sexta-feira, 7 de agosto de 2009

No tempo em que a televisão por cabo passava filmes porno dobrados em espanhol em canal aberto à meia-noite de sábado, uma amiga minha foi apanhar a filha de três anos muito atenta a assistir a uma dessas instrutivas películas. Aterrorizada, ao entrar na sala em semi-escuridão e ver a filha em pijama, tão divertida como se estivesse a ver o Disney Channel, ela gritou:
- Carolina!!! O que estás a fazer filha???
- Estou a ver um filme de ginástica - respondeu a miúda super-tranquila.

Ao constatar a descontracção inocente da criança, a minha amiga achou preferível não valorizar muito o episódio. Então, limitou-se a desligar a televisão e a convencê-la a ir para a cama, prometendo-lhe um filme de animação muito mais interessante para o dia seguinte. Depois de a aconchegar e desligar a luz, quando se afastava para ir dormir também, a filha chamou-a_
- Mãeeee!!!
- Sim filha, diz.
- Porque é que os senhores do filme faziam ginástica sem fato? Eram pobrezinhos?
- Sim querida, eram pobrezinhos.
- Mãeeee!!!
- Sim...
- E porque é que eles só faziam ginástica com a pilinha?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

- Aquilo é uma fábrica abandonada!
- Tens a certeza? - perguntei - Não parece muito abandonada.
- Mas é! Estamos à vontade! Está fechada há anos! Vamos lá!

No fundo, a única coisa que a Madalena queria era uma cúmplice para um disparate que estava louca por fazer. Aqueles disparates compulsivos que fazemos em crianças e são os percursores dos que haveremos de fazer em adultos, já em temáticas diferentes e sempre com uma justificação que julgamos inabalável.
Depois duma pequena discussão, lá acabámos por entrar no armazém da suposta fábrica de loiça abandonada. A porta estava entreaberta e assim que passámos para o lado de dentro, vimo-nos no meio de pilhas e pilhas de pratos em bruto, sem vidrado. Um paraíso para uma criança! Depois de partirmos alguns (bastantes) num jogo de ringue improvisado ali mesmo, resolvemos atafulhar as mochilas da escola com tantos quantos lá couberam. E assim, calmamente, viemos embora. Já em casa, divertimo-nos a pintá-los com lápis-de-cor e a distribuí-los por toda a vizinhança e família, que os usou como loiça para cães e gatos de estimação. Quando nos perguntaram onde os tínhamos arranjado, respondemos que os tínhamos encontrado num monte de tralha a caminho da escola.
Uns dias mais tarde, correu na aldeia a notícia de que a pequena fábrica de loiça tinha sido vandalizada, mas não se sabia por quem. As nossas mães olharam-nos com uns olhos que nos fizeram ter medo de estar vivas. Eu e a Madalena não voltámos a passar ao pé da fábrica naquele ano lectivo. De resto, toda a gente sabia que tínhamos sido nós mas ninguém disse nada. Até porque cada criatura que tinha um prato pintado a lápis-de-cor ao serviço do gato ou do cão lá de casa, não quis passar pelo trouxa que tinha sido.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um dia, depois de ter visto com muita atenção o boletim de meteorologia na televisão, a minha filha então com quatro anos perguntou-me:

- Oh mãe! Porque é que chove no continente e não chove no Feira Nova nem no Carrefour?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sentou-se à minha frente uma senhora, arquitecta, com a filha de uns cinco anos de idade.

A MÃE: Venho entregar isto, que é dum cliente.
EU: Mas isto está incompleto, vai ser rejeitado liminarmente.
A MÃE: Olhe... mas recebe mesmo assim não recebe?
EU: Claro que recebo. Só acho que é meu dever avisá-la, mas recebo.
A MÃE: Então por favor fique-me com isso para eu ver se o homem me deixa em paz. Fartou-se de me telefonar durante as minhas férias e eu do outro lado do mundo, a levar com ele às horas mais disparatadas por causa dos fusos horários! Ia dando em doida! Eu até podia fazer isso completo, mas para já o que interessa é entregar para ele parar de me atormentar! Nem faz ideia!
A FILHA: É verdade! A minha mãe estava sempre a atender o telefone e a dizer, "rais parta este cabrão" quando desligava! Eh eh eh!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tivemos que ficar a trabalhar até mais tarde naquele dia. Ficámos pela noite dentro sem termos conseguido terminar o trabalho e, a uma certa hora, a fome começou a apertar. A que de entre nós estava grávida fez questão de telefonar a mandar vir pizzas e como é senso comum, nunca se nega um desejo a uma grávida.
Acontece que a arquitectura do edifício onde estávamos era um pouco complexa e nós encontrávamo-nos exactamente no último piso. Às tantas olhámos pela janela e vimos o motociclo do distribuidor das pizzas. Calculámos que ele andaria pelo prédio, àquela hora vazio, à nossa procura, com alguma dificuldade. E o momento a seguir foi ver uma mulher com uma grande barriga, desesperada por mozzarela e pepperoni, a correr pelos corredores e a gritar:
- Senhor da pizza! Não vá embora! Senhor da piiiiizza!!!

