Esperei o meu primeiro irmão com impaciência. Por um lado, porque precisava de alguém para brincar, por outro porque precisava de alguém para brincar, já! Mas na verdade, com o avanço de quatro anos que eu levava do futuro rebento, era com alguma apreensão que via a possível falta de capacidade do dito para me vir a acompanhar, visto que ainda iria passar por aquelas fases chatas das fraldas, de não saber andar e só dormir, de não saber falar mas só chorar e de passar a vida com a chupeta na boca, enquanto que eu não parava de crescer. Para minimizar o prejuízo que todas estas evidências me trariam, desejava que pelo menos saísse rapariga, já que não conhecia nenhum rapaz que fosse suficientemente competente para montar uma casinha de brincar, vestir as bonecas, pô-las por ordem para o chá da tarde ou fingir que uma panelinha de plástico cheia de pedras e terra era uma sopa. Curiosamente, os meus pais passavam a vida a desejar que fosse um rapaz. Logo eles, que até aí sempre me tinham feito as vontades! Falavam com os amigos e os vizinhos e diziam que gostavam de ter "um casalinho", coisa que eu achava estranha por não ter a menor intenção de vir a casar com o meu irmão.
Finalmente, quando chegou a hora, o destino confirmou que todos os deuses estavam contra mim, nasceu mesmo um rapaz! Pior ainda! Embora eu esperasse pacientemente dia após dia que ele saísse daquela espécie de coma consciente em que os bebés vivem mergulhados para o ensinar a brincar às casinhas e a andar de triciclo, ele não aparentava qualquer sintoma de progresso. Como se não bastasse, a minha mãe passou a andar obcecada por aquela cagona criatura e deixou, como por magia, de me fazer as vontades. Por isso, resolvi tomar o assunto nas minhas próprias mãos: Um belo dia em que todos os adultos da casa estavam distraídos, aproximei-me do casulo de rendas e folhinhos onde a entidade dormia descansada e de consciência tranquila como se não tivesse culpa de nenhum dos cataclismos que se passavam à sua volta e tentei desmontá-la como fazia às bonecas de que já estava farta. Não consegui. Ainda eu estava no princípio da missão, a tentar separar a mão direita do braço, quando os berros histéricos daquela coisa atraíram a atenção de toda a gente que acorreu em seu auxílio. Fiquei de castigo, e que me lembre foi a primeira vez que tal aconteceu. Passei muitos dias e meses a perguntar a mim mesma se não seria possível devolver aquela encomenda à cegonha francesa que a tinha trazido. Foi preciso passar alguns anos para que eu me habituasse ao novo ser sem ter vontade de o tele-transportar para marte.