- Aquilo é uma fábrica abandonada!
- Tens a certeza? - perguntei - Não parece muito abandonada.
- Mas é! Estamos à vontade! Está fechada há anos! Vamos lá!
No fundo, a única coisa que a Madalena queria era uma cúmplice para um disparate que estava louca por fazer. Aqueles disparates compulsivos que fazemos em crianças e são os percursores dos que haveremos de fazer em adultos, já em temáticas diferentes e sempre com uma justificação que julgamos inabalável.
Depois duma pequena discussão, lá acabámos por entrar no armazém da suposta fábrica de loiça abandonada. A porta estava entreaberta e assim que passámos para o lado de dentro, vimo-nos no meio de pilhas e pilhas de pratos em bruto, sem vidrado. Um paraíso para uma criança! Depois de partirmos alguns (bastantes) num jogo de ringue improvisado ali mesmo, resolvemos atafulhar as mochilas da escola com tantos quantos lá couberam. E assim, calmamente, viemos embora. Já em casa, divertimo-nos a pintá-los com lápis-de-cor e a distribuí-los por toda a vizinhança e família, que os usou como loiça para cães e gatos de estimação. Quando nos perguntaram onde os tínhamos arranjado, respondemos que os tínhamos encontrado num monte de tralha a caminho da escola.
Uns dias mais tarde, correu na aldeia a notícia de que a pequena fábrica de loiça tinha sido vandalizada, mas não se sabia por quem. As nossas mães olharam-nos com uns olhos que nos fizeram ter medo de estar vivas. Eu e a Madalena não voltámos a passar ao pé da fábrica naquele ano lectivo. De resto, toda a gente sabia que tínhamos sido nós mas ninguém disse nada. Até porque cada criatura que tinha um prato pintado a lápis-de-cor ao serviço do gato ou do cão lá de casa, não quis passar pelo trouxa que tinha sido.