domingo, 2 de agosto de 2009

Na festa de despedida de solteira da C... levámos a cabo uma série de palermices que habitualmente fazem parte do catálogo neste tipo de eventos, oferecemos-lhe um conjunto de gadgets de sex-shop especiais para noiva: O bouquet de pilas, o véu e a grinalda de pilas, o babete especial para sexo oral, vários dildos e até um sabonete na forma dos ditos. Na euforia da noite, como se o divórcio não fosse a coisa mais vulgar do mundo, ela agiu como se estivesse mesmo no limiar inevitável duma nova vida. É sempre assim, tirando raras excepções, ninguém casa a pensar que não vai ser para sempre como nos contos de fadas. A C... deixou-se então fotografar com os presentes recém-recebidos, nas mais diversas e comprometedoras poses. Mas ao contrário do habitual, nós não nos limitámos a trocar as fotos entre nós e ponto final. Uma praxe é uma praxe! Ou se faz em condições ou não se faz!
Uns meses mais tarde combinámos um almoço em grupo a propósito já não sei do quê. Mas previamente, combinámos com o restaurante a fabricação dum menu especial. Igualzinho aos outros por fora mas com as fotos da C... por dentro, sendo que a cada uma correspondia o nome duma escolha gastronómica... invariavelmente com a palavra chouriça, pepino, tomates ou rolo de carne. Claro!
Quando todas estávamos instaladas na mesa e o empregado veio distribuir os menus, o especial de corrida foi calhar (vejam só!) à C..., que depois de o abrir e sem contar de todo com aquilo, ficou seguramente uns minutos sem voz, perfeitamente aterrada, a pensar que todos os menus de todo o restaurante teriam a fotografia dela a simular um bobó num objecto fálico azul turquesa.
São também estes pequenos momentos patetas que tornam a vida divertida.

sábado, 1 de agosto de 2009

Andávamos no casino dum lado para o outro, de copo na mão e a apreciar aquilo que para nós é o estranho prazer de gastar dinheiro em rodelas de plástico para as enfiar em qualquer lado e elas desaparecerem. Até que o meu marido resolveu explicar-me uma ideia infalível que tinha acabado de ter para ganhar sempre na roleta:
- Fazemos assim: Aproximamo-nos duma mesa de roleta, uma qualquer.
E foi o que fizemos.
- Agora, pensas no número em que apostarias se jogasses. De cada vez que não calhar somas cinco euros, que foi aquilo que poupaste. Ao fim da noite, tens uma pequena fortuna. Queres ver? Eu agora apostava no... dez!
Enquanto dizia isto, o senhor que tomava conta da mesa parou de aceitar apostas e pôs a roleta a rodar. Atirou a bolinha lá para dentro, aguardámos ns momentos e... calhou o dez. Olhámos um para o outro:
- Vamos embora?
- Sim. Vamos embora.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A D. Lurdes era uma querida! Nunca se esquecia do aniversário de ninguém! Só se esquecia do que tinha oferecido nos anos anteriores, mas também não se pode exigir tudo a uma pessoa só, ninguém é perfeito!
A minha mãe, por exemplo, já tinha uns cinco ratinhos em biscuit branco com uns retoques a tinta dourada e uma batuta na mão como se estivessem a dirigir uma orquestra. Muito nós nos divertimos anos a fio com a prateleira dos ratinhos maestros oferecidos pela D. Lurdes!...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um grupo de miúdas da escola primária, talvez por inveja, talvez por despeito, talvez porque não tinham mais que fazer nem sabiam fazer melhor, decidiram que era giro vir atrás de nós todo o caminho (de mim e das minhas três amigas inseparáveis), a insultar-nos:
- Fressureiras! Fressureiras!
Nós, totalmente desconhecedoras do que poderia querer dizer aquela palavra, ainda nos virámos para trás a ripostar:
- Isso são vocês!
Mas continuámos na ignorância.
Quando cheguei a casa perguntei à minha mãe:
- Oh mãe! O que é uma fressureira?
Notei que um ligeiro arrepio a percorreu de alto a baixo com aquela pergunta, mas ainda assim, disfarçou bem.
- Quem te disse isso? - perguntou.
- Umas miúdas lá da escola chamaram-me. O que é?
- Olha... não sei. Deve ser uma palermice qualquer. Não ligues.

