sábado, 6 de junho de 2009

Embora eu me considere uma pessoa do tipo descontraída, estou sempre a concluir que "Ai afinal não sou nada!", quando me deparo com pessoas que são MESMO descontraídas.
É o caso duma colega minha que, tendo-lhe surgido um problema de fungos numa unha do pé, foi a um posto médico.
- A senhora tem que tirar os collants - disse-lhe o médico.
- Ai "sôtor", que chatice! Não me apetece nada! - respondeu ela muito despachada - É que estes collants ficam-me tão grandes que eu até vesti as cuecas por cima para não me caírem!... Olhe, fazemos assim!
E começou a rasgar os collants a partir da ponta, ficando imediatamente com o pé de fora.
Quando nos contou a história nós, com uma grande barrigada de riso, ainda lhe perguntámos:
- Oh mulher! E então como é que vieste embora com os collants rasgados?
- Então? Rasguei também no outro pé e faz de conta que eram uns calções!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eram dois homens muito bem dispostos mas que cheiravam pior do que ao pé da jaula dos macacos no jardim zoológico. Cada um deles exibia, quase com orgulho, duas manchas de suor fora do prazo de validade debaixo dos braços sobre as camisas garridas. Vinham pedir licença para organizar uma festa de S. João no bairro social onde moravam.
- A Junta de Freguesia organiza isto em parceria convosco? - perguntei, antevendo uma desagradável surpresa quando chegasse a altura de cobrar o papel - É que se organizar, nós não cobramos a licença.
- Claro que organiza! - berrou logo o mais pequenito, de olhos azuis sob pestanas farfalhudas - Ai dele (o presidente da junta, entenda-se) que não participasse! É ele que paga a sardinha, o tinto e empresta as bancadas! É que se ele dissesse que não, era assim: Em Outubro "pusíamo-lo" já de lá para fora! É que era limpinho! A freguesia tem dez mil eleitores, cinco mil moram no bairro e fazem o que a gente "mandamos"! Isso é que era bom!

Que linda é a democracia!...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Duas miúdas adolescentes escolhiam um top de 3,90€ para uma delas, numa daquelas lojas giríssimas e acessíveis que não havia quando eu era da idade delas e por isso é que a gente se metia no tabaco e na droga e fazia outros disparates. Agora não sei porque é que eles se metem.

- Porque é que não levas azul?
- Azul não! Quero preto! Preto e mais nada! Porque eu sou assim, quando meto uma coisa na cabeça ninguém me tira!
E, três segundos depois:
- Olha este amarelo tão querido! Ai... se calhar vou levar amarelo.

É tão bom ser volátil à vontade, sem pesos na consciência!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Contou esta história de forma constante ao longo dos anos. E sempre com o mesmo ar indignado. Por vezes contava-a na presença do marido, como que em busca duma validação e dum apoio. Invariavelmente, ele dava uma risada pálida (uma única, nunca duas seguidas) e continuava a ler o jornal ou apenas a olhar para ele, que era uma maneira de dizer que não o chateassem mais com aquilo. É assim que os recordo.
Contava ela então que quando se casaram, no início dos anos cinquenta, foram passar a lua-de-mel a Lisboa, sítio onde nenhum tinha estado ainda e para onde a viagem representava, naquele tempo, um investimento considerável, em tempo, dinheiro e energia. Contava também que, como vivia na capital uma prima distante que não tinha sido convidada para o casamento, levaram na mala um pouco de bolo de noiva coberto a açúcar glacé e com bolinhas prateadas para a presentear. Quando chegaram a Lisboa era já noite. Não havia auto-estradas nem alfas. Então foram directamente para o hotel e guardaram o bolo no armário, dentro do prato e tapado com um paninho de bordado inglês. Na manhã seguinte saíram para o pequeno-almoço. Quando regressaram, o quarto já havia sido limpo e o bolo tinha desaparecido, bem como o prato e o paninho. "Aquela gente de Lisboa" - rematava sempre ela - "não deve lá ter bolos em condições, aquilo lá nada presta para nada! Por isso roubaram-nos o nosso!"
Quem ouvia a história sorria sempre um pouco, condescendente. Taditos!...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Há uns dez anos, mais coisa menos coisa, esteve na minha cidade uma exposição de pintura de Júlio Resende que eu, como não podia deixar de ser, fui ver. Quem lá estava também na altura era alguém meu conhecido ligado à organização que, depois de ouvir os meus parabéns por ter conseguido levar ali aquela exposição, comentou qualquer coisa como:
- Agora o que era ouro sobre azul era ele morrer a seguir.
- O quê?! - perguntei, ainda duvidando de ter sido dito aquilo mesmo que eu tinha ouvido.
- Sim - continuou com o mesmo semblante profissional pragmático - Já viste o que era se a última exposição em vida de Júlio Resende fosse precisamente esta?
Os olhos brilharam-lhe tanto perante a perspectiva que eu achei que ia passar por cima daquilo e continuar a ser sua amiga. Ainda que duma forma doentia, aquelas palavras não eram uma praga dirigida a alguém, eram apenas o desejo desmedido de sucesso profissional. Às vezes as pessoas ficam assim e nem dão por ela.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O que eu sei é que quando eu era criança não havia Dia da Criança. As crianças eram apenas uns adultos em ponto pequeno que estavam em processo de modelagem e tinham mais era que se calar e tentar passar despercebidas, o mais possível.
A primeira vez que se ouviu falar de tal novidade foi no ano em que eu completei o 13.º aniversário. Embora não fosse propriamente o prototipo da matulona, já usava soutien e pensos higiénicos. Por isso, para mim, crianças eram os meus irmãos e os meus primos que ainda brincavam com legos e liam a Anita.
Não houve comemorações, nem actividades, nem programas especiais de televisão, nem saídas na escola. A única coisa de que me recordo é de terem andado a distribuir uns autocolantes com duas figurinhas de mãos dadas e uma flor, e os dizeres "1 de Junho - Dia Mundial da Criança". Entregaram-me um mas eu, quando vi do que se tratava, empertiguei-me e devolvi-o:
- Crianças? Crianças são os do ciclo!

