terça-feira, 30 de junho de 2009

Foi numa aldeia com o ridículo nome de "Palhaço", recentemente elevada à categoria de vila, que eu contactei pela primeira vez com a realidade da violência doméstica. Íamos lá de quando em quando visitar um casal amigo dos meus pais, e a conversa dos adultos girava sempre à volta do mesmo: Ele batia nela. Ela começava por se queixar que ainda no dia anterior tinha apanhado porque ele não tinha gostado da sopa ou qualquer coisa insignificante do género. Depois, ficava a ouvir os meus pais a dar-lhe conselhos, do tipo não faça isso, porque isso não se faz, é mau para as crianças, e a sua mulher é uma senhora tão trabalhadeira, tão limpa, tão boa mãe e dona-de-casa, que não merece. Ele, sem olhar directamente para as pessoas, ficava a ouvir, de cara fechada, sempre a rosnar baixinho qualquer coisa que ninguém entendia. Fumava e esfregava as mãos uma na outra, com uma raiva contida que era um indício claro, até para mim que era ainda criança, que mal nós saíssemos dali ele iria mais uma vez vingar-se do mundo naquela mulher pequenina e muito morena, conformada, que se queixava aos amigos como quem reza um terço.

Eu, pela minha parte, tinha algumas questões a rondar-me o cérebro, mas como sabia que naquele caso era suposto pôr-me a um canto a brincar e fazer de conta que não tinha ouvido nada, nunca as colocava em voz alta:

- Porque é que os adultos batem uns nos outros sem ser nos filmes de porrada?

- Porque é que as pessoas casam umas com as outras para andar à pancada?

- Se ela não fosse limpa, boa mãe e boa dona-de-casa, já merecia que lhe batessem?



Durante muitos anos, associei o coreto e o largo de Palhaço a coisas tristes, e nunca me apetecia lá ir.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Uma amiga da minha mãe ofereceu-lhe um pouco de "flor do yogurte". Era uma coisa branca parecida com couve-flor, comida que eu odiava e ainda odeio a não ser em pickle, mas mesmo assim fiquei curiosa sobre o funcionamento da coisa.
- Isto mete-se dentro dum litro de leite - explicou a minha mãe - e no dia seguinte, pronto, já temos yogurte!
- Só assim?
- Só assim. Vais ver. E ainda por cima diz que se multiplica e, daqui a algum tempo, vamos ter mais flores do yogurte para fazer mais litros de yogurte.
E assim foi, mas em versão caricatura. A criatura cresceu e multiplicou-se como num filme de terror de série B e, uma semana depois, já ninguém podia ver yogurte à frente, além do que a nossa cozinha parecia um laboratório de ciências naturais, cheia de grandes frascos com leite onde cresciam, silenciosos mas ameaçadores, mais seres daqueles a que se chamava "A Flor do Yogurte".
Lembro-me que foi com alívio e com a participação em massa dos membros da família que aquela porcaria foi toda parar ao lixo.

domingo, 28 de junho de 2009

No ciclo preparatório, discutíamos em grupo a gravidez acidental da prima mais velha duma colega:

- Acho que foi com uma vela.
- Estúpida! Não se pode ficar grávida com uma vela!
- Porquê?
- Não sei... Mas não pode. Eu já li.
- Onde?
- Já não me lembro.
- Não leste em lado nenhum, estás-te só a armar!
- Mas é verdade, ela tem razão! Não se pode ficar grávida com uma vela!
- Ai é? E porquê?
- Então, porque uma vela não tem... reacção.
- Ai é?
- Reacção? Mas que reacção? Que conversa tão parva!
- Então, reacção reacção! Não se mexe!
- Pois é! Como é que a vela fez isso?