Se ela não sabia não sabia, não valia a pena insistir. Por isso fui perguntar a uma outra rapariga mais velha, que me explicou como sabia. Orgulhosa, cheguei a casa e fiz questão de partilhar o meu novo saber com a minha mãe, para que também ela pudesse sair da ignorância:
- Mãe! Já sei o que é uma fressureira! É uma mulher que faz pára-choques com outra!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu tinha doze anos e tinha acabado de chegar ao liceu mais carismático da cidade, aquele onde toda a gente queria poder dizer que tinha andado. Ele era finalista. Eu não o conhecia de lado nenhum e ele a mim, muito menos. O que quer dizer que me ignorava totalmente. Era assim uma espécie de matulão com um lindíssimo cabelo loiro liso pelos ombros. Fazia-me lembrar um dos meus ídolos da música na altura e, desde o primeiro dia, não consegui tirar os olhos dele. Não lhe sabia o nome, nem a idade, nem se estudava letras ou ciências, só sabia que era a coisa mais gira que andava naquele liceu todo e eu queria conhecê-lo. Partilhei estas angústias com uma colega que, a partir daquele momento, decidiu que ia ajudar-me com a mesma convicção com que se entra como voluntário para a Cruz Vermelha. Fez disso uma missão.
Uns dias depois, chegou-me ofegante de manhã. Já sabia de alguém que o conhecia! Por isso, ia apresentar-me a essa pessoa (uma prima dela mais velha que também estudava lá) e depois a prima apresentava-me a ele. Plano perfeito! Nos dias que antecederam o acontecimento, eu juro que até dormi mal!
Até que o momento chegou. O meu coração batia descompassadamente. Só me lembro vagamente duma voz que dizia:
- Este é o Joaquim! Joaquim, esta é a *****!
E depois, uma vozinha de falsete:
- Olá *****!

E foi aí que acabou o meu primeiro sonho de um tórrido romance. O meu herói chamava-se Joaquim e falava como os sobrinhos do Pato Donald!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Tive uma convivência difícil com os anos oitenta. Dei-me mal com a música que me parecia sempre igual e depressiva. Dei-me mal com os folhos. Dei-me mal com os vestidos pretos de rendinhas brancas à criada de servir. Dei-me mal com os penteados. Dei-me mal com os móveis e as cortinas. Dei-me mal com os sapatos muito altos e finos que se enfiavam em todos os intervalos de todas as pedras de calçada. Dei-me mal com aqueles espelhos com as quatro estações a imitar Mucha que já ninguém aguentava. Dei-me mal com as mesinhas redondas e as camilhas. Dei-me mal com a maquilhagem à prostituta espanhola.
Quando olho para as minhas fotografias desse tempo, concluo que só me consegui conciliar com as calças e saias de lycra, as sabrinas e uns camisolões por cima disso tudo.
Ainda hoje me pergunto quem raio se lembrou de inventar aquelas modas...

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A minha escola era dividida em duas: Uma para as meninas e outra para os rapazes. As duas absolutamente simétricas e paredes-meias. A dividi-las, um muro. Não um muro alto como se poderia supor sabendo que era terminante proibido a qualquer fêmea passar para o lado dos machos e vice-versa. Era propositadamente um muro baixinho que nos dava pelo joelho, a lembrar que o poder de persuasão do regime valia por todos os muros.
As meninas, nesse tempo, dividiam-se em quatro grupos distintos, segundo o comportamento que evidenciavam na hora do recreio:
1. As que brincavam sem sequer se lembrar que havia um recinto proibido a uns escassos metros.
2. As que assomavam até perto do muro, a medo, tentando imaginar o que seria poder brincar do outro lado, mas não se atreviam a mais.
3. As que subiam o muro durante escassos segundos tremendo com varas verdes, fingindo uma coragem que não tinham e sabendo que levariam uma boa dose de reguadas se fossem apanhadas.
4. As que, de facto, saltavam o muro e faziam uma espécie de streak pelo recreio dos rapazes voltando logo de seguida ao seu habitat natural. Todas lhes aplaudiam a imensa coragem. Mas no fundo, também todas sabiam que essas estavam condenadas a nunca ser ninguém na vida.