sexta-feira, 12 de junho de 2009

Quando comecei a trabalhar, muito novinha ainda, tive vários contratos temporários em repartições públicas, na maior parte das vezes para substituir pessoal durante as férias. Foi a minha entrada no verdadeiro mundo dos adultos fora da família protectora e quase um ritual de passagem.
Lembro-me que uma das coisas que mais me custou aceitar foi o à vontade com que em grandes espaços cheios de mulheres mais velhas se discutia a vida sexual de cada uma e as taras específicas dos respectivos maridos, intercaladas com receitas de bolos e cores da moda. Quando as ouvia contar, a uma que o marido gostava que ela se fizesse de morta, a outra que a obrigava a vestir soutien para copular e ainda a outra que ele exigia que ela lhe chamasse corno e cabrão nos momentos de êxtase, pensava nos meus pais, da mesma idade e tão castos, tão puros, tão normais (eu tinha a certeza disso). Então, mentalmente, punha as mãos a tapar os ouvidos e gritava:
- Lá! Lá! Lá! Lá! Lá! Não estou a ouvir nada! Não estou a ouvir nada!!!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A minha casa de infância, onde agora se erguem blocos de apartamentos, era o símbolo vivo do fim duma era e do começo de outra. Só mais tarde me consciencializei disso.
Era uma casa rural, daquelas com uma porta que só se abria na páscoa para entrar o prior e um portão ao lado que dava para o quintal, sempre aberto a todos os que quisessem vir perguntar se havia um pé de salsa, e que era na prática a entrada da residência.
Ficava à beira duma estrada nacional que atravessava uma aldeia às portas da cidade. Por isso, ainda passavam por lá pachorrentos carros de bois, que deixavam à sua passagem suculentos montes gigantescos de bosta campesina. Também passavam carros, que começavam na altura a vulgarizar-se. E tal como hoje, já os homens da classe média (as mulheres que tinham carta ainda eram motivo de animada discussão) faziam do acelerador uma compensação das suas frustrações diárias. E era essa alternância constante entre bois e máquinas na minha rua que provocava grandes disparos de bosta fresca contra as paredes das casas, cujas fachadas era necessário mandar lavar com frequência.
É verdade. A frontaria da minha casa de infância, sempre cagada por pneus que chiavam por cima da bosta fresca, era o símbolo vivo do fim do Portugal rural do livro da terceira classe.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O brasileiro à minha frente, pastor duma mediática organização religiosa, fez a abordagem tratando-me pelo nome próprio que me leu no crachat, numa atitude própria de quem é profissional no relacionamento com os outros.

