domingo, 26 de julho de 2009

- Eu queria uma planta se faz favor.
- Uma planta topográfica?
- Não, tipográfica.
- Tipográfica não existe, deve ser topográfica que a senhora quer.
- Não, tenho a certeza que é tipográfica!
- Então vamos lá ver se nos conseguimos entender. Uma planta topográfica é onde aparece um determinado local, numa escala que pode variar para podermos ter mais ou menos pormenor. Certo?
- Certo. Mas não é isso que eu quero.
- Outro tipo de planta que lhe posso fornecer é uma planta de arquitectura. Essa mostra um determinado edifício visto de cima, com as divisórias interiores...
- É isso que eu quero! Mas isso não é uma planta de arquitectura, é uma planta tipográfica.
- Acha?
- Claro! É a planta que mostra que tipo de casa é aquela. Por isso, é uma planta tipográfica!

sábado, 25 de julho de 2009

O mundo é pequeno, é certo que isto é um cliché, mas às vezes é mesmo mais pequeno do que gostaríamos que fosse.
Há alguns anos conheci um homem de quem não se pode dizer que tenha gostado. Lembro-me que a filha mais velha tinha acabado de se divorciar e tinha juntado os trapinhos com outro homem, e ele dizia aos quatro ventos para quem quisesse ouvir que - "A minha filha? A minha filha é uma puta!!! É a vergonha da família!". Aquilo fazia impressão a toda a gente, mesmo aos mais retardados e retrógrados membros da comunidade, pois até esses seriam capazes de, na altura em que a natureza chama, se tranformarem em ursas ou leoas e defenderem as suas crias, como toda a gente. Aquilo era como ouvir uma faca afiada a raspar numa panela de alumínio.
Anos mais tarde conheci uma mulher, um pouco mais nova do que eu, preocupada com a saúde do pai que já tinha tido uma ameaça de enfarte e ia todos os dias lá a casa saber dele. Com o evoluir da conversa, concluí que se tratava, nem mais nem menos, da horrível criatura que anos antes assim tinha tratado a própria filha e que essa filha... era ela!
Agora, de cada vez que a ouço falar do pai com preocupação e natural amor filial, apetece-me tanto mandá-la calar!...
Mas não posso fazer isso pois não?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

E naquele tempo eu era muito jovem, muito branca e muito leve e tinha permanentemente por baixo dos olhos umas leves olheiras. Precisamente o oposto dos ideiais de beleza das senhoras velhinhas amigas da minha sogra, que eram do tempo em que as moças beliscavam as faces antes de ir à janela e usavam anquinhas por baixo dos vestidos. Assim, em conselho de anciãs, concluíram que o meu aspecto, aliado ao facto de eu comer yogurtes (essa mistela esquisita feita de leite estragado), era sinal inequívoco de que o meu sangue era mau, e contavam-me histórias de meninas que comiam yogurtes e morreram de leucemia no meio de grande agonia e sofrimento, como forma de me explicar que devia comer bifes e batatas e gemadas com cerveja preta.
Eu tentei não lhes dar importância, mas a insistência da conversa entranhou-se na minha cabeça e eu dei comigo a ler um livro sobre sintomas de doenças que havia lá em casa. Dizia às tantas que um dos sintomas da leucemia era a pela extremamente macia. Com a pulga atrás da orelha, perguntei ao meu marido: - "Achas que eu tenho a pele muito macia?" - "Acho pois!" - respondeu ele, certo de estar a fazer o que era correcto.
Eu desatei a chorar, e acho que essa foi uma das vezes em que um homem pensou que nunca se sabe como é que se pode agradar a uma mulher.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

E eis que o senhor muito bem posto e supostamente bem falante se sentou e abordou a questão do seguinte modo:

- Eu estava convencido que o processo já tinha seguido todos os seus "traumas", e afinal agora "recevi" esta carta!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Era um homem quase grosseiro quase bonacheirão e o seu filho, miúdo de uns oito anos, vivaço.
Sentaram-se ambos à minha frente e chamou-me imediatamente a atenção a postura adulta e compenetrada da criança. Vinham por umas cópias dum projecto de arquitectura do qual não sabiam, nem o número, nem o nome. Mostrei-lhes o local em fotografia aérea, no monitor, e pedi-lhes que assinalassem o prédio exacto.
- Não é nada disso! - respondeu logo o pai - Não há lá nada que seja assim!
- É é! - adiantou-se o filho - então não vês aqui a nossa rua? E aqui a escola?
- Não é nada! Não queiras saber mais do que eu! - respondeu o pai já a ficar irritado.
- Ai isso é que é! - insistiu o garoto. E numa atitude surpreendente, dirigiu-se directamente a mim - Minha senhora, isso dá para pôr os nomes das ruas a aparecer?
- Dá - respondi - mas na verdade ainda nem todas estão cadastradas! - e accionei o layer com a toponímia.
- Estás a ver que não é? - disse o pai orgulhoso - A nossa rua não é essa!
-É - explicou o menino pacientemente - o nome que aqui está é o da rua ao lado, porque o nome da nossa rua ainda não aparece. Mas o prédio está aqui, é este! - e apontou com o dedo.