sábado, 27 de junho de 2009

-Mãe! Estive a ver as horas no relógio da casa de banho!
-No relógio da casa de banho? -perguntei, certa de que não tínhamos lá nenhum.
-Sim! Aquele que está no chão! Quando subimos lá para cima ele dá as horas!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A rapariga ia lendo na revista feminina de cor sépia pousada na mesinha de cabeceira, as técnicas para saber se tinha celulite, coisa que a indústria da moda e dos cosméticos tinha começado a tornar impopular e odiada embora quase ninguém soubesse o que era ou fosse capaz de reconhecê-la.
"Coloque ambas as mãos na coxa e aperte com força". Ela ia lendo e seguindo as instruções. "Verifique se a pele adquire o aspecto de casca de laranja". Ela olhou para o pedaço da sua própria carne apertado firmemente entre as mãos. Assim asfixiada e quase a ficar branca devido à falta de circulação, não conseguia ver ali qualquer parecença com casca de laranja, nem tão pouco imaginar como seria uma coxa com aspecto da dita fruta. Intrigada, resolveu tentar de novo. Desta vez apertou com mais força. Entre as mãos estava uma coxa adolescente, de novo muito branca e a formar algumas pequenas pregas devido à enorme pressão a que estava sujeita, embora quase imperceptíveis. "Aspecto de casca de laranja não deve ser na cor" - pensou ela - "deve ser por ficar assim a formar uns risquinhos... Quer dizer, a casca de laranja não tem risquinhas, mas deve ser em sentido figurado."
Sentou-se na cama e voltou a ler o texto na página dobrada para trás da Crónica Feminina. Levantou-se e resolveu tentar outra vez. Olhou, pensou, olhou, pensou, olhou, pensou e começou a ficar levemente angustiada. Continuou a leitura: "A celulite afecta cerca de 95% das mulheres e é ruinosa do ponto de vista estético". Noventa e cinco por cento! Estatisticamente, ela tinha celulite! A angústia aumentou. Só podia ter. Apertou a coxa de novo e agora já era capaz de jurar que conseguia ver pequenos monstros remexendo-se diabolicamente debaixo da pele. Tinha celulite!
A partir daí, passou a usar sempre blusas ou t-shirts muito compridas para que ninguém notasse e só ia à praia de calções. Quando a interrogavam sobre essa opção, dizia que tinha frio. Durante anos a fio nunca foi capaz de ver que o seu traseiro era diferente dos traseiros que via na praia e que pareciam ter crateras e vida própria, nem nunca se lembrou de pôr a hipótese de isso, sim, ser celulite, e não o seu rabo formado por duas meloas lisas e duras.
Só descobriu isso muitos anos mais tarde, quase com quarenta anos de idade. E foi preciso alguém lhe dizer.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aprender orações era a coisa que mais me custava. Não sei porquê. Logo eu, que era capaz de decorar rios, montanhas, capitais e caminhos de ferro, sabia de cor a lista de reis e as respectivas dinastias, a tabuada e tudo aquilo que de qualquer forma me podia poupar a uma sessão de reguadas! O Pai Nosso ainda lá foi, a Avé Maria também. Agora aquela coisa a que chamavam Salvé Rainha, nem com açúcar! Parece que havia um mecanismo na minha cabeça que, cada vez que eu tentava decorar aquilo dizia "Chega de palermice!" e bloqueava qualquer hipótese de êxito.
E foi com esta lacuna grave que eu cheguei à véspera da primeira comunhão. Azar!
Nesse dia fui-me confessar, era obrigatório. Para nos apresentarmos ao grande momento do ritual de passagem de alma pura, contávamos ao padre os grandes crimes que tínhamos cometido e que eram iguais para todas: Pensei mal das minhas amigas, desobedeci aos meus pais e faltei à missa por desleixo. Claro que, na prática, só a primeira era possível. Não nos pormos logo em sentido a uma ordem paterna, nesse tempo, era impensável, e faltarmos à missa, só se tivesse havido um cataclismo e o mundo estivesse a acabar. Mas era esta a lista oficial de pecados duma criança e nós não conhecíamos outra.
Quando chegou a minha vez, algo me dizia que aquilo ia correr mal. Certinho! Assim que acabei de enumerar os meus pecados e o padre acabou de me explicar como eu era uma menina má que precisava duma penitência pesada, já eu estava a fazer contas de cabeça a ver quanto tempo demoraria a chegar a casa para ver os desenhos animados, e eis que ele teve um assomo de clarividência:
- Olha lá! Antes de ires embora, reza aí a Salvé Rainha!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Levei os meus filhos a ver neve pela primeira vez ao vivo na Serra da Estrela pois está claro, que é onde os saloios vão para atirar bolas de água gelada uns aos outros. Embora todos tivessem achado a experiência interessante, foi a mais nova, então com dois anos, que ficou mais fascinada.
Durante uns meses, quando íamos ao super-mercado, chegávamos à peixaria e ela ficava ali aos pulinhos a gritar:
- Neve! Neve! Oh mãe, é neve!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Foi num daqueles concursos de televisão, onde eu estive em tempos. Levei a minha filha mais nova e a filha mais nova do meu marido, com idades muito aproximadas e, quando lá cheguei, apresentei-as como minhas filhas. Não valia a pena entrar em mais pormenores. Depois, durante as gravações, para pôr o pessoal à vontade (que é como quem diz para pôr o pessoal mais constrangido do que nunca), o animador de serviço que é aquele senhor que manda rir e bater palmas, resolveu meter-se com elas, em público e com dezenas de pessoas em estúdio. Perguntou-lhes a idade.
- Quinze - disse uma.
- Dezasseis - respondeu a outra.
- Pôxa! - retorquiu ele, que já dá para ver que era brasileiro - E não tem televisão lá em casa não?
...perante a risota geral e as caras aflitas de ambas, sem perceberem muito bem a piada, como é óbvio.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

