domingo, 12 de julho de 2009

- E pronto. É tudo.
- Mas eu agora não me vou embora.
- Desculpe, não entendi.
- Ah pois! Estive uma hora e quarenta à espera da minha vez, agora tenho o direito de ficar aqui uma hora e quarenta a ser atendido!

Será a isto que chamam "A Lógica da Batata"?

sábado, 11 de julho de 2009

-E aqui onde diz "na qualidade de", ponho "pedinte" não é?
-Pedinte??? Porquê?
-Porque sou eu que venho pedir a certidão...
-Ah... pois... Não, ponha proprietário.

A língua portuguesa é muito traiçoeira.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Foi num sarau de ginástica onde ia actuar a minha filha mais velha, num esquema colectivo de fitas e bolas. E eu lá fui, com os outros dois mais novos e armada de câmara de vídeo, daquelas VHS que eram capazes de matar alguém se lhe caísse em cima da cabeça.
Depois de muita seca e de miúdas e graúdas a dançar porcarias sem jeito nenhum, chegou a vez dela. Eu, lá me levantei, de câmara em punho, e escolhi o melhor ângulo para captar para a posteridade aquele grande momento para a humanidade. Nervosa, claro! E se ela se enganasse? E se corresse mal?
O esquema começou com as miúdas em pose de partida, todas penteadinhas e de fatinho igual, tão lindas! Mais linda a minha do que as outras, claro! Mas a cerca de um minuto do fim, aconteceu o que eu mais temia: A fita da minha filha enrolou-se na fita de outra e ambas deram um nó que, quanto mais se puxava, mais cego se tornava. E enquanto o resto do grupo continuava o esquema, confuso com o que estava a acontecer, a minha filha e a outra miúda desatavam um nó à unha, paradas no meio do pavilhão. E eu ali, de câmara de vídeo na mão, lavada em lágrimas...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Esperei o meu primeiro irmão com impaciência. Por um lado, porque precisava de alguém para brincar, por outro porque precisava de alguém para brincar, já! Mas na verdade, com o avanço de quatro anos que eu levava do futuro rebento, era com alguma apreensão que via a possível falta de capacidade do dito para me vir a acompanhar, visto que ainda iria passar por aquelas fases chatas das fraldas, de não saber andar e só dormir, de não saber falar mas só chorar e de passar a vida com a chupeta na boca, enquanto que eu não parava de crescer. Para minimizar o prejuízo que todas estas evidências me trariam, desejava que pelo menos saísse rapariga, já que não conhecia nenhum rapaz que fosse suficientemente competente para montar uma casinha de brincar, vestir as bonecas, pô-las por ordem para o chá da tarde ou fingir que uma panelinha de plástico cheia de pedras e terra era uma sopa. Curiosamente, os meus pais passavam a vida a desejar que fosse um rapaz. Logo eles, que até aí sempre me tinham feito as vontades! Falavam com os amigos e os vizinhos e diziam que gostavam de ter "um casalinho", coisa que eu achava estranha por não ter a menor intenção de vir a casar com o meu irmão.
Finalmente, quando chegou a hora, o destino confirmou que todos os deuses estavam contra mim, nasceu mesmo um rapaz! Pior ainda! Embora eu esperasse pacientemente dia após dia que ele saísse daquela espécie de coma consciente em que os bebés vivem mergulhados para o ensinar a brincar às casinhas e a andar de triciclo, ele não aparentava qualquer sintoma de progresso. Como se não bastasse, a minha mãe passou a andar obcecada por aquela cagona criatura e deixou, como por magia, de me fazer as vontades. Por isso, resolvi tomar o assunto nas minhas próprias mãos: Um belo dia em que todos os adultos da casa estavam distraídos, aproximei-me do casulo de rendas e folhinhos onde a entidade dormia descansada e de consciência tranquila como se não tivesse culpa de nenhum dos cataclismos que se passavam à sua volta e tentei desmontá-la como fazia às bonecas de que já estava farta. Não consegui. Ainda eu estava no princípio da missão, a tentar separar a mão direita do braço, quando os berros histéricos daquela coisa atraíram a atenção de toda a gente que acorreu em seu auxílio. Fiquei de castigo, e que me lembre foi a primeira vez que tal aconteceu. Passei muitos dias e meses a perguntar a mim mesma se não seria possível devolver aquela encomenda à cegonha francesa que a tinha trazido. Foi preciso passar alguns anos para que eu me habituasse ao novo ser sem ter vontade de o tele-transportar para marte.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um momento inesquecível foi quando a Tia M**** trouxe das Caldas da Rainha, para oferecer à D. S*******, senhora com pretensões a muito educada e fina, um baton de onde saía, quando se rodava, uma pilinha vermelha pequenina como a dos cãezinhos lulus.
- Ai, obrigada, porque é que se esteve a maçar? - perguntava ela antes de abrir o presente, com aquele tom de quem quer dizer de facto "Esta gaja pensa que eu não tenho batons? Para que raio quero eu esta porcaria?"
E logo a seguir, com aquilo na mão já de segredo desvendado, os netinhos à volta em grandes risadas, sem saber se devia rir também ou atirar com o fálico cosmético à cabeça da velha. Optou por um sorriso muito, mas mesmo muito amarelo. E sobretudo, indisfarçavelmente contrariado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Criar enormes redes de amigos não é uma necessidade de hoje quando se tem menos de vinte anos. Hoje, essa tarefa apenas é facilitada pela internet. Mas nós também o fazíamos, duma forma que hoje suscita tantas questões à miudagem como o mistério de termos que nos levantar do sofá para mudar de canal (quando passou a haver mais do que um).
Fazíamo-lo por carta. Sim, carta, aquelas coisas escritas em papel com esferográfica e metidas dentro dum envelope, que por sua vez leva um selo colado com cuspe e demora pelo menos um dia a chegar ao destinatário. Eu, por volta dos meus treze ou catorze anos, tinha um enorme grupo de amigos virtuais, que não conhecia pessoalmente, e com quem trocava ávida correspondência. Hoje, lembro-me particularmente dum rapaz que morava na Venda do Pinheiro. Trocámos mensagens sucessivas acerca da localização geográfica de tal sítio, eu a perguntar onde ficava e ele a responder-me que era ao pé da Asseiceira Grande. Até que desisti de perceber. Se ele me tem dito que era xis kilómetros a norte de Lisboa, tudo tinha sido simples. Mas acho que nesse tempo, o mundo de cada um era mais pequenino.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Lembro-me distintamente desta conversa que tive com o meu professor de música e a minha professora primária, que era a mulher dele, quando tinha nove anos. Lembro-me como se tivesse sido há bocadinho durante o almoço. Lembro-me melhor dela do que de coisas que fiz ontem.

