sexta-feira, 31 de julho de 2009
A minha mãe, por exemplo, já tinha uns cinco ratinhos em biscuit branco com uns retoques a tinta dourada e uma batuta na mão como se estivessem a dirigir uma orquestra. Muito nós nos divertimos anos a fio com a prateleira dos ratinhos maestros oferecidos pela D. Lurdes!...
quinta-feira, 30 de julho de 2009
- Fressureiras! Fressureiras!
Nós, totalmente desconhecedoras do que poderia querer dizer aquela palavra, ainda nos virámos para trás a ripostar:
- Isso são vocês!
Mas continuámos na ignorância.
Quando cheguei a casa perguntei à minha mãe:
- Oh mãe! O que é uma fressureira?
Notei que um ligeiro arrepio a percorreu de alto a baixo com aquela pergunta, mas ainda assim, disfarçou bem.
- Quem te disse isso? - perguntou.
- Umas miúdas lá da escola chamaram-me. O que é?
- Olha... não sei. Deve ser uma palermice qualquer. Não ligues.
Se ela não sabia não sabia, não valia a pena insistir. Por isso fui perguntar a uma outra rapariga mais velha, que me explicou como sabia. Orgulhosa, cheguei a casa e fiz questão de partilhar o meu novo saber com a minha mãe, para que também ela pudesse sair da ignorância:
- Mãe! Já sei o que é uma fressureira! É uma mulher que faz pára-choques com outra!
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Uns dias depois, chegou-me ofegante de manhã. Já sabia de alguém que o conhecia! Por isso, ia apresentar-me a essa pessoa (uma prima dela mais velha que também estudava lá) e depois a prima apresentava-me a ele. Plano perfeito! Nos dias que antecederam o acontecimento, eu juro que até dormi mal!
Até que o momento chegou. O meu coração batia descompassadamente. Só me lembro vagamente duma voz que dizia:
- Este é o Joaquim! Joaquim, esta é a *****!
E depois, uma vozinha de falsete:
- Olá *****!
E foi aí que acabou o meu primeiro sonho de um tórrido romance. O meu herói chamava-se Joaquim e falava como os sobrinhos do Pato Donald!
terça-feira, 28 de julho de 2009
Quando olho para as minhas fotografias desse tempo, concluo que só me consegui conciliar com as calças e saias de lycra, as sabrinas e uns camisolões por cima disso tudo.
Ainda hoje me pergunto quem raio se lembrou de inventar aquelas modas...
segunda-feira, 27 de julho de 2009
As meninas, nesse tempo, dividiam-se em quatro grupos distintos, segundo o comportamento que evidenciavam na hora do recreio:
1. As que brincavam sem sequer se lembrar que havia um recinto proibido a uns escassos metros.
2. As que assomavam até perto do muro, a medo, tentando imaginar o que seria poder brincar do outro lado, mas não se atreviam a mais.
3. As que subiam o muro durante escassos segundos tremendo com varas verdes, fingindo uma coragem que não tinham e sabendo que levariam uma boa dose de reguadas se fossem apanhadas.
4. As que, de facto, saltavam o muro e faziam uma espécie de streak pelo recreio dos rapazes voltando logo de seguida ao seu habitat natural. Todas lhes aplaudiam a imensa coragem. Mas no fundo, também todas sabiam que essas estavam condenadas a nunca ser ninguém na vida.
domingo, 26 de julho de 2009
- Uma planta topográfica?
- Não, tipográfica.
- Tipográfica não existe, deve ser topográfica que a senhora quer.
- Não, tenho a certeza que é tipográfica!
- Então vamos lá ver se nos conseguimos entender. Uma planta topográfica é onde aparece um determinado local, numa escala que pode variar para podermos ter mais ou menos pormenor. Certo?
- Certo. Mas não é isso que eu quero.
- Outro tipo de planta que lhe posso fornecer é uma planta de arquitectura. Essa mostra um determinado edifício visto de cima, com as divisórias interiores...
- É isso que eu quero! Mas isso não é uma planta de arquitectura, é uma planta tipográfica.
- Acha?
- Claro! É a planta que mostra que tipo de casa é aquela. Por isso, é uma planta tipográfica!
sábado, 25 de julho de 2009
Há alguns anos conheci um homem de quem não se pode dizer que tenha gostado. Lembro-me que a filha mais velha tinha acabado de se divorciar e tinha juntado os trapinhos com outro homem, e ele dizia aos quatro ventos para quem quisesse ouvir que - "A minha filha? A minha filha é uma puta!!! É a vergonha da família!". Aquilo fazia impressão a toda a gente, mesmo aos mais retardados e retrógrados membros da comunidade, pois até esses seriam capazes de, na altura em que a natureza chama, se tranformarem em ursas ou leoas e defenderem as suas crias, como toda a gente. Aquilo era como ouvir uma faca afiada a raspar numa panela de alumínio.
Anos mais tarde conheci uma mulher, um pouco mais nova do que eu, preocupada com a saúde do pai que já tinha tido uma ameaça de enfarte e ia todos os dias lá a casa saber dele. Com o evoluir da conversa, concluí que se tratava, nem mais nem menos, da horrível criatura que anos antes assim tinha tratado a própria filha e que essa filha... era ela!
