segunda-feira, 6 de julho de 2009

Lembro-me distintamente desta conversa que tive com o meu professor de música e a minha professora primária, que era a mulher dele, quando tinha nove anos. Lembro-me como se tivesse sido há bocadinho durante o almoço. Lembro-me melhor dela do que de coisas que fiz ontem.

EU: Porque é que vocês só ouvem música velha?
ELA: Nós ouvimos música do tempo em que éramos jovens como tu.
ELE: É assim que as coisas acontecem sempre. As pessoas ficam marcadas pela música da sua juventude e é dessa que gostam durante toda a vida. Percebes?
EU: Eu acho que não vou ser assim...
ELA: Vais vais! Tu agora é que achas que não vais! Mas com os anos vais ver, lembra-te desta conversa daqui a uns trinta ou quarenta anos e pensa - Afinal eles tinham razão!"

E eu lembro-me. Muitas vezes. Lembro-me que afinal eles não tinham razão.

domingo, 5 de julho de 2009

A senhora inclinou-se na minha direcção e segredou-me excitadíssima:
- Já viu ali atrás de mim?
Eu olhei e o que vi foi uma sala de espera cheia de gente para atender a dez minutos da hora de encerrar. Já sem muita paciência perguntei-lhe:
- Não vejo nada de especial, é o quê?
- Shhhhhhh!!! - recomendou ela aflita - Ali! Mesmo atrás de mim! É a Sónia, a que esteve no Big Brother!!!
- Não conheço - respondi.
Depois, perante o ar decepcionado, quase humilhado, da minha interlocutora, tentei remediar qualquer coisinha:
- Sabe, é que eu não vejo televisão.

sábado, 4 de julho de 2009

Ela era assim. Não era totalmente má pessoa, que eu saiba nunca matou ninguém à fome nem com tortura lenta, nunca fez um desfalque no emprego nem tinha cadáveres enterrados no quintal. Mas era assim.
No dia em que a levei comigo ao super-mercado, estavam à entrada a oferecer amostras duma marca nova de detergente. Eu entrei, ofereceram-me uma caixinha, eu aceitei e fui à minha vida. Entretanto deixei de a ver e já começava a pensar que, apesar de chata como a potassa, a tinham raptado. Mas meia hora depois desfez-se o mistério. Ela apareceu ao pé de mim com um ar vitorioso como se lhe tivessem conferido um doutoramento honoris causa e contou-me orgulhosíssima o que tinha andado a fazer:
- Eles estavam a oferecer detergente, viste? Então eu passei uma vez e saí, dei meia volta e entrei outra vez. Fiz isso dez vezes! E só parei porque os antipáticos me disseram que já tinha passado muitas vezes e não me davam mais!
Então, feliz como uma noiva de Santo António, desviou um pouco o casaco que trazia dentro do carrinho de compras para que eu visse o espólio: Dez caixas de amostra do novo detergente!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

De todas as fotografias do meu passado, há umas que me perturbam particularmente. São as do primeiro casamento do meu tio J***, que contrariou a tradição casando em pleno inverno. Não foi com certeza por isso que o casamento durou pouco, mas foi por isso que se tornou um dos maiores dramas da minha vida.
Como sempre acontece em casamentos e baptizados, todos os convidados vão de farpela nova. E assim foi no caso vertente. Apenas com um pequeno pormenor: Naquele tempo, não era costume perguntar-se às crianças o que queriam vestir, apresentava-se-lhe a roupa decidida e estava feito. E foi o que fez a minha mãe, que me comprou umas calças de fazenda e uma camisola de pura lã, tudo de óptima qualidade, afiançava ela com a boca a fugir-lhe para o "Ingrata!", e eu acreditava, mas cuja aspereza me fez andar todo o dia direita, quase sem me mexer. Qualquer movimento em falso me provocava comichões insuportáveis.
Quando olho para mim naquelas fotografias, é isto que vejo: Um robot da legião de tropas do Darth Vader.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A professora mandou fazer um poema para o dia da mãe e eu fiz. Naquele tempo, fazer o que as professoras mandavam era uma questão de sobrevivência.
Não é que eu não tivesse feito qualquer coisa para o dia da mãe, voluntária e alegremente. Só que talvez não fizesse um poema. Talvez inventasse um novo gadget para a cozinha, talvez fizesse uma pintura abstractamente tosca, ou qualquer outra coisa tão inútil como um poema. Mas se era preciso um poema, que saísse um poema! O meu centrou-se numa metáfora em oito versos e duas estrofes em que eu e os meus irmãos éramos retratados como frágeis passarinhos no ninho e a minha mãe era a incansável mãe pássara que passava o dia à minhoca para nos alimentar, grandes alarves! Azar tive quando a professora ficou tão espantosamente impressionada que enfiou na cabeça que eu havia de declamar aquilo na festa de final de ano que fazíamos habitualmente no salão da paróquia para toda a aldeia. Na verdade, a nossa festa era um êxito tão grande em *** ******** como as peças do La Feria são agora no Porto e todo o povo aguardava ansiosamente e pagava de bom grado os cinco escudos que custava a entrada e cuja receita revertia para a creche e/ou a biblioteca. Houve um ano em que, a pedido de várias famílias, tivemos que fazer duas sessões, sendo que a última acusou o nosso amadorismo em falhas, esquecimentos e barracadas várias.
A verdade é que, quanto mais eu lia o poema, mais o achava estúpido e menos me apetecia lê-lo em público. Só que não havia alternativa, se era para ler era para ler. E no dia da récita lá estava eu, infeliz como um jumento abandonado, a pensar como iria evitar uma apoplexia quando subisse ao palco. Quando chegou a hora fatal pensei que morria. Senti-me a criatura mais estúpida do planeta terra enquanto declamava o meu próprio poema e olhava lá para baixo, com a minha mãe a chorar de emoção e as outras mulheres a acenar com a cabeça em sinal de aprovação por tão grande prova de amor filial.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Há muitos muitos anos, num dos meus primeiros empregos, tive uma utente com o nome mais divertido com que já tive a oportunidade de me cruzar.
Nunca contei a ninguém, assim publicamente, mas agora acho que posso, até porque a senhora era tão velhinha e foi há tanto tempo que já nem deve ser viva.
Era a D: Maria da Conceição da Pita Lavada.
Pita da mãe e Lavada do pai...

