quinta-feira, 18 de junho de 2009

Era um homem e uma mulher na casa dos sessentas e sentaram-se à minha frente. Ela mais afastada e ele no lugar mais próximo, com ar decidido.

ELE: Eu venho trazer aqui um assunto complicado!
EU: A sério? Então vamos lá ver se é ou não!
ELE: Esta senhora (e apontou para ela), que é minha vizinha, tem um problema.
(Ela assentiu com a cabeça)
ELE: A mulher que é dona do terreno ao lado não o limpa há anos e depois aquilo, já se sabe, é só rataria e doenças! Pode-se fazer alguma coisa?
EU: Sim, a senhora expõe a situação por escrito e nós remetemos às autoridades competentes.
ELA: Ai senhor A*******, escreva você que eu não tenho jeito nenhum para isso!
ELE: Então pois escrevo! Eu vim consigo para ajudar!
(E começou a escrever, mas ia falando ao mesmo tempo)
ELE: Sabe que ainda ontem, estava eu a cortar a relva lá no quintal, apanhei um "liscanço" para aí deste tamanho (afastou os braços para dar a ideia da enormidade do bicho).
EU: Mas então o senhor também tem o mesmo problema no seu quintal?
ELE: Eu não! Quer dizer, isto foi lá no quintal da D. M****. Eu vou lá dar uma ajudinha de vez em quando.
(Ela continuava a assentir com a cabeça)
EU: Mas então o senhor mora lá perto. Pode assinar como testemunha...
ELE: Oh menina... como é que lhe hei-de dizer? Isto é assim: Ela graças a Deus é viúva, eu sou "desvorciado"...
EU: Sim...
ELE: Quer-se dizer... a gente para aí há uns quatro anos que moramos na casa dela. Mas isto não convém dizer.
EU: Quer dizer que os senhores vivem em união de facto então.
ELA: Não não! Quer dizer... Não convém dizer!
EU: Mas porquê?
ELE: As pessoas não tomam a bem não é? Nós com esta idade... e já fomos os dois casados e temos filhos e netos... Quer-se dizer... as pessoas sabem não é? Mas não convém dizer.
(E ela sempre a assentir com a cabeça)
EU: Mas os senhores não têm que dar satisfações a ninguém da vossa vida! Nem ninguém tem nada com isso!
ELE: Pois não graças a Deus! Mas ela assim já desta idade, viúva, com um homem "desvorciado", as pessoas falam não é? Não convém dizer!

E eu não me estiquei mais em considerações porque me pareceu que não devia. Eles vivem a fingir que não são pessoas com as necessidades das pessoas nem as fraquezas das pessoas, porque os outros podem falar, porque já passaram da idade aceitável para namorar e porque uma viúva tem que se remeter ao velório eterno para ser respeitável. Pelo menos lá no sítio onde ambos vivem, ao lado do terreno que ninguém limpa. Eu sei que pensei imensas coisas sobre o assunto... mas não convém dizer.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Juraria que ali é mesmo o centro de Portugal. Quer dizer, se fosse possível pegar numa fita métrica e ir por ali fora a medir, largura e altura, estaríamos no ponto onde as duas linhas se cruzam. Muitas estradas estreitinhas com muitas curvas, impróprias para enjoados, e pinhais... imensidões de pinhais, a confirmar que D. Dinis andou por ali a interagir com a natureza como nos ensinaram na escola.
O automobilista vindo da capital já só sabia uma coisa: Estava no meio de pinhais. O que não é bom quando se tenciona chegar a algum sítio concreto. Almas vivas, nem vê-las. GPS's, só os inventaram uns anos depois. Até que finalmente, do meio das árvores surgiu uma figura de mulher, com um molho de lenha à cabeça mais volumoso do que ela toda. "Estou safo" - pensou. E dirigiu-se até ela que, com ar desconfiado, olhava para trás e dava corda às pernas.
- Oh minha senhora, faça favor! - gritou ele aproximando-se ainda mais e abrindo a janela do lado do pendura para lhe falar.
Aí é que foi. A mulher largou a lenha e desatou a fugir em pânico como se tivesse visto o diabo. Nunca mais se viu.
Ali, mesmo mesmo no meio de Portugal.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mas não foi a primeira vez que isto me aconteceu na vida (refiro-me, claro, à história anterior).

