O brasileiro à minha frente, pastor duma mediática organização religiosa, fez a abordagem tratando-me pelo nome próprio que me leu no crachat, numa atitude própria de quem é profissional no relacionamento com os outros.
- Olha Dona *****! Eu trago aqui um problema para colocar para a senhora!
- Faça o favor de dizer.
- Eu pertenço a uma religião e, quando o povo não vai à igreja, a igreja vai ao povo.
- Sim?...
- Nós queríamos fazer uma recolha de almas. A senhora poderia me dizer como devo proceder?
- Recolha de almas? Podia ser mais específico?
- É basicamente isso, recolha de almas. Precisa licença?
- Depende. Como vai ser feita essa recolha?
- É assim uma coisa feita num local. Um local que vocês pudessem disponibilizar para a gente. A gente paga o que for preciso, claro!
- Mas que tipo de local? Um local fechado? Um local na via pública?
- Não! Não na via pública! No passeio! (É muito comum as pessoas acharem que via pública é só a estrada e não os passeios)
- Muito bem. E o que pretendem fazer?
- É como lhe disse, recolha de almas.
- Ai a minha vida a andar para trás!- pensei.
- Mas como vão fazer essa recolha. Vão ter algum tipo de instalação? Uma banca? - perguntei.
- Não, nada disso! Apenas uma pequena bancada com prospectos!
- Certo. E vai haver actividade ruidosa?
- Não, imagina! Apena uma pequena aparelhagem sonora e uns jovens entoando cânticos a Jesus! Não pode fazer isso?
- Pode, claro! A liberdade religiosa é um dado adquirido! Mas terá que solicitar uma licença.
- Tudo bem, o que precisa fazer?
- A música é vossa? Pode haver lugar ao pagamento de direitos de autor.
- Imagina! A música não é de ninguém, é de Deus!
- E ele registou a música na SPS? - apeteceu-me perguntar, mas não perguntei.
- Pronto - adiantei - então a primeira coisa que tem a fazer é ir à Sociedade Portuguesa de Autores e informar-se sobre a necessidade ou não do pagamento de direitos para difundir essa música em espaço público. Ao mesmo tempo, requer aqui a licença para o evento.
- Mas não é um evento! - interrompeu ele -É uma recolha de almas!
- Certo, então o senhor requer aqui a licença. Pode utilizar este requerimento, que é o mesmo que usamos para licenciar as procissões. Riscamos aqui o que não interessa, que é a interrupção do trânsito.
- Não! Imagina! Não é uma procissão! Uma procissão é um ritual católico sem qualquer significado! Nós fazemos recolha de almas!
- Certo, então aqui onde diz "Outro. Qual?", o senhor escreve o que entender. Mas deixe ficar um contacto telefónico para o caso de haver dúvidas por favor.