terça-feira, 30 de junho de 2009

Foi numa aldeia com o ridículo nome de "Palhaço", recentemente elevada à categoria de vila, que eu contactei pela primeira vez com a realidade da violência doméstica. Íamos lá de quando em quando visitar um casal amigo dos meus pais, e a conversa dos adultos girava sempre à volta do mesmo: Ele batia nela. Ela começava por se queixar que ainda no dia anterior tinha apanhado porque ele não tinha gostado da sopa ou qualquer coisa insignificante do género. Depois, ficava a ouvir os meus pais a dar-lhe conselhos, do tipo não faça isso, porque isso não se faz, é mau para as crianças, e a sua mulher é uma senhora tão trabalhadeira, tão limpa, tão boa mãe e dona-de-casa, que não merece. Ele, sem olhar directamente para as pessoas, ficava a ouvir, de cara fechada, sempre a rosnar baixinho qualquer coisa que ninguém entendia. Fumava e esfregava as mãos uma na outra, com uma raiva contida que era um indício claro, até para mim que era ainda criança, que mal nós saíssemos dali ele iria mais uma vez vingar-se do mundo naquela mulher pequenina e muito morena, conformada, que se queixava aos amigos como quem reza um terço.

Eu, pela minha parte, tinha algumas questões a rondar-me o cérebro, mas como sabia que naquele caso era suposto pôr-me a um canto a brincar e fazer de conta que não tinha ouvido nada, nunca as colocava em voz alta:

- Porque é que os adultos batem uns nos outros sem ser nos filmes de porrada?

- Porque é que as pessoas casam umas com as outras para andar à pancada?

- Se ela não fosse limpa, boa mãe e boa dona-de-casa, já merecia que lhe batessem?



Durante muitos anos, associei o coreto e o largo de Palhaço a coisas tristes, e nunca me apetecia lá ir.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Uma amiga da minha mãe ofereceu-lhe um pouco de "flor do yogurte". Era uma coisa branca parecida com couve-flor, comida que eu odiava e ainda odeio a não ser em pickle, mas mesmo assim fiquei curiosa sobre o funcionamento da coisa.
- Isto mete-se dentro dum litro de leite - explicou a minha mãe - e no dia seguinte, pronto, já temos yogurte!
- Só assim?
- Só assim. Vais ver. E ainda por cima diz que se multiplica e, daqui a algum tempo, vamos ter mais flores do yogurte para fazer mais litros de yogurte.
E assim foi, mas em versão caricatura. A criatura cresceu e multiplicou-se como num filme de terror de série B e, uma semana depois, já ninguém podia ver yogurte à frente, além do que a nossa cozinha parecia um laboratório de ciências naturais, cheia de grandes frascos com leite onde cresciam, silenciosos mas ameaçadores, mais seres daqueles a que se chamava "A Flor do Yogurte".
Lembro-me que foi com alívio e com a participação em massa dos membros da família que aquela porcaria foi toda parar ao lixo.

domingo, 28 de junho de 2009

No ciclo preparatório, discutíamos em grupo a gravidez acidental da prima mais velha duma colega:

- Acho que foi com uma vela.
- Estúpida! Não se pode ficar grávida com uma vela!
- Porquê?
- Não sei... Mas não pode. Eu já li.
- Onde?
- Já não me lembro.
- Não leste em lado nenhum, estás-te só a armar!
- Mas é verdade, ela tem razão! Não se pode ficar grávida com uma vela!
- Ai é? E porquê?
- Então, porque uma vela não tem... reacção.
- Ai é?
- Reacção? Mas que reacção? Que conversa tão parva!
- Então, reacção reacção! Não se mexe!
- Pois é! Como é que a vela fez isso?

sábado, 27 de junho de 2009

-Mãe! Estive a ver as horas no relógio da casa de banho!
-No relógio da casa de banho? -perguntei, certa de que não tínhamos lá nenhum.
-Sim! Aquele que está no chão! Quando subimos lá para cima ele dá as horas!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A rapariga ia lendo na revista feminina de cor sépia pousada na mesinha de cabeceira, as técnicas para saber se tinha celulite, coisa que a indústria da moda e dos cosméticos tinha começado a tornar impopular e odiada embora quase ninguém soubesse o que era ou fosse capaz de reconhecê-la.
"Coloque ambas as mãos na coxa e aperte com força". Ela ia lendo e seguindo as instruções. "Verifique se a pele adquire o aspecto de casca de laranja". Ela olhou para o pedaço da sua própria carne apertado firmemente entre as mãos. Assim asfixiada e quase a ficar branca devido à falta de circulação, não conseguia ver ali qualquer parecença com casca de laranja, nem tão pouco imaginar como seria uma coxa com aspecto da dita fruta. Intrigada, resolveu tentar de novo. Desta vez apertou com mais força. Entre as mãos estava uma coxa adolescente, de novo muito branca e a formar algumas pequenas pregas devido à enorme pressão a que estava sujeita, embora quase imperceptíveis. "Aspecto de casca de laranja não deve ser na cor" - pensou ela - "deve ser por ficar assim a formar uns risquinhos... Quer dizer, a casca de laranja não tem risquinhas, mas deve ser em sentido figurado."
Sentou-se na cama e voltou a ler o texto na página dobrada para trás da Crónica Feminina. Levantou-se e resolveu tentar outra vez. Olhou, pensou, olhou, pensou, olhou, pensou e começou a ficar levemente angustiada. Continuou a leitura: "A celulite afecta cerca de 95% das mulheres e é ruinosa do ponto de vista estético". Noventa e cinco por cento! Estatisticamente, ela tinha celulite! A angústia aumentou. Só podia ter. Apertou a coxa de novo e agora já era capaz de jurar que conseguia ver pequenos monstros remexendo-se diabolicamente debaixo da pele. Tinha celulite!
A partir daí, passou a usar sempre blusas ou t-shirts muito compridas para que ninguém notasse e só ia à praia de calções. Quando a interrogavam sobre essa opção, dizia que tinha frio. Durante anos a fio nunca foi capaz de ver que o seu traseiro era diferente dos traseiros que via na praia e que pareciam ter crateras e vida própria, nem nunca se lembrou de pôr a hipótese de isso, sim, ser celulite, e não o seu rabo formado por duas meloas lisas e duras.
Só descobriu isso muitos anos mais tarde, quase com quarenta anos de idade. E foi preciso alguém lhe dizer.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Aprender orações era a coisa que mais me custava. Não sei porquê. Logo eu, que era capaz de decorar rios, montanhas, capitais e caminhos de ferro, sabia de cor a lista de reis e as respectivas dinastias, a tabuada e tudo aquilo que de qualquer forma me podia poupar a uma sessão de reguadas! O Pai Nosso ainda lá foi, a Avé Maria também. Agora aquela coisa a que chamavam Salvé Rainha, nem com açúcar! Parece que havia um mecanismo na minha cabeça que, cada vez que eu tentava decorar aquilo dizia "Chega de palermice!" e bloqueava qualquer hipótese de êxito.
E foi com esta lacuna grave que eu cheguei à véspera da primeira comunhão. Azar!
Nesse dia fui-me confessar, era obrigatório. Para nos apresentarmos ao grande momento do ritual de passagem de alma pura, contávamos ao padre os grandes crimes que tínhamos cometido e que eram iguais para todas: Pensei mal das minhas amigas, desobedeci aos meus pais e faltei à missa por desleixo. Claro que, na prática, só a primeira era possível. Não nos pormos logo em sentido a uma ordem paterna, nesse tempo, era impensável, e faltarmos à missa, só se tivesse havido um cataclismo e o mundo estivesse a acabar. Mas era esta a lista oficial de pecados duma criança e nós não conhecíamos outra.
Quando chegou a minha vez, algo me dizia que aquilo ia correr mal. Certinho! Assim que acabei de enumerar os meus pecados e o padre acabou de me explicar como eu era uma menina má que precisava duma penitência pesada, já eu estava a fazer contas de cabeça a ver quanto tempo demoraria a chegar a casa para ver os desenhos animados, e eis que ele teve um assomo de clarividência:
- Olha lá! Antes de ires embora, reza aí a Salvé Rainha!