terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sentou-se à minha frente uma senhora, arquitecta, com a filha de uns cinco anos de idade.

A MÃE: Venho entregar isto, que é dum cliente.
EU: Mas isto está incompleto, vai ser rejeitado liminarmente.
A MÃE: Olhe... mas recebe mesmo assim não recebe?
EU: Claro que recebo. Só acho que é meu dever avisá-la, mas recebo.
A MÃE: Então por favor fique-me com isso para eu ver se o homem me deixa em paz. Fartou-se de me telefonar durante as minhas férias e eu do outro lado do mundo, a levar com ele às horas mais disparatadas por causa dos fusos horários! Ia dando em doida! Eu até podia fazer isso completo, mas para já o que interessa é entregar para ele parar de me atormentar! Nem faz ideia!
A FILHA: É verdade! A minha mãe estava sempre a atender o telefone e a dizer, "rais parta este cabrão" quando desligava! Eh eh eh!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tivemos que ficar a trabalhar até mais tarde naquele dia. Ficámos pela noite dentro sem termos conseguido terminar o trabalho e, a uma certa hora, a fome começou a apertar. A que de entre nós estava grávida fez questão de telefonar a mandar vir pizzas e como é senso comum, nunca se nega um desejo a uma grávida.
Acontece que a arquitectura do edifício onde estávamos era um pouco complexa e nós encontrávamo-nos exactamente no último piso. Às tantas olhámos pela janela e vimos o motociclo do distribuidor das pizzas. Calculámos que ele andaria pelo prédio, àquela hora vazio, à nossa procura, com alguma dificuldade. E o momento a seguir foi ver uma mulher com uma grande barriga, desesperada por mozzarela e pepperoni, a correr pelos corredores e a gritar:
- Senhor da pizza! Não vá embora! Senhor da piiiiizza!!!

domingo, 2 de agosto de 2009

Na festa de despedida de solteira da C... levámos a cabo uma série de palermices que habitualmente fazem parte do catálogo neste tipo de eventos, oferecemos-lhe um conjunto de gadgets de sex-shop especiais para noiva: O bouquet de pilas, o véu e a grinalda de pilas, o babete especial para sexo oral, vários dildos e até um sabonete na forma dos ditos. Na euforia da noite, como se o divórcio não fosse a coisa mais vulgar do mundo, ela agiu como se estivesse mesmo no limiar inevitável duma nova vida. É sempre assim, tirando raras excepções, ninguém casa a pensar que não vai ser para sempre como nos contos de fadas. A C... deixou-se então fotografar com os presentes recém-recebidos, nas mais diversas e comprometedoras poses. Mas ao contrário do habitual, nós não nos limitámos a trocar as fotos entre nós e ponto final. Uma praxe é uma praxe! Ou se faz em condições ou não se faz!
Uns meses mais tarde combinámos um almoço em grupo a propósito já não sei do quê. Mas previamente, combinámos com o restaurante a fabricação dum menu especial. Igualzinho aos outros por fora mas com as fotos da C... por dentro, sendo que a cada uma correspondia o nome duma escolha gastronómica... invariavelmente com a palavra chouriça, pepino, tomates ou rolo de carne. Claro!
Quando todas estávamos instaladas na mesa e o empregado veio distribuir os menus, o especial de corrida foi calhar (vejam só!) à C..., que depois de o abrir e sem contar de todo com aquilo, ficou seguramente uns minutos sem voz, perfeitamente aterrada, a pensar que todos os menus de todo o restaurante teriam a fotografia dela a simular um bobó num objecto fálico azul turquesa.
São também estes pequenos momentos patetas que tornam a vida divertida.

