- Ai menina! - dizia a cigana - A menina parece mesmo uma cigana como a genti! Se a menina fosse a uma festa nossa dançava lá três dias seguidos sem ninguém dar por ela que não era cigana!

Não, isto não aconteceu comigo, foi com uma colega minha. Se fosse comigo eu acho que tinha visto a vida toda a passar-me à frente nesse momento.

sábado, 2 de maio de 2009

Há muitos anos, a minha filha mais nova tinha cinco anos e quis oferecer-me este disco no dia da mãe.
Pediu ao pai, sugeriu aos irmãos mais velhos e foi completamente arrasada com piadas e bocas foleiras. Conformou-se com a derrota e associou-se à oferta do perfume e das coisinhas feitas na escola.
Eu só vim a saber da história mais tarde e achei indecente. Uma criança de cinco anos não sabe a diferença entre música bimba e não bimba. Para ela, se diz "mãe querida" e é isso que ela quer dizer, está certo!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

É nestes momentos que eu penso que não ando a bater muito bem. Senão vejam:

Comprei uma coroa de flores para o funeral dum familiar dum colega nosso. Depois, dei o cartão a assinar a toda a gente. Eu assinei também. Quando fui fazer as contas para saber quanto é que cada um tinha que me dar, contei as assinaturas e dividi o custo da coroa por esse número. Até aí tudo bem.
O pior foi quando decidi enviar um email a todos a comunicar o custo. Abri o outlook e fui "picando" as assinaturas enquanto punha os endereços na barra de cima. Escrevi o texto e enviei. Logo a seguir, recebi uma mensagem de mim própria. "Que raio é isto?" - pensei eu - "Um vírus?"
Não. Era um mail a pedir-me 2,05€.