Uns anos antes tinha ido passar um fim-de-semana à terra dos pais do meu sogro, para uma reunião de família. Como éramos muitos e seria uma confusão ficarmos todos na casa, alguns de nós (onde eu me incluía), dispuseram-se a ficar num hotel. Quem fez as reservas foi a minha sogra e, no dia em que chegámos, ela anunciou-nos que tinha arranjado uma pensãozinha muito jeitosa, moderna e muito mais em conta do que o hotel, que ela achava um desperdício pouco cristão. Não gostámos muito da ideia, mas como se costuma dizer nestas alturas, o que não tem remédio remediado está. Ela explicou-nos onde era e nós lá fomos, três casais cada um com uma criança de colo. Depois de nos fartarmos de andar a pé por entre ruelas manhosas na parte velha da cidade, lá demos com o local, que tinha a porta fechada. Estranho, uma pensão com a porta fechada...
Batemos. Veio abrir-nos a porta uma, como direi, senhora idosa. Bastante idosa. Vestida com um robe de cetim azul-turquesa, de rolos na cabeça, lábios pintados de vermelho bem vivo e a fumar uma cigarrilha. "Bonito!" - pensámos todos ao mesmo tempo.
Mas não, ainda não tinha acabado. Os nossos magníficos quartos ficavam no último andar sem elevador nem casa de banho, que era comum e ficava ao fundo do corredor. Ao lado da cama, tínhamos um bidé. Lamentámos mentalmente a abençoada ingenuidade da minha sogra, pousámos as malas e fomos à nossa vida, desejando que o dia seguinte chegasse bem depressa para irmos embora dali.
E nessa noite, andaram três casais com três crianças de colo a correr todos os bares da pequena cidade, com as crias a dormir, a fazer de propósito para chegar bem tarde à pensão e estar lá o mínimo tempo possível, adormecer bem depressa e não dar por aquilo que todos achávamos ia ser, sem dúvida, "uma noite animada".

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A fronteira é sempre, de certa forma, terra de ninguém. Era aí que estávamos a chegar quando decidimos que era hora de parar e jantar. A escolha que se impunha: Do lado de cá, ou do lado de lá? Acabámos por escolher o lado de cá para disfrutar dum jantar mais simples e leve antes de entrar em Espanha, onde cada refeição significa lubrificar o aparelho digestivo de forma a ficarmos com dotes de faquir por umas horas. Estávamos nestas considerações quando notámos uma casa à nossa esquerda, pintada de cor-de-rosa vivo e com a indicação "RESTAURANTE" em letras bem gordas num anúncio. Parecia limpinha e até tinha algumas roseiras a crescer à entrada, bem diferente das tascas de camionista da zona. Estava escolhido.
Estacionámos ao pé dos vários Mercedes de várias cores. Entrámos e fomos logo conduzidos a uma mesa por uma rapariga loira-oxigenada de vestido brilhante e justo muito decotado. Na única mesa ocupada além da nossa, vários homens de aspecto bruto jantavam já.
- Temos febras grelhadas e salmão grelhado! - anunciou a rapariga do vestido brilhante.
Perante a nossa estranheza informou que não, não havia menu, nem entradas, apenas pão. Justificou-se com o facto de estarem abertos há pouco tempo.
Já arrependidos da escolha feita, lá optámos pelo salmão.
Enquanto esperávamos, distraí-me a analisar a decoração do espaço, coisa que pelos vistos apenas uma mulher se lembra de fazer. Era estranha. Várias réplicas de pinturas clássicas de nus preenchiam as paredes à mistura com fotografias que diziam "Paris mon amour". As cortinas eram floridas e com folhos muito kitsch. Nada era coerente com nada. Depois, começaram a surgir lá de dentro, por uma cortina pesada que dizia "acesso restrito" várias raparigas, todas loiríssimas e todas com indumentárias pouco adequadas ao trabalho num restaurante. Para além de mim, não havia ali mais nenhuma mulher que não fosse loira e não tivesse um vestido justíssimo, curto e com um decote até ao umbigo. "Para quê tanta gente para servir meia dúzia de mesas?" - interroguei-me.
Pela primeira vez, desconfiei que não estava num restaurante.
Alguns minutos mais tarde, uma das raparigas, de saia branca muito curta e top, posicionou-se no meio da sala, pegou num microfone e começou a cantar "Besame, besame mucho...", com voz de bagaço. Enquanto isso, surgiu outra personagem: Um matulão de camisa às flores que era visivelmente o patrão da casa e que elas tratavam por Yuri.
Tive então a certeza que não estava num restaurante.
Aí, pensei claramente duas coisas:
1. Que se lixe, sempre fico com uma história para contar no blogue.
2. Vou acabar de comer bem depressa antes que a gaja se dispa.

