sábado, 18 de julho de 2009

Era uma família que passeava pelo centro comercial: Pai, mãe e uma miúda franzina de uns 10 anos.
Eu cruzei-me com eles várias vezes, e de todas elas disse mal da minha visão raio x para a vida particular das pessoas que não conheço de lado nenhum e nem de longe sonham que estão a ser observadas desta forma. Mas como é que eu podia não os achar óptimas personagens de romance picaresco? Só se fosse ceguinha!
Porque a figurinha deles era esta, sem pôr nem tirar: Uns dez passos atrás vinha o pai, magrinho e frágil, de camisa aberta com muitos pelos no peito, de mão dada com a miúda que como já disse era franzinha. À frente, a abrir caminho e a indicar a direcção a tomar, vinha a mãe. Grande e gorda, com muitos pneuzinhos estilo michelin e exibindo uma t-shirt cor-de-rosa schock, com a frase, a dourado: I'M TOO SEXY!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A minha avó tomou uma decisão e convocou todo o mulherio da família para ir limpar a drogaria do meu avô, à revelia. Segundo ela, aquela loja já não via uma limpeza há mais de trinta anos! Para mim foi uma excitação. Trinta anos era mais do triplo da minha idade na altura, o que significava que era bem possível encontrar ovos de dinossauro ao varrer o chão. Por isso, também quis ir!
Não encontrei os ovos, nem caveiras de pirata nem tesouros de princesa, mas também não me decepcionei. O lixo do chão já não saía à vassoura, mas saiu à picareta, em grossas camadas de bedum cinzento que, pensei eu, fariam as delícias de qualquer arqueólogo! Ou então, podia servir de plasticina, em quantidade suficiente para construir majestosas estátuas. Infelizmente não me deixaram mexer naquilo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Acordei a meio da noite com um barulho ensurdecedor que não reconheci de imediato. Ainda a meio caminho entre a consciência e o sonho, levantei a cabeça da almofada alguns centímetros e tentei perceber o que se passava. Era música. Música da berra, qualquer coisa que se ouve mal se liga o rádio do carro. Depois alguns comentários em língua inglesa e outra canção mais conhecida do que fazer em França. "Grande lata!" - pensei eu - "A estas horas a ver televisão nestes decibéis, e num prédio! Amanhã tenho que me levantar cedo para ir trabalhar! Quem será o cabrão?"
Levantei-me e fui à janela tentar descobrir de que apartamento vinha aquele chinfrim. Era do lado direito. "Caramba! Não me digam que são os velhotes do 3.º B!".
Voltei para a cama. Fosse quem fosse, talvez se cansasse e desligasse aquilo em breve. Mas nem pensar. A festa continuou por mais uma boa meia-hora, e eu já a ficar numa pilha de nervos e com vontade de atirar um vaso da varanda contra a janela de alguém. Decididamente, assim, nem valia a pena tentar dormir. Levantei-me para ir ao xixi e a seguir fui à cozinha fazer um chá. Ainda ia no corredor quando vi umas luzes que piscavam da porta da minha cozinha. "O que é isto?" - pensava eu já um bocado assustada.
Entrei. E nem me digam nada. A minha própria televisão, que andava um bocado marada, tinha-se ligado sozinha e estava sintonizada na MTV em altos berros. Desliguei-a, envergonhada, e fui-me deitar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A minha avó tinha ido a Fátima e trouxe uma caixinha de música que tocava o Avé Maria.
Era uma espécie de casota de cão pequenina mas decorada a flores brancas de plástico e com uma portinha de vidro que permitia ver, lá dentro, a imagem da santa olhando de viés para o chão como se não tivesse nada a ver com nada. E depois abria-se a portinha de vidro e a música arrancava. Era a versão instrumental em xilofone barato do tema que eu estava habituada a ouvir em vozes esganiçadas de beatas velhas: A treze de Maio, na Cova de Iria, aos três pastorinhos, apareceu Maria. Avéééééé!!! Avééééé!!! Avé Mariaaaaaaaaaaa!!!!...
Quando não tinha nada para fazer e estava à espera que começasse a emissão da RTP, sentava-me na poltrona do meu avô a abrir e a fechar a porta da caixa de música muito depressa para fazer a música parar e arrancar sem nexo. Quando me fartei dessa brincadeira, tentei pôr a música a tocar de trás para a frente, o que exigiu alguns ajustes técnicos na máquina, embora sem sucesso. Depois, tentei virar a cabeça santa para cima e arranquei as pombinhas pousadas em cima da base da imaculada vestimenta.
E foi assim que a minha avó ficou sem a caixinha de música.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Encontrei uma ex-aluna, daquelas que ficam na memória. No ano em que fui professora dela, teimou que queria ser modelo fotográfico e queria que a escola a autorizasse a levar uns amigos para a fotografarem na escadaria em bikini. Para fazer o portfolio, dizia ela.
Era uma aluna um pouco abaixo de medíocre. Durante as aulas, olhava para nós com os olhos muito abertos como se estivesse a acontecer alguma coisa fantástica e para aí a quinze minutos de acabar, perguntava:
- Oh professora, isso já é matéria?
Era um desespero. Mas não era má rapariga. Pelo contrário, apesar de nos moer o juízo com as suas ideias disparatadas, era fácil simpatizar com ela. Estava sempre feliz.
Encontrei-a. Pesa mais uns vinte quilos e vende peixe numa carrinha frigorífica.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

