terça-feira, 19 de maio de 2009

Eu e outros miúdos íamos para a escola e deparámos com um casal de cães que, indiferente a tudo, acasalava. Os meus colegas, a quem a cena provocou de imediato a desinibição do gene da parvoíce, começaram a rir e apontar, a atirar piadas e pedras. A mim, pessoalmente, a cena impressionou-me, porque me lembrei do Pateta e da Clarabela. Muito calada e pensativa, eu concluía desiludida que, sendo o Pateta um cão e a Clarabela uma vaca, a relação de ambos era uma treta grosseiramente impingida às crianças e não tinha qualquer viabilidade. Porque eles nunca poderiam fazer aquilo, nem que ele fosse um cão daqueles grandões como um S. Bernardo ou um pastor alemão. O que nem é.
Naquele dia senti-me decepcionada como quando descobri que não existia Pai Natal. Nunca mais li livros aos quadradinhos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A C****** chamou-nos propositadamente lá a casa para sermos testemunhas da desgraça que lhe tinha acontecido.
- Vejam! - disse ela assim que chegámos, apontando para um canto do quarto.
Aí, um objecto em faiança vidrada representava grosseiramente um casal de namorados, com o olhar posto no horizonte e segurando, cada um, a ponta dum arco composto por flores cor-de-rosa e brancas. Ela era loura mulher-a-dias e ele, ajoelhado, vestia um fato de primeira-comunhão com gravata azul-bebé. A composição estava em cima duma coluna grega também em faiança, também cor-de-rosa mas com umas pinceladas de dourado. Na verdade eu nunca tinha visto uma coisa tão feia desde as viagens que fazia em miúda no comboio-fantasma.
- E agora, o que é que eu faço a isto? - perguntou ela desesperada.
- Não podes... deixar tombar acidentalmente a limpar o pó? Esconder no sotão?
- Nem pensar! Conheço muito bem a minha madrinha! Vai andar sempre na minha casa a ver se eu tenho a prenda de casamento que ela me deu em local bem visível! E esta porcaria deve ter custado uma pequena fortuna!
- E trocar?
- Ela ofendia-se de morte! Além do que, na loja onde ela comprou isto, não deve haver nada melhor!
- Então não sei - e todas acenaram com a cabeça em jeito de pesar - estás mesmo lixada...

Algum tempo depois, vim a saber que a C****** tinha a escultura de faiança atrás duma porta, bem escondida, e sempre que a madrinha aparecia de surpresa alguém ia a correr puxar aquilo para um local de honra. Aí ela, orgulhosa, dizia sempre:
- Ainda bem que gostaste! Quando fizeres anos dou-te outra muito linda que lá há. É um rajá sentado num elefante dourado! Tens a casa tão pobrezinha mulher!
Não sei se cumpriu a ameaça.

domingo, 17 de maio de 2009

Enquanto escolhia na loja uma prenda bonita para o aniversário do meu filho, detive-me em duas pessoas perto de mim que discutiam acesamente. Eram de certeza mãe e filho, porque a semelhança dos traços fisionómicos e a diferença de idades o denunciava. O que me chamou a atenção, mais do que o facto de estarem a discutir numa loja de roupa, foi o facto de o fazerem numa língua que eu desconhecia e nem sabia identificar. Será árabe? Checo? Aproximei-me discretamente a tentar ouvir. E aí sim, consegui descodificar duas frases:
- Ouh felhe! Voi vestiúr!
- Nan vô nede!!!
Eram açoreanos.

sábado, 16 de maio de 2009

Telefonei a um utente para o avisar de que já podia ir buscar um cartão. Sabia que ele tinha pressa e não custava nada ser simpática. E não é que o homem me atendeu e, depois de eu lhe dizer o que tinha a dizer, me responde secamente com um "tá..." e desliga-me na cara? Não é por nada, podia ao menos ter dito obrigada, sei lá, qualquer coisa dentro do género!
Passada meia hora, ainda eu estava a rosnar contra estes malcriados que não têm consideração nenhuma, entra-me ele esbaforido pela porta dentro:
- Ai minha senhora, nem queira saber! Há bocado, estava eu consigo ao telefone quando me entrou um mosquito pelo nariz, o sacana!... Nem consegui dizer mais nada, fiquei mesmo à rasca, palavra de honra!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