domingo, 14 de junho de 2009

- O burro ao contrário! Venham ver o burro ao contrário!
Era isto que berrava um homem à entrada duma tenda montada na aldeia, excitando a imaginação do público. Eram pessoas de vida muito dura que viviam longe de tudo no meio de pedras de granito. Nunca tinham qualquer divertimento a não ser, de quando em quando, um forasteiro nómada, de vida tão dura e difícil com a deles, que passava a exibir numa tenda uma qualquer criatura com uma qualquer deformidade. Por isso só mesmo os que de todo não puderam dispor do tostão necessário para pagar a entrada resistiram a ir ver o que já supunham ser um animal com a cabeça no lugar da cauda ou qualquer outro malvado capricho da natureza.
O homem da tenda recolheu o dinheiro das entradas mas manteve as pessoas todas à espera, que só podiam entrar quando estivessem as suficientes para encher o recinto e todas duma vez. O animal não se podia cansar.
Quando finalmente lhes foi franqueada a entrada, o que eles viram lá dentro foi um burro comum, virado de costas para o recipiente da comida.
Às primeiras tentativas de reclamação, o dono da tenda retorquiu veemente:
- Mas está ao contrário ou não está ao contrário?
É um facto que estava ao contrário.
Nessa mesma noite a tenda partiu para nunca mais se ver naquelas paragens e mais de metade da aldeia tinha abdicado duma quantia importante para as suas economias. Por todo o lado sabia a amargo, mas o orgulho não lhes permitia admitir que tinham sido enganados.
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Esta era mais uma história que o meu avô nos contava, entre brincadeiras. Nunca ficámos a saber se ele era um dos que tinham perdido um tostão para ver o burro. Quando lhe perguntávamos, ele sorria e virava-nos as costas. Melhor ainda, nem nunca ficámos a saber se a história era verdadeira.

