quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O empreiteiro tosco, daqueles que usam camisas abertas até meio com voltas de ouro ao pescoço, apareceu por lá e levou a esposa, uma daquelas senhoras que usam saia sem cós e cruzam os braços debaixo das mamas e por cima da barriga. Vinham ambos muito entusiasmados porque tinham estado a assistir, nesse mesmo fim-de-semana, a uma coisa "muito linda" e "muito bem feita"! Ele contava e ela só acenava com a cabeça a concordar:
- Porque isto a gente tem que ver de tudo não é? Para se cultivar! Não pode ser só ir para o café beber, tem que se ver estas coisas diferentes!
E ela acenava...
- Fomos a uma feira medieval. Não foi Maria? Aquilo é que estava uma categoria!
E ela acenava...
- Às tantas, abriu-se uma porta e saiu de lá um cavalo!... Com uma fulana em cima toda descascada!... Que era como elas andavam lá no... medieval... aquilo era mesmo para ser uma coisa bem feita! Mesmo como naquele tempo!
E ela acenava...
E nós a concluir que eles tinham estado no Festival Erótico Medieval, uma espécie de feira do sexo mas para mais rasca ainda. E nós a pensar como gostávamos de ser mosquinhas para termos visto lá aqueles dois, com aquele ar de quem estava numa lição de história...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

- Fui a Lisboa - dizia ela de peito cheio - mas desta vez não fui à revista! Fui ver o Rei Leão!
- Os desenhos animados, ao cinema?! Mas isso vê-se em qualquer lado!
- Não! A peça de teatro! A do Shakespeare!
- O Rei Lear?...
- Sim, isso, o Rei Leão! Foi o que eu disse!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nas primeiras eleições depois da revolução, ao contrário de agora, só não foi votar quem estava morto ou ainda não tinha idade, como era o meu caso. Mas, tal como agora, a maior parte dos que lá foram percebiam tanto daquilo como eu de lagares de azeite. Mas era novidade e todos queriam experimentar, compreende-se.
Uma vizinha nossa, já velhota, chegou orgulhosa depois de ter cumprido o seu dever cívico:
- Já está! - dizia ela.
- Então e em quem votou Ti D*******?
- Não sei nem me interessa! Só sei que vi a foice e o martelo logo ali na parte de cima!... e... hei! Pus logo a cruz num dos que estavam lá para baixo! A mim não me enganam!

domingo, 9 de agosto de 2009

Acordava de manhã e comia três ou quatro laranjas "ao murro". Era o meu pequeno-almoço. Já acordava a sonhar com o raio das laranjas.
Quando chegava a casa no fim do dia, cortava grandes rodelas de tomate para um prato, temperava com sal grosso e azeite e comia aquilo como se fosse um pitéu. Eu, que odeio tomate!
Quando ia a restaurantes ficava a olhar para os balcões das sobremesas, desejando loucamente a fruta. Só a fruta!

Eu precisava de estar sempre grávida. Mas sem a barriga... e sem ter uma criança de nove em nove meses. Pode ser?

sábado, 8 de agosto de 2009

ELA: Foi "bocê" que me apitou "onte"?
EU (em pensamento): Queres ver que esta é daquelas que me aparece logo de manhã a fazer pisca para a direita e a virar para a esquerda só para me assustar?
EU: Acho que não apitei a ninguém ontem... foi onde?
ELA: Apitaram-me pr'ó "telemóbel"! E foi daqui! Mas eu quando dei p'lo apito já não fui em modos de responder!
EU: Ah! Não, não fui eu.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

No tempo em que a televisão por cabo passava filmes porno dobrados em espanhol em canal aberto à meia-noite de sábado, uma amiga minha foi apanhar a filha de três anos muito atenta a assistir a uma dessas instrutivas películas. Aterrorizada, ao entrar na sala em semi-escuridão e ver a filha em pijama, tão divertida como se estivesse a ver o Disney Channel, ela gritou:
- Carolina!!! O que estás a fazer filha???
- Estou a ver um filme de ginástica - respondeu a miúda super-tranquila.

Ao constatar a descontracção inocente da criança, a minha amiga achou preferível não valorizar muito o episódio. Então, limitou-se a desligar a televisão e a convencê-la a ir para a cama, prometendo-lhe um filme de animação muito mais interessante para o dia seguinte. Depois de a aconchegar e desligar a luz, quando se afastava para ir dormir também, a filha chamou-a_
- Mãeeee!!!
- Sim filha, diz.
- Porque é que os senhores do filme faziam ginástica sem fato? Eram pobrezinhos?
- Sim querida, eram pobrezinhos.
- Mãeeee!!!
- Sim...
- E porque é que eles só faziam ginástica com a pilinha?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

- Aquilo é uma fábrica abandonada!
- Tens a certeza? - perguntei - Não parece muito abandonada.
- Mas é! Estamos à vontade! Está fechada há anos! Vamos lá!

