domingo, 31 de maio de 2009

- Eu vou-lhe explicar uma coisa! - disse-me o homem grande e barrigudo com os dois botões de cima da camisa abertos exibindo um medalhão dourado - Eu sou uma pessoa muito complicada! E sabe porquê? Porque sou uma pessoa muito simples! Porque penso muito depressa, vejo logo tudo o que está errado!
Dito isto, ficou com um ar satisfeito como se tivessem anunciado um óscar em seu nome.
O que eu respondi foi como se não tivesse ouvido nadinha, porque nadinha valeu aquela informação para mim:
- Vou precisar do seu bilhete de identidade.
O que eu pensei, no entanto, foi:
- Vai-te f*der!
Estão a ver? Simples? Simples sou eu!

sábado, 30 de maio de 2009

Um jantar daqueles de trabalho, em que vai toda a gente e nós não conhecemos uma data deles, ou pelo menos não pelo nome, ou temos apenas uma leve sensação de os termos visto passar, tipo é do departamento x? y? Não sei. Já têm o cenário. Foi num destes jantares que esta história se passou.
Eu cheguei atrasadita e fui-me sentar junto do meu grupo, sim, mas numa ponta, ao lado de dois colegas, porteiros, que conhecia mal e pelos vistos me conheciam mal a mim. Às tantas, no desenrolar da noite e do tinto, eles começaram a meter conversa. Mas, como naqueles dias em que mais valia a gente não ter saído de casa, fizeram-no da pior maneira. Depois de terem estado ambos a trocar impressões em voz baixa enquanto olhavam para uma colega na outra ponta da mesa, coisa que tem o nome mais vulgar de cuscuvilhice, perguntou-me um deles:
- Oh colega! Aquela loira que está ali na ponta, de vermelho, é que era a mulher do F***** não era?
Bingo! O F***** era o meu ex-marido.
- Não! - respondi secamente enquanto alguns presentes mais informados se riam só com os olhinhos, mais por dentro do que por fora. E ele insistiu:
- Não é? Olhe que acho que é! Do F*****! O chefe do serviço de ********! Ela era casada com ele! Então não era?
- Não - repeti, com ar de poucos amigos.
- Ela não anda com um gajo de Lisboa?
- Não sei nada disso.
- Mas anda! Trocou o F***** por um gajo de Lisboa e deu-lhe com os pés! A colega há-de-se informar!

De qualquer modo, pela forma como ambos olham para o chão quando passam por mim desde essa história, como se estivessem à procura dum cêntimo que deixaram cair, acho que alguém já os elucidou convenientemente,

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Não sou pródiga nestes acontecimentos. Posso contar até hoje duas vezes em que fui interveniente em espantosas coincidências, daquelas a que as pessoas mais entusiastas costumam chamar "premonições".
A primeira vez foi há muitos anos, mais de trinta. Eu estava sentada no banco de trás do carro à espera dos meus pais que tinham ido a casa buscar qualquer coisa e, para passar o tempo, observava as pessoas que passavam, através do vidro. A certa altura passou uma mulher jovem toda vestida de branco e, sem nenhum motivo especial, imaginei-a a tropeçar e a cair. Uns dois segundos logo a seguir, ela tropeçou e caiu de facto.
A segunda teve lugar há alguns dias. De manhã, durante aquele último sono em que costumamos sonhar parvoíces, vi-me a ir de carro numa paisagem estranha quando, ao longe, um avião se despenhou e incendiou. Fiquei muito aflita e tentei conduzir na direcção do acidente. Finalmente, cheguei ao local e vi as equipas de salvamento que retiravam cadáveres para um monte. Ao lado, via-se a cauda do avião separada do restante e o incêndio continuava. Quando acordei e liguei a televisão, nas notícias, fiquei a saber que um avião se tinha despenhado na Ilha de Java e havia 98 mortos.
Apesar de não acreditar em fenómenos para anormais nem nada disso, em ambas as ocasiões senti uma sensação estranha de "coincidência em demasia":