EU: Porque é que vocês só ouvem música velha?
ELA: Nós ouvimos música do tempo em que éramos jovens como tu.
ELE: É assim que as coisas acontecem sempre. As pessoas ficam marcadas pela música da sua juventude e é dessa que gostam durante toda a vida. Percebes?
EU: Eu acho que não vou ser assim...
ELA: Vais vais! Tu agora é que achas que não vais! Mas com os anos vais ver, lembra-te desta conversa daqui a uns trinta ou quarenta anos e pensa - Afinal eles tinham razão!"

E eu lembro-me. Muitas vezes. Lembro-me que afinal eles não tinham razão.

domingo, 5 de julho de 2009

A senhora inclinou-se na minha direcção e segredou-me excitadíssima:
- Já viu ali atrás de mim?
Eu olhei e o que vi foi uma sala de espera cheia de gente para atender a dez minutos da hora de encerrar. Já sem muita paciência perguntei-lhe:
- Não vejo nada de especial, é o quê?
- Shhhhhhh!!! - recomendou ela aflita - Ali! Mesmo atrás de mim! É a Sónia, a que esteve no Big Brother!!!
- Não conheço - respondi.
Depois, perante o ar decepcionado, quase humilhado, da minha interlocutora, tentei remediar qualquer coisinha:
- Sabe, é que eu não vejo televisão.