No fundo, a única coisa que a Madalena queria era uma cúmplice para um disparate que estava louca por fazer. Aqueles disparates compulsivos que fazemos em crianças e são os percursores dos que haveremos de fazer em adultos, já em temáticas diferentes e sempre com uma justificação que julgamos inabalável.
Depois duma pequena discussão, lá acabámos por entrar no armazém da suposta fábrica de loiça abandonada. A porta estava entreaberta e assim que passámos para o lado de dentro, vimo-nos no meio de pilhas e pilhas de pratos em bruto, sem vidrado. Um paraíso para uma criança! Depois de partirmos alguns (bastantes) num jogo de ringue improvisado ali mesmo, resolvemos atafulhar as mochilas da escola com tantos quantos lá couberam. E assim, calmamente, viemos embora. Já em casa, divertimo-nos a pintá-los com lápis-de-cor e a distribuí-los por toda a vizinhança e família, que os usou como loiça para cães e gatos de estimação. Quando nos perguntaram onde os tínhamos arranjado, respondemos que os tínhamos encontrado num monte de tralha a caminho da escola.
Uns dias mais tarde, correu na aldeia a notícia de que a pequena fábrica de loiça tinha sido vandalizada, mas não se sabia por quem. As nossas mães olharam-nos com uns olhos que nos fizeram ter medo de estar vivas. Eu e a Madalena não voltámos a passar ao pé da fábrica naquele ano lectivo. De resto, toda a gente sabia que tínhamos sido nós mas ninguém disse nada. Até porque cada criatura que tinha um prato pintado a lápis-de-cor ao serviço do gato ou do cão lá de casa, não quis passar pelo trouxa que tinha sido.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um dia, depois de ter visto com muita atenção o boletim de meteorologia na televisão, a minha filha então com quatro anos perguntou-me:

- Oh mãe! Porque é que chove no continente e não chove no Feira Nova nem no Carrefour?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sentou-se à minha frente uma senhora, arquitecta, com a filha de uns cinco anos de idade.

A MÃE: Venho entregar isto, que é dum cliente.
EU: Mas isto está incompleto, vai ser rejeitado liminarmente.
A MÃE: Olhe... mas recebe mesmo assim não recebe?
EU: Claro que recebo. Só acho que é meu dever avisá-la, mas recebo.
A MÃE: Então por favor fique-me com isso para eu ver se o homem me deixa em paz. Fartou-se de me telefonar durante as minhas férias e eu do outro lado do mundo, a levar com ele às horas mais disparatadas por causa dos fusos horários! Ia dando em doida! Eu até podia fazer isso completo, mas para já o que interessa é entregar para ele parar de me atormentar! Nem faz ideia!
A FILHA: É verdade! A minha mãe estava sempre a atender o telefone e a dizer, "rais parta este cabrão" quando desligava! Eh eh eh!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tivemos que ficar a trabalhar até mais tarde naquele dia. Ficámos pela noite dentro sem termos conseguido terminar o trabalho e, a uma certa hora, a fome começou a apertar. A que de entre nós estava grávida fez questão de telefonar a mandar vir pizzas e como é senso comum, nunca se nega um desejo a uma grávida.
Acontece que a arquitectura do edifício onde estávamos era um pouco complexa e nós encontrávamo-nos exactamente no último piso. Às tantas olhámos pela janela e vimos o motociclo do distribuidor das pizzas. Calculámos que ele andaria pelo prédio, àquela hora vazio, à nossa procura, com alguma dificuldade. E o momento a seguir foi ver uma mulher com uma grande barriga, desesperada por mozzarela e pepperoni, a correr pelos corredores e a gritar:
- Senhor da pizza! Não vá embora! Senhor da piiiiizza!!!

domingo, 2 de agosto de 2009

Na festa de despedida de solteira da C... levámos a cabo uma série de palermices que habitualmente fazem parte do catálogo neste tipo de eventos, oferecemos-lhe um conjunto de gadgets de sex-shop especiais para noiva: O bouquet de pilas, o véu e a grinalda de pilas, o babete especial para sexo oral, vários dildos e até um sabonete na forma dos ditos. Na euforia da noite, como se o divórcio não fosse a coisa mais vulgar do mundo, ela agiu como se estivesse mesmo no limiar inevitável duma nova vida. É sempre assim, tirando raras excepções, ninguém casa a pensar que não vai ser para sempre como nos contos de fadas. A C... deixou-se então fotografar com os presentes recém-recebidos, nas mais diversas e comprometedoras poses. Mas ao contrário do habitual, nós não nos limitámos a trocar as fotos entre nós e ponto final. Uma praxe é uma praxe! Ou se faz em condições ou não se faz!
Uns meses mais tarde combinámos um almoço em grupo a propósito já não sei do quê. Mas previamente, combinámos com o restaurante a fabricação dum menu especial. Igualzinho aos outros por fora mas com as fotos da C... por dentro, sendo que a cada uma correspondia o nome duma escolha gastronómica... invariavelmente com a palavra chouriça, pepino, tomates ou rolo de carne. Claro!
Quando todas estávamos instaladas na mesa e o empregado veio distribuir os menus, o especial de corrida foi calhar (vejam só!) à C..., que depois de o abrir e sem contar de todo com aquilo, ficou seguramente uns minutos sem voz, perfeitamente aterrada, a pensar que todos os menus de todo o restaurante teriam a fotografia dela a simular um bobó num objecto fálico azul turquesa.
São também estes pequenos momentos patetas que tornam a vida divertida.

sábado, 1 de agosto de 2009

Andávamos no casino dum lado para o outro, de copo na mão e a apreciar aquilo que para nós é o estranho prazer de gastar dinheiro em rodelas de plástico para as enfiar em qualquer lado e elas desaparecerem. Até que o meu marido resolveu explicar-me uma ideia infalível que tinha acabado de ter para ganhar sempre na roleta:
- Fazemos assim: Aproximamo-nos duma mesa de roleta, uma qualquer.
E foi o que fizemos.
- Agora, pensas no número em que apostarias se jogasses. De cada vez que não calhar somas cinco euros, que foi aquilo que poupaste. Ao fim da noite, tens uma pequena fortuna. Queres ver? Eu agora apostava no... dez!
Enquanto dizia isto, o senhor que tomava conta da mesa parou de aceitar apostas e pôs a roleta a rodar. Atirou a bolinha lá para dentro, aguardámos ns momentos e... calhou o dez. Olhámos um para o outro:
- Vamos embora?
- Sim. Vamos embora.