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A cena do costume: O candidato, centro das atenções, os moços de fretes com as bandeiras, a música, os distribuidores de panfletos inúteis e as equipas de reportagem dos vários canais. Neste caso, gostei particularmente de ver que à maralha se juntou o "emplastro" aqui da cidade: um homem alucinado que costuma fazer discursos nos semáforos a meio da avenida principal. Ele estava tão feliz, a sua voz sobrepunha-se de tal modo à acção de campanha, e as coisas que dizia faziam tanto sentido como as do candidato, este ou qualquer outro. "Pela nova ponte! Por uma ponte que não caia ao chão quando o céu se abrir em pedaços azuis! Pelo ministro que jurou vingança e matou a mãe! Pelo chão cravado de rosas e veludo!" e outras coisas de teor idêntico, era o que ele defendia mas com muito mais fervor do que os políticos mesmo ao lado. Fiquei a observar um pouco, antes de seguir o meu caminho. Ninguém o expulsou, alguns olhavam-no de lado e sorriam desconcertados. Ele teve, com toda a certeza, o seu dia.
No jornal da noite, fui ver as reportagens sobre o assunto. O louco dos semáforos, que na prática tinha conseguido apagar a acção de campanha ou pelo menos reduzi-la a um desfile de misérias, tinha desaparecido.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Todos sabemos que a incontinência é uma coisa mais ou menos comum. O que não é muito comum é as pessoas que sofrem do mal dizerem-no abertamente, como se fosse uma coisa tão normal como deixar cair uma nódoa na blusa ou esquecer-se do guarda-chuva numa repartição. O que parece é que duma forma geral, infelizmente, nem ao médico as pessoas confessam o problema.
Por isso, foi com surpresa, mas principalmente com desconforto, que ouvi uma senhora que eu estava a atender e que já tinha atendido no dia anterior dizer-me, com o rosto aberto num sorriso franco:
- Olhe! Ontem quando me fui embora daqui já ia toda mijadinha! A sério!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Houve um tempo, não há muito tempo, em que as crianças à mesa não podiam dizer que não gostavam da comida, sendo que afirmar que a mesma era "uma porcaria" configurava um crime punível com umas boas palmadas e uma ida para a cama mais cedo. Mesmo os adultos não se atreviam a fazer declarações desse teor sob pena de não se darem ao respeito devidamente. Assim era quando aconteceu esta história e só por isso ela aconteceu desta forma.
A minha mãe tinha comprado uns peixinhos muito muito pequeninos para o jantar. Tão pequeninos que quem não soubesse jamais adivinharia que se tratava de peixes. Na altura não sei, mas hoje em dia é proibido pescar peixes assim bebés, embora haja quem o faça e, tal como naquela altura, os venda a um preço verdadeiramente exorbitante.
Mas retomando o fio da história, a minha mãe, que gostava muito daqueles peixes minúsculos e quase transparentes, passou o dia a prometer um jantar especial que seria uma surpresa para todos. Eu, gulosa como era e ainda sou, fiquei em pulgas e mal podia esperar pela iguaria.
Quando finalmente fomos para a mesa e a minha mãe serviu o jantar, eu olhei para aquilo e lembro-me que pensei qualquer coisa do género "Que raio de porcaria vem a ser esta?", mas como já expliquei, essa era uma coisa que se podia pensar mas jamais dizer nem sequer mostrar com os olhinhos. Por isso, peguei na faca e no garfo e lá tive que me fazer àquilo. Primeiro, comi as batatas todas. Mas devagarinho. Enquanto houvesse batatas no prato eu estava safa. Depois, comecei a mexer nos bichitos com o garfo, a passá-los dum lado para o outro do prato, discretamente. A seguir, enchi-me de coragem e meti um daqueles seres estranhos na boca. Mas o sacana recusava-se a passar dali para baixo e eu comecei a ficar muito aflita. Tão aflita como se tivesse uma osga em cima da cabeça ou como se me tivesse esquecido de fazer os trabalhos de casa e a professora tivesse feito queixa aos meus pais. Achei que alguma coisa muito embaraçosa me ia acontecer e decidi arriscar e tomar uma atitude. A medo, muito a medo, disse:
- Mãe... eu acho que não consigo comer isto... Faz-me lembrar... lombrigas...
E logo a seguir fiquei à espera da consequência. Baixei os olhos para o prato e pensei que "seja o que Deus quiser"! Para minha surpresa, ouvi o meu pai dizer:
- Oh M**** ****, tu tem paciência mulher, mas eu também não consigo! Eu não queria dizer nada para não dar maus exemplos mas... tu nunca mais compres disto!
E foi assim que na minha casa deixámos de cometer pelo menos um crime ecológico.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Acho que todos os miúdos da minha geração passaram por isto. Não sei se agora ainda passam, mas desconfio fortemente que não.
Era o paraíso, a porcaria do paraíso que nos prometiam como vida eterna depois da morte. A nossa consciência martirizada por muitas sessões de catequese e de pecado mortal, vacilava entre a alegria de viver para sempre ao lado de Jesus e a angústia de saber que o iríamos fazer sentados numa cadeira em cima duma nuvem branca, sem televisão, sem livros aos quadradinhos, sem bolos de açúcar de cinco tostões da padaria da D. Maria, sem bonecas, sem triciclo, sem a relva fresca para correr e rebolar, sem árvores para subir, sem a galinha assada do almoço de domingo. Tão chato como estar no café à espera que as mães acabassem de conversar umas com as outras sobre o que tinham visto na Burda, como ficar em casa porque chovia, como aprender aritmética com vontade de dormir, como decorar as linhas de caminho de ferro e os afluentes dos rios. Ou pior, porque nem sequer ia haver a expectativa do que viria a seguir.