sábado, 13 de junho de 2009

Naquela aldeia encaixada entre dois montes, como em todas as aldeias, vilas e cidades de Portugal, ter uma representação da última ceia na sala de jantar era tão fundamental como ter uma mesa. Talvez porque a semelhança da cena com as refeições reais das pessoas que ali viviam fosse tão dolorosamente evidente (pouca comida, muita gente), mas ao mesmo tempo tão reconfortante visto tratar-se de personagens de tal envergadura e ainda assim tão iguais aos mais simples. Naquela aldeia encaixada entre dois montes todas as representações da última ceia eram iguais porque eram pintadas pela mesma pessoa, o único que num raio de muitos quilómetros era capaz de pegar num pincel e transformar tintas em imagens perceptíveis, por isso respeitado por todos. Só que apesar da rudeza do rosto e das mãos, aquele artista, como todos os artistas do mundo, ansiava ardentemente produzir algo fantástico, saído do mais fundo do seu ser, que não se limitasse à cena daquelas treze pessoas partilhando um pão que era corpo e um vinho que era sangue. E foi com essa vontade queimando-lhe na alma que decidiu ousar, acrescentando uma personagem à cena: Ele próprio, a um canto, assistindo como testemunha presente ao mais marcante episódio da civilização ocidental. Quando foi entregar o quadro o coração batia-lhe como quando era criança e ia roubar fruta aos quintais vizinhos, tentando antecipar a reacção do cliente. Quando a obra foi desembrulhada e exposta, encostada à parede mais iluminada da casa, o comprador pôs uma expressão intrigada. Tirou o chapéu e coçou a cabeça e repetiu este gesto mais duas vezes em silêncio, observando. Não sabia ler, nem escrever, nem contar. No entanto algo lhe dizia que qualquer coisa estava errada. Ao fim de uns minutos atreveu-se:
- Oh vizinho... Mas não está aqui um a mais?
- Um a mais? – o pintor aproximou-se com ar clínico
– Não! Estão os que deviam estar!
- Ia jurar que este aqui não devia cá estar... – e apontou o auto-retrato do canto, com um dedo esticado que perfurou o coração do artista.
- Olhe, está certo... – admitiu ele desolado
– Está aí um a mais sim senhores. Mas não faça caso que ele apareceu só para roer uma côdea e quando acabar abala!
O outro voltou a tirar o chapéu e a coçar a cabeça. Depois de alguns segundos que pareceram horas decidiu-se:
- Ora então assim sendo está muito certo. Deixe cá ficar o quadro. Quando ele quiser abalar eu entrego-lhe o dinheiro e digo-lhe que passe lá por casa para lho dar.
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Há uns dias ouvi algures que pior que morrer é ser esquecido. Esta história era-me contada pelo meu avô quando eu era criança. E esta é a minha homenagem ao meu avô José, que construía móveis e brinquedos, remendava sapatos, fazia crescer coisas da terra e contava histórias.
Ele já morreu.
Mas é para não ser esquecido.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Quando comecei a trabalhar, muito novinha ainda, tive vários contratos temporários em repartições públicas, na maior parte das vezes para substituir pessoal durante as férias. Foi a minha entrada no verdadeiro mundo dos adultos fora da família protectora e quase um ritual de passagem.
Lembro-me que uma das coisas que mais me custou aceitar foi o à vontade com que em grandes espaços cheios de mulheres mais velhas se discutia a vida sexual de cada uma e as taras específicas dos respectivos maridos, intercaladas com receitas de bolos e cores da moda. Quando as ouvia contar, a uma que o marido gostava que ela se fizesse de morta, a outra que a obrigava a vestir soutien para copular e ainda a outra que ele exigia que ela lhe chamasse corno e cabrão nos momentos de êxtase, pensava nos meus pais, da mesma idade e tão castos, tão puros, tão normais (eu tinha a certeza disso). Então, mentalmente, punha as mãos a tapar os ouvidos e gritava:
- Lá! Lá! Lá! Lá! Lá! Não estou a ouvir nada! Não estou a ouvir nada!!!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A minha casa de infância, onde agora se erguem blocos de apartamentos, era o símbolo vivo do fim duma era e do começo de outra. Só mais tarde me consciencializei disso.
Era uma casa rural, daquelas com uma porta que só se abria na páscoa para entrar o prior e um portão ao lado que dava para o quintal, sempre aberto a todos os que quisessem vir perguntar se havia um pé de salsa, e que era na prática a entrada da residência.
Ficava à beira duma estrada nacional que atravessava uma aldeia às portas da cidade. Por isso, ainda passavam por lá pachorrentos carros de bois, que deixavam à sua passagem suculentos montes gigantescos de bosta campesina. Também passavam carros, que começavam na altura a vulgarizar-se. E tal como hoje, já os homens da classe média (as mulheres que tinham carta ainda eram motivo de animada discussão) faziam do acelerador uma compensação das suas frustrações diárias. E era essa alternância constante entre bois e máquinas na minha rua que provocava grandes disparos de bosta fresca contra as paredes das casas, cujas fachadas era necessário mandar lavar com frequência.
É verdade. A frontaria da minha casa de infância, sempre cagada por pneus que chiavam por cima da bosta fresca, era o símbolo vivo do fim do Portugal rural do livro da terceira classe.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O brasileiro à minha frente, pastor duma mediática organização religiosa, fez a abordagem tratando-me pelo nome próprio que me leu no crachat, numa atitude própria de quem é profissional no relacionamento com os outros.