- Esse terreno fica em reserva ecológica, duvido que lhe seja autorizada uma construção aí.
- Isso é o que vamos ver!
- Estou apenas a informá-lo, como me compete (que é como quem diz, estou-me a borrifar para os teus esquemas, não te conheço, não sou tua amiga nem quero ser)
Ele arrumou os papéis e levantou-se para sair. Mas antes, ainda fez o favor de deixar a dica:
- Sabe que há muita maneira de fazer um burro comer palha!

Sei. E também sei que devia ganhar o dobro.

domingo, 12 de julho de 2009

- E pronto. É tudo.
- Mas eu agora não me vou embora.
- Desculpe, não entendi.
- Ah pois! Estive uma hora e quarenta à espera da minha vez, agora tenho o direito de ficar aqui uma hora e quarenta a ser atendido!

Será a isto que chamam "A Lógica da Batata"?

sábado, 11 de julho de 2009

-E aqui onde diz "na qualidade de", ponho "pedinte" não é?
-Pedinte??? Porquê?
-Porque sou eu que venho pedir a certidão...
-Ah... pois... Não, ponha proprietário.

A língua portuguesa é muito traiçoeira.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Foi num sarau de ginástica onde ia actuar a minha filha mais velha, num esquema colectivo de fitas e bolas. E eu lá fui, com os outros dois mais novos e armada de câmara de vídeo, daquelas VHS que eram capazes de matar alguém se lhe caísse em cima da cabeça.
Depois de muita seca e de miúdas e graúdas a dançar porcarias sem jeito nenhum, chegou a vez dela. Eu, lá me levantei, de câmara em punho, e escolhi o melhor ângulo para captar para a posteridade aquele grande momento para a humanidade. Nervosa, claro! E se ela se enganasse? E se corresse mal?
O esquema começou com as miúdas em pose de partida, todas penteadinhas e de fatinho igual, tão lindas! Mais linda a minha do que as outras, claro! Mas a cerca de um minuto do fim, aconteceu o que eu mais temia: A fita da minha filha enrolou-se na fita de outra e ambas deram um nó que, quanto mais se puxava, mais cego se tornava. E enquanto o resto do grupo continuava o esquema, confuso com o que estava a acontecer, a minha filha e a outra miúda desatavam um nó à unha, paradas no meio do pavilhão. E eu ali, de câmara de vídeo na mão, lavada em lágrimas...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Esperei o meu primeiro irmão com impaciência. Por um lado, porque precisava de alguém para brincar, por outro porque precisava de alguém para brincar, já! Mas na verdade, com o avanço de quatro anos que eu levava do futuro rebento, era com alguma apreensão que via a possível falta de capacidade do dito para me vir a acompanhar, visto que ainda iria passar por aquelas fases chatas das fraldas, de não saber andar e só dormir, de não saber falar mas só chorar e de passar a vida com a chupeta na boca, enquanto que eu não parava de crescer. Para minimizar o prejuízo que todas estas evidências me trariam, desejava que pelo menos saísse rapariga, já que não conhecia nenhum rapaz que fosse suficientemente competente para montar uma casinha de brincar, vestir as bonecas, pô-las por ordem para o chá da tarde ou fingir que uma panelinha de plástico cheia de pedras e terra era uma sopa. Curiosamente, os meus pais passavam a vida a desejar que fosse um rapaz. Logo eles, que até aí sempre me tinham feito as vontades! Falavam com os amigos e os vizinhos e diziam que gostavam de ter "um casalinho", coisa que eu achava estranha por não ter a menor intenção de vir a casar com o meu irmão.