domingo, 31 de maio de 2009

- Eu vou-lhe explicar uma coisa! - disse-me o homem grande e barrigudo com os dois botões de cima da camisa abertos exibindo um medalhão dourado - Eu sou uma pessoa muito complicada! E sabe porquê? Porque sou uma pessoa muito simples! Porque penso muito depressa, vejo logo tudo o que está errado!
Dito isto, ficou com um ar satisfeito como se tivessem anunciado um óscar em seu nome.
O que eu respondi foi como se não tivesse ouvido nadinha, porque nadinha valeu aquela informação para mim:
- Vou precisar do seu bilhete de identidade.
O que eu pensei, no entanto, foi:
- Vai-te f*der!
Estão a ver? Simples? Simples sou eu!

sábado, 30 de maio de 2009

Um jantar daqueles de trabalho, em que vai toda a gente e nós não conhecemos uma data deles, ou pelo menos não pelo nome, ou temos apenas uma leve sensação de os termos visto passar, tipo é do departamento x? y? Não sei. Já têm o cenário. Foi num destes jantares que esta história se passou.
Eu cheguei atrasadita e fui-me sentar junto do meu grupo, sim, mas numa ponta, ao lado de dois colegas, porteiros, que conhecia mal e pelos vistos me conheciam mal a mim. Às tantas, no desenrolar da noite e do tinto, eles começaram a meter conversa. Mas, como naqueles dias em que mais valia a gente não ter saído de casa, fizeram-no da pior maneira. Depois de terem estado ambos a trocar impressões em voz baixa enquanto olhavam para uma colega na outra ponta da mesa, coisa que tem o nome mais vulgar de cuscuvilhice, perguntou-me um deles:
- Oh colega! Aquela loira que está ali na ponta, de vermelho, é que era a mulher do F***** não era?
Bingo! O F***** era o meu ex-marido.
- Não! - respondi secamente enquanto alguns presentes mais informados se riam só com os olhinhos, mais por dentro do que por fora. E ele insistiu:
- Não é? Olhe que acho que é! Do F*****! O chefe do serviço de ********! Ela era casada com ele! Então não era?
- Não - repeti, com ar de poucos amigos.
- Ela não anda com um gajo de Lisboa?
- Não sei nada disso.
- Mas anda! Trocou o F***** por um gajo de Lisboa e deu-lhe com os pés! A colega há-de-se informar!

De qualquer modo, pela forma como ambos olham para o chão quando passam por mim desde essa história, como se estivessem à procura dum cêntimo que deixaram cair, acho que alguém já os elucidou convenientemente,

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Não sou pródiga nestes acontecimentos. Posso contar até hoje duas vezes em que fui interveniente em espantosas coincidências, daquelas a que as pessoas mais entusiastas costumam chamar "premonições".
A primeira vez foi há muitos anos, mais de trinta. Eu estava sentada no banco de trás do carro à espera dos meus pais que tinham ido a casa buscar qualquer coisa e, para passar o tempo, observava as pessoas que passavam, através do vidro. A certa altura passou uma mulher jovem toda vestida de branco e, sem nenhum motivo especial, imaginei-a a tropeçar e a cair. Uns dois segundos logo a seguir, ela tropeçou e caiu de facto.
A segunda teve lugar há alguns dias. De manhã, durante aquele último sono em que costumamos sonhar parvoíces, vi-me a ir de carro numa paisagem estranha quando, ao longe, um avião se despenhou e incendiou. Fiquei muito aflita e tentei conduzir na direcção do acidente. Finalmente, cheguei ao local e vi as equipas de salvamento que retiravam cadáveres para um monte. Ao lado, via-se a cauda do avião separada do restante e o incêndio continuava. Quando acordei e liguei a televisão, nas notícias, fiquei a saber que um avião se tinha despenhado na Ilha de Java e havia 98 mortos.
Apesar de não acreditar em fenómenos para anormais nem nada disso, em ambas as ocasiões senti uma sensação estranha de "coincidência em demasia":