- Mãeeeeee!!! - gritei eu orgulhosa correndo pela cozinha dentro - Engoli um caroço de cereja inteirinho!!!
A minha mãe pôs um ar preocupado como se tivesse acabado de saber que eu tinha apenas um mês de vida:
- E agora? - perguntou-me - Se ele não sair quando fores à casa de banho vai-te nascer uma cerejeira no estômago!
Ia morrendo de susto e nesse dia não brinquei mais. Ia à casa de banho de cinco em cinco minutos mas em vão. O nervosismo teve como efeito psicosomático uma obstipação severa. Recusei-me a beber água para não regar a semente do mal que tinha implantada no aparelho digestivo. Sentada na cama a olhar o quintal pela janela, imaginava-me com um tronco de cerejeira enorme a sair-me pela boca e uns ramos mais pequenos a sair pelos ouvidos e pelo nariz. Lá em cima, a folhagem verdejante era interrompida por cerejas vermelhas cor de inferno e eu tinha que estar permanentemente a olhá-las de boca muito aberta por a rigidez do tronco não me permitir outra posição. Parecia um pormenor dum quadro de Bosch. Tive a certeza que os meus últimos dias de vida iriam ser assim e, angustiada, chorei.
Uns tempos depois, como nada acontecia, comecei a acreditar que o caroço tinha afinal conseguido sair sem germinar, e readquiri a esperança de viver até ser muito velhinha. Para aí até aos trinta anos ou, quem sabe, mais ainda!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Hoje na Zara, duas senhoras admiravam um vestido amarelo estilo cai-cai, com uma alegria tão grande e tão sincera que contrastava com a idade de ambas.
- Tão querido! - dizia uma pondo o vestido à sua frente e olhando-se no espelho - É mesmo fofinhooo!!!
- Ai mulher pois é! - dizia a outra - E vais comprá-lo para ir onde?
- Olha, vou comprá-lo para ir... aspirar... lavar a loiça... limpar o pó...
- Então vamos embora.
- Vamos.
E foram. Com o semblante muito mais grave. P*ta da crise que não nos deixa comprar um vestido bonito para limpar a casa!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Como ainda não havia blogues nesse tempo eu arranjei maneira de me meter em sarilhos na mesma. Juntei-me a uma colega tão desastrada como eu e fundámos uma revista com distribuição gratuita no liceu. Quer dizer, não era bem uma revista, era mais aquilo que mais tarde se veio a apelidar de fanzine quando se decidiu que duas folhas A4 fotocopiadas, dobradas ao meio e agrafadas era uma coisa muito underground e muito à frente. Infelizmente ainda não estávamos nesse tempo. E assim vivemos nós o nosso momento de fama, ainda que circunscrita aos muros do liceu, durante os três primeiros números da ... (é verdade que não me lembro do nome que demos àquilo).
Um belo dia porém, e como já era de esperar, a contínua mais ranhosa e odiada pela miudagem apanhou-nos o original, já prontinho para ir à copiadora. Orgulhosa que estava, a cabra, agitou a presa em frente do nosso nariz e jurou a pés juntos, a sonsa lambe-botas:
-Eu vou fazer queixa!!!
E foi. E logo o número em que íamos publicar a caricatura da professora de francês a contorcer-se de prisão de ventre sentada na sanita e com um balão de banda desenhada indicando que sabia dizer todos os palavrões na língua de Asterix! Oh merde!
O assunto foi logo a conselho directivo e foi considerado gravíssimo. Não sei porquê, acho que naqueles anos a seguir à revolução ninguém tinha sentido de humor nenhum. A professora de francês, então, quando viu aquilo demonstrou ter tanto como um bengaleiro! Foi convocada uma reunião geral de encarregados de educação para discutir os métodos modernos de educação dos rebentos e eu vi, literalmente, a minha vida a andar para trás. Se havia coisinha para a qual os meus progenitores se estavam a cagar era para as teorias modernas de educação. Assim que lhes dissessem que a filhinha tinha andado a distribuir desenhos indecentes a minha folha estaria feita. Para minha sorte, tinha mãos pequeninas que cabiam na caixa do correio, que o meu pai só abria ao fim da tarde. Apanhei a convocatória nas calmas, que queimei depois numa espécie de ritual satânico de vingança.