sábado, 1 de agosto de 2009

Andávamos no casino dum lado para o outro, de copo na mão e a apreciar aquilo que para nós é o estranho prazer de gastar dinheiro em rodelas de plástico para as enfiar em qualquer lado e elas desaparecerem. Até que o meu marido resolveu explicar-me uma ideia infalível que tinha acabado de ter para ganhar sempre na roleta:
- Fazemos assim: Aproximamo-nos duma mesa de roleta, uma qualquer.
E foi o que fizemos.
- Agora, pensas no número em que apostarias se jogasses. De cada vez que não calhar somas cinco euros, que foi aquilo que poupaste. Ao fim da noite, tens uma pequena fortuna. Queres ver? Eu agora apostava no... dez!
Enquanto dizia isto, o senhor que tomava conta da mesa parou de aceitar apostas e pôs a roleta a rodar. Atirou a bolinha lá para dentro, aguardámos ns momentos e... calhou o dez. Olhámos um para o outro:
- Vamos embora?
- Sim. Vamos embora.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A D. Lurdes era uma querida! Nunca se esquecia do aniversário de ninguém! Só se esquecia do que tinha oferecido nos anos anteriores, mas também não se pode exigir tudo a uma pessoa só, ninguém é perfeito!
A minha mãe, por exemplo, já tinha uns cinco ratinhos em biscuit branco com uns retoques a tinta dourada e uma batuta na mão como se estivessem a dirigir uma orquestra. Muito nós nos divertimos anos a fio com a prateleira dos ratinhos maestros oferecidos pela D. Lurdes!...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um grupo de miúdas da escola primária, talvez por inveja, talvez por despeito, talvez porque não tinham mais que fazer nem sabiam fazer melhor, decidiram que era giro vir atrás de nós todo o caminho (de mim e das minhas três amigas inseparáveis), a insultar-nos:
- Fressureiras! Fressureiras!
Nós, totalmente desconhecedoras do que poderia querer dizer aquela palavra, ainda nos virámos para trás a ripostar:
- Isso são vocês!
Mas continuámos na ignorância.
Quando cheguei a casa perguntei à minha mãe:
- Oh mãe! O que é uma fressureira?
Notei que um ligeiro arrepio a percorreu de alto a baixo com aquela pergunta, mas ainda assim, disfarçou bem.
- Quem te disse isso? - perguntou.
- Umas miúdas lá da escola chamaram-me. O que é?
- Olha... não sei. Deve ser uma palermice qualquer. Não ligues.

Se ela não sabia não sabia, não valia a pena insistir. Por isso fui perguntar a uma outra rapariga mais velha, que me explicou como sabia. Orgulhosa, cheguei a casa e fiz questão de partilhar o meu novo saber com a minha mãe, para que também ela pudesse sair da ignorância:
- Mãe! Já sei o que é uma fressureira! É uma mulher que faz pára-choques com outra!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu tinha doze anos e tinha acabado de chegar ao liceu mais carismático da cidade, aquele onde toda a gente queria poder dizer que tinha andado. Ele era finalista. Eu não o conhecia de lado nenhum e ele a mim, muito menos. O que quer dizer que me ignorava totalmente. Era assim uma espécie de matulão com um lindíssimo cabelo loiro liso pelos ombros. Fazia-me lembrar um dos meus ídolos da música na altura e, desde o primeiro dia, não consegui tirar os olhos dele. Não lhe sabia o nome, nem a idade, nem se estudava letras ou ciências, só sabia que era a coisa mais gira que andava naquele liceu todo e eu queria conhecê-lo. Partilhei estas angústias com uma colega que, a partir daquele momento, decidiu que ia ajudar-me com a mesma convicção com que se entra como voluntário para a Cruz Vermelha. Fez disso uma missão.
Uns dias depois, chegou-me ofegante de manhã. Já sabia de alguém que o conhecia! Por isso, ia apresentar-me a essa pessoa (uma prima dela mais velha que também estudava lá) e depois a prima apresentava-me a ele. Plano perfeito! Nos dias que antecederam o acontecimento, eu juro que até dormi mal!
Até que o momento chegou. O meu coração batia descompassadamente. Só me lembro vagamente duma voz que dizia:
- Este é o Joaquim! Joaquim, esta é a *****!
E depois, uma vozinha de falsete:
- Olá *****!

E foi aí que acabou o meu primeiro sonho de um tórrido romance. O meu herói chamava-se Joaquim e falava como os sobrinhos do Pato Donald!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Tive uma convivência difícil com os anos oitenta. Dei-me mal com a música que me parecia sempre igual e depressiva. Dei-me mal com os folhos. Dei-me mal com os vestidos pretos de rendinhas brancas à criada de servir. Dei-me mal com os penteados. Dei-me mal com os móveis e as cortinas. Dei-me mal com os sapatos muito altos e finos que se enfiavam em todos os intervalos de todas as pedras de calçada. Dei-me mal com aqueles espelhos com as quatro estações a imitar Mucha que já ninguém aguentava. Dei-me mal com as mesinhas redondas e as camilhas. Dei-me mal com a maquilhagem à prostituta espanhola.
Quando olho para as minhas fotografias desse tempo, concluo que só me consegui conciliar com as calças e saias de lycra, as sabrinas e uns camisolões por cima disso tudo.
Ainda hoje me pergunto quem raio se lembrou de inventar aquelas modas...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A minha escola era dividida em duas: Uma para as meninas e outra para os rapazes. As duas absolutamente simétricas e paredes-meias. A dividi-las, um muro. Não um muro alto como se poderia supor sabendo que era terminante proibido a qualquer fêmea passar para o lado dos machos e vice-versa. Era propositadamente um muro baixinho que nos dava pelo joelho, a lembrar que o poder de persuasão do regime valia por todos os muros.
As meninas, nesse tempo, dividiam-se em quatro grupos distintos, segundo o comportamento que evidenciavam na hora do recreio:
1. As que brincavam sem sequer se lembrar que havia um recinto proibido a uns escassos metros.
2. As que assomavam até perto do muro, a medo, tentando imaginar o que seria poder brincar do outro lado, mas não se atreviam a mais.
3. As que subiam o muro durante escassos segundos tremendo com varas verdes, fingindo uma coragem que não tinham e sabendo que levariam uma boa dose de reguadas se fossem apanhadas.
4. As que, de facto, saltavam o muro e faziam uma espécie de streak pelo recreio dos rapazes voltando logo de seguida ao seu habitat natural. Todas lhes aplaudiam a imensa coragem. Mas no fundo, também todas sabiam que essas estavam condenadas a nunca ser ninguém na vida.

