A C****** chamou-nos propositadamente lá a casa para sermos testemunhas da desgraça que lhe tinha acontecido.
- Vejam! - disse ela assim que chegámos, apontando para um canto do quarto.
Aí, um objecto em faiança vidrada representava grosseiramente um casal de namorados, com o olhar posto no horizonte e segurando, cada um, a ponta dum arco composto por flores cor-de-rosa e brancas. Ela era loura mulher-a-dias e ele, ajoelhado, vestia um fato de primeira-comunhão com gravata azul-bebé. A composição estava em cima duma coluna grega também em faiança, também cor-de-rosa mas com umas pinceladas de dourado. Na verdade eu nunca tinha visto uma coisa tão feia desde as viagens que fazia em miúda no comboio-fantasma.
- E agora, o que é que eu faço a isto? - perguntou ela desesperada.
- Não podes... deixar tombar acidentalmente a limpar o pó? Esconder no sotão?
- Nem pensar! Conheço muito bem a minha madrinha! Vai andar sempre na minha casa a ver se eu tenho a prenda de casamento que ela me deu em local bem visível! E esta porcaria deve ter custado uma pequena fortuna!
- E trocar?
- Ela ofendia-se de morte! Além do que, na loja onde ela comprou isto, não deve haver nada melhor!
- Então não sei - e todas acenaram com a cabeça em jeito de pesar - estás mesmo lixada...
Algum tempo depois, vim a saber que a C****** tinha a escultura de faiança atrás duma porta, bem escondida, e sempre que a madrinha aparecia de surpresa alguém ia a correr puxar aquilo para um local de honra. Aí ela, orgulhosa, dizia sempre:
- Ainda bem que gostaste! Quando fizeres anos dou-te outra muito linda que lá há. É um rajá sentado num elefante dourado! Tens a casa tão pobrezinha mulher!
Não sei se cumpriu a ameaça.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