- Olha Dona *****! Eu trago aqui um problema para colocar para a senhora!
- Faça o favor de dizer.
- Eu pertenço a uma religião e, quando o povo não vai à igreja, a igreja vai ao povo.
- Sim?...
- Nós queríamos fazer uma recolha de almas. A senhora poderia me dizer como devo proceder?
- Recolha de almas? Podia ser mais específico?
- É basicamente isso, recolha de almas. Precisa licença?
- Depende. Como vai ser feita essa recolha?
- É assim uma coisa feita num local. Um local que vocês pudessem disponibilizar para a gente. A gente paga o que for preciso, claro!
- Mas que tipo de local? Um local fechado? Um local na via pública?
- Não! Não na via pública! No passeio! (É muito comum as pessoas acharem que via pública é só a estrada e não os passeios)
- Muito bem. E o que pretendem fazer?
- É como lhe disse, recolha de almas.
- Ai a minha vida a andar para trás!- pensei.
- Mas como vão fazer essa recolha. Vão ter algum tipo de instalação? Uma banca? - perguntei.
- Não, nada disso! Apenas uma pequena bancada com prospectos!
- Certo. E vai haver actividade ruidosa?
- Não, imagina! Apena uma pequena aparelhagem sonora e uns jovens entoando cânticos a Jesus! Não pode fazer isso?
- Pode, claro! A liberdade religiosa é um dado adquirido! Mas terá que solicitar uma licença.
- Tudo bem, o que precisa fazer?
- A música é vossa? Pode haver lugar ao pagamento de direitos de autor.
- Imagina! A música não é de ninguém, é de Deus!
- E ele registou a música na SPS? - apeteceu-me perguntar, mas não perguntei.
- Pronto - adiantei - então a primeira coisa que tem a fazer é ir à Sociedade Portuguesa de Autores e informar-se sobre a necessidade ou não do pagamento de direitos para difundir essa música em espaço público. Ao mesmo tempo, requer aqui a licença para o evento.
- Mas não é um evento! - interrompeu ele -É uma recolha de almas!
- Certo, então o senhor requer aqui a licença. Pode utilizar este requerimento, que é o mesmo que usamos para licenciar as procissões. Riscamos aqui o que não interessa, que é a interrupção do trânsito.
- Não! Imagina! Não é uma procissão! Uma procissão é um ritual católico sem qualquer significado! Nós fazemos recolha de almas!
- Certo, então aqui onde diz "Outro. Qual?", o senhor escreve o que entender. Mas deixe ficar um contacto telefónico para o caso de haver dúvidas por favor.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Os folares da páscoa lá em casa e de toda a família, eram feitos pela Tia Arminda. As mulheres compravam farinha e ovos e pagavam-lhe o trabalho. O dia de ir buscar os folares era sempre, se não um dia de festa que isso será um certo exagero, pelo menos um dia diferente. Para chegar à casa da Tia Arminda, que por ser parca de haveres e conforto era pouco visitada pela família do lado de lá da vida, era preciso estacionar, ir a pé por caminhos cobertos de erva daninha e entrar por uma portinha minúscula num muro mais ou menos branco que poucos indícios dava de se tratar da habitação de alguém. Essa portinha dava para um pátio que por sua vez era rodeado por galinheiros, coelheiras, currais e umas construções baixinhas, escuras e toscas a que ela chamava casa. Quando lá chegávamos, já a Tia Arminda tinha pilhas de folares pousados uns sobre os outros à espera dos donos, que depois cada um trazia numa cesta grande de vime.
Lembro-me de o meu pai comentar um dia que não comia daqueles folares por serem feitos com "pouca higiene" e de isso ter constituído um pequeno abalo na harmonia familiar. A minha mãe impertigou-se, com a honra ferida, e discursou durante muito tempo de dedo no ar em riste sobre os irrepreensíveis hábitos de limpeza que tinha adquirido durante a infância com a sua família, pobre mas honestíssima e imaculada. O meu pai, como sempre fazia quando perdia uma discussão pela persistência da parte contrária, abriu o jornal e começou a ler, e a partir desse dia, nunca mais falou na falta de higiene dos folares da Tia Arminda. Quanto a mim, tomei como infalíveis as declarações da minha mãe, que era para todos os efeitos o meu modelo em questões de cuidados com o lar, e continuei alegremente a comer os folares que, ainda por cima, me sabiam muitíssimo bem.
Hoje em dia, quando olho para trás e me recordo de tudo, acho que na verdade aquilo era o que se pode chamar "uma grande javardice". Mas que não me matou, não matou.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A dada altura da minha vida comecei a ter dúvidas sobre o nível onde me deveria posicionar socialmente. Por esse motivo decidi consultar a minha mãe, que era quem eu achava a pessoa mais indicada para me esclarecer. Por isso fui ter com ela e fiz a pergunta:
- Mãe! Nós somos pobres ou somos ricos?
- Nem uma coisa nem outra - respondeu-me ela - somos remediados.
- Remediados???!!!
Para mim, aquela palavra soava-me a "alguém que toma muitos remédios", pelo que tive que solicitar esclarecimentos complementares. Então a minha mãe explicou-me que remediada era uma pessoa que não passava fome mas que também não podia comer lagosta todos os dias. Por outras palavras, era a forma salazarenta de designar a actual classe média.
Por um lado fiquei aliviada. A hipótese remota de me ser revelado que era pobre causava-me, confesso, alguma angústia. Apesar de todos os livros da escola ensinarem que não havia melhor coisa na vida do que a pobreza, algo no meu íntimo me dizia que isso era aldrabice.
Por outro lado, fiquei um pouco decepcionada, pois ainda tinha no fundo alguma esperança de descobrir que era rica. Pelo menos era uma das únicas quatro crianças da escola em cuja casa havia um frigorífico, uma televisão e uma máquina de lavar roupa. Já para não falar na casa de banho completa com água quente corrente.

