segunda-feira, 17 de agosto de 2009

- Tens que fazer!
- Mas agora não me apetece! - lamentava-se o nosso irmãozinho mais novo.
- Mas tens que fazer! Leva a caixa! Faz força!

Nós, os mais velhos, ficávamos do lado de fora da casa de banho à espera, até que ele aparecia com a caixa.

- Só consegui fazer este bocadinho! - e exibia um pequeno excremento.
Nós virávamos a cara de nojo.
- Ok! Chega assim, fecha isso!

A seguir, fazíamos um bonito embrulho, com lacinho e tudo, e íamos pô-lo lá fora no chão, como se tivesse sido perdido. Depois, ficávamos na varanda a ver o que acontecia até alguém o apanhar.

Caramba! A vida tornou-se tão mais saudável quando os miúdos passaram a ficar horas diante dos computadores!

domingo, 16 de agosto de 2009

E aquela fase estúpida em que íamos à lista telefónica procurar nomes estranhos para depois fazer chamadas a brincar com os ditos, para grande surpresa dos nossos pais quando chegava a conta do telefone no fim do mês? Essa foi uma das minhas primeiras grandes conquistas técnicas. Troquei os fios do telefone, cá fora na traquitana que estava no armário do patamar das escadas, e o vizinho do lado passou a pagar as nossas chamadas, que a partir daí se tornaram mais ousadas e menos locais. E para tudo ser ainda mais perfeito, o vizinho era poupado no telefone.
Isso durou até ele começar a desconfiar e chamar os senhores da "companhia" para irem lá ver o que se passava.

sábado, 15 de agosto de 2009

Apesar dos anos de experiência que já tenho há coisas com que ainda não consigo lidar na perfeição. Não se trata, portanto, duma questão de tarimba, mas principalmente de temperamento.
Apareceu-me um senhor, simpático q.b., que usava aparelho para ouvir. No meio da conversa, fez questão de me contar, com grande excitação, que antes, quando não ouvia, estava dependente de todos, mas agora se sente um homem novo, consegue tratar do filho, ajudá-lo nas tarefas da escola e até viver sozinho e tratar de tudo. Eu, que não sou um orangotango, claro que entendi a questão. Claro que entendi a alegria dele! Claro que, no fundo, até fiquei um bocadinho emocionada! Não muito, mas um bocadinho assim...
Mas limitei-me a sorrir. Tenho a certeza que, se dissesse alguma coisa, ia parecer o Cavaco Silva no meio do povo a tentar ser simpático e a ser tão convincente disso como uma raposa no meio dum galinheiro. Há pessoas que não dá.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Tenho "aquele" colega que toda a gente trata por coitadinho, que se esforça muito mas não tem capacidades porque, coitadinho, é um bocadinho retardado, ele não tem culpa, temos que ser compreensivos. Aquele que depois de lhe fazermos uma pergunta fica a olhar para nós durante vários segundos como se estivesse prestes a levar com um piano na cabeça mas não soubesse donde ele vem. Aquele colega que, quando lhe damos um recado pelo telefone, vai buscar um papel para apontar e aquilo demora uma média de 15 minutos para lhe conseguirmos dizer que diga à Ivone para nos ligar logo que possa e mais valia subir quatro andares pelas escadas e ir lá. É um desespero! Mas eu já sei, temos que ser compreensivos e isso tudo porque o coitado pede licença a um pé para avançar com o outro e se não lhe disserem que está uma porta fechada mesmo ali à frente, vai contra ela e parte os óculos.
Por tudo isso, fiquei particularmente perplexa com a desenvoltura com que o vi discutir as mais recentes transferências de jogadores no mundo do futebol com outros dois aficionados. Disso, sabe ele mais a dormir do que eu acordada e com dois cafés seguidos. Fiquei até com uma pequena desconfiança de que tante azelhice pode ser uma habilidade para não fazer nenhum.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Numa cidade portuguesa do norte, num daqueles autocarros turísticos, aconteceu este episódio que nos leva a concluir uma de duas coisas:.
1. O guia turístico estava de férias, ou doente, ou tinha sido despedido
2. Não há guia turístico.

Isto porque, depois de termos passado por igrejas, edifícios monumentais e outros pontos de (suposto) interesse, em total silêncio, com toda a gente a perguntar-se o que seria aquilo e porque ninguém explicava nada, eis que o motorista pegou no microfone para anunciar:
-Agora, à vossa direita, vai aparecer o Intermarché!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O empreiteiro tosco, daqueles que usam camisas abertas até meio com voltas de ouro ao pescoço, apareceu por lá e levou a esposa, uma daquelas senhoras que usam saia sem cós e cruzam os braços debaixo das mamas e por cima da barriga. Vinham ambos muito entusiasmados porque tinham estado a assistir, nesse mesmo fim-de-semana, a uma coisa "muito linda" e "muito bem feita"! Ele contava e ela só acenava com a cabeça a concordar:
- Porque isto a gente tem que ver de tudo não é? Para se cultivar! Não pode ser só ir para o café beber, tem que se ver estas coisas diferentes!
E ela acenava...
- Fomos a uma feira medieval. Não foi Maria? Aquilo é que estava uma categoria!
E ela acenava...
- Às tantas, abriu-se uma porta e saiu de lá um cavalo!... Com uma fulana em cima toda descascada!... Que era como elas andavam lá no... medieval... aquilo era mesmo para ser uma coisa bem feita! Mesmo como naquele tempo!
E ela acenava...
E nós a concluir que eles tinham estado no Festival Erótico Medieval, uma espécie de feira do sexo mas para mais rasca ainda. E nós a pensar como gostávamos de ser mosquinhas para termos visto lá aqueles dois, com aquele ar de quem estava numa lição de história...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