ELA: O que é que eu ponho aqui onde diz "nome"?
EU: Depende. A senhora tem uma empresa constituída ou é empresária em nome individual?
ELA: Ai ai ai! Ai agora isso é que eu não sei nada.
EU: ??? Estou a perguntar se a senhora tem uma empresa ou se se foi só colectar às finanças para exercer a actividade de cabeleireira.
ELA: Ai ai ai! Mas isso é o quê? Eu não sei!
EU: D. R***, vamos lá com calma. A senhora tem uma empresa? Tem um nome daqueles que acabam em "unipessoal Ldª"? Ou não?
ELA: Ai ai ai! Sei lá, explique-me isso melhor.
EU: Mostre-me o seu cartão de pessoa colectiva.
ELA: É isto?
EU: Não, isso é o cartão de eleitor.
ELA: É isto?
EU: Não, isso é o cartão do banco.
ELA: É isto?
EU: Não, isso é o seu bilhete de identidade.
ELA: É isto?
EU: Isso mesmo! Mostre cá... A senhora é empresária em nome individual, por isso aí em cima põe o seu nome.
ELA: O nome todo ou como está aqui?
EU: O nome todo.
ELA: Mas eu no bilhete de identidade só assino o primeiro e o último.
EU: Sim, mas uma coisa é escrever o nome, outra é assinar. Eu estou-lhe a pedir que escreva o nome, assinar é só no fim.
ELA: Ai ai ai! Já não estou a perceber nada disto!
EU: Olhe D. R***, dê-me cá o impresso que eu preencho.
ELA (muito risonha): Sabe que de "brushings" eu percebo. Agora estas coisas, a senhora tem que me explicar como se eu fosse muito burra!
EU (só mentalmente): Mas tu és muito burra!

domingo, 21 de junho de 2009

ELA: Eu precisava duma planta da zona onde eu moro.
EU: A que escala?
ELA: Ai! Sei lá! A senhora veja aí! - e entregou-me um papel.
EU: Aqui diz que pode ser uma fotografia aérea obtida na internet. Se a senhora quiser pode fazer isso em casa e escusa de pagar por isto.
ELA: Ah mas eu de computadores e de internetes não percebo nada nem quero nada com isso! A senhora tire-me isso aí que eu prefiro pagar!
EU: Muito bem.
....................................................................
EU: Peço desculpa mas o programa deu erro. Vou ter que desligar o computador e voltar a ligar, por isso vai demorar um bocadinho.
ELA(com ar entendido): Faz-vos falta aqui um helpdesk, é o que é.

sábado, 20 de junho de 2009

Sentaram-se os dois à minha frente. Ambos pareciam caricaturas, com um penteado cheio de laca à anos setenta num cabelo muito preto, apesar da idade de ambos indicar que aquilo era tinta. Usavam camisas garridas e tinham bigode. Sorriam da mesma maneira e ao mesmo tempo. O da direita fez as apresentações:
- Boa tarde! Eu sou o Abel Maciel e aqui o meu irmão é o João Antão.
E eu pensei:
- Está explicado, os pais eram poetas!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Quando eu tinha uns cinco anos, nasceu na vizinhança um bebé sem genitais, o que causou como é óbvio grande mágoa na família e consternação na pequena comunidade. Só eu não percebi porque motivo aquilo era considerado uma desgraça tão grande. E como não podia deixar de ser, interroguei a minha mãe:

- Mas não era pior ter nascido sem braços ou pernas?
- Não! Isto é muito mau, coitadinho!
- Mas porquê? Não lhe fizeram um furinho para ele fazer xixi como as meninas?
- Fizeram... mas é mau.
- Mas porquê???
- Porque... é.
- Sim, mas porquê???
E a minha mãe teve a ideia brilhante que a iria safar do entalanço:
- Porque quando ele for para a escola, nas aulas de ginástica, como é que vai tomar banho ao pé dos outros colegas? Vai ter vergonha!

Eu, embora continuasse a achar que era pior não ter uma perna e que ele podia sempre tomar banho em casa, aceitei a explicação e abandonei o combate. Mas não totalmente convencida. Afinal, aquilo que lhe faltava era uma coisa sem jeito nenhum (pelo menos as que eu já tinha visto, de bebés da família), que devia dar um desconforto incrível ali pendurada e isto tudo só para urinar! A natureza tinha sido muito mais simpática para nós, as mulheres!