domingo, 7 de junho de 2009

Andava a fazer um mestrado daqueles só porque sim. O que recordo hoje é que aquela aula a seguir ao almoço devia ser o que de mais aproximado pode haver com o inferno em vida. O catedrático, um velhinho pequenino e careca com uma voz muito fininha, que devia achar que à teoria crítica bastava existir para ser o deleite de qualquer ser que respirasse, não se preocupava nem um décimo de milímetro em cativar a turma constituída por doze infelizes criaturas reunidas à sua volta numa salinha invulgarmente pequena e sem janela.
Num belo dia em que a temperatura do ar estava demasiado elevada e o tinto do almoço que tínhamos comido em conjunto numa tasca ali perto convidava particularmente ao sono, o velho mestre sentou-se na sua secretária com a maior das calmas como sempre fazia, abriu um livrinho de apontamentos como sempre fazia, pigarreou como sempre fazia e, sem tirar os olhos do plano inferior, abriu desta forma as hostilidades, com a sua vozinha de eunuco de porcelana:
- Hoje... vamos falar... de... Jurgen Habermas...
A aluna mesmo à sua frente, que sozinha tinha liquidado sem piedade uma garrafa de 0,75, com os olhos mais fechados do que abertos, exclamou com a voz em êxtase:
- Poderoso professor, PO-DE-RO-SO!!!
Sim, não foi nada de mais, apenas mais um daqueles pequenos momentos que recordaremos sempre. Mas tudo junto resultou num cocktail suficientemente forte para que toda a gente, com excepção do professor, se risse às gargalhadas durante um bom bocado, literalmente até às lágrimas e sem conseguir parar.

sábado, 6 de junho de 2009

Embora eu me considere uma pessoa do tipo descontraída, estou sempre a concluir que "Ai afinal não sou nada!", quando me deparo com pessoas que são MESMO descontraídas.
É o caso duma colega minha que, tendo-lhe surgido um problema de fungos numa unha do pé, foi a um posto médico.
- A senhora tem que tirar os collants - disse-lhe o médico.
- Ai "sôtor", que chatice! Não me apetece nada! - respondeu ela muito despachada - É que estes collants ficam-me tão grandes que eu até vesti as cuecas por cima para não me caírem!... Olhe, fazemos assim!
E começou a rasgar os collants a partir da ponta, ficando imediatamente com o pé de fora.
Quando nos contou a história nós, com uma grande barrigada de riso, ainda lhe perguntámos:
- Oh mulher! E então como é que vieste embora com os collants rasgados?
- Então? Rasguei também no outro pé e faz de conta que eram uns calções!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eram dois homens muito bem dispostos mas que cheiravam pior do que ao pé da jaula dos macacos no jardim zoológico. Cada um deles exibia, quase com orgulho, duas manchas de suor fora do prazo de validade debaixo dos braços sobre as camisas garridas. Vinham pedir licença para organizar uma festa de S. João no bairro social onde moravam.
- A Junta de Freguesia organiza isto em parceria convosco? - perguntei, antevendo uma desagradável surpresa quando chegasse a altura de cobrar o papel - É que se organizar, nós não cobramos a licença.
- Claro que organiza! - berrou logo o mais pequenito, de olhos azuis sob pestanas farfalhudas - Ai dele (o presidente da junta, entenda-se) que não participasse! É ele que paga a sardinha, o tinto e empresta as bancadas! É que se ele dissesse que não, era assim: Em Outubro "pusíamo-lo" já de lá para fora! É que era limpinho! A freguesia tem dez mil eleitores, cinco mil moram no bairro e fazem o que a gente "mandamos"! Isso é que era bom!