- Fui a Lisboa - dizia ela de peito cheio - mas desta vez não fui à revista! Fui ver o Rei Leão!
- Os desenhos animados, ao cinema?! Mas isso vê-se em qualquer lado!
- Não! A peça de teatro! A do Shakespeare!
- O Rei Lear?...
- Sim, isso, o Rei Leão! Foi o que eu disse!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nas primeiras eleições depois da revolução, ao contrário de agora, só não foi votar quem estava morto ou ainda não tinha idade, como era o meu caso. Mas, tal como agora, a maior parte dos que lá foram percebiam tanto daquilo como eu de lagares de azeite. Mas era novidade e todos queriam experimentar, compreende-se.
Uma vizinha nossa, já velhota, chegou orgulhosa depois de ter cumprido o seu dever cívico:
- Já está! - dizia ela.
- Então e em quem votou Ti D*******?
- Não sei nem me interessa! Só sei que vi a foice e o martelo logo ali na parte de cima!... e... hei! Pus logo a cruz num dos que estavam lá para baixo! A mim não me enganam!

domingo, 9 de agosto de 2009

Acordava de manhã e comia três ou quatro laranjas "ao murro". Era o meu pequeno-almoço. Já acordava a sonhar com o raio das laranjas.
Quando chegava a casa no fim do dia, cortava grandes rodelas de tomate para um prato, temperava com sal grosso e azeite e comia aquilo como se fosse um pitéu. Eu, que odeio tomate!
Quando ia a restaurantes ficava a olhar para os balcões das sobremesas, desejando loucamente a fruta. Só a fruta!

Eu precisava de estar sempre grávida. Mas sem a barriga... e sem ter uma criança de nove em nove meses. Pode ser?

sábado, 8 de agosto de 2009

ELA: Foi "bocê" que me apitou "onte"?
EU (em pensamento): Queres ver que esta é daquelas que me aparece logo de manhã a fazer pisca para a direita e a virar para a esquerda só para me assustar?
EU: Acho que não apitei a ninguém ontem... foi onde?
ELA: Apitaram-me pr'ó "telemóbel"! E foi daqui! Mas eu quando dei p'lo apito já não fui em modos de responder!
EU: Ah! Não, não fui eu.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

No tempo em que a televisão por cabo passava filmes porno dobrados em espanhol em canal aberto à meia-noite de sábado, uma amiga minha foi apanhar a filha de três anos muito atenta a assistir a uma dessas instrutivas películas. Aterrorizada, ao entrar na sala em semi-escuridão e ver a filha em pijama, tão divertida como se estivesse a ver o Disney Channel, ela gritou:
- Carolina!!! O que estás a fazer filha???
- Estou a ver um filme de ginástica - respondeu a miúda super-tranquila.

Ao constatar a descontracção inocente da criança, a minha amiga achou preferível não valorizar muito o episódio. Então, limitou-se a desligar a televisão e a convencê-la a ir para a cama, prometendo-lhe um filme de animação muito mais interessante para o dia seguinte. Depois de a aconchegar e desligar a luz, quando se afastava para ir dormir também, a filha chamou-a_
- Mãeeee!!!
- Sim filha, diz.
- Porque é que os senhores do filme faziam ginástica sem fato? Eram pobrezinhos?
- Sim querida, eram pobrezinhos.
- Mãeeee!!!
- Sim...
- E porque é que eles só faziam ginástica com a pilinha?

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

- Aquilo é uma fábrica abandonada!
- Tens a certeza? - perguntei - Não parece muito abandonada.
- Mas é! Estamos à vontade! Está fechada há anos! Vamos lá!

No fundo, a única coisa que a Madalena queria era uma cúmplice para um disparate que estava louca por fazer. Aqueles disparates compulsivos que fazemos em crianças e são os percursores dos que haveremos de fazer em adultos, já em temáticas diferentes e sempre com uma justificação que julgamos inabalável.
Depois duma pequena discussão, lá acabámos por entrar no armazém da suposta fábrica de loiça abandonada. A porta estava entreaberta e assim que passámos para o lado de dentro, vimo-nos no meio de pilhas e pilhas de pratos em bruto, sem vidrado. Um paraíso para uma criança! Depois de partirmos alguns (bastantes) num jogo de ringue improvisado ali mesmo, resolvemos atafulhar as mochilas da escola com tantos quantos lá couberam. E assim, calmamente, viemos embora. Já em casa, divertimo-nos a pintá-los com lápis-de-cor e a distribuí-los por toda a vizinhança e família, que os usou como loiça para cães e gatos de estimação. Quando nos perguntaram onde os tínhamos arranjado, respondemos que os tínhamos encontrado num monte de tralha a caminho da escola.
Uns dias mais tarde, correu na aldeia a notícia de que a pequena fábrica de loiça tinha sido vandalizada, mas não se sabia por quem. As nossas mães olharam-nos com uns olhos que nos fizeram ter medo de estar vivas. Eu e a Madalena não voltámos a passar ao pé da fábrica naquele ano lectivo. De resto, toda a gente sabia que tínhamos sido nós mas ninguém disse nada. Até porque cada criatura que tinha um prato pintado a lápis-de-cor ao serviço do gato ou do cão lá de casa, não quis passar pelo trouxa que tinha sido.