- Olha Dona *****! Eu trago aqui um problema para colocar para a senhora!
- Faça o favor de dizer.
- Eu pertenço a uma religião e, quando o povo não vai à igreja, a igreja vai ao povo.
- Sim?...
- Nós queríamos fazer uma recolha de almas. A senhora poderia me dizer como devo proceder?
- Recolha de almas? Podia ser mais específico?
- É basicamente isso, recolha de almas. Precisa licença?
- Depende. Como vai ser feita essa recolha?
- É assim uma coisa feita num local. Um local que vocês pudessem disponibilizar para a gente. A gente paga o que for preciso, claro!
- Mas que tipo de local? Um local fechado? Um local na via pública?
- Não! Não na via pública! No passeio! (É muito comum as pessoas acharem que via pública é só a estrada e não os passeios)
- Muito bem. E o que pretendem fazer?
- É como lhe disse, recolha de almas.
- Ai a minha vida a andar para trás!- pensei.
- Mas como vão fazer essa recolha. Vão ter algum tipo de instalação? Uma banca? - perguntei.
- Não, nada disso! Apenas uma pequena bancada com prospectos!
- Certo. E vai haver actividade ruidosa?
- Não, imagina! Apena uma pequena aparelhagem sonora e uns jovens entoando cânticos a Jesus! Não pode fazer isso?
- Pode, claro! A liberdade religiosa é um dado adquirido! Mas terá que solicitar uma licença.
- Tudo bem, o que precisa fazer?
- A música é vossa? Pode haver lugar ao pagamento de direitos de autor.
- Imagina! A música não é de ninguém, é de Deus!
- E ele registou a música na SPS? - apeteceu-me perguntar, mas não perguntei.
- Pronto - adiantei - então a primeira coisa que tem a fazer é ir à Sociedade Portuguesa de Autores e informar-se sobre a necessidade ou não do pagamento de direitos para difundir essa música em espaço público. Ao mesmo tempo, requer aqui a licença para o evento.
- Mas não é um evento! - interrompeu ele -É uma recolha de almas!
- Certo, então o senhor requer aqui a licença. Pode utilizar este requerimento, que é o mesmo que usamos para licenciar as procissões. Riscamos aqui o que não interessa, que é a interrupção do trânsito.
- Não! Imagina! Não é uma procissão! Uma procissão é um ritual católico sem qualquer significado! Nós fazemos recolha de almas!
- Certo, então aqui onde diz "Outro. Qual?", o senhor escreve o que entender. Mas deixe ficar um contacto telefónico para o caso de haver dúvidas por favor.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Os folares da páscoa lá em casa e de toda a família, eram feitos pela Tia Arminda. As mulheres compravam farinha e ovos e pagavam-lhe o trabalho. O dia de ir buscar os folares era sempre, se não um dia de festa que isso será um certo exagero, pelo menos um dia diferente. Para chegar à casa da Tia Arminda, que por ser parca de haveres e conforto era pouco visitada pela família do lado de lá da vida, era preciso estacionar, ir a pé por caminhos cobertos de erva daninha e entrar por uma portinha minúscula num muro mais ou menos branco que poucos indícios dava de se tratar da habitação de alguém. Essa portinha dava para um pátio que por sua vez era rodeado por galinheiros, coelheiras, currais e umas construções baixinhas, escuras e toscas a que ela chamava casa. Quando lá chegávamos, já a Tia Arminda tinha pilhas de folares pousados uns sobre os outros à espera dos donos, que depois cada um trazia numa cesta grande de vime.
Lembro-me de o meu pai comentar um dia que não comia daqueles folares por serem feitos com "pouca higiene" e de isso ter constituído um pequeno abalo na harmonia familiar. A minha mãe impertigou-se, com a honra ferida, e discursou durante muito tempo de dedo no ar em riste sobre os irrepreensíveis hábitos de limpeza que tinha adquirido durante a infância com a sua família, pobre mas honestíssima e imaculada. O meu pai, como sempre fazia quando perdia uma discussão pela persistência da parte contrária, abriu o jornal e começou a ler, e a partir desse dia, nunca mais falou na falta de higiene dos folares da Tia Arminda. Quanto a mim, tomei como infalíveis as declarações da minha mãe, que era para todos os efeitos o meu modelo em questões de cuidados com o lar, e continuei alegremente a comer os folares que, ainda por cima, me sabiam muitíssimo bem.
Hoje em dia, quando olho para trás e me recordo de tudo, acho que na verdade aquilo era o que se pode chamar "uma grande javardice". Mas que não me matou, não matou.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A dada altura da minha vida comecei a ter dúvidas sobre o nível onde me deveria posicionar socialmente. Por esse motivo decidi consultar a minha mãe, que era quem eu achava a pessoa mais indicada para me esclarecer. Por isso fui ter com ela e fiz a pergunta:
- Mãe! Nós somos pobres ou somos ricos?
- Nem uma coisa nem outra - respondeu-me ela - somos remediados.
- Remediados???!!!
Para mim, aquela palavra soava-me a "alguém que toma muitos remédios", pelo que tive que solicitar esclarecimentos complementares. Então a minha mãe explicou-me que remediada era uma pessoa que não passava fome mas que também não podia comer lagosta todos os dias. Por outras palavras, era a forma salazarenta de designar a actual classe média.
Por um lado fiquei aliviada. A hipótese remota de me ser revelado que era pobre causava-me, confesso, alguma angústia. Apesar de todos os livros da escola ensinarem que não havia melhor coisa na vida do que a pobreza, algo no meu íntimo me dizia que isso era aldrabice.
Por outro lado, fiquei um pouco decepcionada, pois ainda tinha no fundo alguma esperança de descobrir que era rica. Pelo menos era uma das únicas quatro crianças da escola em cuja casa havia um frigorífico, uma televisão e uma máquina de lavar roupa. Já para não falar na casa de banho completa com água quente corrente.