Finalmente, quando chegou a hora, o destino confirmou que todos os deuses estavam contra mim, nasceu mesmo um rapaz! Pior ainda! Embora eu esperasse pacientemente dia após dia que ele saísse daquela espécie de coma consciente em que os bebés vivem mergulhados para o ensinar a brincar às casinhas e a andar de triciclo, ele não aparentava qualquer sintoma de progresso. Como se não bastasse, a minha mãe passou a andar obcecada por aquela cagona criatura e deixou, como por magia, de me fazer as vontades. Por isso, resolvi tomar o assunto nas minhas próprias mãos: Um belo dia em que todos os adultos da casa estavam distraídos, aproximei-me do casulo de rendas e folhinhos onde a entidade dormia descansada e de consciência tranquila como se não tivesse culpa de nenhum dos cataclismos que se passavam à sua volta e tentei desmontá-la como fazia às bonecas de que já estava farta. Não consegui. Ainda eu estava no princípio da missão, a tentar separar a mão direita do braço, quando os berros histéricos daquela coisa atraíram a atenção de toda a gente que acorreu em seu auxílio. Fiquei de castigo, e que me lembre foi a primeira vez que tal aconteceu. Passei muitos dias e meses a perguntar a mim mesma se não seria possível devolver aquela encomenda à cegonha francesa que a tinha trazido. Foi preciso passar alguns anos para que eu me habituasse ao novo ser sem ter vontade de o tele-transportar para marte.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um momento inesquecível foi quando a Tia M**** trouxe das Caldas da Rainha, para oferecer à D. S*******, senhora com pretensões a muito educada e fina, um baton de onde saía, quando se rodava, uma pilinha vermelha pequenina como a dos cãezinhos lulus.
- Ai, obrigada, porque é que se esteve a maçar? - perguntava ela antes de abrir o presente, com aquele tom de quem quer dizer de facto "Esta gaja pensa que eu não tenho batons? Para que raio quero eu esta porcaria?"
E logo a seguir, com aquilo na mão já de segredo desvendado, os netinhos à volta em grandes risadas, sem saber se devia rir também ou atirar com o fálico cosmético à cabeça da velha. Optou por um sorriso muito, mas mesmo muito amarelo. E sobretudo, indisfarçavelmente contrariado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Criar enormes redes de amigos não é uma necessidade de hoje quando se tem menos de vinte anos. Hoje, essa tarefa apenas é facilitada pela internet. Mas nós também o fazíamos, duma forma que hoje suscita tantas questões à miudagem como o mistério de termos que nos levantar do sofá para mudar de canal (quando passou a haver mais do que um).
Fazíamo-lo por carta. Sim, carta, aquelas coisas escritas em papel com esferográfica e metidas dentro dum envelope, que por sua vez leva um selo colado com cuspe e demora pelo menos um dia a chegar ao destinatário. Eu, por volta dos meus treze ou catorze anos, tinha um enorme grupo de amigos virtuais, que não conhecia pessoalmente, e com quem trocava ávida correspondência. Hoje, lembro-me particularmente dum rapaz que morava na Venda do Pinheiro. Trocámos mensagens sucessivas acerca da localização geográfica de tal sítio, eu a perguntar onde ficava e ele a responder-me que era ao pé da Asseiceira Grande. Até que desisti de perceber. Se ele me tem dito que era xis kilómetros a norte de Lisboa, tudo tinha sido simples. Mas acho que nesse tempo, o mundo de cada um era mais pequenino.