Agora, de cada vez que a ouço falar do pai com preocupação e natural amor filial, apetece-me tanto mandá-la calar!...
Mas não posso fazer isso pois não?
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Eu tentei não lhes dar importância, mas a insistência da conversa entranhou-se na minha cabeça e eu dei comigo a ler um livro sobre sintomas de doenças que havia lá em casa. Dizia às tantas que um dos sintomas da leucemia era a pela extremamente macia. Com a pulga atrás da orelha, perguntei ao meu marido: - "Achas que eu tenho a pele muito macia?" - "Acho pois!" - respondeu ele, certo de estar a fazer o que era correcto.
Eu desatei a chorar, e acho que essa foi uma das vezes em que um homem pensou que nunca se sabe como é que se pode agradar a uma mulher.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Sentaram-se ambos à minha frente e chamou-me imediatamente a atenção a postura adulta e compenetrada da criança. Vinham por umas cópias dum projecto de arquitectura do qual não sabiam, nem o número, nem o nome. Mostrei-lhes o local em fotografia aérea, no monitor, e pedi-lhes que assinalassem o prédio exacto.
- Não é nada disso! - respondeu logo o pai - Não há lá nada que seja assim!
- É é! - adiantou-se o filho - então não vês aqui a nossa rua? E aqui a escola?
- Não é nada! Não queiras saber mais do que eu! - respondeu o pai já a ficar irritado.
- Ai isso é que é! - insistiu o garoto. E numa atitude surpreendente, dirigiu-se directamente a mim - Minha senhora, isso dá para pôr os nomes das ruas a aparecer?
- Dá - respondi - mas na verdade ainda nem todas estão cadastradas! - e accionei o layer com a toponímia.
- Estás a ver que não é? - disse o pai orgulhoso - A nossa rua não é essa!
-É - explicou o menino pacientemente - o nome que aqui está é o da rua ao lado, porque o nome da nossa rua ainda não aparece. Mas o prédio está aqui, é este! - e apontou com o dedo.
Depois de tudo estar resolvido e de ter chegado a altura de emitir a guia para pagamento das cópias, pedi ao pai o número de contribuinte, que ele papagueou logo ali sem se enganar e sem olhar a cábula.
- Ena! - comentou o filho - Tu sabes o teu número de cor? Eu não sei os meus!
- É para que vejas que no meu tempo, só com a quarta-classe, ficávamos a saber mais do que vocês agora com a universidade toda feita! Sabíamos decorar! Vocês não sabem nada! - e a seguir dirigiu-se a mim - É ou não é verdade minha senhora?
Eu... desviei os olhos e nem respondi.
terça-feira, 21 de julho de 2009
O menino, sentado na mesa do café, jogava playstation, alheado. A empregada que veio saber o que se encomendava comentou, orgulhosa como se tivesse acabado de formular uma teoria matemática para a posteridade:
- Tu tens uma playstation cor-de-rosa? Não tens vergonha? Cor-de-rosa é para as meninas!
A criança, sem responder, aproximou mais o rosto do jogo e calculo que tenha entrado para o lado de dentro e ficado rodeado de personagens fantásticas dum mundo onde não há cores apropriadas. A avó, em vez de a defender (ou pelo menos pôr aquela empregada empertigada no lugar o que valeria o mesmo), olhou condescendente para o neto, e adivinhou-se-lhe no olhar que concordava, como quem há muito se sente embaraçada por ter um neto “mariquinhas”.
Eu observava da mesa ao lado e não interferi. Mas tive muita vontade. Vontade de ir lá e dizer ao menino que fosse sempre feliz pela vida fora, feliz e simples como as árvores e como os rios, que se limitam a “ser” sem pensar em cores. Que teria que ser respeitado, até mesmo pela avó, com o seu ar de peninha dele e de si própria. Mas não fui. Fora dos jogos da playstation, as personagens não interagem à vontade, quando lhes apetece. Obedecem a regras, como a do “conhecimento pessoal”.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Eu olhei para o écran a tentar descortinar o que se passaria de tão importante. Como só vi imagens desfocadas e cheias de grão como quando havia temporal e a antena se virava no telhado, perguntei o que vinha a ser aquilo que os prendia a todos daquela maneira.
- É o homem na lua! - respondeu-me a minha mãe como se fosse imperdoável não estar tão entusiasmada como ela - O homem chegou à lua! Estão a aterrar lá!
Assim sendo, decidi prestar mais alguns minutos de atenção àquelas imagens sem interesse nenhum.
- Mas então a lua é assim? - perguntei.
- Como querias que fosse?
- Então mas onde estão as casas dos homens da lua? E onde estão os homens da lua? Não acontece nada?
- Não vive ninguém na lua, é só um satélite!
Então se não vivia ninguém na lua, se não havia qualquer hipótese de aparecer um ser fantástico com duas cabeças e três caudas como nos filmes do Thunderbird, se não ia haver nenhuma cena de perseguição nem de perigo, o que estava eu a fazer ali? A perder o meu tempo.
E regressei ao meu mundo imaginário onde o espaço era todo, todo, povoado.

