Acho que todos os miúdos da minha geração passaram por isto. Não sei se agora ainda passam, mas desconfio fortemente que não.
Era o paraíso, a porcaria do paraíso que nos prometiam como vida eterna depois da morte. A nossa consciência martirizada por muitas sessões de catequese e de pecado mortal, vacilava entre a alegria de viver para sempre ao lado de Jesus e a angústia de saber que o iríamos fazer sentados numa cadeira em cima duma nuvem branca, sem televisão, sem livros aos quadradinhos, sem bolos de açúcar de cinco tostões da padaria da D. Maria, sem bonecas, sem triciclo, sem a relva fresca para correr e rebolar, sem árvores para subir, sem a galinha assada do almoço de domingo. Tão chato como estar no café à espera que as mães acabassem de conversar umas com as outras sobre o que tinham visto na Burda, como ficar em casa porque chovia, como aprender aritmética com vontade de dormir, como decorar as linhas de caminho de ferro e os afluentes dos rios. Ou pior, porque nem sequer ia haver a expectativa do que viria a seguir.
Duas irmãs, um rei
Há 1 mês