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A cena do costume: O candidato, centro das atenções, os moços de fretes com as bandeiras, a música, os distribuidores de panfletos inúteis e as equipas de reportagem dos vários canais. Neste caso, gostei particularmente de ver que à maralha se juntou o "emplastro" aqui da cidade: um homem alucinado que costuma fazer discursos nos semáforos a meio da avenida principal. Ele estava tão feliz, a sua voz sobrepunha-se de tal modo à acção de campanha, e as coisas que dizia faziam tanto sentido como as do candidato, este ou qualquer outro. "Pela nova ponte! Por uma ponte que não caia ao chão quando o céu se abrir em pedaços azuis! Pelo ministro que jurou vingança e matou a mãe! Pelo chão cravado de rosas e veludo!" e outras coisas de teor idêntico, era o que ele defendia mas com muito mais fervor do que os políticos mesmo ao lado. Fiquei a observar um pouco, antes de seguir o meu caminho. Ninguém o expulsou, alguns olhavam-no de lado e sorriam desconcertados. Ele teve, com toda a certeza, o seu dia.
No jornal da noite, fui ver as reportagens sobre o assunto. O louco dos semáforos, que na prática tinha conseguido apagar a acção de campanha ou pelo menos reduzi-la a um desfile de misérias, tinha desaparecido.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Todos sabemos que a incontinência é uma coisa mais ou menos comum. O que não é muito comum é as pessoas que sofrem do mal dizerem-no abertamente, como se fosse uma coisa tão normal como deixar cair uma nódoa na blusa ou esquecer-se do guarda-chuva numa repartição. O que parece é que duma forma geral, infelizmente, nem ao médico as pessoas confessam o problema.
Por isso, foi com surpresa, mas principalmente com desconforto, que ouvi uma senhora que eu estava a atender e que já tinha atendido no dia anterior dizer-me, com o rosto aberto num sorriso franco:
- Olhe! Ontem quando me fui embora daqui já ia toda mijadinha! A sério!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Houve um tempo, não há muito tempo, em que as crianças à mesa não podiam dizer que não gostavam da comida, sendo que afirmar que a mesma era "uma porcaria" configurava um crime punível com umas boas palmadas e uma ida para a cama mais cedo. Mesmo os adultos não se atreviam a fazer declarações desse teor sob pena de não se darem ao respeito devidamente. Assim era quando aconteceu esta história e só por isso ela aconteceu desta forma.
A minha mãe tinha comprado uns peixinhos muito muito pequeninos para o jantar. Tão pequeninos que quem não soubesse jamais adivinharia que se tratava de peixes. Na altura não sei, mas hoje em dia é proibido pescar peixes assim bebés, embora haja quem o faça e, tal como naquela altura, os venda a um preço verdadeiramente exorbitante.
Mas retomando o fio da história, a minha mãe, que gostava muito daqueles peixes minúsculos e quase transparentes, passou o dia a prometer um jantar especial que seria uma surpresa para todos. Eu, gulosa como era e ainda sou, fiquei em pulgas e mal podia esperar pela iguaria.
Quando finalmente fomos para a mesa e a minha mãe serviu o jantar, eu olhei para aquilo e lembro-me que pensei qualquer coisa do género "Que raio de porcaria vem a ser esta?", mas como já expliquei, essa era uma coisa que se podia pensar mas jamais dizer nem sequer mostrar com os olhinhos. Por isso, peguei na faca e no garfo e lá tive que me fazer àquilo. Primeiro, comi as batatas todas. Mas devagarinho. Enquanto houvesse batatas no prato eu estava safa. Depois, comecei a mexer nos bichitos com o garfo, a passá-los dum lado para o outro do prato, discretamente. A seguir, enchi-me de coragem e meti um daqueles seres estranhos na boca. Mas o sacana recusava-se a passar dali para baixo e eu comecei a ficar muito aflita. Tão aflita como se tivesse uma osga em cima da cabeça ou como se me tivesse esquecido de fazer os trabalhos de casa e a professora tivesse feito queixa aos meus pais. Achei que alguma coisa muito embaraçosa me ia acontecer e decidi arriscar e tomar uma atitude. A medo, muito a medo, disse:
- Mãe... eu acho que não consigo comer isto... Faz-me lembrar... lombrigas...
E logo a seguir fiquei à espera da consequência. Baixei os olhos para o prato e pensei que "seja o que Deus quiser"! Para minha surpresa, ouvi o meu pai dizer:
- Oh M**** ****, tu tem paciência mulher, mas eu também não consigo! Eu não queria dizer nada para não dar maus exemplos mas... tu nunca mais compres disto!
E foi assim que na minha casa deixámos de cometer pelo menos um crime ecológico.