No dia a seguir à reunião soube pelos meus colegas, que por sua vez tinham sabido através dos pais que lá tinham estado, que ninguém tinha percebido muito bem o que se passava e que se tinha dito que os pais mais interessados em estar ali (os meus) eram negligentes, e daí o comportamento da filha estar totalmente explicado.
A professora de francês perguntou-me:
- Porque é que os teus pais não vieram ontem à reunião?
E eu, com o arzinho mais sonso deste mundo:
- Oh Stôra, eles tiveram muita pena de não poder, mas o meu irmão está com escarlatina!...
Além de me livrar daquela, ainda tive a profe a deixar-me em paz a aula toda com medo de apanhar escarlatina. Toma!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Na minha infância morei numa casa com árvores de fruto no quintal. Havia uma cerejeira, vários pessegueiros de raças diferentes, um diospireiro, uma nespereira, uma ameixeira branca e uma preta e um canteiro de morangos. Ao contrário do que eu via nos livros da Anita e do que me parecia ser normal em todo o lado, não havia maçãs. Nem laranjas. Nem pêras. Não é que não houvesse maçãs, laranjas e pêras lá em casa. Haver havia. Só que eram compradas na loja da D. Celeste. Do nosso mini-pomar só vinha a fruta doce e boa, aquela que era uma festa só de olhar. Aquela que se reserva para momentos especiais até no nome. Há muita gente com sobrenome Pereira ou Laranjeira, mas já viram alguém chamado Diospireiro? Não. Era aquela fruta que se comia, não porque se tinha fome mas porque se era guloso. Perguntei uma vez à minha mãe:
- Porque é que não plantamos uma macieira e uma laranjeira no quintal? Ou uma pereira?
- Para quê? - perguntou ela - Maçãs arranjam-se em qualquer lado!
Por isso me habituei até hoje a separar a fruta em dois grupos distintos: a fruta para comer e a fruta para comeeeeeeer!!!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pedi-lhe para aguardar um pouco e, enquanto esperávamos que o processo descesse do arquivo, fui adiantando umas coisas. Mas não por muito tempo, porque o meu cliente queria mesmo conversar:
- Vou-lhe mostrar o meu telemóvel novo!
E sacou dum telemóvel de última geração que tinha no bolso da camisa. Trazer um telemóvel, um lápis ou um pente no bolso da camisa significa "remotas hipóteses de vir a fazer parte do meu círculo de amigos". Mas em contexto de trabalho há que ser simpática e aquela coisa horrível... como é mesmo? Ah! Condescendente. É isso!
- É muito bom é! - respondi eu sem que mais nada me viesse à cabeça no momento.
- Este telemóvel faz coisas que você nem imagina - continuou ele - e eu ainda só não consegui descobrir como é que se tira fotografias com ele! Mas hei-de descobrir! Que isto tem uma câmara que é uma categoria! Mas é complicado, o sacana!
- Pois é - retorqui eu numa tentativa de fazer um pouco de humor ligeiro tipo familiar para encher tempo - hoje em dia fazem telemóveis com tantas funções que depois é uma confusão! Parece que já há alguns com casa de banho e tudo!
E ele, passando de repente do ar divertido com que estava para o ar sério compenetrado:
- Com casa de banho?! A sério?!
- Oh que caraças - pensei eu - o gajo levou a sério! E agora?
- Estava só a brincar - expliquei.
- Ah - respondeu ele um pouco desiludido por já não poder gabar-se aos amigos de ter um telemóvel onde se podia enfiar a pila.

