domingo, 24 de maio de 2009

- São quatrocentos e dois euros.
Mas a pessoa à minha frente já o sabia. Tirou duma "mica" um cheque de quatrocentos euros e uma moeda de dois. Justificou-se envergonhada:
- A minha mãe diz que não passa cheques a acabar em dois euros, só em zero. Ou em cinco. Só quer contas certas.
- Mas porquê?! - perguntei agastada, já a antever grandes problemas para convencer a tesouraria.
- Se soubesse o que eu tentei convencê-la! Mas ela diz que quer a conta limpinha, sempre a acabar em números redondos. Até os juros a incomodam! Se tiver a conta a acabar em três vai lá pôr dois euros imediatamente! E os cêntimos? São uma doença!

Números redondos, no sistema decimal que nos rege é o zero ou o cinco, que significa as metades. Está certo. Para qualquer um de nós, fazer cálculos mentais com estes valores é tão natural como respirar. Mas para alguns de nós, é mesmo uma questão de vida ou morte. Bolas!

sábado, 23 de maio de 2009

Fui a uma festa de aldeia. Daquelas com palco para a música e barraquinhas de venda de bugigangas várias. Era uma daquelas festas tão genuínas, mas tão genuínas... pronto, eu vou dizer a verdade. Era uma daquelas festas tão parolas!... Pelo menos foi isso que eu pensei quando resolvi filmar as duas matronas que dançavam no largo agarradas uma à outra e as pus no YouTube. Deixei de o pensar quando recebi uma mensagem de agradecimento do filho duma delas, que dizia qualquer coisa como:
"Vivo fora de Portugal e costumo procurar no YouTube imagens da minha terra. Fiquei muito comovido quando vi que apanhaste a minha mãe a dançar na Festa do ****. Obrigada!"
Nesse momento, senti-me o ser mais merdoso de todo o planeta, com uma dose de culpa tão grande como quando fazia queixa dos meus irmãos em pequenina para me livrar de qualquer coisa. Tinha ali uma pessoa a agradecer-me por ter gozado com a mãe. Sinceramente, odiei-me.
Vacilei um pouco entre a opção "responder" e "não responder" e acabei por escolher a primeira, embora com o sentimento de estar a limpar as mãos à parede. Disse qualquer coisa sobre a alegria e a espontaneidade da festa e depois escondi a cara com as mãos.
É muito difícil continuar a ser cabra quando a pessoa à nossa frente passa a ser um indivíduo com identidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ganhei mais um selo! Foi a Miepeee que mo deu e está ali ao lado.
Agora é suposto eu fazer o seguinte:

.Publicar a imagem do selo (está ali de ladecos)

.Linkar o blog que ofereceu (já está)

.Escolher 5 situações da minha vida que mereciam ser repetidas em câmara lenta:
1. A altura em que caí da janela da casa da minha avó no 1.º andar. Se fosse em câmara lenta não me tinha magoado.
2. O chocolate com chili que comi ontem
3. O meu exame da quarta-classe (sabia todas, fiquei super-vaidosa).
4. O momento em que vi os meus filhos sorrir pela primeira vez.
5. A vida toda (é suposto durar mais em câmara lenta)

. Passar o desafio e o selo a 12 blogues
Não vou passar a 12, vou passar a todos ali ao lado. Todos!!!

Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Vinham excitadíssimas! Tinham estado todas juntas num jantar para o qual eu tinha sido também convidada mas onde decidi não pôr os pés. Incluía strip masculino e eu tenho a minha opinião, muito própria, sobre o assunto. Para mim um homem atraente aparece primeiro bem vestidinho, e nunca mas nunca se abanará à minha frente enquanto tira as cuecas sob pena de perder todo o meu respeito. Bem, mas adiante. As minhas colegas apareceram-me no dia seguinte, como já disse, ainda afogueadas, e a primeira coisa que fizeram foi tentar criar-me o sentimento de arrependimento:
-Tinhas que vir! És mesmo parva! Depois do jantar veio um brasileiro de dezoito aninhos fazer um strip! Era lindo!
Acho que, perante a imagem, recuei um bocadinho como se fosse um vampiro em presença de alho. Para elas, um brasileiro lindo de dezoito aninhos era uma atracção de circo. Para mim, era uma quase criança, a um oceano de casa e da família, sabe-se lá porquê e com que dificuldades, e que podia simplesmente ser meu filho.
Há coisas em que não consigo mesmo pensar como os homens.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Quando acabei a quarta-classe e chegou a altura de mudar de escola para continuar os estudos, os meus pais consideraram que talvez fosse melhor morarmos na cidade, que era onde estavam os liceus. Mesmo sem ninguém me ter pedido a opinião, concordei de imediato. Morar na cidade era tudo o que eu queria há muito tempo. Poder chegar até à civilização sem ser de autocarro! Morar num sítio onde se saía de casa sem ser só para ir à missa! Morar num sítio onde no caminho de casa para a escola e vice-versa havia lojas e cafés e cinema e não só as casas das outras pessoas que, ainda por cima, todas sabiam quem tu eras e se metiam na tua vida! Era o meu sonho tornado realidade! Na verdade acho que os meus pais também estavam fartos de viver rodeados de campos de milho e batatas e eu fui apenas um pretexto para mudarmos, mas que importava? Antes de começar o ano lectivo já estávamos instalados num terceiro andar esquerdo e nós, as crianças, já tínhamos assimilado que agora não podíamos fazer barulho à nossa vontade por causa dos vizinhos. Tudo corria perfeito.
O meu avô, que vivia connosco e era quem tratava do quintal e das árvores de fruto, quem fazia brinquedos para nós com o que a natureza dava, quem procurava nos campos as ervinhas para os chás, quem ia à fonte buscar água, quem tratava das galinhas e dos coelhos, começou a definhar. Até morrer, alguns anos depois, nunca mais foi o mesmo. Sentava-se a olhar para a televisão e assim ficava, horas e horas, presente em corpo mas não em espírito.
Hoje, sinto que fomos nós que o matámos. E não é um sentimento fácil.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Eu e outros miúdos íamos para a escola e deparámos com um casal de cães que, indiferente a tudo, acasalava. Os meus colegas, a quem a cena provocou de imediato a desinibição do gene da parvoíce, começaram a rir e apontar, a atirar piadas e pedras. A mim, pessoalmente, a cena impressionou-me, porque me lembrei do Pateta e da Clarabela. Muito calada e pensativa, eu concluía desiludida que, sendo o Pateta um cão e a Clarabela uma vaca, a relação de ambos era uma treta grosseiramente impingida às crianças e não tinha qualquer viabilidade. Porque eles nunca poderiam fazer aquilo, nem que ele fosse um cão daqueles grandões como um S. Bernardo ou um pastor alemão. O que nem é.
Naquele dia senti-me decepcionada como quando descobri que não existia Pai Natal. Nunca mais li livros aos quadradinhos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A C****** chamou-nos propositadamente lá a casa para sermos testemunhas da desgraça que lhe tinha acontecido.
- Vejam! - disse ela assim que chegámos, apontando para um canto do quarto.
Aí, um objecto em faiança vidrada representava grosseiramente um casal de namorados, com o olhar posto no horizonte e segurando, cada um, a ponta dum arco composto por flores cor-de-rosa e brancas. Ela era loura mulher-a-dias e ele, ajoelhado, vestia um fato de primeira-comunhão com gravata azul-bebé. A composição estava em cima duma coluna grega também em faiança, também cor-de-rosa mas com umas pinceladas de dourado. Na verdade eu nunca tinha visto uma coisa tão feia desde as viagens que fazia em miúda no comboio-fantasma.
- E agora, o que é que eu faço a isto? - perguntou ela desesperada.
- Não podes... deixar tombar acidentalmente a limpar o pó? Esconder no sotão?
- Nem pensar! Conheço muito bem a minha madrinha! Vai andar sempre na minha casa a ver se eu tenho a prenda de casamento que ela me deu em local bem visível! E esta porcaria deve ter custado uma pequena fortuna!
- E trocar?
- Ela ofendia-se de morte! Além do que, na loja onde ela comprou isto, não deve haver nada melhor!
- Então não sei - e todas acenaram com a cabeça em jeito de pesar - estás mesmo lixada...

Algum tempo depois, vim a saber que a C****** tinha a escultura de faiança atrás duma porta, bem escondida, e sempre que a madrinha aparecia de surpresa alguém ia a correr puxar aquilo para um local de honra. Aí ela, orgulhosa, dizia sempre:
- Ainda bem que gostaste! Quando fizeres anos dou-te outra muito linda que lá há. É um rajá sentado num elefante dourado! Tens a casa tão pobrezinha mulher!
Não sei se cumpriu a ameaça.

domingo, 17 de maio de 2009

Enquanto escolhia na loja uma prenda bonita para o aniversário do meu filho, detive-me em duas pessoas perto de mim que discutiam acesamente. Eram de certeza mãe e filho, porque a semelhança dos traços fisionómicos e a diferença de idades o denunciava. O que me chamou a atenção, mais do que o facto de estarem a discutir numa loja de roupa, foi o facto de o fazerem numa língua que eu desconhecia e nem sabia identificar. Será árabe? Checo? Aproximei-me discretamente a tentar ouvir. E aí sim, consegui descodificar duas frases:
- Ouh felhe! Voi vestiúr!
- Nan vô nede!!!
Eram açoreanos.

sábado, 16 de maio de 2009

Telefonei a um utente para o avisar de que já podia ir buscar um cartão. Sabia que ele tinha pressa e não custava nada ser simpática. E não é que o homem me atendeu e, depois de eu lhe dizer o que tinha a dizer, me responde secamente com um "tá..." e desliga-me na cara? Não é por nada, podia ao menos ter dito obrigada, sei lá, qualquer coisa dentro do género!
Passada meia hora, ainda eu estava a rosnar contra estes malcriados que não têm consideração nenhuma, entra-me ele esbaforido pela porta dentro:
- Ai minha senhora, nem queira saber! Há bocado, estava eu consigo ao telefone quando me entrou um mosquito pelo nariz, o sacana!... Nem consegui dizer mais nada, fiquei mesmo à rasca, palavra de honra!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