domingo, 7 de junho de 2009

Andava a fazer um mestrado daqueles só porque sim. O que recordo hoje é que aquela aula a seguir ao almoço devia ser o que de mais aproximado pode haver com o inferno em vida. O catedrático, um velhinho pequenino e careca com uma voz muito fininha, que devia achar que à teoria crítica bastava existir para ser o deleite de qualquer ser que respirasse, não se preocupava nem um décimo de milímetro em cativar a turma constituída por doze infelizes criaturas reunidas à sua volta numa salinha invulgarmente pequena e sem janela.
Num belo dia em que a temperatura do ar estava demasiado elevada e o tinto do almoço que tínhamos comido em conjunto numa tasca ali perto convidava particularmente ao sono, o velho mestre sentou-se na sua secretária com a maior das calmas como sempre fazia, abriu um livrinho de apontamentos como sempre fazia, pigarreou como sempre fazia e, sem tirar os olhos do plano inferior, abriu desta forma as hostilidades, com a sua vozinha de eunuco de porcelana:
- Hoje... vamos falar... de... Jurgen Habermas...
A aluna mesmo à sua frente, que sozinha tinha liquidado sem piedade uma garrafa de 0,75, com os olhos mais fechados do que abertos, exclamou com a voz em êxtase:
- Poderoso professor, PO-DE-RO-SO!!!
Sim, não foi nada de mais, apenas mais um daqueles pequenos momentos que recordaremos sempre. Mas tudo junto resultou num cocktail suficientemente forte para que toda a gente, com excepção do professor, se risse às gargalhadas durante um bom bocado, literalmente até às lágrimas e sem conseguir parar.