Houve um tempo, não há muito tempo, em que as crianças à mesa não podiam dizer que não gostavam da comida, sendo que afirmar que a mesma era "uma porcaria" configurava um crime punível com umas boas palmadas e uma ida para a cama mais cedo. Mesmo os adultos não se atreviam a fazer declarações desse teor sob pena de não se darem ao respeito devidamente. Assim era quando aconteceu esta história e só por isso ela aconteceu desta forma.
A minha mãe tinha comprado uns peixinhos muito muito pequeninos para o jantar. Tão pequeninos que quem não soubesse jamais adivinharia que se tratava de peixes. Na altura não sei, mas hoje em dia é proibido pescar peixes assim bebés, embora haja quem o faça e, tal como naquela altura, os venda a um preço verdadeiramente exorbitante.
Mas retomando o fio da história, a minha mãe, que gostava muito daqueles peixes minúsculos e quase transparentes, passou o dia a prometer um jantar especial que seria uma surpresa para todos. Eu, gulosa como era e ainda sou, fiquei em pulgas e mal podia esperar pela iguaria.
Quando finalmente fomos para a mesa e a minha mãe serviu o jantar, eu olhei para aquilo e lembro-me que pensei qualquer coisa do género "Que raio de porcaria vem a ser esta?", mas como já expliquei, essa era uma coisa que se podia pensar mas jamais dizer nem sequer mostrar com os olhinhos. Por isso, peguei na faca e no garfo e lá tive que me fazer àquilo. Primeiro, comi as batatas todas. Mas devagarinho. Enquanto houvesse batatas no prato eu estava safa. Depois, comecei a mexer nos bichitos com o garfo, a passá-los dum lado para o outro do prato, discretamente. A seguir, enchi-me de coragem e meti um daqueles seres estranhos na boca. Mas o sacana recusava-se a passar dali para baixo e eu comecei a ficar muito aflita. Tão aflita como se tivesse uma osga em cima da cabeça ou como se me tivesse esquecido de fazer os trabalhos de casa e a professora tivesse feito queixa aos meus pais. Achei que alguma coisa muito embaraçosa me ia acontecer e decidi arriscar e tomar uma atitude. A medo, muito a medo, disse:
- Mãe... eu acho que não consigo comer isto... Faz-me lembrar... lombrigas...
E logo a seguir fiquei à espera da consequência. Baixei os olhos para o prato e pensei que "seja o que Deus quiser"! Para minha surpresa, ouvi o meu pai dizer:
- Oh M**** ****, tu tem paciência mulher, mas eu também não consigo! Eu não queria dizer nada para não dar maus exemplos mas... tu nunca mais compres disto!
E foi assim que na minha casa deixámos de cometer pelo menos um crime ecológico.