- Mãeeeeee!!! - gritei eu orgulhosa correndo pela cozinha dentro - Engoli um caroço de cereja inteirinho!!!
A minha mãe pôs um ar preocupado como se tivesse acabado de saber que eu tinha apenas um mês de vida:
- E agora? - perguntou-me - Se ele não sair quando fores à casa de banho vai-te nascer uma cerejeira no estômago!
Ia morrendo de susto e nesse dia não brinquei mais. Ia à casa de banho de cinco em cinco minutos mas em vão. O nervosismo teve como efeito psicosomático uma obstipação severa. Recusei-me a beber água para não regar a semente do mal que tinha implantada no aparelho digestivo. Sentada na cama a olhar o quintal pela janela, imaginava-me com um tronco de cerejeira enorme a sair-me pela boca e uns ramos mais pequenos a sair pelos ouvidos e pelo nariz. Lá em cima, a folhagem verdejante era interrompida por cerejas vermelhas cor de inferno e eu tinha que estar permanentemente a olhá-las de boca muito aberta por a rigidez do tronco não me permitir outra posição. Parecia um pormenor dum quadro de Bosch. Tive a certeza que os meus últimos dias de vida iriam ser assim e, angustiada, chorei.
Uns tempos depois, como nada acontecia, comecei a acreditar que o caroço tinha afinal conseguido sair sem germinar, e readquiri a esperança de viver até ser muito velhinha. Para aí até aos trinta anos ou, quem sabe, mais ainda!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Hoje na Zara, duas senhoras admiravam um vestido amarelo estilo cai-cai, com uma alegria tão grande e tão sincera que contrastava com a idade de ambas.
- Tão querido! - dizia uma pondo o vestido à sua frente e olhando-se no espelho - É mesmo fofinhooo!!!
- Ai mulher pois é! - dizia a outra - E vais comprá-lo para ir onde?
- Olha, vou comprá-lo para ir... aspirar... lavar a loiça... limpar o pó...
- Então vamos embora.
- Vamos.
E foram. Com o semblante muito mais grave. P*ta da crise que não nos deixa comprar um vestido bonito para limpar a casa!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Como ainda não havia blogues nesse tempo eu arranjei maneira de me meter em sarilhos na mesma. Juntei-me a uma colega tão desastrada como eu e fundámos uma revista com distribuição gratuita no liceu. Quer dizer, não era bem uma revista, era mais aquilo que mais tarde se veio a apelidar de fanzine quando se decidiu que duas folhas A4 fotocopiadas, dobradas ao meio e agrafadas era uma coisa muito underground e muito à frente. Infelizmente ainda não estávamos nesse tempo. E assim vivemos nós o nosso momento de fama, ainda que circunscrita aos muros do liceu, durante os três primeiros números da ... (é verdade que não me lembro do nome que demos àquilo).
Um belo dia porém, e como já era de esperar, a contínua mais ranhosa e odiada pela miudagem apanhou-nos o original, já prontinho para ir à copiadora. Orgulhosa que estava, a cabra, agitou a presa em frente do nosso nariz e jurou a pés juntos, a sonsa lambe-botas:
-Eu vou fazer queixa!!!
E foi. E logo o número em que íamos publicar a caricatura da professora de francês a contorcer-se de prisão de ventre sentada na sanita e com um balão de banda desenhada indicando que sabia dizer todos os palavrões na língua de Asterix! Oh merde!
O assunto foi logo a conselho directivo e foi considerado gravíssimo. Não sei porquê, acho que naqueles anos a seguir à revolução ninguém tinha sentido de humor nenhum. A professora de francês, então, quando viu aquilo demonstrou ter tanto como um bengaleiro! Foi convocada uma reunião geral de encarregados de educação para discutir os métodos modernos de educação dos rebentos e eu vi, literalmente, a minha vida a andar para trás. Se havia coisinha para a qual os meus progenitores se estavam a cagar era para as teorias modernas de educação. Assim que lhes dissessem que a filhinha tinha andado a distribuir desenhos indecentes a minha folha estaria feita. Para minha sorte, tinha mãos pequeninas que cabiam na caixa do correio, que o meu pai só abria ao fim da tarde. Apanhei a convocatória nas calmas, que queimei depois numa espécie de ritual satânico de vingança.
No dia a seguir à reunião soube pelos meus colegas, que por sua vez tinham sabido através dos pais que lá tinham estado, que ninguém tinha percebido muito bem o que se passava e que se tinha dito que os pais mais interessados em estar ali (os meus) eram negligentes, e daí o comportamento da filha estar totalmente explicado.
A professora de francês perguntou-me:
- Porque é que os teus pais não vieram ontem à reunião?
E eu, com o arzinho mais sonso deste mundo:
- Oh Stôra, eles tiveram muita pena de não poder, mas o meu irmão está com escarlatina!...
Além de me livrar daquela, ainda tive a profe a deixar-me em paz a aula toda com medo de apanhar escarlatina. Toma!