domingo, 26 de julho de 2009

- Eu queria uma planta se faz favor.
- Uma planta topográfica?
- Não, tipográfica.
- Tipográfica não existe, deve ser topográfica que a senhora quer.
- Não, tenho a certeza que é tipográfica!
- Então vamos lá ver se nos conseguimos entender. Uma planta topográfica é onde aparece um determinado local, numa escala que pode variar para podermos ter mais ou menos pormenor. Certo?
- Certo. Mas não é isso que eu quero.
- Outro tipo de planta que lhe posso fornecer é uma planta de arquitectura. Essa mostra um determinado edifício visto de cima, com as divisórias interiores...
- É isso que eu quero! Mas isso não é uma planta de arquitectura, é uma planta tipográfica.
- Acha?
- Claro! É a planta que mostra que tipo de casa é aquela. Por isso, é uma planta tipográfica!

sábado, 25 de julho de 2009

O mundo é pequeno, é certo que isto é um cliché, mas às vezes é mesmo mais pequeno do que gostaríamos que fosse.
Há alguns anos conheci um homem de quem não se pode dizer que tenha gostado. Lembro-me que a filha mais velha tinha acabado de se divorciar e tinha juntado os trapinhos com outro homem, e ele dizia aos quatro ventos para quem quisesse ouvir que - "A minha filha? A minha filha é uma puta!!! É a vergonha da família!". Aquilo fazia impressão a toda a gente, mesmo aos mais retardados e retrógrados membros da comunidade, pois até esses seriam capazes de, na altura em que a natureza chama, se tranformarem em ursas ou leoas e defenderem as suas crias, como toda a gente. Aquilo era como ouvir uma faca afiada a raspar numa panela de alumínio.
Anos mais tarde conheci uma mulher, um pouco mais nova do que eu, preocupada com a saúde do pai que já tinha tido uma ameaça de enfarte e ia todos os dias lá a casa saber dele. Com o evoluir da conversa, concluí que se tratava, nem mais nem menos, da horrível criatura que anos antes assim tinha tratado a própria filha e que essa filha... era ela!
Agora, de cada vez que a ouço falar do pai com preocupação e natural amor filial, apetece-me tanto mandá-la calar!...
Mas não posso fazer isso pois não?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

E naquele tempo eu era muito jovem, muito branca e muito leve e tinha permanentemente por baixo dos olhos umas leves olheiras. Precisamente o oposto dos ideiais de beleza das senhoras velhinhas amigas da minha sogra, que eram do tempo em que as moças beliscavam as faces antes de ir à janela e usavam anquinhas por baixo dos vestidos. Assim, em conselho de anciãs, concluíram que o meu aspecto, aliado ao facto de eu comer yogurtes (essa mistela esquisita feita de leite estragado), era sinal inequívoco de que o meu sangue era mau, e contavam-me histórias de meninas que comiam yogurtes e morreram de leucemia no meio de grande agonia e sofrimento, como forma de me explicar que devia comer bifes e batatas e gemadas com cerveja preta.
Eu tentei não lhes dar importância, mas a insistência da conversa entranhou-se na minha cabeça e eu dei comigo a ler um livro sobre sintomas de doenças que havia lá em casa. Dizia às tantas que um dos sintomas da leucemia era a pela extremamente macia. Com a pulga atrás da orelha, perguntei ao meu marido: - "Achas que eu tenho a pele muito macia?" - "Acho pois!" - respondeu ele, certo de estar a fazer o que era correcto.
Eu desatei a chorar, e acho que essa foi uma das vezes em que um homem pensou que nunca se sabe como é que se pode agradar a uma mulher.