domingo, 10 de maio de 2009

Sabem quando é que eu deixei de enviar mensagens de ano novo para os telemóveis dos amigos?
Foi no ano em que escrevi qualquer coisa do género "Um feliz 200... para todas as pessoas bonitas que eu conheço. Tu és uma delas" e mandei para toda a gente da minha lista.
Algumas semanas mais tarde vim a saber que tinha havido grande vendaval entre um casal meu conhecido. Ele recebeu a mensagem e não estava presente. Ela foi lá e leu. Achou imediatamente que nós tínhamos um caso e reagiu à medida. Foi ele que me contou:
- Eh pá! A M***** ficou lixada com a tua mensagem de ano novo! Fez-me cá uma cena!
E eu aparvalhada:
- Mas eu mandei igual para toda a gente da minha lista!
- A sério? Se eu sabia tinha-lhe dito...

Não é que o parvo pensava que tinha sido mesmo só para ele?

Anyway... já se divorciaram. E eu não tive nada a ver com isso.

sábado, 9 de maio de 2009

Quando eu era muito jovem era, como todos os muito jovens, intolerante.
Nas campanhas eleitorais, quando via os partidos que estavam errados (que eram todos menos aquele de que eu era simpatizante), a distribuir folhetos na rua, podia muito bem passar ao largo. Mas não. Passava rentinho. Só para eles me entregarem um papelito daqueles e eu ter o prazer de responder:
- Oh! Obrigada! Vai ficar tão bem colado no autoclismo lá de casa!

Somos tão parvinhos enquanto não crescemos! E depois também...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Toquei a campainha. Lá de dentro ouvi -"Quem é?" - e respondi:
- Censos 91!
Com a campanha fortíssima que havia na altura bastava dizer isto para todos saberem do que se tratava.
- Ah sim, só um momento!
Aguardei à porta, de pastinha na mão. Logo de seguida comecei a ouvir barulhos que foram aumentando de volume. Às tantas, parecia que lá dentro havia uma pequena revolução ou talvez uma demolição. Comecei a ficar desconfiada. os ruídos aumentavam os decibéis e ficavam cada vez menos espaçados. Além de desconfiada comecei a ficar receosa e a considerar a hipótese de me pisgar dali bem depressinha e nunca mais voltar. Mas já nessa altura a minha veia de profissional honesta falava mais alto e, a medo, já uns cinco minutos depois de ter tocado a primeira vez, premi novamente o botão.
- Só um momento!!! - disse alguém lá dentro já impaciente, como se fosse normal tencionar abrir a porta a alguém e demorar dez minutos para o fazer.
Mesmo muito, muito intrigada, continuei a esperar.
- Não há-de ser nada - pensei - se eu desaparecer alguém me procurará aqui. Sabem qual é a minha zona de recenseamento...
Estava eu nestes pensamentos quando uma senhora duns sessenta anos me abriu a porta, com ar de quem tinha acabado de correr uma maratona debaixo de sol sufocante e à força de chicote. Depois de olhar para mim uns segundos, abriu-se num sorriso:
- Boa tarde - disse eu.
- Boa tarde menina! Entre, entre! Não esteja aqui à porta a escrever que não dá jeito nenhum!
Entrei. Sempre a olhar desconfiada para todo o lado a ver se descobria onde estavam os outros cadáveres. O cheiro lá dentro era estranho. Quando cheguei à sala, um simpático velhote que vim a saber depois, era o marido, arfava sentado na poltrona. Pensei que se estava a sentir mal.
- Os senhores precisam de alguma coisa? - perguntei feita estúpida.
- Não! - respondeu ela despachada - Mas é que sabe, nós nunca temos visitas nenhumas. Agora apareceu a menina... Não queríamos parecer mal! Por isso, antes de lhe abrir a porta, estivemos a dar um jeitinho à casa...