Que linda é a democracia!...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Duas miúdas adolescentes escolhiam um top de 3,90€ para uma delas, numa daquelas lojas giríssimas e acessíveis que não havia quando eu era da idade delas e por isso é que a gente se metia no tabaco e na droga e fazia outros disparates. Agora não sei porque é que eles se metem.

- Porque é que não levas azul?
- Azul não! Quero preto! Preto e mais nada! Porque eu sou assim, quando meto uma coisa na cabeça ninguém me tira!
E, três segundos depois:
- Olha este amarelo tão querido! Ai... se calhar vou levar amarelo.

É tão bom ser volátil à vontade, sem pesos na consciência!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Contou esta história de forma constante ao longo dos anos. E sempre com o mesmo ar indignado. Por vezes contava-a na presença do marido, como que em busca duma validação e dum apoio. Invariavelmente, ele dava uma risada pálida (uma única, nunca duas seguidas) e continuava a ler o jornal ou apenas a olhar para ele, que era uma maneira de dizer que não o chateassem mais com aquilo. É assim que os recordo.
Contava ela então que quando se casaram, no início dos anos cinquenta, foram passar a lua-de-mel a Lisboa, sítio onde nenhum tinha estado ainda e para onde a viagem representava, naquele tempo, um investimento considerável, em tempo, dinheiro e energia. Contava também que, como vivia na capital uma prima distante que não tinha sido convidada para o casamento, levaram na mala um pouco de bolo de noiva coberto a açúcar glacé e com bolinhas prateadas para a presentear. Quando chegaram a Lisboa era já noite. Não havia auto-estradas nem alfas. Então foram directamente para o hotel e guardaram o bolo no armário, dentro do prato e tapado com um paninho de bordado inglês. Na manhã seguinte saíram para o pequeno-almoço. Quando regressaram, o quarto já havia sido limpo e o bolo tinha desaparecido, bem como o prato e o paninho. "Aquela gente de Lisboa" - rematava sempre ela - "não deve lá ter bolos em condições, aquilo lá nada presta para nada! Por isso roubaram-nos o nosso!"
Quem ouvia a história sorria sempre um pouco, condescendente. Taditos!...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Há uns dez anos, mais coisa menos coisa, esteve na minha cidade uma exposição de pintura de Júlio Resende que eu, como não podia deixar de ser, fui ver. Quem lá estava também na altura era alguém meu conhecido ligado à organização que, depois de ouvir os meus parabéns por ter conseguido levar ali aquela exposição, comentou qualquer coisa como:
- Agora o que era ouro sobre azul era ele morrer a seguir.
- O quê?! - perguntei, ainda duvidando de ter sido dito aquilo mesmo que eu tinha ouvido.
- Sim - continuou com o mesmo semblante profissional pragmático - Já viste o que era se a última exposição em vida de Júlio Resende fosse precisamente esta?
Os olhos brilharam-lhe tanto perante a perspectiva que eu achei que ia passar por cima daquilo e continuar a ser sua amiga. Ainda que duma forma doentia, aquelas palavras não eram uma praga dirigida a alguém, eram apenas o desejo desmedido de sucesso profissional. Às vezes as pessoas ficam assim e nem dão por ela.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O que eu sei é que quando eu era criança não havia Dia da Criança. As crianças eram apenas uns adultos em ponto pequeno que estavam em processo de modelagem e tinham mais era que se calar e tentar passar despercebidas, o mais possível.
A primeira vez que se ouviu falar de tal novidade foi no ano em que eu completei o 13.º aniversário. Embora não fosse propriamente o prototipo da matulona, já usava soutien e pensos higiénicos. Por isso, para mim, crianças eram os meus irmãos e os meus primos que ainda brincavam com legos e liam a Anita.
Não houve comemorações, nem actividades, nem programas especiais de televisão, nem saídas na escola. A única coisa de que me recordo é de terem andado a distribuir uns autocolantes com duas figurinhas de mãos dadas e uma flor, e os dizeres "1 de Junho - Dia Mundial da Criança". Entregaram-me um mas eu, quando vi do que se tratava, empertiguei-me e devolvi-o:
- Crianças? Crianças são os do ciclo!