domingo, 24 de maio de 2009

- São quatrocentos e dois euros.
Mas a pessoa à minha frente já o sabia. Tirou duma "mica" um cheque de quatrocentos euros e uma moeda de dois. Justificou-se envergonhada:
- A minha mãe diz que não passa cheques a acabar em dois euros, só em zero. Ou em cinco. Só quer contas certas.
- Mas porquê?! - perguntei agastada, já a antever grandes problemas para convencer a tesouraria.
- Se soubesse o que eu tentei convencê-la! Mas ela diz que quer a conta limpinha, sempre a acabar em números redondos. Até os juros a incomodam! Se tiver a conta a acabar em três vai lá pôr dois euros imediatamente! E os cêntimos? São uma doença!

Números redondos, no sistema decimal que nos rege é o zero ou o cinco, que significa as metades. Está certo. Para qualquer um de nós, fazer cálculos mentais com estes valores é tão natural como respirar. Mas para alguns de nós, é mesmo uma questão de vida ou morte. Bolas!

sábado, 23 de maio de 2009

Fui a uma festa de aldeia. Daquelas com palco para a música e barraquinhas de venda de bugigangas várias. Era uma daquelas festas tão genuínas, mas tão genuínas... pronto, eu vou dizer a verdade. Era uma daquelas festas tão parolas!... Pelo menos foi isso que eu pensei quando resolvi filmar as duas matronas que dançavam no largo agarradas uma à outra e as pus no YouTube. Deixei de o pensar quando recebi uma mensagem de agradecimento do filho duma delas, que dizia qualquer coisa como:
"Vivo fora de Portugal e costumo procurar no YouTube imagens da minha terra. Fiquei muito comovido quando vi que apanhaste a minha mãe a dançar na Festa do ****. Obrigada!"
Nesse momento, senti-me o ser mais merdoso de todo o planeta, com uma dose de culpa tão grande como quando fazia queixa dos meus irmãos em pequenina para me livrar de qualquer coisa. Tinha ali uma pessoa a agradecer-me por ter gozado com a mãe. Sinceramente, odiei-me.
Vacilei um pouco entre a opção "responder" e "não responder" e acabei por escolher a primeira, embora com o sentimento de estar a limpar as mãos à parede. Disse qualquer coisa sobre a alegria e a espontaneidade da festa e depois escondi a cara com as mãos.
É muito difícil continuar a ser cabra quando a pessoa à nossa frente passa a ser um indivíduo com identidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ganhei mais um selo! Foi a Miepeee que mo deu e está ali ao lado.
Agora é suposto eu fazer o seguinte:

.Publicar a imagem do selo (está ali de ladecos)

.Linkar o blog que ofereceu (já está)

.Escolher 5 situações da minha vida que mereciam ser repetidas em câmara lenta:
1. A altura em que caí da janela da casa da minha avó no 1.º andar. Se fosse em câmara lenta não me tinha magoado.
2. O chocolate com chili que comi ontem
3. O meu exame da quarta-classe (sabia todas, fiquei super-vaidosa).
4. O momento em que vi os meus filhos sorrir pela primeira vez.
5. A vida toda (é suposto durar mais em câmara lenta)

. Passar o desafio e o selo a 12 blogues
Não vou passar a 12, vou passar a todos ali ao lado. Todos!!!

Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Vinham excitadíssimas! Tinham estado todas juntas num jantar para o qual eu tinha sido também convidada mas onde decidi não pôr os pés. Incluía strip masculino e eu tenho a minha opinião, muito própria, sobre o assunto. Para mim um homem atraente aparece primeiro bem vestidinho, e nunca mas nunca se abanará à minha frente enquanto tira as cuecas sob pena de perder todo o meu respeito. Bem, mas adiante. As minhas colegas apareceram-me no dia seguinte, como já disse, ainda afogueadas, e a primeira coisa que fizeram foi tentar criar-me o sentimento de arrependimento:
-Tinhas que vir! És mesmo parva! Depois do jantar veio um brasileiro de dezoito aninhos fazer um strip! Era lindo!
Acho que, perante a imagem, recuei um bocadinho como se fosse um vampiro em presença de alho. Para elas, um brasileiro lindo de dezoito aninhos era uma atracção de circo. Para mim, era uma quase criança, a um oceano de casa e da família, sabe-se lá porquê e com que dificuldades, e que podia simplesmente ser meu filho.
Há coisas em que não consigo mesmo pensar como os homens.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Quando acabei a quarta-classe e chegou a altura de mudar de escola para continuar os estudos, os meus pais consideraram que talvez fosse melhor morarmos na cidade, que era onde estavam os liceus. Mesmo sem ninguém me ter pedido a opinião, concordei de imediato. Morar na cidade era tudo o que eu queria há muito tempo. Poder chegar até à civilização sem ser de autocarro! Morar num sítio onde se saía de casa sem ser só para ir à missa! Morar num sítio onde no caminho de casa para a escola e vice-versa havia lojas e cafés e cinema e não só as casas das outras pessoas que, ainda por cima, todas sabiam quem tu eras e se metiam na tua vida! Era o meu sonho tornado realidade! Na verdade acho que os meus pais também estavam fartos de viver rodeados de campos de milho e batatas e eu fui apenas um pretexto para mudarmos, mas que importava? Antes de começar o ano lectivo já estávamos instalados num terceiro andar esquerdo e nós, as crianças, já tínhamos assimilado que agora não podíamos fazer barulho à nossa vontade por causa dos vizinhos. Tudo corria perfeito.
O meu avô, que vivia connosco e era quem tratava do quintal e das árvores de fruto, quem fazia brinquedos para nós com o que a natureza dava, quem procurava nos campos as ervinhas para os chás, quem ia à fonte buscar água, quem tratava das galinhas e dos coelhos, começou a definhar. Até morrer, alguns anos depois, nunca mais foi o mesmo. Sentava-se a olhar para a televisão e assim ficava, horas e horas, presente em corpo mas não em espírito.
Hoje, sinto que fomos nós que o matámos. E não é um sentimento fácil.