Depois de tudo estar resolvido e de ter chegado a altura de emitir a guia para pagamento das cópias, pedi ao pai o número de contribuinte, que ele papagueou logo ali sem se enganar e sem olhar a cábula.
- Ena! - comentou o filho - Tu sabes o teu número de cor? Eu não sei os meus!
- É para que vejas que no meu tempo, só com a quarta-classe, ficávamos a saber mais do que vocês agora com a universidade toda feita! Sabíamos decorar! Vocês não sabem nada! - e a seguir dirigiu-se a mim - É ou não é verdade minha senhora?

Eu... desviei os olhos e nem respondi.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O menino, sentado na mesa do café, jogava playstation, alheado. A empregada que veio saber o que se encomendava comentou, orgulhosa como se tivesse acabado de formular uma teoria matemática para a posteridade:

- Tu tens uma playstation cor-de-rosa? Não tens vergonha? Cor-de-rosa é para as meninas!

A criança, sem responder, aproximou mais o rosto do jogo e calculo que tenha entrado para o lado de dentro e ficado rodeado de personagens fantásticas dum mundo onde não há cores apropriadas. A avó, em vez de a defender (ou pelo menos pôr aquela empregada empertigada no lugar o que valeria o mesmo), olhou condescendente para o neto, e adivinhou-se-lhe no olhar que concordava, como quem há muito se sente embaraçada por ter um neto “mariquinhas”.

Eu observava da mesa ao lado e não interferi. Mas tive muita vontade. Vontade de ir lá e dizer ao menino que fosse sempre feliz pela vida fora, feliz e simples como as árvores e como os rios, que se limitam a “ser” sem pensar em cores. Que teria que ser respeitado, até mesmo pela avó, com o seu ar de peninha dele e de si própria. Mas não fui. Fora dos jogos da playstation, as personagens não interagem à vontade, quando lhes apetece. Obedecem a regras, como a do “conhecimento pessoal”.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Estava a chegar da escola e a minha mãe chamou-me ansiosa. Não era aquela ânsia na voz que denunciava que eu tinha feito uma asneira qualquer e ia ficar de castigo. Era uma espécia de excitação que eu ainda não conhecia, por isso respondi ao chamado tranquila. A família estava quase toda reunida na sala de olhos postos na televisão. Quase, porque faltava o meu pai que estava sempre em qualquer lugar distante onde havia guerra contra pessoas escuras que eram más.
Eu olhei para o écran a tentar descortinar o que se passaria de tão importante. Como só vi imagens desfocadas e cheias de grão como quando havia temporal e a antena se virava no telhado, perguntei o que vinha a ser aquilo que os prendia a todos daquela maneira.
- É o homem na lua! - respondeu-me a minha mãe como se fosse imperdoável não estar tão entusiasmada como ela - O homem chegou à lua! Estão a aterrar lá!
Assim sendo, decidi prestar mais alguns minutos de atenção àquelas imagens sem interesse nenhum.
- Mas então a lua é assim? - perguntei.
- Como querias que fosse?
- Então mas onde estão as casas dos homens da lua? E onde estão os homens da lua? Não acontece nada?
- Não vive ninguém na lua, é só um satélite!
Então se não vivia ninguém na lua, se não havia qualquer hipótese de aparecer um ser fantástico com duas cabeças e três caudas como nos filmes do Thunderbird, se não ia haver nenhuma cena de perseguição nem de perigo, o que estava eu a fazer ali? A perder o meu tempo.
E regressei ao meu mundo imaginário onde o espaço era todo, todo, povoado.

domingo, 19 de julho de 2009

A senhora idosa: Oh menina! O seu colega, "onte", eu "bim" cá "pra" ele me dar duas, mas ele só me deu uma!
Eu, tentando pôr ordem na cabeça dela e na minha: Oh minha senhora, mas então vamos lá ver: A senhora veio cá tratar de quê?
A senhora idosa, com a voz cada vez mais estridente e suplicante: É que eu queria "lebar" duas! Percebe? Mas só "lebei" uma!
Eu: Mas duas quê minha senhora? Eu preciso de saber! Aqui tratamos de muita coisa!
Ela: Foi assim, eu queria duas e só "lebei" uma! Eu queria duas!
Eu (só mentalmente): Ai a minha "bida"!
Eu (em voz alta): Mas então vamos aqui esclarecer uma coisa: Eu preciso de saber o que é que a senhora veio cá tratar, senão não a posso ajudar!
Ela: "Atão"! Eu "bim" cá "pra" "lebar" duas!
Eu (já sem paciência nenhuma mas com vontade de gozar uma bocado - já agora! -, chamei o meu colega à minha mesa): D****, estou aqui com uma dúvida. Esta senhora diz que queria que tu lhe desses duas e tu só lhe deste uma. É verdade?
Ele, com dificuldade em aguentar-se, foi lá atrás rir um bocado e compor-se. Enquanto isso eu fiquei em frente à mulher, continuando a tentar perceber qual a natureza do acto que ela tinha apreciado tanto que queria levar duas vezes. Mas entratanto ele voltou, já concentrado e composto.
Ele: Essa senhora veio cá ontem buscar uma declaração para pedir a nova matrícula de ciclomotor.
Eu: É isso minha senhora? Uma declaração para o ciclomotor?
Ela (mais suplicante do que antes): Eu queria duas e ele só me deu "uma"!
Eu (só em pensamento): Oh minha senhora! Na verdade, nem percebo como é que ele lhe deu uma! Eu, no lugar dele, não lhe dava nenhuma! Nem de cortesia!