sábado, 4 de julho de 2009

Ela era assim. Não era totalmente má pessoa, que eu saiba nunca matou ninguém à fome nem com tortura lenta, nunca fez um desfalque no emprego nem tinha cadáveres enterrados no quintal. Mas era assim.
No dia em que a levei comigo ao super-mercado, estavam à entrada a oferecer amostras duma marca nova de detergente. Eu entrei, ofereceram-me uma caixinha, eu aceitei e fui à minha vida. Entretanto deixei de a ver e já começava a pensar que, apesar de chata como a potassa, a tinham raptado. Mas meia hora depois desfez-se o mistério. Ela apareceu ao pé de mim com um ar vitorioso como se lhe tivessem conferido um doutoramento honoris causa e contou-me orgulhosíssima o que tinha andado a fazer:
- Eles estavam a oferecer detergente, viste? Então eu passei uma vez e saí, dei meia volta e entrei outra vez. Fiz isso dez vezes! E só parei porque os antipáticos me disseram que já tinha passado muitas vezes e não me davam mais!
Então, feliz como uma noiva de Santo António, desviou um pouco o casaco que trazia dentro do carrinho de compras para que eu visse o espólio: Dez caixas de amostra do novo detergente!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

De todas as fotografias do meu passado, há umas que me perturbam particularmente. São as do primeiro casamento do meu tio J***, que contrariou a tradição casando em pleno inverno. Não foi com certeza por isso que o casamento durou pouco, mas foi por isso que se tornou um dos maiores dramas da minha vida.
Como sempre acontece em casamentos e baptizados, todos os convidados vão de farpela nova. E assim foi no caso vertente. Apenas com um pequeno pormenor: Naquele tempo, não era costume perguntar-se às crianças o que queriam vestir, apresentava-se-lhe a roupa decidida e estava feito. E foi o que fez a minha mãe, que me comprou umas calças de fazenda e uma camisola de pura lã, tudo de óptima qualidade, afiançava ela com a boca a fugir-lhe para o "Ingrata!", e eu acreditava, mas cuja aspereza me fez andar todo o dia direita, quase sem me mexer. Qualquer movimento em falso me provocava comichões insuportáveis.
Quando olho para mim naquelas fotografias, é isto que vejo: Um robot da legião de tropas do Darth Vader.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A professora mandou fazer um poema para o dia da mãe e eu fiz. Naquele tempo, fazer o que as professoras mandavam era uma questão de sobrevivência.
Não é que eu não tivesse feito qualquer coisa para o dia da mãe, voluntária e alegremente. Só que talvez não fizesse um poema. Talvez inventasse um novo gadget para a cozinha, talvez fizesse uma pintura abstractamente tosca, ou qualquer outra coisa tão inútil como um poema. Mas se era preciso um poema, que saísse um poema! O meu centrou-se numa metáfora em oito versos e duas estrofes em que eu e os meus irmãos éramos retratados como frágeis passarinhos no ninho e a minha mãe era a incansável mãe pássara que passava o dia à minhoca para nos alimentar, grandes alarves! Azar tive quando a professora ficou tão espantosamente impressionada que enfiou na cabeça que eu havia de declamar aquilo na festa de final de ano que fazíamos habitualmente no salão da paróquia para toda a aldeia. Na verdade, a nossa festa era um êxito tão grande em *** ******** como as peças do La Feria são agora no Porto e todo o povo aguardava ansiosamente e pagava de bom grado os cinco escudos que custava a entrada e cuja receita revertia para a creche e/ou a biblioteca. Houve um ano em que, a pedido de várias famílias, tivemos que fazer duas sessões, sendo que a última acusou o nosso amadorismo em falhas, esquecimentos e barracadas várias.
A verdade é que, quanto mais eu lia o poema, mais o achava estúpido e menos me apetecia lê-lo em público. Só que não havia alternativa, se era para ler era para ler. E no dia da récita lá estava eu, infeliz como um jumento abandonado, a pensar como iria evitar uma apoplexia quando subisse ao palco. Quando chegou a hora fatal pensei que morria. Senti-me a criatura mais estúpida do planeta terra enquanto declamava o meu próprio poema e olhava lá para baixo, com a minha mãe a chorar de emoção e as outras mulheres a acenar com a cabeça em sinal de aprovação por tão grande prova de amor filial.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Há muitos muitos anos, num dos meus primeiros empregos, tive uma utente com o nome mais divertido com que já tive a oportunidade de me cruzar.
Nunca contei a ninguém, assim publicamente, mas agora acho que posso, até porque a senhora era tão velhinha e foi há tanto tempo que já nem deve ser viva.
Era a D: Maria da Conceição da Pita Lavada.
Pita da mãe e Lavada do pai...