sábado, 18 de julho de 2009

Era uma família que passeava pelo centro comercial: Pai, mãe e uma miúda franzina de uns 10 anos.
Eu cruzei-me com eles várias vezes, e de todas elas disse mal da minha visão raio x para a vida particular das pessoas que não conheço de lado nenhum e nem de longe sonham que estão a ser observadas desta forma. Mas como é que eu podia não os achar óptimas personagens de romance picaresco? Só se fosse ceguinha!
Porque a figurinha deles era esta, sem pôr nem tirar: Uns dez passos atrás vinha o pai, magrinho e frágil, de camisa aberta com muitos pelos no peito, de mão dada com a miúda que como já disse era franzinha. À frente, a abrir caminho e a indicar a direcção a tomar, vinha a mãe. Grande e gorda, com muitos pneuzinhos estilo michelin e exibindo uma t-shirt cor-de-rosa schock, com a frase, a dourado: I'M TOO SEXY!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A minha avó tomou uma decisão e convocou todo o mulherio da família para ir limpar a drogaria do meu avô, à revelia. Segundo ela, aquela loja já não via uma limpeza há mais de trinta anos! Para mim foi uma excitação. Trinta anos era mais do triplo da minha idade na altura, o que significava que era bem possível encontrar ovos de dinossauro ao varrer o chão. Por isso, também quis ir!
Não encontrei os ovos, nem caveiras de pirata nem tesouros de princesa, mas também não me decepcionei. O lixo do chão já não saía à vassoura, mas saiu à picareta, em grossas camadas de bedum cinzento que, pensei eu, fariam as delícias de qualquer arqueólogo! Ou então, podia servir de plasticina, em quantidade suficiente para construir majestosas estátuas. Infelizmente não me deixaram mexer naquilo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Acordei a meio da noite com um barulho ensurdecedor que não reconheci de imediato. Ainda a meio caminho entre a consciência e o sonho, levantei a cabeça da almofada alguns centímetros e tentei perceber o que se passava. Era música. Música da berra, qualquer coisa que se ouve mal se liga o rádio do carro. Depois alguns comentários em língua inglesa e outra canção mais conhecida do que fazer em França. "Grande lata!" - pensei eu - "A estas horas a ver televisão nestes decibéis, e num prédio! Amanhã tenho que me levantar cedo para ir trabalhar! Quem será o cabrão?"
Levantei-me e fui à janela tentar descobrir de que apartamento vinha aquele chinfrim. Era do lado direito. "Caramba! Não me digam que são os velhotes do 3.º B!".
Voltei para a cama. Fosse quem fosse, talvez se cansasse e desligasse aquilo em breve. Mas nem pensar. A festa continuou por mais uma boa meia-hora, e eu já a ficar numa pilha de nervos e com vontade de atirar um vaso da varanda contra a janela de alguém. Decididamente, assim, nem valia a pena tentar dormir. Levantei-me para ir ao xixi e a seguir fui à cozinha fazer um chá. Ainda ia no corredor quando vi umas luzes que piscavam da porta da minha cozinha. "O que é isto?" - pensava eu já um bocado assustada.
Entrei. E nem me digam nada. A minha própria televisão, que andava um bocado marada, tinha-se ligado sozinha e estava sintonizada na MTV em altos berros. Desliguei-a, envergonhada, e fui-me deitar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A minha avó tinha ido a Fátima e trouxe uma caixinha de música que tocava o Avé Maria.
Era uma espécie de casota de cão pequenina mas decorada a flores brancas de plástico e com uma portinha de vidro que permitia ver, lá dentro, a imagem da santa olhando de viés para o chão como se não tivesse nada a ver com nada. E depois abria-se a portinha de vidro e a música arrancava. Era a versão instrumental em xilofone barato do tema que eu estava habituada a ouvir em vozes esganiçadas de beatas velhas: A treze de Maio, na Cova de Iria, aos três pastorinhos, apareceu Maria. Avéééééé!!! Avééééé!!! Avé Mariaaaaaaaaaaa!!!!...
Quando não tinha nada para fazer e estava à espera que começasse a emissão da RTP, sentava-me na poltrona do meu avô a abrir e a fechar a porta da caixa de música muito depressa para fazer a música parar e arrancar sem nexo. Quando me fartei dessa brincadeira, tentei pôr a música a tocar de trás para a frente, o que exigiu alguns ajustes técnicos na máquina, embora sem sucesso. Depois, tentei virar a cabeça santa para cima e arranquei as pombinhas pousadas em cima da base da imaculada vestimenta.
E foi assim que a minha avó ficou sem a caixinha de música.